terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Ficções

The Water That Falls On You From Nowhere: A difícil e corajosa afirmação da identidade sexual, complicada pela pesada teia de tradições asiáticas, é o tema desta história onde um jovem engenheiro biotecnológico sino-americano ganha coragem para apresentar o seu noivo a uma família que o vê como produtor de bebés para assegurar a tradicional continuidade do nome e do sangue. John Chu intriga ao colocar sobre os membros mais novos uma tremenda carga homofóbica enquanto os mais velhos apenas aceitam e sugerem que na biotecnologia está a solução para a continuidade famililar. O lado fantástico deste conto é dado por cargas de água gelada vindas de nenhures que encharcam no acto quem disser falsidades, por mais que as dilua em metáfora. Escrito numa prosa elegante, concisa e fortemente estilizada, este foi o conto vencedor na respectiva categoria dos prémios Hugo deste ano. E, depois de o ler, há que perguntar porquê. Bom conto, pertinente e bem escrito, mas os elementos de fantástico estão diluidos na temática. É mais slipstream do que fantasia e certamente que não é ficção científica. E o slipstream presente é muito ténue. Uma obra destas estaria mais confortável a criar ondas num festival literário mais mainstream do que os Hugos, tradicional bastião do fantástico e FC. O porquê da vitória tem certamente a ver com o desconforto sentido nas temáticas de género dentro da FC e fantasia. Note-se que esta vertente também é sentida em Ancillary Justice, que ganhou o prémio de melhor romance, se bem que as questões de género são apenas um aspecto de um livro que é um portento de space opera. A ficção de género é regularmente acusada de insensibilidade, machismo ou redutora no que toca à sexualidade, e boa parte é-o, mas não toda. Compreende-se que a comunidade queira valorizar ficção progressiva que queira ir mais além nestas questões. Só que, e aqui eu talvez esteja a ver as coisas numa perspectiva old school, os Hugos premeiam ficção científica. Apesar da qualidade literária, este conto tem pouco ou nada de elementos deste género literário. Certo, FC não é só tecno-utopias, cyber-narrativas ou hard SF e space opera, mas ao sobrepor a necessidade imperiosa se se mostrar progressista e aberta às suas raízes não se estará a desvirtuar? Note-se que com isto não estou a entrar em acordo com as parvoíces dos ranzinzas ultra-liberais ao estilo Vox Day que trollaram as nomeações dos Hugo deste ano. Estou apenas a reflectir que a vontade de agradar aos sectores progressistas traz consigo o risco de afastamento do que torna os Hugo os prémios de excelência na FC. Éticas e ideologias à parte, a ideia é que o galardão mostre o que de melhor se faz naquilo que é a FC, e este conto de John Chu não é fc ou fantasia, ficando-se por um erudito mas ténue fantástico. Daí não vem mal ao mundo, as fronteiras literárias estanques só interessam aos aguerridos defensores das suas quintinhas. E John Chu, como vão perceber mais à frente neste post, tem a capacidade de criar excelentes visões de FC numa prosa rigorosa e sóbria que, a meu ver, o torna herdeiro de J. G. Ballard pela frieza narrativa e de Ted Chiang pela espectacularidade discreta das suas ideias.

Unlocked: An Oral History of Haden's Syndrome: Serializado na Analog, Lock In é o novo romance sobre uma pandemia de Jonh Scalzi que, por coincidência macabra, está a ser editado no momento em que um surto viral de ébola assusta o mundo. No romance de Scalzi um vírus a princípio semelhante ao da gripe causa uma epidemia à escala global. Alguns dos infectados sobrevivem, outros não, e outros desenvolvem uma condição em que estão vivos e conscientes, mas incapazes de controlar o corpo. Não há cura, mas  combinação de redes neuronais implantadas no cérebro das vítimas com andróides controlados pela mente permite aos paralisados recuperar a vida. Scalzi traça neste conto um resumo, no estilo de história oral, contando através de depoimentos de testemunhas os primeiros sustos com a pandemia, o esforço investigativo para desenvolver curas, as descobertas das redes neuronais e próteses robóticas, as consequências sociais da nova classe de robots tele-operados, e os desejos de virtualidade daqueles cuja mente está presa num corpo inerte e dependem da tecnologia para percepcionar o mundo.

A Cost-Benefit Analysis of the Proposed Trade-Offs for the Overhaul of the Barricade: Um conto complexo de John Chu que vai revelando um worldbuilding soberbo que ultrapassa largamente os limites desta história. O planeta pode ser a Terra ou um qualquer outro, alienígena, abrigo de incontáveis civilizações desvanecidas à força por uma turbulência eterna. A barreira que protege os humanos é erguida e continuamente expandida por exércitos de engenheiros que materializam as peças das suas construções através do pensamento. Bibliotecas selvagens, contendo o conhecimento de civilizações perdidas, são domesticadas por denonados bibliotecários que trabalham em espaços de nove dimensões. No centro deste turbilhão temos um jovem e inseguro aprendiz de engenharia, filho do maior e mais genial de todos os engenheiros, que num momento de catástrofe descobre o seu real talento.

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Comics


Letter 44 #09: Acabei de reparar num pormenor curioso. Num comic sobre uma potencial invasão alienígena da Terra que inclui uma nave espacial tripulada por cientistas e militares que se encontra na órbita de Júpiter para analisar a possível ameaça de um portentoso artefacto alienígena, ainda não nos foi dado um vislumbre dos extra-terrestres. Nove edições, e não há um etzito de ar repugante, exércitos imperiais de criaturas exóticas ou seres ultra-poderosos para além da imaginação. Houve um vislumbre de formas geométricas de alta energia, e nada mais. Nove edições, e nem um levantar do véu de algo que habitualmente se despacha nas primeiras vinhetas. É um bom artifício narrativo do argumentista Charles Soule, que com isso consegue intensificar o incógnito alienígena da ameaça. Continuamos com o revelar das intrigas do ex-presidente americano, que financiou pesquisas secretas em armamentos avançados e provocou guerras no terceiro mundo para endurecer as forças americanas para um conflito que anteveu ao perscrutar as primeiras imagens remotas do artefacto, e com as desventuras dos cientistas e militares na órbita de Júpiter, que começam a ter os primeiros recontros mortíferos com os extra-terrestres. Mas note-se que Soule, ao não nos revelar mais sobre a história, está a deixar muito em aberto o caminho que irá percorrer. Vamos pelo sentido directo de uma invasão que provocará uma guerra entre terrestres endurecidos e alienígenas de tecnologia inimaginavelmente avançada? Ou o inevitável mas muito adiado primeiro contacto irá alterar o rumo da história? O que é facto é que este comic é um dos mais interessantes do momento. Soule, note-se, também tem a cargo Swamp Thing na DC e também aí está a fazer um bom trabalho, afastando-se discreta mas metodicamente da eterna repetição do classicismo de Alan Moore, algo de muito habitual nas abordagens ao personagem.


The Manhatthan Projects #23: Dose mensal de high weirdness. Hickman em modo cuba libre com Brezjnev, monstro mutante alienígena que vai manipulando a União Soviética para espalhar a sua espécie no planeta, a invadir a Cuba revolucionária para lobotomizar Fidel Castro e Che Guevara com auxílio de um cirurgião muito exímio no transplante de cabeças. A crise dos mísseis assume toda uma nova perspectiva com mutantes extra-terrestres à mistura.


Silver Surfer #06: Há algo de profundamente clássico nesta nova série do ex-arauto de Galactus, reluzente surfista das ondas cósmicas. O estilo gráfico retro de Allred remete para a Marvel clássica, invocando a rudeza do traço de Jack Kirby e o surrealismo de Steve Ditko. Suspeito que seja mais do que coincidência, a forma como Allred desenha o Hulk de uma forma que quase replica a iconografia original de Kirby. Já as místicas formas curvilíneas com olhos a envolver o Doutor Estranho são um toque directo das histórias do personagem às mãos de Stan Lee e Ditko, marcos do psicadelismo gráfico dos anos 70.


POP #01: Suspeitamos que as estrelas da cultura pop sejam artificiais, e nesta nova série da Dark Horse são-no. Construídas por engenheiros genéticos de acordo com as especificações dos investidores, as futuras estrelas nascem em laboratório. Uma divertida, embora óbvia, mistura de FC com crítica à artificialidade induzida da cultura popular de massas. O estilo gráfico convence, a premissa é interessante, mas espero que esta história consiga sair da tradicional estrutura de boy meets girl, sendo que a girl é um clone fugido do laboratório perseguida por facínoras a soldo de executivos empresarias e o boy uma alma solitária à beira do suicídio.


Star Spangled War Stories #02: Parecia à primeira vista uma variação de Unknown Soldier, mas não. É um zombie, agente secreto ao serviço do governo americano, que acompanha uma agente que vai curar ataques de stresss pós-traumático por entre campónios armados em revolucionários com acesso a armas avançadas. Jimmy Palmiotti escreve, com uma perfeita cara de pau, algo que parte de uma premissa algo absurda e que espelha o mais intrigante iZombie. Mas no meio da seriedade consegue passar momentos de puro bom humor. Afinal, um agente secreto zombie tem as suas vantagens. Não pode ser morto, é imune a torturas. Há uma cena brilhante no primeiro número, com a companheira a cortar-lhe as mãos para ser aceite pelo perigoso grupo de revolucionários paramilitares. E, claro, comer cérebros dos vivos fica moralmente justificado como um serviço patriótico. E, claro, permite momentos como este, a caricaturar Dr. Strangelove.

domingo, 31 de Agosto de 2014

sábado, 30 de Agosto de 2014

Maneki Neko




Chungking Express na cidade antiga, ou um novo souk na velha Mouraria. O exotismo de uns é a normalidade de outros. O Martim Moniz tornou-se o melting pot onde a Lisboa tradicional se cruza com as ramificações chinesas e indianas na baixa-mar dos sonhos orientalistas.

sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Dylan Dog: Il pianto della banshee; Color Fest #10.



Giovanni Gualdoni, Corrado Roi (2013). Dylan Dog #322: Il pianto della Banshee. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Será o grito de uma banshee que está por detrás de uma série de assassínios numa aldeia irlandesa? Está, mas não da forma que esperamos. A morte em circunstâncias estranhas de um homem na sua noite de núpcias despoleta uma aventura intrigante de Dylan Dog. É a jovem esposa que é vista como culpada. Julgando-se amaldiçoada por uma banshee, está internada num hospício enquanto Dylan e a polícia local vão-se deparando com mais assassínios. A verdade é ao mesmo tempo banal e fantasista. Por detrás da pretensa maldição sobrenatural encontram-se as bem reais maldições do machismo e pobreza. O casamento de final funesto foi motivado por dinheiro. Quer o noivo quer o pai da noiva são homens violentos por natureza. E os amigos que suspeitam da verdade vão sendo eliminados pela assassina, a mãe da noiva. Quando Dylan a desmascara reflecte que as banshees são bem reais, são o grito das mulheres vitimizadas. Mas o argumentista não se limita a uma história policial e vai deixando indícios do fantástico. Há criaturas que se ocultam na névoa, e uma aterradora caleche negra conduzida por um lacónico psicopompo que percorre as ruas da aldeia. Esta ambivalência difusa cai bem dentro do ambiente sobrenatural da personagem. O ilustrador consegue alguns momentos gráficos memoráveis.


Alessandro Bilota, et al (2013). Dylan Dog Color Fest #10. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Confesso que não esperava especulação deste género nas páginas de Dylan Dog. É um personagem maduro, com longa história editorial, e as especulações da série andam mais à volta dos monstros e pesadelos do que da natureza da personagem. Rever o mito é o cerne deste Color Fest, que pega nas suas premissas, baralha e redistribui as ideias. Se as histórias são interessantes, o tratamento gráfico não lhe fica nada atrás. As primeira e terceira aventuras estão ilustradas com estilos gráficos expressivos que vão além do esperado no género.

Addio, Groucho: Vamos ao futuro, onde um envelhecido Dylan Dog tenta salvar Groucho, ferido por uma mordida de zombie. Num mundo decrépito que flui como um sonho Dylan vai-se cruzando com alguns dos personagens mais marcantes da série, incluindo uma Morte que lhe confessa que para quem vive na ficção o inferno é a vida normal. Onírica e inconclusiva, com um toque leve de futurismo decadente, esta ambígua aventura distingue-se por um riquíssimo grafismo.

La banda maculata: E se Dylan Dog fosse um detective na Londres vitoriana? Nesta aventura metaficcional Dylan vai investigar a morte misteriosa de uma rapariga na casa do seu padrasto, regressado da Índia e com um enorme gosto pelas artes ocultas indianas. Se parece similar a uma das primeiras aventuras de Sherlock Holmes, é porque o é. Dylan Dog vitoriano a enfrentar nagas é-nos revelado como um produto da imaginação de Conan Doyle, rejeitado pelo editor da revista Strand. Perante a rejeição, Doyle opta por criar histórias detectivescas baseadas na lógica do método dedutivo...

I giorni oscuri: Dylan Dog reimaginado como um personagem grimdark de fantasia épica. Ao invés do século XX, Dylan surge como caçador de monstros no século XVII, defensor da humanidade contra as experiências malévolas de Xabaras, o seu pai, que busca um elixir da imortalidade e que para isso vai transformado a humanidade em zombies. Tem um final memorável, com o seu quê de I am Legend de Matheson, com Dylan como único homem vivo a enfrentar um mundo cheio de hordes de zombies às ordens do seu funesto pai.

Doppia identità: E se... Dylan não fosse o detective dos pesadelos mas um jovem otaku, encerrado no seu casulo de cultura pop em casa dos pais? Frustrado, incapaz de se relacionar com raparigas, é também um assassino perseguido por Dwight Dog, famoso detective de casos arriscados. Ou então tudo não passa de um delírio de Dylan, hospitalizado após travar um perigoso serial killer.

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

The Other Log of Phileas Fogg


Philip José Farmer (2012). The Other Log of Phileas Fogg. Londres: Titan Books.

P. J. Farmer reinventa um dos clássicos de Verne à luz do seu universo Wold Newton. Transforma a Volta ao Mundo em 80 Dias numa espécie de relato de jornalismo investigativo que alvitra hipóteses e nos conta aquilo que Verne ocultou ou não sabia sobre o que realmente se passou no périplo de Fogg. Neste universo ficcional a Terra é palco de uma luta sem quartel entre duas espécies alienígenas, ambas com objectivos de colonização benevolente para a humanidade mas que se vêem como rivais. Os cada vez mais raros sobreviventes dos colonos de Capella e Eridani interferem na história, instrumentalizando humanos como agentes dos seus jogos perigosos. Esses são os mais icónicos personagens da literatura de aventuras e fantástica dos séculos XIX e XX. Recriar as aventuras dos personagens clássicos à luz de uma guerra secular sem quartel dá motivo para muita página.

Nesta variante da volta ao mundo Fogg é um agente quase imortal eridaniano, ajudado por Passepartout, outro agente destas forças alienígenas, e a aposta que os leva a circunscrever o planeta uma desculpa conveniente para neutralizar um artefacto dos inimigos na posse de um rajá indiano rebelde. Todas as peripécias são reconstruídas face a esta premissa. A implacável perseguição de Fix é revista com este como agente capelleano, a bela viúva indiana salva das chamas que irão consumir o cadáver do rajá é outra agente eridaniana, que Fogg salva por um misto de sorte e planeamento. A atravessar-se no caminho dos aventureiros, criando obstáculos e tentando por todos os meios travar a sua viagem está o Capitão Nemo, que Farmer revê não como um rebelde indiano mas como um irlandês que se disfarça de aristocrata indiano revoltoso, que se apropriou de tecnologia capelliana para construir o seu mítico submarino, e que depois da derrota face à persistência de Fogg voltará a emergir como perigoso agente inimigo assumindo o Professor Moriarty como identidade. Como num cadavre exquis, em que linhas e cores sugerem o próximo passo da composição, Farmer vai deixando pistas para os próximos fios condutores da sua vasta narrativa de ficção alternativa.

Apesar da premissa e da vastidão de possibilidades revisionistas, o livro não é muito interessante. Talvez não seja o melhor ponto de entrada para ficar a conhecer o universo Wold Newton.

Meta Insta


My god, it's full of brown! Não resisto a um volteio com o it's full of stars! de Clarke e Kubrick. A imagem foi produzida pelo Metagramme, uma webapp que sobrepõe as trinta e duas últimas fotos de um utilizador do Instagram e gera uma imagem compósita. Por aqui os castanhos imperam, e não há pareidolia que resista à abstracção final de trinta e duas sobreposições de um real enquadrado e filtrado, e por isso teatralizado.


É intrigante como a sobreposição do concreto gera abstração pura.

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Demoiselle




No Museu do Ar

Leituras

AI, Robotics and the Future of Jobs: O mais recente relatório da Pew Research Internet Project, leitura sóbria sobre as vertentes de possíveis consequências da rápida evolução da robótica/automação e seu impacto sobre o futuro do trabalho. Se tem sido publicitado como uma extraordinaria predição sobre sexbots, desenganem-se, que o conceito só aparece uma vez nas sessenta e tal páginas com observações sobre a temática do relatório. Este espelha, de forma mais equilibrada, o alarmismo informado do vídeo Humans Need Not Apply que resume muito bem o pior que poderá advir do impacto entre cegueira economicistas e robótica. Se a transformação laboral irá deixar muitos empregos hoje desempenhados por humanos nas mãos artificiais de robots e software complexo, é também verdade que há já formas de optimização automatizada de fluxos de trabalho que tratam o trabalhador como uma espécie de peça descartável a utilizar apenas de acordo com o disposto na optimização just in time aferida ao segundo, como mostra esta brilhante peça do New York Times: Working Anything but 9 to 5.

O alastrar da robótica/automação vai de facto tornar obsoletos muitos empregos, e tocar em áreas que até agora se pensavam a salvo e domínio exclusivo da mente humana. Há um risco, óbvio, que os respondentes ao questionário da Pew sublinham: a economia não existe por si só, e ao condenar ao desemprego estrutural grandes camadas da população está também a eliminar os consumidores de que depende para sobreviver. Algo que neste momento de domínio da ideologia neoliberal sobre as consciências arrepia, porque sabemos que quaisquer escolhas irão privilegiar lucros a curto prazo e não a sustentabilidade dos sistemas sociais e económicos. Haverá escolhas, haverá evoluções do conceito de trabalho, e note-se que Hans Moravec, um dos pais da robótica, sonhava com um futuro onde o trabalho braçal e rotineiro ficaria nas mãos de entidades mecânicas enquanto antevia uma era dourada de ócio construtivo e desenvolvimento humano. Mas, como muito bem observa este colunista da Popular Science em Sex Bots, Robo-Maids, And Other Sci-Fi Myths Of The Coming Robot Economy,  é talvez prematuro imaginar o colapso da civilização ocidental sob o efeito de máquinas e software que apesar dos avanços rápidos ainda mostram muitas limitações. No entanto os engenhos do progresso são, como habitual, inexoráveis e se seja talvez cedo para entrar em pânico com as consequências sociais dos robots não é certamente cedo para debater o impacto de tecnlogias que se hoje nos parecem algo desengonçadas estão em refinação constante.

Suponho que o que realmente assusta e leva a este tipo de pensamento alarmado é a sensação de que no que diz respeito à ideologia dominante os seres humanos já são elementos descartáveis na economia. Sempre que se fala em reformas, racionalização de custos, reformulações e eficácias já se sabe que são as pessoas a ser cortadas. Quer através de precarização, redução salarial, despedimento massivo, deslocalização para zonas de mão de obra de baixíssimo custo. Sabemos, imersos como estamos numa crise global em que o óbvio enriquecimento de élites e o empobrecimento generalizado são notórios, que o valor colocado sobre o capital humano é apregoado como elevado mas é na verdade baixíssimo. A ideia de trocar pessoas por máquinas parece retirada dos sonhos húmidos de maximização de lucro do capitalismo mais selvagem. E até pode sê-lo, se, como observam Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee no livro The Second Machine Agenão forem feitas escolhas que são políticas e sociais que possibilitem tirar benefícios humanistas da tecnologia. O que é algo que nesta época de ganância descarada mal disfarçada sob ideologia neo-liberal e retrocesso de direitos civis e laborais nos parece algo muito ténue.

The King of the Islands of Refreshment: Geografias longínquas no limiar da ficção, do mito e da dura realidade. Uma pequena história de uma tentativa de criar um principado independente no distante rochedo de Tristão da Cunha torna-se num vislumbre às culturas cerradas dos duros habitantes dos locais isolados do Atlântico Sul. Ainda toca, muito ao de leve, nas bizarrias das micronações. Estas anomalias da história e geografia seduzem pela distância, não só física, mas do que acreditamos ser normal e esperado. Um artigo fascinante a ler na edição mais recente da revista The Appendix, que pelo índice de artigos merece uma longa e atenta leitura às fímbrias do futurismo.

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Voo retro




Do encanto das antigas aeronaves. Museu do Ar

Dylan Dog: I ritornanti; L'odio non muore mai; Giovani vampiri.


Giancarlo Marzano, Roberto Rinaldi (2013). Dylan Dog #319: I ritornanti. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma aventura que soa melhor ao som de Boulevard of Broken Dreams, um dos clássicos do lado mais lounge do great american songbook. Porque é de sonhos fenecidos que vive esta história do detective dos pesadelos. Começamos por chegar a um cemitério cujos residentes se andam a escapulir aos gavetões. E na Londres de Dylan Dog pessoas de bem, conformadas com o rumo das suas vidas, são assombradas, atacadas e assassinadas pelo que parecem ser seus sósias. Não são. São os seus sonhos esquecidos, os desejos de ser algo de diferente do que se tornaram, que se escaparam ao cemitério onde estão consignados para exercer vinganças sobre os sonhadores desiludidos. Se este conceito da morgue de sonhos esquecidos onde estes estrebucham dentro dos gavetões tem o seu agradável gostinho gótico, o resto da aventura é uma banal caça à assombração onde Dylan se envolve com uma dançarina exótica perseguida pelo seu sonho de ser bailarina.


Luigi Mignacco, Giancarlo Alessandrini (2013). Dylan Dog #324: L'odio non muore mai. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Bons ingredientes misturados nem sempre dão um bom caldo, mas podem deixar um bom sabor. É o caso desta aventura, que mistura história da II guerra mundial, a iconografia da típica aldeia costeira britânica e vampiros nazis. Vampiros nazis soa sempre a promessa de narrativas mirabolantes, não soa? Em resumo, as lendas locais sobre fantasmas assassinos parecem concretizar-se com o desaparecimento misterioso de habitantes da aldeia à beira-mar, que ganhou fama pelos estaleiros agora inactivos que foram bombardeados na II guerra. É curioso é que só desapareçam um historiador, um mecânico e os guardas do estaleiro. O segredo é antigo: a tripulação de um submarino nazi sobrevivente ao final da II guerra que começa a avariar e precisa de pessoas capazes de dar a volta aos antigos engenhos para conseguir ser reparado. E como é que estes fieis submarinistas da kriegsmarine sobreviveram? No final da guerra tinham como missão secreta transportar um misterioso caixão, cujo passageiro os transformou em vampiros. Um submarino cheio de vampiros nazis a flutuar na eterna escuridão das profundezas oceânicas. Com uma destas nunca me tinha deparado.


Giancarlo Marzano, Luigi Piccatto (2013). Dylan Dog 321: Giovani Vampiri. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Um grupo de góticos contacta Dylan Dog para que este lhes encontre um vampiro. O seu sonho é atingirem a imortalidade como criaturas da noite, mas Dylan, obviamente, recusa-se. Um mergulho na vida nocturna mais underground vai dar a estes vampire wannabes a oportunidade de aceder ao que mais desejam, mas uma verdadeira criatura da noite compraz-se em brincar com os desejos dos néscios humanos.

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

Top Gun





Museu do Ar, Granja do Marquês.

Comics


Steampunk Battlestar Galactica 1880 #01: A Dynamite, perita em baralhar e tornar a dar títulos e personagens clássicas, decidiu aplicar o tratamento steampunk à série Battlestar Galactica. Resumo: não funciona. Não, a sério. Não funciona. A vaporização neo-vitoriana está a funcionar bem em Legenderry, porque há o cuidado de estabelecer uma narrativa coerente onde os diferentes personagens encaixam. Agora recontar a space opera televisiva com engenhos a vapor, dirigíveis e sabres no lugar dos robots, naves espaciais e blasters, não funciona.


The Multiversity #01: Grant Morrison a armar-se em Alan Moore e a reviver personagens dos velhos tempos em que valia tudo para criar revistas e a DC se excitou um pouco com a ideia de universos paralelos com versões das suas personagens icónicas? Só pode correr bem, certo, num "correr bem" entendido num estrito sentido de insanidade psicadélica. É Morrison, um dos grandes contadores contemporâneos de histórias aos quadradinhos, bizarro e visceral com carta branca para chocar e encantar. Duvido é que o objectivo de recriar e recuperar para a DC 52 dos personagens (felizmente) descartados da continuidade resulte. É que com Morrison aos comandos já sabemos que a viagem vai ser um delírio, algo que não se coaduna muito com a necessária banalidade repetitiva dos comics de super-heróis.


Trees #04: A invasão alienígena em slow motion. Misteriosos vegetais que assentam raízes, indiferentes às formigas bípedes e suas edificações que pululam na superfície do planeta azul. Criaturas extraterrestres que aterram e não fazem absolutamente nada para além de assentar gigantescos troncos um pouco por todo o planeta. E Warren Ellis não se está a apressar a contar a história. Cada edição vai revelando mais um pouco de uma teia complexa e aparentemente desconexa. Eventualmente saberemos o que é que senhores da guerra africanos educados nas melhores universidades europeias, activistas políticos nova-iorquinos, criminosos balcânicos, artistas chineses e biólogos noruegueses têm em comum. Para já fiquemo-nos com esta: as árvores invasoras estão a começar a produzir flores bio-metálicas. Invasão lenta, um ecossistema que aniquila o organismo anfitrião com a paciência longa do mundo vegetal.


The Fade Out #01: Brubaker e Philips estão de volta com um novo projecto. Desta vez regressam às origens com um policial noir passado da decadente Hollywood dos anos 40. A ilustração é como sempre soberba, e do argumentista já se sabe que nos vai dar uma história convoluta onde um protagonista pouco inocente se vai confrontar com vícios monstruosos e a decadência criminosa alimentada pela fama e dinheiro.

domingo, 24 de Agosto de 2014

Insta




Minimal




Mourão




Ó amigo, desculpe lá, mas já foi ver as cataratas? perguntou-me o pastor que apascentava as suas plácidas ovelhas à beira do rio. Ainda não, confessei. Então é só subir e... faz com a mão o gesto de descer. E lá subi, e lá desci, por entre veredas talhadas na mata, atravessando o moinho de água em ruínas, até dar com a catarata do rio Mourão. Fica em Anços, mesmo aqui ao pé. E eu, que tantas vezes passo lá perto no caminho para respirar na praia da Samarra, nem imaginava que existia um local destes nesta região.

sábado, 23 de Agosto de 2014

VFX




Paragem de estrada, a redescobrir a renovada e muito bela zona ribeirinha de Vila Franca de Xira.

Bestiário


Julio Cortázar (1986). Bestiário. Lisboa: Dom Quixote

Suspeito que me será difícil não comparar Cortázar a Borges. Não sei se serão comparáveis ou não, se têm mais em comum para além de Buenos Aires e a Argentina. Se Borges encanta pelo lirismo de aparente aridez académica, deslumbrado pelo mundo das ideias expressas em tomos poeirentos, Cortázar dá-nos a vida. Acontecem pequenos mistérios, ocorrências estranhas, assombrações interiores, obsessões funestas, mas sempre centradas nas pessoas, retiradas à normalidade das suas vidas pelo olhar onírico do escritor. Um fantástico humanista, que questiona a estranheza da alma humana e a sua percepção do mundo. Um autor a descobrir, naquela ponte difusa entre as literaturas do imaginário e as leituras sérias, e estes contos de 1951 são uma bela porta de entrada para um onirismo de normalidade ilusória.

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

Dylan Dog: L'impostore; Leggende urbane; La fuggitiva.


Alessandro Bilota, Nicola Mari (2013). Dylan Dog #317: L'impostore. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Desde que Poe solidificou o conceito de doppelgänger como uma das estruturas do horror clássico no conto William Wilson que este artifício tem sido usado e abusado. Esta aventura de Dylan Dog não é excepção. Uma série de assassínios misteriosos em que as vítimas são mortas por sósias seus acaba por ser revelado como a psicopatia de um especialista em maquilhagem cuja atracção pelo copiar de personalidades se iniciou ao matar o irmão gémeo na adolescência. Argumento mais de policial do que fantástico por Angelo Bilotta, com alguns toques de ironia certeira, mas destaca-se a ilustração muito gótica e elegante de Nicola Mari. Não é usual que no fumetti o trabalho do ilustrador ultrapasse as linhas-guia gráficas dos personagens. Aliás, boa parte deles são indistinguíveis uns dos outros, e é raro ver um estilo gráfico personalizado num personagem com o historial editorial como o de Dylan Dog.


Giovanni DiGregorio, Ugolino Cossu (2013). Dylan Dog #318: Leggende urbane. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

É raro, neste Dylan Dog mais recente, encontrar alguma edição que volte a capturar o onirismo mágico do melhor de Tiziano Sclavi. É o caso destas lendas urbanas, aventura de mitos que não faz grande sentido lógico mas se lê como um acumular do imaginário de alguém que escreve. Aliás, é assim que começa e termina a aventura, com palavras dactilografadas numa máquina de escrever eléctrica. O que à partida parece um relato termina como uma meta-ficção sobre o poder das histórias e a necessidade humana de acrescentar pontos aos contos. A aventura é um acumular de mitos urbanos. Crocodilos nos esgotos, motociclistas que sobrevivem a despistes mas cuja cabeça se abre ao tirar o capacete, jovens raparigas que pedem boleia para a porta de cemitérios onde se desvanecem, cadáveres que acordam durante autópsias, cartas em cadeia mortíferas, rins roubados após noites de amor com mulheres desconhecidas. Um catálogo de histórias incríveis em que juramos não acreditar mas há algo nelas que nos inquieta, memes que se propagam, vindo ciclicamente à tona nas conversas da vida urbana. Deliberadamente difusa, questionando continuamente o real e o ficcional dentro do espaço narrativo da ficção, regressando ao horror onírico de outros tempos, esta aventura do old boy onde age realmente como indagatore dell'incubo é uma excelente surpresa.


Giovanni DiGregorio, Maurizio Di Vincenzo (2013). Dylan Dog #320: La fuggitiva. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Há um momento na história em que esta ameaça tornar-se interessante. Dois mundos, a Londres real dos anos 90 da série e uma espécie de fantasia medievalista quase colidem nas páginas de uma aventura em que Dylan tenta ajudar uma mulher que vive na ilusão de conter um monstro diabólico dentro de si. Mas não passa de ameaço. A desconexão mantém-se, a coisa desliza para o policial psicológico e as alucinações da mulher ficam-se por desculpa para desenhar ruas da idade média. Um momento pouco conseguido da história editorial do indagatore dell'incubo.