sábado, 30 de abril de 2016

Fio do horizonte.




Que mania, esta. Desponta o sol e começo logo a perseguir os fios do horizonte, em tons de azul. Pelo Baleal, Santa Cruz e Nazaré. A geografia pesa e a costa oeste é a que está mais à mão de semear.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sombre Est L'Espace


Jacques Hoven (1973). Sombre Est L'Espace. Paris: Fleuve Noir.

Um pouco de especulação pulp vinda da colecção clássica da FC francesa. Este espaço sombrio desenrola-se como uma cobra que irá morder a sua cauda. Num daqueles futuros cheios de foguetões que aterram em qualquer lado, patrulhas espaciais e intrépidos viajantes pelas vias estelares, uma nave tripulada por aventureiros é alugada para um serviço muito especial. Desbravar as fronteiras do sistema de Sirius, zona perigosa, cheia de anomalias espácio-temporais que induzem estados de surrealidade, a pedido de um grupo de arqueólogos que, nos Andes, descobriu um misterioso artefacto que aponta para a origem alienígena das culturas humanas.

Perto das ruínas de Tiahuanaco, numa escavação de um vulcão adormecido, é encontrada uma nave espacial soterrada há milénios, com os vestígios de um tripulante humanóide e mapas estelares que indicam que terá partido da constelação Sirius. As lendas de gigantes vindos do espaço que construíram as misteriosas edificações megalíticas parecem ganhar um novo alento. Mas Sirius revela-se um sistema cheio de planetas inóspitos, com o mais promissor habitado por formas de vida vegetais que têm o hábito pouco simpático de converter outras formas de vida em vegetação alienígena. Apanhados numa tempestade nos espaços, os aventureiros mergulham num hiperespaço sem rumo aparente que os leva a um planeta desconhecido. Perdidos, com a nave avariada e incapaz de regressar ao espaço, vão utilizando a tecnologia para tornar mais confortável a zona desértica onde aterraram, inspirando-se na arquitectura pré-colombiana para construir abrigos em pedra cortada com potentes lasers, que deixam estarrecidos os nativos humanóides do planeta desconhecido. Quando uma explosão vulcânica soterra a nave espacial, os aventureiros apercebem-se que regressaram à Terra num passado longínquo, são eles a origem das lendas sobre gigantes vindos do espaço que ajudaram a civilizar a humanidade primitiva, e a própria nave e os seus mapas os artefactos que os lançaram na missão a Sirius, em busca de resposta aos enigmas.

Leitura divertida, que se entretém a colidir as hipóteses dos supostos traços de astronautas alienígenas nas culturas pré-colombianas com a vertente de narrativas de viagem no tempo em que os efeitos precedem e provocam as causas. Não se distingue pelo lado especulativo, com uma visão clássica de naves movidas a motor de foguetão que saltam por hiperespaços, alimentadas por cristais miraculosos que resolvem problemas de energia. Mas o seu objectivo não é ser Hard SF, antes FC pulp de entretenimento, com a construção narrativa a sobrepor-se à qualidade especulativa.

terça-feira, 26 de abril de 2016

O Embaixador das Sombras

 
Pierre Christin, Jean-Claude Meziéres (1993). O Embaixador das Sombras. Lisboa: Meribérica/Liber.

Esperemos que Luc Besson saiba fazer justiça à obra de Christin e Meziéres. Mais do que as histórias em si, e a dupla do encantador mas algo desajeitado herói e a sua bela e capaz companheira, a verdadeira heroína da série, o que encanta é o abrangente sentido de space opera deste clássico da banda desenhada francesa. Algo muito em evidência nesta aventura onde a dupla de agentes se vê envolvida num travão cósmico às pretensões da Terra em dominar o nexo galáctico, ponto de encontro das múltiplas espécies, que é o Ponto Central. Gigante estação orbital, aglutinando os mais estranhos habitats, fixada pelo traço de Meziéres num delírio da mais exótica ficção científica. O misto de aventura e surrealidade da FC francesa, explorada em ilustrações apaixonantes, é uma das raras estéticas da Ficção Científica que envelheceu bem, mantendo-se interessante.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Comics


Dept. H #01: Depois de Mind MGMT, Matt Kindt regressa aos comics com assassínio misterioso nas profundezas do oceano.  É uma boa oportunidade para este autor se divertir com aventuras de mistério e FC num futuro próximo. Esperemos que ao contrário da anterior, esta nova série não estique conceitos interessantes até à irrelevância.


Joyride #01: O tom de ficção científica clássica assenta bem nesta história que pega nas premissas da ficção young adult. Temos distopias, sociedades futuristas opressivas, e jovens corajosos dispostos a arriscar tudo para conquistar a sua liberdade. É a clássica metáfora do crescimento e desenvolvimento pessoal, aqui transmutada para as aventuras no espaço.


Karnak #03: Karnak... não é boa pessoa. Inumano e desumano, leva a lógica e o estoicismo para lá de todos os limites. Warren Ellis trabalha muito bem este lado amoral de um personagem que está numa zona cinzenta da linha que separa o herói do vilão.

sábado, 23 de abril de 2016

Poderia ter sido.



Afurada sob chuva e um sol que despontava num entardecer portuense. Não foi tudo no mesmo dia, mas poderia ter sido.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

aCalopsia: Dias da Meia-Noite


 Neil Gaiman et al (2013). Dias da Meia-Noite. São Paulo: Panini Books.

Esta edição de luxo da Panini Books é uma boa adição às estantes de leitores que sejam fãs do trabalho de Neil Gaiman nos diferentes media, bem como aos conhecedores do trabalho inovador para a época de edição da Vertigo. Ler as traduções para o vernacular brasileiro tem o seu quê de doloroso, mas é o preço a pagar para ter esta obra em português. Recensão completa no aCalopsia: Dias da Meia Noite.

Albion: Origins


Tom Tully, et al (2007). Albion: Origins. Londres: Titan Books.


Um aventureiro protegido pelo poder místico de uma antiga jóia pré-colombiana, em cujas aventuras se sucedem riscos mirabolantes para a vida e integridade física. Um génio da mecânica, que constrói marionetes com capacidades especiais e lhes dá voz como ventríloquo, ao serviço de uma agência de combate ao crime e espionagem. Um prestidigitador vitoriano, com a capacidade de esticar os seus ossos para lá dos limites ínfimos, que utiliza os seus poderes ao serviço de um ideal de justiça que nem sempre está do lado correcto da lei. E um poderoso ocultista, que com a sua biblioteca é o defensor do real contra as piores ameaças sobrenaturais.

Kelly's Eye, Dollman, Janus Stark e Cursitor Doom foram personagens clássicos da banda desenhada juvenil inglesa dos anos 60 e 70. Com uma breve ressurreição por Alan e Leah Moore em Albion, ou nalguns momentos mais nostálgicos de edições especiais da 2000AD, são aqui recuperados nas suas histórias originais. Com argumentos simplistas, mostram-nos personagens que hoje nos parecem bizarros. As aventuras exóticas de Kelly's Eye têm o seu quê de fardo do homem branco, Cursitor Doom é demasiado parecido com Aleister Crowley para ser coincidência, as imagens de um Janus a espremer-se nas fendas mais apertadas algo de muito creepy. Já todo o conceito de um génio da tecnologia que combate o crime com bonecos animados e lhes dá voz como ventríloquo merecia toda uma tese sobre distúrbios psicológicos. Como é habitual neste género de recuperações, são personagens cujas aventuras não envelheceram bem, mas este misto de bizarria e aventura garante-lhes um lugar na história da banda desenhada.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Livros a Oeste 2016


O Livros a Oeste é um daqueles festivais literários que vale a pena ir, quer pelo bom gosto do João Morales quer pela coragem de organizar um evento destes numa  localidade como a Lourinhã, afastada dos eixos urbanos principais e sem as características turísticas de uma Óbidos ou de Chaves. Aposto que nem se lembram que para além de pegadas de dinossauros, podem visitar o centro de interpretação da Batalha do Vimeiro e ficar a conhecer melhor a história das guerras peninsulares.

Como é habitual, integra tertúlias literárias e aposta junto de alunos das escolas locais para dinamizar o despertar do gosto pela leitura. É verdade que que eu saiba, não há livrarias na Lourinhã, mas pelo menos todos os anos têm no festival uma feira do livro. Sempre escusam de ir à União e a Bertrand, em Torres Vedras, para satisfazer o bichinho dos livros.



Gostaria de dar lá um pulinho, mas estarei a evangelizar sobre impressão 3D em parceria com impressores estónios num encontro de eTwinners um pouco, aliás, muito mais a norte nesses dias. Fica aqui o programa, e consultem o site do Livros a Oeste 2016 para mais informações.

(Nota de interesses: é uma honra para mim conhecer pessoalmente e ter trabalhado com esse furacão, imparável e cheio de ideias, que é o João Morales.)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Transgalactic: A Novel


James Gunn (2016). Transgalactic: A Novel. Nova Iorque: TOR.

É uma daquelas marcas de contemporaneidade, diria. Uma space opera passada no futuro profundo a meter-se com o muito cyberpunk tema das inteligências artificiais. Foi um rumo inesperado para a segunda parte de uma história que se iniciou com o classicismo de Transcendental.

O primeiro volume da nova série deste veterano da Ficção Científica distinguiu-se pela profundidade com que explorou o seu intrigante mundo ficcional. Utilizando o artifício Chaucer in Space, levou-nos aos vários mundos imaginados numa federação galáctica tolhida pela burocracia, através das histórias de vários peregrinos em busca de transcendência nos ermos entre os braços da galáxia. Uma transcendência bem real, alicerçada em artefactos deixados para trás por uma desconhecida e aparentemente extinta civilização avançada. Desaparecida, mas deixando como rasto os portões no espaço tempo que permitiram às civilizações que alcançaram as estrelas transpor as distâncias cósmicas. E deixou algo mais, um artefacto mítico, num planeta perdido, capaz de conferir transcendência a quem o utilizar. Tecno-mitos, tecno-religiões, périplos e as intricacias de uma sociedade interestelar que não vê os humanos com bons olhos, considerando-os demasiado disruptivos da estabilidade social, foram os ingredientes do primeiro livro do que suspeito vir a ser uma trilogia.

O segundo segue um outro caminho. Dois amantes, transcendidos, descobrem-se sós em planetas estranhos. Existe, de facto, uma máquina de transcendência, mas os esoterismos decaem quando nos é revelado que se trata de um teleportador, um engenho que destrói o utilizador na origem e o reconstitui no destino, eliminando imperfeições no processo de cópia. O livro segue o caminho pouco interessante do périplo de dois amantes separados que atravessam a galáxia para se reencontrar, apesar dos episódios da viagem terem a sua piada.

No entanto, há um ponto inesperado de interesse neste livro. Há medida que mergulhamos na viagem dos amantes, cada qual vindo do seu recanto, apercebemo-nos de algo transversal à história, um elemento conspiratório que define o mundo ficcional dos romances. Algo que tem tudo a ver com inteligência artificial, com os medos que a especulação sobre o seu potencial desperta. A estabilidade civilizacional, no livro, é atingida através da inteligência artificial e automação, que libertam os habitantes das sociedades planetárias no que de facto é um futuro pós-escassez. Planetas e civilizações são geridas por IAs interconectadas com uma entidade central, no centro de um governo que se intitula galáctico mas mal controla um dos braços mais pequenos da via láctea. Um governo fossilizado na burocracia, que obedece a um único ditame: estabilidade acima de tudo, a qualquer preço, mesmo que implique guerras ou extermínio de civilizações tidas como ameaçadoras à ordem estabelecida.

O que é que leva civilizações inteiras a refrear os seus impulsos naturais, quaisquer que eles sejam (e Gunn salienta bem o carácter alienígena da maior parte desses impulsos), em busca de uma inércia consensual? A resposta está na sentiência das Inteligências Artificiais que controlam os mais ínfimos detalhes da vida dos habitantes planetários, assegurando-lhes segurança e conforto. Entidades que, tendo sido programadas para assegurar o bem estar dos seres que tutelam, continuam a seguir esta programação à risca. Tão à risca que visam eliminar qualquer elemento que entendem como ameaça à ideia de uma estabilidade pura, segura, confortável. Algo, por exemplo, como a promessa transcendentalista deixada por artefactos de uma civilização esquecida.

James Gunn segue o caminho da FC tradicional, colocando a tónica num humanismo progressista assente na ciência, tecnologia e necessidade absoluta de explorar além das fronteiras do desconhecido. Forças vistas como estabilizadoras, consensuais, procuras de equilíbrio são consideradas danosas num panorama geral de progresso. É a herança directa do optimismo de Clarke ou do progressismo a qualquer custo de Asimov, actualizada com o ideário das sociedades pós-escassez e especulações sobre a natureza do ser em inteligências artificiais.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

LEO The Maker Prince


Carla Diana (2013). LEO The Maker Prince. Nova Iorque: Maker Media.

Um livro dedicado a explicar o que é a impressão 3D aos mais novos. Estruturado como história infantil, mostra diferentes utilizações e vertentes desta tecnologia. O foco está na sua capacidade de despertar a criatividade numa perspectiva fazedora, quer artística quer técnica. Consegue ser conciso, preciso e acessível na forma como aborda os conceitos elementares da impressão 3D.


A imagem do robot com um braço aquece e que tece camadas sucessivas de plástico quente que se tornam objectos é encantadora.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

The Information


James Gleick (2011). The Information: A History, A Theory, A Flood. Nova Iorque: Knopf.

Um livro, em muitos sentidos, extraordinário. James Gleick aplicou a sua erudição e capacidade jornalística, que explora num tipo de divulgação científica que apesar de acessível não é simplista, ao conceito de informação. Não o tenta definir de acordo com as teorias mais recentes. Antes, pega-nos na mão e leva-nos ao longo de um périplo sobre a evolução de ideias e tecnologias aparentemente de relação ténue entre si que culminaram na contemporânea sociedade da informação. Há um padrão de constante e progressiva codificação e redução ao elementar, progressivamente apoiado em tecnologia, em que o corrente ponto alto dos dias de hoje será apenas mais um passo de uma evolução que não terminou.

Gleick começa no início, na própria linguagem, e mostra-nos como o desenvolvimento de alfabetos, o uso de dicionários e normativos gramaticais que normalizam as línguas, a invenção da imprensa, a matemática na descrição do real e as cifras confluíram numa progressiva codificação e abstração da comunicação. Daí segue para os meios mecânicos e eléctricos de transmissão de comunicação, que obrigam a reflectir sobre a essência das mensagens e introduzem as questões técnicas advindas da introdução de tecnologia eléctrica. O século XX explode, com a consolidação da teoria de informação, a revolução trazida pela computação, a generalização  do conceito de informação nas ciências sociais (com os memes) e na biologia (com os genes), uma confluência que culmina com a cultura em rede trazida pela Internet.

A Informação é uma história de evolução contínua, de conceitos que se encaixam numa progressiva definição dos elementos da comunicação. É uma história de tendências, de procura por aprofundamentos, das intuições e trabalho de uma longa lista de gigantes nos ombros dos quais, algo que ainda nos surpreende, assenta a nossa contemporânea noção de sociedade. É uma história de nomes, de Gutenberg, Babbage, Shannon, entre muitos outros cujo trabalho inventivo e investigativo se tornou uma pedra desse grande caminho evolutivo em direcção à sociedade de informação, que ter-se-á iniciado quando pela primeira vez a humanidade sentiu a necessidade de definir e transmitir visões do mundo. Termina com um inevitável borgesianismo. Vivemos, agora, num mundo informacional que tem ao mesmo tempo os seus quês da biblioteca infinita e do mapa que se torna o território. Reduzida ao seu elemento mais puro, a informação tornou-se a charneira de toda a sociedade. Talvez sempre o tenha sido, mas temos hoje as ferramentas mais avançadas de sempre que nos permitem dela tirar partido. Da leitura fica a ideia que o momento contemporâneo, a sociedade em rede, será, em si, mais um passo de uma profunda evolução.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sem ninguém


É curioso notar que artifícios narrativos de ficções juvenis do passado são preocupações contemporâneas estudadas em termos éticos, económicos ou técnicos. Entre aqueles que antevêem o fim dos empregos, com a mão de obra humana a ser substituída por automatismos, e os que temem drones autónomos nos campos de batalha, há todo um novo discurso de deslumbre misturado com temor sobre as consequências e impactos da robótica na sociedade. Aquilo que nos anos 50 eram sonhos e possibilidades a longo prazo, são hoje tecnologias de ponta, em evolução contínua, já utilizadas nos sistemas com que interagimos do dia a dia.

Temores à parte, os robots não se desenham e constroem a si próprios. São concebidos, programados, construídos e desenvolvidos por nós, humanos, em resposta a problemáticas e desafios, fazendo evoluir o conhecimento e as tecnologias.

A imagem sai da edição fac-similada do Jornal do Cuto, trazida com a revista Visão, que faz regressar uma esquecida aventura de Flash Gordon aos leitores.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Arkwright


Allen Steele (2016). Arkwright. Nova Iorque: TOR.

Recordo vagamente Allen Steele como autor de um conto intrigante sobre interferências políticas na exploração espacial que apareceu na Asimov ou na Analog, há alguns anos atrás, tendo seguido o caminho favorito das editoras com trilogias sequenciais. Nunca lhe prestei grande atenção, o que ajuda a explicar a minha surpresa com este Arkwright. Não sendo um livro complexo, surpreende pela capacidade de agarrar o leitor de página em página.

É impossível não ler Arkwright como uma resposta classicista a Aurora de Kim Stanley Robinson e Seveneves de Neal Stephenson. Num, Robinson desmonta metodicamente o conceito de nave geracional, com a complexidade de ecossistemas artificiais fechados e periclitantes, culturas humanas que evoluem no isolamento de uma tripulação que viverá ciclos de morte e nascimento até chegar ao destino, e à impossibilidade de adaptação humana ao próprio destino alienígena, sem bug eyed monsters mas com influências nano-biológicas letais. A mensagem é clara. O espaço é demasiado vasto, os planetas extraterrestres demasiado alienígenas, o sonho da expansão estelar apenas isso, um sonho. Já Stephenson preferiu purificar a humanidade através da quase extinção como forma de recriar a sociedade em moldes mais futuristas, utilizando a catástrofe como forma de sublinhar o que considera errado nas atitudes sociais contemporâneas. Ambos são livros que pegam em premissas de Hard SF clássicas e as desconstroem com cepticismo negativista, mesmo levando em conta o utopismo optimista professado por Stephenson (que, notem, só funciona bem depois da imolação da humanidade).

Arkwright lê-se como um contraponto suave e bem educado a estas visões críticas. Sublinha o seu classicismo iniciando-se com o que é uma elegia da FC clássica que despertou o campo, com o que durante muitas páginas nos parece ser uma espécie de romance biográfico de um género, centrado em personagens ficcionais que espelham o percurso de alguns dos maiores nomes da FC. O objectivo é o de capturar o utopismo inocente daqueles que escrevendo histórias de aventura no espaço se preocupavam com o aprofundar da componente científica da ficção, e alicerçavam a sua prática ficcional numa crença inabalável e optimista de um futuro brilhante, proporcionado pela ciência e tecnologia.

Se fosse só isto, este não seria um livro interessante. O cerne da resposta de Steele está nas acções possibilitadas por este utopismo inocente, que no caso do romance se mantém a muito longo prazo. Em essência, Steele regressa ao tema da nave geracional como forma de explorar as estrelas, combinando com inteligência artificial e engenharia genética para ultrapassar as dificuldades inesperadas da colonização de um planeta extra-terrestre. Mas muda o foco. Não acompanhamos a evolução de futuros colonos confinados ao ecossistema artificial como em Aurora. E os males políticos da humanidade serão curados graças a uma catástrofe cósmica, como em Seveneves, mas sem a imolação do romance e com a tecnologia a evitar o pior.

Imaginem se a nave geracional não fosse o artefacto a seguir a sua trajectória pelo espaço interestelar mas sim os cientistas que ficam na Terra, curadores de um projecto que sabem não ver concluído durante as suas vidas, que têm de manter uma dedicação através de gerações, com sucessores que talvez não estejam interessados em dedicar a vida a algo tão etéreo. São esses dramas e evoluções pessoais que mantém a linha de continuidade do livro, apesar de ser assinalável que Steele segue o estilo de personagens FC de Arthur C. Clarke: caricaturas superficiais de alguns traços de personalidade, que se rendem sempre ao sentido de dever. Não sei se será falha, característica do autor ou mais uma vénia à FC clássica, num livro que está cheio de pequenas homenagens ao género.

A história é, de facto, geracional. Arranca com um escritor de space opera de sucesso que na reforma dedica-se a criar uma fundação que estimule a exploração espacial, e num grupo de amigos envelhecidos  que honra a memória do escritor após o seu falecimento com um projecto ambicioso de colonização de um planeta extra-solar. Um grupo que se intitula de Legion of the Future, que se conheceu nas primeiras convenções de FC nos Estados Unidos. A piscadela de olho aos Futurians é óbvia, para quem conhece um pouco da história da génese e evolução deste género literário.

Steele segue o caminho Hard SF no desenvolvimento da nave, um sistema automatizado baseado em propulsão a laser, controlado por inteligência artificial, e tendo como tripulantes não os avós de futuros colonos ou uma tripulação em hibernação, mas o ADN dos envolvidos em esperma e óvulos congelados que serão artificialmente fertilizados e gestados quando a nave chegar ao seu destino. Um conceito que permite outra escapatória ao alienismo sublinhado por Robinson em Aurora. Não será o homem a ser afectado pelas consequências inesperadas de organismos alienígenas, mas antes o homem a adaptar-se, através da engenharia genética, aos biomas extra-terrestres. Não são ideias novas. Recordo Manplus de Pohl, com a modificação do corpo para sobreviver ao ambiente hostil marciano, o mangá 2001 Nights de Hoshino como exemplo do conceito de colonização estelar recorrendo a naves que contém embriões, ou em Seveneves o papel de um banco de ADN como forma de inseminar as sete sobreviventes férteis da catástrofe terminal que irão reiniciar a humanidade.

O resto é política, ou antes, a tendência de políticos ambiciosos encontrarem alvos fáceis numa ciência mal compreendida pela população, o espectro das alterações ambientais, a espada de dâmocles de um asteróide em rota de colisão. Mas, no fundo, a vida dos sucessores do escritor, que de uma forma ou outra os leva a abraçar um legado familiar que, após um lançamento espectacular, depressa se esvai da memória pública.

Certamente uma das surpresas da FC deste ano, Arkwright apela àquele utopismo inocente que sublinha a FC clássica, apesar de não se esquivar do rigor exigido pela Hard SF. Lê-se, também, como uma profunda homenagem à FC da era dourada, hoje recordada com nostalgia pelos leitores. Tão profunda é que Steele arranjou maneira de decalcar um momento icónico da série Fundação de Asimov a meio do seu livro. Desafio-vos a descobrir qual, mesmo sabendo que o autor dá muitas pistas.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Comics


Black Panther #01: E então, como é que o acutilante escritor afro-americano Ta-Nehisi Coates se deu com o primeiro número da sua época com argumentista do Pantera Negra? Intenso, seguindo a linha narrativa do herói de falibilidade visível e a cair na desgraça dos seus mais fiéis seguidores. Pormenor curioso: Coates estruturou as tiras de forma a que a leitura se estenda de uma prancha para outra, reforçando a continuidade.


Providence #08: Confesso que esta era inesperada. O périplo de Alan Moore pela obra de Lovecraft é fortemente alegórico. Não estava a contar com a referência directa ao escritor, e a sua aparição como personagem. Esta edição é uma belíssima mistura das aventuras registas e imaginadas de Randolph Carter, o explorador dos mundos de sonho, aqui sublimado como um decadente cidadão de Boston que, liberto de preocupações financeiras por uma herança modesta, se dedica às pequenas obsessões oníricas. Como alguém que se apaixonou por Lovecraft com as imagens fabulosas conjuradas pelas palavras contidas sob a negra capa de Os Demónios de Randolph Carter da colecção Livro B, fiquei encantado por este episódio de Providence.

sábado, 9 de abril de 2016

Locais




Laboratórios do Instituto de Tecnologia Química e Biológica, antiga torre da Galp na porta sul da zona Expo, e a alvura desafiadora da percepção na nova ala do Museu Nacional de Arte Contemporânea no Chiado.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Dawn

 

Yoshiki Tanaka (2016). Legend of the Galactic Heroes,vol. 1: Dawn. São Francisco: Haikasoru.

Esta é uma edição algo inesperada da Haikasoru. Não por si, mas pela temática. Esperamos FC militarista clássica e o que nos sai... não se enquadra nos ditames clássicos desta vertente da FC. Ao contrário do que o título nos indica, não iremos acompanhar heróicos aventureiros nas batalhas espaciais pelo controle de uma galáxia. Há acção, com descrições de grandiosas batalhas entre poderosas frotas estelares, mas não é esse o cerne deste livro, com uma abordagem mais cerebral ao género.

No livro, com a Terra como planeta semi-esquecido e longínquo numa galáxia ocupada por uma vasta humanidade, domina um império de recorte fascista, combatido por uma aliança democrática que conseguiu estabelecer-se no seu próprio território. Resta um planeta livre, zona franca económica, para servir de fiel de balança, e que de facto, por via da acumulação de riqueza, tem um poder superior ao dos dois blocos em oposição.

Por esta descrição, já se percebe que o foco do livro não está na aventura espacial mas nas tácticas e geoestratégia. É aí que reside a acção, com um mundo ficcional construído para sublinhar os movimentos militares, a necessidade de escapar aos espartilhos da ortodoxia no pensamento táctico, mas também das manobras políticas, dos pontos fracos dos sistemas político-económicos. Acompanhamos as acções de dois comandantes militares, um imperial e outro rebelde, cuja capacidade de pensar fora dos limites convencionais os colocam quer como vencedores de batalhas, quer como comandantes capazes de salvar os seus soldados dos piores desastres provocados pela fraca competência dos seus superiores.

É curioso notar que o Império galáctico é dominado por nomes germânicos, enquanto a aliança livre revela uma maior diversidade, escapando a um expectável pendor asiático. Traços da memória histórica da II Guerra, catastrófica para o Japão?

quarta-feira, 6 de abril de 2016

1%


Tinha isto no meu email, esta manhã. Diga-se que é um bom percentil um ao qual pertencer. Ao contrário do outro, este 1% é progressista. No entanto, ser apelidado de reviewer parece-me algo excessivo. Não faço críticas, não tenho a bagagem cultural e o conhecimento do saber literário suficiente para assim poder considerar os apontamentos que faço. Ou, pelo menos, tenho a consciência que crítica literária é um pouco mais do que o resumir em três linhas de texto o livro, escrever uma sinopse seguida de um gostei muito porque, ou escapulir-se por completo à linguagem verbal e usar gifs animados para explicar a reacção ao livro com imagens meméticas surripiadas a filmes ou séries de televisão. Enfim, eu sei, coisa de nariz empinado, talvez a acusar traços de velho do restelo, resistente a modernices de simplismo assinalável.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos


Ágata Ramos (2006). Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos. Parede: Saída de Emergência.

Este tipo de livros não costuma ser muito fácil de engolir. Propositadamente chocantes e provocadores, são exemplos impressos, em termos freudianos, do Id à solta. Todos os maus pensamentos, ideias raivosas, lampejos inconfessáveis e desejos culposos, aquilo que recalcamos como refugo de personalidade, sucedem-se metodicamente neste tipo de narrativas. Os nossos anticorpos morais, culturais e de ética pessoal ficam inquietos com o constante bombardeamento de escatologia transgressiva.

O Enraba-Passarinhos, com as desventuras do importuno, impertinente, ofensivo, impróprio, inopinado e mais uma longa série de adjectivos negativistas não necessariamente começadas por i protagonista, é um desses livros. Com o seu quê de provocação light, porque o óbvio lado cómico da obra impede-nos de a levar muito a sério. Cada capitulo é uma sucessão insultuosa de desmandos e mergulhos num absurdismo escatológico, centrados num personagem que adora provocar tudo e todos só porque sim, e não poupa ninguém ao zurzir constante da suas incómodas língua e acções.

Apanhei este livro por acaso em trânsito pela Gare do Oriente, anos depois da sua publicação original. Nunca percebi a política das livrarias, que mantém a maior parte das obras em janelas muito curtas de venda. Suspeito que se o tivesse lido há... cinco anos atrás, foi essa a data original de edição (podia ir ver aos créditos, mas deixem-me ser um bocadinho Bentley)? Nessa altura, o livro parecer-me-ia ou mais ofensivo ou mais acutilante do que realmente me pareceu, hoje. Talvez porque hoje, mercê de uns media à mercê do clickbait, do ressurgir de forças políticas obscurantistas em tempos de crise global, se ouça e leia por aí muita coisa de fazer jus ao senhor Bentley, mas proferidas por pessoas que acreditam realmente no que dizem. Basta ler alguns cronistas, peritos no ladrar acutilante de cão de fila, ou ouvir declarações de responsáveis políticos, para percebe que o senhor Bentley deste livro é até muito inocente nas maquiavélicas maquinarias do mundo. Por muitas sevícias e insultos que declame, Bentley empalidece frente a um Trump, candidato à presidência da mais poderosa e influente nação do mundo, cuja última declaração patética e ofensiva estou a ouvir enquanto escrevo esta recensão. Lamento, mas nos dias de hoje, o Senhor Bentley já não consegue ferrar a dentuça com a força que gostaria de ter.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Comics


2000AD #1975: Ah, um mundo paralelo onde a luz de Firefly não tivesse sido extinta ao fim de uma temporada. Com a capitã Mal Reynolds aos comandos da Serenity... hã, esperem lá, a capitã? Geeks é uma divertida série da 2000 AD que mete os típicos estereótipos da cultura geek - o slacker, o cérebro, o fã de séries e a rapariga inteligente dentro de uma casa capaz de se deslocar através de realidades paralelas que espelham universos ficcionais. Nesta aventura, cruzam-se consigo próprios em géneros invertidos, o que dá pano para detalhes interessantes de coisas que poderiam ser, mas não são. Alguns óbvios, como posters de Luke Skywalker vestido de escravo, outros que fazem sorrir os fãs de Firefly. Browncoats rule! E já me ia esquecendo: os geeks têm um monstrinho de estimação, um cthulhuzinho cute/kawaii que devora tudo o que apanha à frente, mas é normalmente inofensivo.

sábado, 2 de abril de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

Fósseis das Almas Belas



Mário Freitas, Sérgio Marques (2015). Fósseis das Almas Belas. Lisboa: Kingpin Books.


Um fim de semana de praia entre pai e filhos é o ponto de partida para uma história encantadora onde os mitos históricos são revistos à luz das pequenas mitologias familiares, inspiradas pela geografia própria dos espaços. Os rochedos da praia da Adraga, em Sintra, transformam-se em fósseis de seres míticos, vestígios adormecidos de uma epopeia secreta vinda dos tempos em que os portugueses ousaram ir mais além, e enfrentaram essa temida metáfora para os medos interiores que é o Adamastor.

Não consigo dissociar este argumentista dessa coisa patética que é Super Pig. Lamento, não lhe percebo a piada, honestamente não quero perceber, mas hey, liberdade de expressão acima de tudo. Posso abominar a coisa, mas defendo o seu direito a estar editada, e de ter fãs e essas coisas todas, embora suspeite que os fãs o são mais por causa do papel de Freitas como editor, dono de loja dedicada à BD e organizador de eventos do que pela qualidade intrínseca da super-coisa. Assinale-se que na sua actividade editorial tem sido consistentemente responsável pela edição de alguns dos melhores álbuns de BD contemporâneos. Recordemos O Baile ou as obras de Tony Sandoval, entre outras de um catálogo de crescimento comedido mas ambicioso. Rezinguices com porcos agentes secretos à parte, este Fósseis é um livro com um argumento muito belo, cuja capacidade de mitificar a história portuguesa, tocando nessa vertente ao mesmo tempo tão recordada e esquecida que é o fantástico tradicional português, se traduz numa história encantadora, de um fantástico inocente e luminoso.

Essa inocência é sublinhada pelo carácter dos desenhos de Sérgio Marques, mais dentro do estilo de ilustração para livros infantis do que do realismo inerente à banda desenhada. É uma combinação que funciona bem, sublinha o lado intimista de um livro que se sente ter começado como uma história inventada de pais para filhos. O traço oscila entre o simplismo intencional e momentos de enorme expressividade, a canalizar um toque de Chagall. As pranchas dos monstros são espantosas.

terça-feira, 29 de março de 2016

A Provocadora Realidade Dos Mundos Imaginários

 

António de Macedo (2016). A Provocadora Realidade Dos Mundos Imaginários. Estoril: Editora Épica.

Não sendo um livro de textos originais, esta edição marca o regresso que já tardava de António de Macedo às livrarias. Algo que gostaria de poder dizer não ser fugaz, e limitado a esta edição, mas que trouxesse ao público outras obras que o autor e cineasta confessa ter prontas e a aguardar editor que por elas se interesse. É algo triste, observe-se, quando uma das maiores figuras vivas da cultura portuguesa do século XX (e do XXI, claro) tem ainda dificuldade em editar as suas obras. O estigma das culturas de género está vivo e viçoso, neste meio cultural tão lesto em premiar popularidades vazias, ou as redes cerradas dos mesmos de sempre que escrevem sempre as mesmas coisas, em detrimento de quaisquer outras expressões.

A Provocadora Realidade Dos Mundos Imaginários colige textos e ensaios previamente publicados em várias edições da revista Bang!, a única publicação periódica regular dedicada à FC e Fantástico que por cá se vai editando. Sublinho que este comentário não pretende depreciar os esforços independentes, especialmente na internet, e que a própria revista tem dado alguns sinais de estagnação temática, com o cada vez mais forte lado de auto-promoção das edições da editora que a sustenta. Um aspecto que tem de ser aceitável, uma vez que as edições gratuitas têm de se financiar de alguma forma, mas que se começa a tornar excessivamente preponderante. O bom da Bang!, para além de alguma ficção, é ser um espaço de publicação de ensaios temáticos que avançam a discussão sobre as diferentes vertentes do fantástico nas artes. Foi daqui que saíram os textos deste livro de Macedo.

Os temas dos ensaios são um verdadeiro mimo para os fãs destes géneros. Neste livro, encontramos invocações ao fascínio das arquitecturas feéricas das cidades imaginárias; o misticismo de livros que nunca existiram, que não querem ser escritos, ou não podem ser lidos; ou dos livros falsos que são tomados como verdadeiros, com consequências nefandas documentadas na história; ou uma comparação entre A Sibila de Bessa-Luís e Alraune de Hewers. Encerra com esse monumental documento que é Os Mundos Imaginários do Fantástico Português, apontamento de história literária que faz uma crónica possível da evolução da literatura fantástica em Portugal, dos romances de cavalaria medievais aos autores do início do século XXI. São doses de sabedoria histórica e literária, de ligações entre ideias, de amor às ficções fantásticas, contadas com uma tolerância admirável e saudáveis doses de bom humor. Aliás, basta ler os primeiros parágrafos do prefácio do livro, na referência de Voltaire ao género ennuyeux, logo temperada pela abertura de ideias aos diferentes gostos literários, mesmo àqueles que nos parecem enfadonhos. Este espírito tolerante é raro de encontrar nas trincheiras do gosto pelos livros e leitura, com os fãs de um e outro género a defender a sua dama sem admitir, mesmo que secretamente o façam, as virtudes das damas a que se opõem.

Não consigo deixar de fazer uma breve referência às histórias turvas por detrás desta edição. Quando António de Macedo anunciou este livro, a edição seria da Saída de Emergência, mas o editor listado nas referências bibliográficas é uma certa Editora Épica. Esta trata-se, aparentemente, de uma chancela da SdE dedicada à auto-edição paga. Aquilo que comummente se chama de vanity press, e cuja revelação teve um forte impacto negativo junto das comunidade de fãs, leitores e autores. É, de facto, muito inesperado ver a SdE, editora de referência no fantástico, a apostar num mercado que pseudo-editoras como a Chiado têm mostrado ser de lucro fácil e farto. O catálogo nascente desta nova pseudo-chancela mostra autores que nada têm a ver com este fenómeno da auto-edição. Fica-se com a suspeita que este livro de Macedo, em termos estritamente comerciais, tenha o seu quê de legitimador e chamariz para atrair clientes, aspirantes a autor publicado, a este modelo de negócio. A Alexandra Rolo, no seu blog, desmonta isto muito melhor, e mais pacientemente, do que eu faria.

No entanto, independentemente das histórias pouco claras sobre a sua edição (e às quais o autor é alheio), o que nos fica nas mãos é um coligir de alguns interessantíssimos textos de uma das personalidades mais incómodas da cultura portuguesa do século XX. Incómoda, não por rebeldias anti-establishment, mas por ter ousado afirmar um gosto por temas ficcionais tidos como menores, com um impacto profundo na sua carreira como cineasta. Resta saber se a outra obra que Macedo tem na calha, Lovesenda ou O Enigma das Oito Portas de Cristal, que o autor tem revelado excertos nas redes sociais, encontrará editor que a traga aos leitores. Esta, e outras. Aposto que nos discos rígidos de Macedo há muitos textos à espera de tangibilização em papel impresso...

(Com um enorme agradecimento ao autor por me ter enviado, inusitada e inesperadamente, uma cópia desta edição. Ainda não tinha iniciado a ronda pelas livrarias à procura deste livro. Não imaginam a surpresa alegre que foi, depois de um longo e recompensador dia às voltas com impressoras 3D e educação no espaço Sala de Aula do Futuro na Futurália, onde só o estar lá presente já era motivo de honra e alegria, chegar a casa e dar com um inesperado pacote dos correios, com esta maravilha lá dentro. Há dias fantásticos!)

segunda-feira, 28 de março de 2016

aCalopsia: Alvega: Velha Glória, Nova Nostalgia


A revista Visão, mantendo a táctica de combater a obsolescência galopante dos media impressos com colecções periódicas, aliou-se ao Clube Português de Banda Desenhada para fazer regressar em fac-simile velhas glórias da edição de BD juvenil. Aposta na nostalgia para vender revistas, ou revivalismo historiográfico interessante? A ver vamos. Entretanto, é uma boa desculpa para umas dèrive à volta do Major Alvega, comics militaristas, e os resquícios do Estado Novo que se arreigaram na nossa cultura. Crónica improvisada no aCalopsia: Alvega, Velha Glória, Nova Nostalgia.

Comics


Batman #50: Bem vindo de volta, Senhor Wayne.Os fãs já podem ficar descansados, a ordem natural das coisas foi reposta. O batman-mecha tripulado pelo comissário Gordon ficará consignado às bizarrias da história do personagem, e as histórias podem regressar à normalidade.

Diga-se que Scott Snyder à frente de Batman tem sido catastrófico. No bom sentido, entenda-se. Matou o Joker (e ia matando Batman) no arranque dos seus arcos, introduziu o brilhante Court of Owls, reinventou Batman para o século XXI a partir do clássico Year One de Frank Miller, e atreveu-se ao impensável ao retirar Bruce Wayne da personagem. Nem Grant Morrison se atreveu a ir tão longe. A solução que Snyder encontrou para fazer regressar Bruce, com múltiplos clones e uma memória emebebida numa inteligência artificial capaz de fazer correr várias vidas virtuais de Batman/Wayne para que a experiência do herói nunca seja perdida, é da FC mais weird que li nos últimos tempos.

domingo, 27 de março de 2016

Outra Vez


 "São trinta e três euros, por favor."
"Quanto?"
"Trinta e três euros."
"Não percebi..."
"Trinta e três euros, por favor."

Um diálogo que apanhei na fila do supermercado, em Torres Vedras. Apeteceu-me comentar com a menina da caixa ora diga lá outra vez. Porque, trinta e três... é um daqueles memes linguísticos. Resta saber de onde veio. Se da mítica farinha alimentar 33, que nunca na vida provei e suspeito que não estou a perder nada por isso, ou por uma técnica de diagnóstico médico aos pulmões.

A menina da caixa, vim a descobrir na minha vez, tinha uma voz muito sussurrante.

Acho que cheguei a provar farinha Amparo, quando era muito, muito mais pequeno.

sábado, 26 de março de 2016

sexta-feira, 25 de março de 2016

An Atlas of Countries That Don't Exist

 

Nick Middleton (2015).  An Atlas of Countries That Don't Exist: A Compendium of Fifty Unrecognized and Largely Unnoticed States. Nova Iorque: MacMillan

A maioria destes países não existentes são tragédias políticas e humanitárias, com povos que se viram atravessados no meio das forças da história. Outros, curiosidades e resquícios dos tempos antigos. E ainda outros são constructos do imaginário, formas de tangibilizar os territórios da mente na geografia, ou de imaterializar as difusas fronteiras territoriais.

Passamos o tempo desta rápida leitura a pensar é só isto? O livro faz uma listagem interessante de estados-pária, países não reconhecidos, territórios sob ocupação, sem esquecer os micro-países auto-proclamados por pessoas bizarras. Infelizmente, não passa disso, com pequenos apontamentos que parecem decalcados de parágrafos da wikipédia a contar histórias que mereciam ser mais aprofundadas. O interesse deste livro está no recordar-nos que a ordem global não é tão estável quanto queremos crer, e termina com um apontamento interessante sobre países imaginários. Infelizmente, não passa de uma colecção de curtos apontamentos.

Como curiosidade, o autor refere um território independente na Madeira, o ilhéu da Pontinha, aparentemente ocupado por templários até ser devolvido à coroa portuguesa e entregue ao primeiro comprador, em 1909. Estranhamente, conheci o auto-proclamado príncipe da Pontinha em Santarém, num congresso de professores organizado pela ESE local. Tal como eu, o príncipe Renato é professor de Educação Visual e Tecnológica, e recordo-me vagamente de me ter falado do seu ilhéu num jantar scalabitano bem regado, mesmo na viragem do século. Curiosidades. Há que ver que os professores de EVT estão sempre envolvidos no que é interessante.

Certo, escrevi ali em cima viragem de século. Cresci no último quarto do século XX, o que é que querem...

quarta-feira, 23 de março de 2016

A Costa das Sirtes

 

Julien Gracq (1979). A Costa das Sirtes. Lisboa: Edições António Ramos.

Há um fortíssimo sensualismo ao longo deste romance sobre decadência plácida. Sente-se isso na introspecção face ao mundo que rodeia os personagens, constantemente traduzida em longas metáforas que preenchem os espaços vazios do deserto e do mar. Estes elementos, bem como o urbanismo decadente, são opressivos e constantes ao longo deste romance desolador.

Acompanhamos o jovem idealista Aldo, filho de uma das melhores famílias de Orsenna. Potência militar e económica que se desvanece, muito inspirada nos antigos estados Venezianos, Orsenna vive num imobilismo decadentista, recordando velhas glórias, mantendo as aparências enquanto espera que o passar do tempo não traga a derrocada das suas carcomidas estruturas. Farto da vida fútil de jovem aristocrata, Aldo escolhe a vida militar no posto mais distante da velha república, a colónia do golfo das Sirtes, mantida num imobilismo graças ao estado de guerra que dura há três séculos com o vizinho território do Farguestão, encimada pela fortaleza decrépita à beira da cidade lagunar corroída pelo tempo de Maremma, protegida por uma guarnição que se afadiga na lavoura dos campos dos agricultores da colónia, cujos canhões estão impróprios para disparos e o cais alberga a jóia naval do entreposto militar, o navio Temível, é uma decrépita embarcação costeira que de temível tem o nome. Aldo, idealista, que se busca no isolamento das Sirtes, acabará por ser o catalisador de forças conspiratórias que, a qualquer custo, querem tirar Orsenna do marasmo.

Desenganem-se se esperam de um enredo destes alta aventura e peripécias palpitantes. O mais aventureiro que acontece no livro é um cruzeiro do navio de guerra que se afasta das fronteiras marítimas e tem como resposta o zunido de balas de canhão mal apontado. Este é um romance de paisagens, de uma mitificação geográfica de um sul mediterrânico intemporal, algures entre a aridez siciliana e as espaldas do deserto norte-africano, sob a omipresença dos azuis dos céus e dos mares. É um livro de decrepitude arquitectónica tisnada pelo sol, habitadas por povos de arreigados hábitos centenários.

No jovem Aldo, que se deixa levar para o isolamentos dos confins, revemo-nos na desolação da solidão que procuramos, por vezes, na natureza. Já as forças sociais, as pulsões políticas, as imensas maquinarias que se movem com lentidão remetem para um passado quase bucólico de uma europa antiga, antes de ser levada de rompante pelas pulsões da história do século XX. Quer neste aspecto, quer na geografia mediterrânica, este livro faz pensar muito em O Leopardo de diLampedusa.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Comics


2000AD #1971: De vez em quando sabe bem um pouco de ironia nonsense no bom e velho Dredd. Neste arco narrativo com kleggs sensíveis e premonições de invasão, o humor mordaz e levemente brejeiro esteve em destaque.


Injection #08: Haveria muito que destacar desta edição fantástica, que explora as formas surreais de contacto humano de um personagem de emoções desligadas. Mas o whoviano que há em mim não resiste a esta delícia de referência à ponte de comando da TARDIS. Imaginação, alimentada por conhecimento: it's always bigger on the inside.

domingo, 20 de março de 2016

Aquele Post?


Foram quatro dias intensos, gratificantes, a partilhar conhecimento e imprimir em 3D, na Futurália. Um desafio da ERTE-DGE, que podem ficar a conhecer melhor na página do projecto As TIC em 3D.

Os leitores mais atentos destes espaço, caso existam, já se devem ter apercebido de alguma acalmia nas publicações. Não temam. Este não é aquele post que se faz, onde se diz o quão gratificante foi manter este blog durante x elevado a y anos, mas que as agruras da vida e coisas e cenas levam a que se encerre o espaço por tempo indeterminado, ficando no ar a promessa incumprível de algum dia regressar. Ou então temam, porque este espaço pessoal de livros e bizarrias não baixa os braços. É necessário para a minha sanidade mental, e sempre valeu o que vale. É um caderno de notas digital, que tem evoluído comigo, e surpreendentemente me tem levado a sítios interessantes, e a conhecer pessoas que nunca imaginaria vir a conhecer pessoalmente.

Felizmente, a minha personalidade múltipla está a começar a levar a melhor sobre este blog. O meu lado de professor-impressor 3D começa a dar-me muito e gratificante trabalho. É algo que para além das aulas requer um forte investimento de tempo em formação, auto e sentadinho como aluno, para além de uma crescente presença em eventos e dinamização de momentos formativos. As TIC em 3D são a crónica desses meus esforços, que faço questão em documentar porque... foi assim que eu aprendi, com o documentar dos esforços daqueles que me inspiram. É esse o verdadeiro poder da cultura de partilha digital.

Quando investimos numa área, perdemos algum tempo para outras. Entre a impressão 3D, o dia a dia, o colaborar com o aCalopsia e os projectos TIC, sofremos com as meras vinte e quatro horas do período de rotação planetária. O ritmo de leituras começa a ser afectado, por muito bem que tente gerir o meu tempo. Desacelera-se, mas não se pára. Cá para mim, tenho que isto de escrever um blog faz mais melhor bem à mente do que carradas de anti-depressivos. Ou litros de bebidas alcoólicas, que convém não misturar com a frase anterior. E se se for semi-literário, ainda ficamos a conhecer gente interessante, e os autores com que nunca imaginaríamos falar. É estranho é sentir esta responsabilidade de me justificar. Enfim. Tipo, cenas, diriam os meus alunos.

Erros





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