segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Comics


Batman Annual #01: Neste anual de Batman, em vez de uma história longa temos uma série de curtas dedicadas ao natal. Logo a abrir, Tom King, corrente argumentista do personagem, dá-nos uma lição de storytelling bem estruturado e da mitografia da personagem, com Batman a encontrar um companheiro canino graças aos esforços de Alfred, que adopta um animal em estado selvagem depois de treinado e abandonado pelo Joker. A punchline final, "world's greatest detective indeed", é brilhante, mas a chave da história é a revisão subtil que King faz à pedra basilar de Batman, a história trágica do assassinato dos pais do jovem Wayne, que o leva a assumir o manto de cavaleiro das trevas. "Some wounds can never be healed", diz, sombrio, referindo-se a um animal aparentemente irrecuperável e que Alfred humanizará, mostrando que afinal, as piores marcas traumáticas podem ser curadas.


Wacky Raceland #06: Termina como começou, weird, apocalíptico, completamente à solta a desvirtuar os limites de um antigo cartoon infantil. Esta série pegou na premissa das corridas mais loucas do mundo e transformou-a em algo que poderia ser descrito como um gabinete de curiosidades montado por tecnólogos arrojados e taxidermistas experimentais. Leva um pouco de tudo neste final com nuvens de nano-organismos canibais, animais semi-inteligentes revoltosos e um super-robot criado a partir da união dos veículos das corridas loucas, para combater o cérebro que sobrevive ligado a uma máquina que já foi a esposa do cientista responsável pela criação dos nano-organismos, animais inteligentes e exércitos de clones que devastaram o planeta. É puro popcorn, divertido num desvio de FC grindhouse.

domingo, 4 de dezembro de 2016

FormIt




Às voltas com o FormIt, uma aplicação de modelação 3D da Autodesk. A busca por apps que permitam modelar em 3D em tablets Android tem sido uma das minhas guerras nos últimos tempos, por causa dos projectos em que tenho envolvido a escola. Se modelar em 3D no computador dá acesso a muitas vertentes e metodologias de trabalho, o tablet é muito portátil, relativamente barato e algo que anda nas mãos da maior parte dos meus alunos. A biblioteca da escola, no âmbito de um projecto de literacia digital e impressão 3D, está dotada de um grande número destes equipamentos. Para muitas tarefas, substituem o computador. E no 3D, como é?

Para utilizadores de iPads, existe um grande número de aplicações de modelação 3D. Mantenho algumas debaixo do radar: a Gravity Sketch, pela facilidade de modelação, e a Morphi, pelo investimento que o seu criador faz no mesmo tipo de trabalho que desenvolvo nos projectos TIC em 3D/Fa@rts, centrado nas CTEM, colocando a modelação e impressão 3D nas mãos das crianças. É um ecossistema diverso, com muitas apps à escolha. Há uma razão para isto: a Apple adquiriu as patentes das tecnologias de interacção 3D em tablets que permite a modelação.

Em Android o panorama não é animador. Contam-se pelos dedos de uma mão as aplicações na Playstore da Google que oferecem soluções de modelação 3D simples e intuitivas. A maior parte delas não garante grandes resultados, dá problemas de compatibilidade, ou está limitada no tipo de trabalho que se pode fazer. As aplicações web, como o Tinkercad e o My.Sketchup, não correm nos browsers dos tablets. Das aplicações disponíveis, o Sculpt+ da Autodesk permite modelar em escultura digital, mas gera ficheiros com malhas poligonais muitop densas, um pesadelo de tratar para impressão 3D. O Thingmaker Design é excelente e divertido, mas não permite ir além da conjugação das suas peças modulares. O 3DCreationist é prometedor, possibilitando modelação por primitivos, mas o seu interface é problemático e dificulta a criação. O exótico SubDivFormer permite boas aventuras em subdivisão de superfícies, mas as versões mais recentes geram um tipo de STL ilegível por qualquer outra aplicação. Resta o FormIt, que durante muito tempo pensei que serviria para pouco mais do que aglutinar cubos. Há uns tempos atrás, dei-lhe uma segunda oportunidade e dediquei-me a ver uns tutoriais em vídeo. Percebi que ao contrário do que pensava, esta app é uma ferramenta poderosa, diria que quase um Sketchup Make para tablets. E não se fica por aí.


O FormIt está integrado com a solução cloud A360 Drive da Autodesk. Se se modelar em tablet, a única forma de descarregar o projecto (em OBJ)  é exportar para a drive A360. É um passo bizantino, especialmente se se perceber que o FormIt também pode ser utilizado no PC quer como aplicação instalada no computador quer como web app, a correr no browser. Acedendo ao FormIt na web com uma conta Autodesk, podemos editar qualquer ficheiro que esteja na drive A360.

Trabalhar com o FomIt no tablet tem as suas agruras. Há procedimentos muito fáceis, outros nem por isso. Criar extrusões é simplíssimo - basta tocar numa superfície para a seleccionar e empurrar com o dedo para gerar uma forma. As inferências ajudam ao traçado de linhas. Podemos utilizar operações de união e intersecção (para modelar para impressão 3D, a união ajuda imenso a obter malhas poligonais estanques). Outras operações, como a rotação, posicionamento e escalagem, apesar de simples colidem com algumas opções de interface e poderiam ser mais fluídas. No global, é fácil de utilizar, tem uma curva de aprendizagem rápida, apenas as problemáticas inerentes ao tipo de interface de tablet complicam o trabalho nesta app.

Ou seja, posso modelar no tablet, sincronizar com a conta Autodesk (a mesma para o Tinkercad e Autodesk 123), e posteriormente utilizar o FormIt A360 Web no browser para rever, melhorar ou aplicar ferramentas de modelação mais avançadas ou trabalho de texturas. No browser podemos descarregar directamente para o computador o projecto em STL, OBJ e nos formatos da Autodesk.



A experiência mostrada neste post é um modelo criado integralmente no meu tablet, da modelação 3D à texturização. Mostra que a ferramenta é mais poderosa do que aparenta. Exportar do FormIt A360 web permitiu obter um ficheiro OBJ que o Bryce reconheceu e permitiu rever texturas e fazer um rendering mais complexo. Para o Sketchfab foram importados o OBJ e materiais directamente gerados pelo A360. Ainda não experimentei imprimir em 3D, mas os ficheiros STL gerados pelo FormIt costumam passar sem erros, ou com erros mínimos, na análise e validação com o netfabb.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Crawling from the Wreckage






Grant Morrison, et al (2004). Doom Patrol, Vol. 1: Crawling from the Wreckage. Nova Iorque: DC Comics.

Quando Grant Morrison pegou no obscuro grupo de super-heróis inadaptados que é Doom Patrol, abriu a porta dos comics mainstream para o seu peculiar estilo narrativo, esotérico e surreal a roçar o psicadélico. Este primeiro volume da sua temporada aos comandos da série é um vasto assemblar de elementos. Começa com os membros da equipe, desmoralizados, deprimidos e dispersos, que inevitavelmente confluem ao ver o mundo a ser ameaçado pelo tipo de entidades que só eles sabem combater. A sua primeira grande ameaça é um mundo paralelo, criado como experiência de pensamento por cientistas, uma variante à Morrison da ideia borgesiana do mapa enquanto território. Orqwith passou de ideia a local, e envia à nossa realidade homens-tesoura capazes de cortar os humanos do real para os transmutarem em habitantes de um irreal cada vez mais tangível. O outro grande desafio é Red Jack, entidade quase divindade que se veste como uma máscara barroca veneziana, e vive num mundo ao qual só se pode aceder conjurando palavras ao acaso. A equipe em si é um primor de problemas. O homem-robot sente a falta da sua humanidade, e alia-se a uma paciente de um hospício cujas múltiplas personalidades têm todas super-poderes. A criatura negativa entra por campos alquímicos, provocando um casamento místico que funde os corpos físicos do seu anfitrião habitual e de uma médica que teve a má fortuna de estar por perto no momento da fusão. Já Niles Calder, o eterno líder da equipa, mostra a sua vontade férrea enquanto dá abrigo a Clay, um médico que se recusa a usar os seus poderes, e a Dorothy, adolescente inadaptada capaz de invocar criaturas de pesadelo com a sua imaginação. Personagens inadaptados, profundamente magoados e incompletos, que lutam contra ameaças surreais. Será esse o tom que marcou de forma indelével esta série clássica.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Happiness


Shuzo Oshimi (2016). Happiness #01. Nova Iorque: Kodansha Comics.

Isto é como ler Tokio Ghoul mas com vampiros e sem a capacidade narrativa gráfica de Sui Ishida. É mais uma história de um tranquilo adolescente atacado por uma criatura da noite, e a sua descoberta do em que se está a tornar, com recusa em ceder aos impulsos monstruosos. A história é previsível e arrasta-se de prancha em prancha, o estilo gráfico de Oshimi é convencional.  Soa familiar, não soa? É provável que no Japão haja todo um sub-género de manga dedicado a este tema.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

The Vision, Volume 1: Little Worse Than A Man



Tom King, Gabriel Walta, Jordie Bellaire (2016). The Vision, Volume 1: Little Worse Than A Man. Nova Iorque: Marvel Comics.

O poderoso e hiper-bem educado andróide dos Vingadores decide experimentar levar mais longe a sua prerrogativa de simulacro de humanidade. Constitui uma família, construindo e dotando de memória e personalidade três andróides que serão a sua esposa e dois filhos adolescentes. Muda-se para um subúrbio de Washington e mergulha na normalidade da vida burguesa. Os filhos vão ao liceu, a esposa toma conta da casa, e o Visão passa os dias a lutar contra super-vilões ansiando pelo momento do regresso a casa, do jantar em família e serão tranquilo.

Esta é uma série de ironia fina e subtil. Percebemos, pela premissa, que tudo irá correr mal. Boa parte da ironia segue as vertentes expectáveis, da dissociação entre expectativa e realidade. O medo da diferença, uma vez que por muito que queiram parecer humanos, não deixam de ser robots, e o impacto que isso terá na comunidade que escolheram. A visão clássica da lógica robótica face às incongruências humanas. As idiossincrasias da vida nos subúrbios bucólicos da classe média afluente. Só isto já dá alimento para muitos momentos de humor corrosivo. Mas o argumentista Tom King sobe a fasquia com recorte sangrento e macabro. A vida suburbana tem segredos, e quando estes envolvem criaturas poderosas, podem tornar-se mortíferos. Para aprimorar a coisa, todo o esforço de humanização de Visão começa a rachar quando o contacto com as constantes refilices das ingratas formigas humanas que tantas vezes salvou da aniquilação o levam a fazer uso da sua superioridade.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mythos ABC


Mads Brynnum, et al (2015). Mythos ABC

Se insistem mesmo em ler histórias para adormecer as crianças... pelo menos adormeçam-nas com leituras de pesadelo, que as traumatizem para a vida. Este Mythos ABC é um bom exemplo. Do caos rastejante de Azatoth à música de Erich Zann, o que é uma forma lovecraftiana de dizer de A a Z, este livro mostra-nos com suaves rimas, etiquetados pelas letras do alfabeto os seres de pesadelo, as paisagens de temor e os monstros icónicos saídos da imaginação misógina de Lovecraft. Livrinho garantido no transformar dos pirralhos mais banais em geeks literatos... ou enlouquecê-los no processo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Comics


Athena Voltaire and the Volcano Goddess #01: Depois de um kickstarter bem sucedido, as aventuras de Athena Voltaire voltam à edição. Para os fãs de um tipo de aventura old school, revendo as primeiras décadas do século XX, entre o romantismo dos territórios misteriosos e inexplorados e o glamour da vida urbana, esta é uma leitura obrigatória. A inspiração parte claramente de Indiana Jones, mas Voltaire consegue seguir o seu caminho. Até porque começa por ser uma heroína, cuja sagacidade e espírito de aventura colocam em segundo plano o lado tipicamente masculino deste tipo de narrativa.


AD: After Death Book One: Talvez o comic mais intrigante do ano, saído dos esforços conjuntos de Scott Snyder e Jeff Lemire. Neste título da Image, quebram as barreiras conceptuais do género numa história que mistura com uma surpreendente fluidez natural diferentes estruturas narrativas. Ao longo deste primeiro volume, saltitamos entre história ilustrada, páginas literárias e comic tradicional. Snyder e Lemire são dos criadores contemporâneos, aqueles que mais se distinguem pela capacidade de arriscar e experimentar para além dos limites do género. Recorde-se a audácia de Snyder enquanto argumentista de Batman, ou o experimentalismo dentro da FC de Trillium de Lemire, e percebe-se que destes dois talentos juntos, algo surpreendente vai nascer.

sábado, 26 de novembro de 2016

Plainsong



The Cure no MEO Arena.


O que estava no andar de baixo do espaço onde decorreu o BAD Jobs.


Aquele momento em que te apercebes que na banca ao lado da tua, há livros grátis à discrição. Enquanto a impressora 3D imprime, vão-se escolhendo livros.... deve haver aqui um paralelo entre 3D printing e os resquícios esquecidos da prensa de Gutenberg, mas não sinto ânimo para o estabelecer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Estilhaços; Sob um Mar de Estanho

Duas curiosidades, encontradas no stand da Polvo no Amadora BD 2016. Livros de uma colecção antiga, do final do século XX, editada pelo Salão de BD do Porto. Livros de pequeno formato, claramente uma daquelas apostas de tornar mais acessível e atraente a BD de autores portugueses ao grande público, com edições de baixo custo. Após a leitura, fiquei com a sensação que deveria ter aproveitado para trazer mais exemplares da colecção.


José Carlos Fernandes (1998). Estilhaços. Porto: Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto.

Num quarto de hospital, um homem está a morrer. Não sabemos quem é, nem as causas das suas dores. Mergulhamos no seu inconsciente que se apaga, em fragmentos de memória que lhe perpassam pelo cérebro. Fragmentos de banalidade, de trauma, de amor, que terminam com o olhar esquecido do momento da primeira paixão. Com esse olhar, tudo termina.


José Carlos Fernandes (1999). Sob um Mar de Estanho. Porto: Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto.

Um pequeno delírio onírico, entre o surreal e o borgesiano. Um rapaz entra numa casa e vai descendo até à cave, uma descida por escadarias que se revelam intermináveis. Recorda um conto das Mil e Uma Noites, muito similar na sua temática.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

S.H.I.E.L.D. by Lee & Kirby



Stan Lee, Jack Kirby (2015). S.H.I.E.L.D. by Lee & Kirby: The Complete Collection. Nova Iorque: Marvel.

Nestas histórias originalmente publicadas nos anos 60, o pormenor que saltará à vista dos que conhecem a Marvel através do universo cinematográfico é o tom de pele de Nick Fury. Se no cinema é afro-americano, nos comics sempre foi branco. Com o sucesso do universo cinematográfico a editora adoptou uma origin story com o filho afro-americanoe homónimo do lendário personagem a substituí-lo. Algo que não causa estranheza no convoluto mundo dos comics, capaz de volteios aparentemente impensáveis às suas personagens.

Fury, originalmente, era um veterano da II Guerra, saído dos títulos de histórias de combate da editora para ingressar como líder da organização de agentes secretos SHIELD. Não veio sozinho, trazendo alguns dos destemidos personagens das histórias de violência inocente da  Sgt. Fury and his Howling Commandos. Quão inocentes? São o tipo de histórias de combate onde os intrépidos heróis zurzem metralha a torto e a direito, aparentemente imunes às hordes de soldados inimigos que lhes devolvem a cortesia.

No mundo dos comics, propriedade intelectual é coisa que nunca fica desaproveitada. Quando um género de histórias perde a predilecção do público, os personagens são recicláveis para os novos gostos. Faz parte da linguagem dos comics.

Como líder supremo da SHIELD, traz o seu espírito combativo a uma organização de combate a ameaças baseada nas armas de alta tecnologia. Kirby e Lee parecem satirizar James Bond, de Ian Fleming, com este espião de queixo quadrado, barba por fazer, propensão para rasgar os fatos de fino corte em combates directos. Fury é em tudo o oposto do gentleman spy de Fleming.

O outro pormenor que saltará à vista dos conhecedores do género é o traço de Jack Kirby, tão rude na figura humana e tão abstracto na tecnologia. As histórias, criadas em parceria fatídica com Stan Lee, são maravilhas de uma era de narrativas mais simplistas, constantemente inconclusivas para manter acesa a curiosidade dos leitores. A Marvel demorou décadas a reconhecer o direito de Kirby a receber provimentos de direitos de autor ou a controlar os originais do trabalho que fez para a editora Elementos que se tornaram fundamentais para o universo Marvel, como as organizações HYDRA e AIM, tiveram aqui alguns dos seus primeiros passos em direcção às tentativas sempre rechaçadas de domínio do mundo. Fury e os seus agentes são implacáveis, com acesso a armas mirabolantes para enfrentar as terríveis ameaças. Estes comics funcionam muito na associação livre de ideias tecnólogicas.

Outro elemento notório ao longo das páginas é a evolução da linguagem visual utilizada, passando do desenho como ilustração da narrativa ao uso de enquadramentos e ângulos de visão como elementos de reforço narrativo que conferem mais dinamismo às aventuras.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Time Travel: A History



James Gleick (2016). Time Travel: A History. Nova Iorque: Pantheon.

Depois do fortíssimo, profundo e fabuloso The Information, percebe-se que Gleick queira relaxar e dedicar-se a um tema mais leve. Isso explica as incongruências deste Time Travel, que apesar de ser interessante, não está ao nível a que Gleick nos habituou. Lê-se mais como longo ensaio literário, com Gleick a dissecar quer a literatura de FC quer o mainstream em busca dos indícios que formam as estruturas conceptuais do tema. Dá um pequeno salto à filosofia e ciência, mas é na literatura que mais se debruça. Em parte, sabemos o que esperar deste livro. Uma análise do conceito, dos seus paradoxos, ideias estruturantes. O que não esperamos é uma certa ambivalência que se sente ao longo da leitura, com Gleick a não tornar claro se leva ou não a sério aquilo sobre o que escreve. Há por ali um certo fascínio com o ideário, mas o racionalismo do jornalista científico intervém sempre a tempo de impedir que o fascínio alastre. Como habitual, é de esperar uma fortíssima bibliografia lida, resumida e interligada pelo autor. As suas conclusões mais inesperadas envolvem o quão recente é o nosso sentido do tempo, e o seu grau de dependência de progresso tecnológico acelerado.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Elektrograd: Rusted Blood



Warren Ellis (2015). Elektrograd: Rusted Blood. Summon Books.

Como boa parte da obra deste escritor e argumentista, Elektrograd é uma leitura interessante não pela história em si mas pelo mundo ficcional que a sustenta. Conta-se em poucas palavras, como um policial procedimental onde um detective da velha guarda e os seus colegas, um polícia algo brutamontes e uma agente ambiciosa que vê a experiência de detective criminal como degrau para patamares mais ambiciosos, investigam um assassinato aparentemente banal nas ruas mais degradadas da cidade.

Esse fio condutor mergulha-nos em Elektrograd, a cidade onde enferruja o velho futurismo cromado, de arquitecturas luzidias e formas em barbatana, aquele misto de  gernsback continuum e dieselpunk saído das visões de arquitectos futuristas e designers industriais dos anos 40 e 50 do século XX. Um futuro envelhecido, de lustre perdido, feito de edifícios desertos que se movem em ritmos cronometrados (uma das inspirações para Mekanoplatz, a zona da cidade onde decorre a acção deste livro, são as Walking Cities concebidas nos anos 60 pelos arquitectos radicais do grupo Archigram), enquanto os habitantes preferem viver nas carcaças dos velhos robots de construção. Nestas ruínas funcionais do futuro, escondem-se ainda velhos andróides electro-mecânicos que se ocultam como psicólogos para tentar compreender o que é o ser humano.

Este livro desperta o apetite para Normal, prestes a ser editado após publicação em capítulos. Ellis comenta no posfácio de Elektrograd a hipótese de haver mais histórias neste universo conceptual de visual marcante.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Comics


Black Hammer #05: Jeff Lemire diverte-se com as tropes dos comics de super-heróis nesta série onde após salvar a cidade que defendem de mais uma ameaça terminal, os valentes defensores se descobrem isolados da realidade que conhecem numa cidadezinha do hinterland americano. Incapazes de sair graças a uma barreira por eles impenetrável, tentam lidar com a aparência de normalidade enquanto ocultam os seus poderes da comunidade onde residem. Entre o deslindar do mistério que isolou estes heróis, Lemire vai recriando com ironia os elementos clássicos dos comics, com uma certa nostalgia. Entre o combatente do crime com os seus punhos, o alienígena exilado e apaixonado pelo planeta, a jovem que ganha poderes graças a um encantamento, o aventureiro espacial golden age com o seu andróide inteligente e a bruxa misteriosa, poucos estereótipos escapam.


Mechanism #05: Com a humanidade encurralada entre hordes invasoras de batráquios bípedes alienígenas e uma inteligência artificial que vê uma oportunidade para exterminar a larga maioria dos seres humanos, recai sobre um misterioso andróide a possibilidade de salvar o mundo como o conhecemos. Apesar de uma história algo confusa, este comic é um delírio visual cyberpunk.

sábado, 19 de novembro de 2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

The Art of Space Travel



Nina Allan (2016). The Art of Space Travel. Nova Iorque: TOR.

Tendo como pano de fundo uma expedição a Marte, uma jovem encarregada de limpezas de um hotel de aeroporto procura saber a verdade sobre o seu pai. A sua mãe, antiga cientista espacial, agora demente, em casa, vítima do rescaldo do falhanço da primeira missão marciana, nunca lhe contou quem era o seu pai. A jovem suspeita que poderia ter sido um dos astronautas da missão que se despenhou na superfície marciana, mas a verdade está surpreendentemente perto de si. Com tanto drama pessoal, quase passa despercebida a segunda missão a Marte, cujos astronautas pernoitam no hotel antes de partir para a órbita terrestre.

Vindo de quem vem, não surpreende este tipo de FC em que os seus conceitos e pressupostos sejam o pano de fundo para histórias de drama humano, com personagens de maior profundidade do que se espera no género. Nina Allan é uma das representantes britânicas de uma FC socialmente consciente, progressista, inclusiva, aberta à diversidade cultural e feminista. Deixa para trás alguns dos elementos que são queridos aos fãs. Há por aqui pouco sense of wonder no sentido clássico. No entanto, representa uma necessária evolução do género literário, para que não caia no paradoxo de se assumir como especulativo e progressista enquanto fossiliza nas suas estruturas narrativas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

I Am Providence


Nick Mamatas (2016). I Am Providence. S. Francisco: Night Shade Books.

Ando a perguntar-me se Nick Mamatas não sofreu uma fatwa por parte dos lovecraftianos inveterados, estando agora oculto em parte incerta temendo as hordes pulsantes de fãs irados, armados com cthulhus de peluche para o espancar até à morte. Se pegarem neste livro como uma história de terror lovecraftiana, inspirando-se nos mythos do escritor de Providence para expandir um nicho de ficção muito do agrado dos conhecedores de literatura fantástica, desenganem-se. Há uma história, claro, mas pouco aterrorizante, mais em mistério policial do que no vácuo cósmico niilista que esperamos deste género de ficções.

Mamatas leva-nos ao fandom profundo, numa história onde a maior convenção de fãs de Lovecraft, reunida (onde mais?) em Providence, se torna o palco de dois assassínios misteriosos. Sendo a linha narrativa do livro, não é o que lhe dá interesse. O que torna esta leitura intrigante e divertida é o mergulho que Mamatas faz no espírito do fandom. É um mergulho profundo, e profundamente caricatural. Extrapola e exagera as idiossincrasias dos fãs mais ferrenhos, caricaturando-os de forma corrosiva. Aliás, caricaturando-nos. Todos nós somos fãs de ficções de género, com as nossas bizarrias, ódios de predilecção, livros e  autores que defendemos contra todos e acima de tudo. Vou assumir que este texto não vai ser lido por fãs de futebol, ou amantes exclusivos da literatura mainstream. Na rara eventualidade de alguém destes círculos pegar nestas linhas, não irá compreender o caricaturando-nos.

É por isto que o romance pode ser potencialmente ofensivo. Se se for daqueles fãs que passa horas em fóruns online, discutindo até à exaustão em tons especialmente exaltados nas redes sociais, se entra em despiques por causa de críticas que não gosta, ou se o limiar entre fã ferrenho e troll já tiver sido ultrapassado, ler este livro é deitar gasolina no fogo interior que anima este tipo de fãs. A caricatura é corrosiva, e não poupa ninguém, desde os cosplayers aos aspirantes a escritor, sem esquecer os académicos (inevitavelmente, nem S.T. Joshi escapa). Mas se se for daqueles fãs que gosta das leituras, se intriga com os ideários, discute em tom de partilha, mantém a distância crítica entre a obra e a personalidade do escritor (que, no caso de Lovecraft, é de um muito, para os dias de hoje, incómodo racismo misógino ultraconservador, por muito que o tentemos relativizar com comentários do tipo mas naquela época isso era normal), vai perceber a piada deste I Am Providence.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

The Last Call of Mourning



Charles L. Grant (1988). The Last Call of Mourning. Nova Iorque: TOR Books.

Apanhei Charles L. Grant após um artigo na Lovecraft Magazine que comparava este autor a Ray Bradbury. Demorei a perceber porquê. Num aspecto, a similaridade era óbvia. Grant também partilhava daquele olhar entre o naturalista, o nostálgico e o fantasista sobre a mitografia da small town americana, que Bradbury tão bem sabia explorar. Mas falta-lhe a leveza de linguagem. Tão absorvido fica pelas idiossincrasias das personagens caricaturais que a história passa demasiadas vezes para segundo plano. De tal forma que quando se desenrola o novelo e a história, com aquele volteio final tão típico da ficção clássica de terror, nos surpreende é já um pouco tarde demais para nos agarrar ao livro.

Regressada do seu grand tour pela Europa, a jovem herdeira de uma família venerável de uma pequena cidade da Nova Inglaterra sente que algo não vai bem. Procura-se a si própria, tentando descobrir-se, e funda um pequeno negócio para escapar ao destino expectável de jovem herdeira de família decadente. Mas este não é um romance sobre auto-descobertas de personalidade. Há mesmo algo que não está bem com a sua família. O mistério - aviso, big spoiler, mas dificilmente irão ler este livro, envolve um médico misterioso, que também domina artes arcanas, que se financia transformando os seus pacientes numa espécie de zombies. Mata-os, mas anima-os com vida e uma parte da sua personalidade pessoal. O final é puro terror clássico, com a jovem herdeira a aperceber-se que viveu seis meses junto de mortos vivos, e que até o seu eterno pretendente na terra talvez também seja um morto-vivo.

Não sendo um livro extraordinário, tem um elemento curioso. Algo na ambiência evocada perdura após a leitura, apesar de um estilo que não agarra muito quem lê. Neste aspecto, no deixar algo das icongrafias literárias na mente do leitor, a comparação com Bradbury também é válida.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Visões


Doctor Strange (Scott Derrickson, 2016)

O melhor momento deste filme foi o esperado cameo de Stan Lee. Apareceu como velhote num autocarro, a rir-se incrédulo enquanto lia As Portas da Percepção de Aldous Huxley, sem se aperceber que à sua volta a noção de realidade se diluía de formas inesperadas. É esse o grande ponto forte deste novo filme do universo cinematográfico da Marvel, a forma como se atreve a usar os efeitos especiais para desafiar as percepções dos espectadores. Em Dr. Strange, o real é mutável, cheio de pontos de contacto com realidades paralelas às quais os magos, detentores da linguagem que desbloqueia o código fonte do real, conseguem aceder e manipular.

Este constante desafio à percepção torna-o um filme interessante. Claro, é entretenimento popcorn, mas tempera a habitual luta entre seres de poderes e capacidades hiper-reais com um fortíssimo surrealismo visual, que está no filme não só como efeito mas como vénia aos criadores do personagem. O filme soube caminhar entre o entretenimento puro e o respeito pela iconografia da personagem. O visual surreal que Steve Ditko estabeleceu para Doctor Strange nos anos 60 e 70 ganhou toda uma nova vida graças aos efeitos digitais.
 

Já se sabe que o universo cinematográfico da Marvel difere da continuidade dos comics. Neste aspecto, há neste filme elementos que funcionam, e outros que irritam os conhecedores do historial do personagem. Pessoalmente, a revisão do Ancião como mulher pareceu-me interessante, bem como toda a actualização da história de origem de Strange. Já o rever Mordo como um grande amigo de Strange vai contra todo o historial do personagem. Também não percebi muito bem como é que Wong é promovido de fiel servidor de Strange a um bibliotecário badass. Ou melhor, percebo. Tratam-se de mercados internacionais, dos quais o chinês é o mais importante. Promover um sidekick servil de origem chinesa a personagem principal é uma boa jogada para atrair público na China, mercado que ficou aberto graças à alteração que mais me incomoda. Para não ferir as sensibilidades do governo chinês, Strange recebe a sua educação mística no mosteiro nepalês de Kamar-Taj, colocando de parte toda a história da tibetana Shamballa. Porque menções ao Tibete em filmes que olham com avidez para o mercado chinês são um grande senão.

Filme de entretenimento puro, visualmente espantoso, faz justiça ao personagem. Diga-se que Benedict Cumberbatch, com aquele aspecto alto e desconcertante, é perfeito para encarnar o personagem, e fá-lo deixando aos espectadores a nítida sensação que se está a divertir muito com isso.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Comics


Doom Patrol #03: Danny The Street foi talvez a mais inesperada personagem criada por Grant Morrison enquanto argumentista da série. Não era um super-ser, ou uma entidade cósmica, era uma rua que tinha sentiência e a capacidade de se manifestar em qualquer parte do mundo. Uma geografia com inteligência e personalidade, profundamente borgesiana. Gerard Way, nesta sua reinvenção da série no âmbito da DC Young Animal, vai mais longe e transforma a rua numa pequena cidade que só quer ver os seus habitantes felizes.


Shipwreck #02: Um náufrago de uma experiência secreta descobre-se num mundo desolado e incompreensível, talvez uma realidade paralela à da sua origem. Warren Ellis, como sempre a dedicar-se à exploração do limiar do estranho, com a sua frieza habitual.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

T-Minus: The Race to the Moon



Jim Ottaviani, Zander Cannon, Kevin Cannon (2009). T-Minus: The Race to the Moon. Nova Iorque: Aladdin.

Uma compra irresistível na Dr. Kartoon no Fórum Fantástico. Não dos melhores livros que por lá se encontravam, mas um especial. Daqueles que actualiza a BD como linguagem pedagógica, forma acessível de ensinar às crianças. O tema são os primórdios da exploração espacial, a culminar na primeira pegada humana na lua. Escrito por um físico nuclear transmutado em argumentista de BD, a história é didáctica sem cair no didacticismo. Os eventos estão lá, bem como a informação histórica, contados através de personagens reais que encarnam as enormes equipes de cientistas e engenheiros que desenvolveram a tecnologia capaz de levar o homem para além da órbita terrestre. A cola que reúne o arco narrativo, histórico, é a ilustração, num estilo contínuo e bem conseguido que se mantém ao longo do livro. Notável, a sequência que mostra a primeira foto do nascer da Terra vista da órbita lunar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Wandering Island



Kenji  Tsuruta (2016). Wandering Island. Milwaukie: Dark Horse.

A jovem Mikura voa, num antiquado biplano, entre as ilhas mais dispersas do Japão como piloto de um serviço de correio aéreo. Quando o seu avô morre, descobre - se herdeira de um segredo e de uma missão: localizar uma ilha misteriosa, que parece andar à deriva nas correntes oceânicas do Pacífico. Consegue um vislumbre da ilha, num dos seus voos, quase morrendo por isso. Obcecada, dedica-se às buscas pela localização da ilha à deriva, lenda de pescadores que o seu avô apelidou de ilha eléctrica. Se esta premissa é interessante, o grande ponto alto da série é o estilo gráfico de Kenji Tsuruta. Dá à iconografia do Mangá uma curiosa vertente expressiva, apesar de muitas vinhetas que retratam com rigor a ruralidade das ilhas de um. Japão distante da imagem moderna de Tóquio. São fantásticas as suas paisagens oceânicas, com o pequeno biplano no ar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Weapons of Math Destruction


Cathy O'Neil (2016). Weapons of Math Destruction: How Big Data Increases Inequality and Threatens Democracy. Nova Iorque: Crown.

Aviso à navegação. Este livro é tendencioso. Não é um elogio ao poder dos algoritmos industriais de big data e a sua promessa radiosa de um futuro melhor para cada utilizador dos inúmeros serviços que hoje já a eles recorrem. Também não os apresenta como ameaças incomensuráveis ao estado das coisas. Dos milhões de comportamentos individuais, registados e agregados, emergem padrões que podem ser analisados para optimizar procedimentos. Escrita por uma matemática que trabalhou em algoritmos financeiros até que o crash do sistema financeiro a despertou para os graves problemas sociais que os algoritmos em que trabalhava provocavam, esta obra mostra-nos como funciona em diferentes áreas, algumas insuspeitas, o uso de programas informáticos avançados, capazes de sustentar tomada de decisões com análise e compartimentalização de grandes volumes de dados.

Mostra como a optimização algorítmica de conjuntos de dados agregados com informações sobre indivíduos já caracteriza muitas das abordagens utilizadas hoje pelas indústrias do sector terciário. Os exemplos são muitos, passando por rankings na educação, sistemas de racionalização usados por bancos para decidir a atribuição de crédito ou seguradoras para definir prémios de seguro, técnicas de marketing comercial e político que estilhaçam a ideia de uma mensagem comum para toda a população, métodos de optimização laboral que se reflectem em horários desumanos para os funcionários, à manipulação subtil da nossa opinião moldada por algoritmos opacos que definem  a informação que consumimos nas redes sociais que, cada vez mais, caracterizam os nossos consumos mediáticos.

O problema que este livro levanta não é sobre o uso de algoritmos em si, mas sobre o seu assentar, nalguns casos, em pressupostos falsos, ou o reforço que fazem de crenças e tendências de pensamento. Com isto, o potencial destrutivo é enorme. A discriminação étnica regressa em força, agora assente em dados inocentes que permitem correlações menos inocentes. Os sistemas enviesam-se para responder aos padrões algorítmicos. Erros acontecem, trocas de dados ou brechas. Pior, estes algoritmos podem ser utilizados para maximizar fontes de lucro à custa da manipulação extrema de empregados ou clientes. Coisas que afectam as vidas de indivíduos, a qualidade das instituições, e transformam em letra morta as protecções legais aos direitos humanos e sociais.

Em si, estas ferramentas matemáticas são apenas ferramentas. Os dados nelas colocadas ou as correlações extraídas podem reforçar discriminações, agudizar problemas sociais, ou atropelar liberdades e direitos individuais. Apesar de todas as problemáticas que levanta, a autora mostra que também podem ser utilizados reforçando a construção de sociedades mais justas e progressistas. É uma questão de escolhas legais e económicas.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A Invasão dos Robôs



Leonel Moura (2016). A Invasão dos Robôs. Lisboa: Alêtheia Editores.

Temo que por cá um livro destes caia em saco roto. A sociedade portuguesa tem uma certa aversão à ciência e tecnologia, preferindo o deslumbre com o gadget à reflexão profunda sobre potenciais e consequências da evolução tecnológica. Não é algo que caracterize toda a nossa sociedade, bem sei. Uma das mais gratificantes descobertas que ando a fazer ao mergulhar no mundo do ensino das TIC é ter descoberto muitos professores que se atrevem a ver mais à frente, e a trazer para a sala de aula essa vontade de aprender a fazer e criar com tecnologia. Mas sente-se que quem, por cá, se atreve a mexer ou reflectir com estes temas é uma imensa e dinâmica minoria, vistos com um certo exoticismo. Estes, devorarão este livro em poucas horas, e provavelmente queixar-se-ão da sua simplicidade e aparente superficialidade. Provavelmente já leram muitos outros livros mais profundos sobre o tema. Os restantes, caso frequentem livrarias, quando muito perguntar-se-ão o que é que anda um livro de ficção científica a fazer nas prateleiras de ciências sociais.

Descontem o óbvio clickbait da capa. Este livro não é um retrato alarmante da futura subjugação e extinção da humanidade perante hordes de robots controlados por inteligências artificiais. Apesar de não temer falar de possíveis consequências sociais da evolução da robótica contemporânea, opta antes por um tom generalista e introdutório, falando aos leitores das diferentes vertentes da robótica e inteligência artificial que hoje estão a ser desenvolvidas ou já em funcionamento no nosso dia a dia.

Neste aspecto, A Invasão dos Robôs é um bom livro para se descobrir o fascinante mundo da robótica. Sem aprofundar muito, não sendo esse o seu âmbito, Leonel Moura fala-nos da sua evolução histórica e tipologias, dos robots industriais aos domésticos. Mostra-nos como se tornaram ferramentas indispensáveis em inúmeros campos de actuação humana, nas indústrias, medicina, ciência, defesa ou serviços, para citar os exemplos mais conhecidos. Destaca também o seu papel na educação e nas artes.

Na educação, sublinha a importância da aprendizagem da robótica como forma de estimular a aprendizagem nas tecnologias, potenciando o saber tecnológico logo desde cedo. Pela ausência de menções neste capítulo, suspeito que Leonel Moura não esteja a par do que se passa, hoje, nos domínios da robótica educativa, com apoio institucional a clubes de robótica nas escolas, competições nacionais e internacionais, diversos projectos que em várias formas estão a levar os robots enquanto ferramentas de aprendizagem aos vários ciclos de ensino. A robótica com Lego está por cá bem implementada, e há muitos outros projectos, como o Code2Fly com drones e programação, ou o Anprino, com impressão 3D e arduino, que promovem diversidade de aprendizagens nestas áreas.

Leonel Moura chegou à robótica através das artes, e neste capítulo mostra como, mais ao nível dos algoritmos do que dos equipamentos em si, a capacidade de produção artística evidenciada por mecanismos autónomos programados permite questionar profundamente algumas ideias pré-concebidas sobre arte, tidas como inabaláveis. Os algoritmos complexos fazem mais do que o simples seguimento de instruções programadas, originando comportamentos emergentes, o que coloca em questão a perspectiva tradicional da inteligência e criatividade como uma função superior inerente ao homem.

O livro não deixa de falar nas consequências previsíveis a um médio prazo que se pressente cada vez mais curto da evolução da robótica e sua introdução nos sectores económicos. O exemplo dos empregos industriais que requerem baixas qualificações é o mais óbvio. Falar da possibilidade de desemprego massivo em áreas tidas como invulneráveis à automação soa a alarmismo infundado, mas está de facto em linha quer com algumas vertentes de desenvolvimento das tecnologias de robótica e automação, quer com reflexões de economistas e decisores políticos. Recordaria o The Second Machine Age de McAfee e Brynjolfsson, ou as discussões cada vez mais acesas em círculos ligados à tecnologia e futurismo sobre a necessidade de desenvolvimento de sistemas de rendimento básico universal sustentados pelos rendimentos da automação. Algo que, em si, não é uma ideia nova, já Hans Moravec a tinha postulado com a sua visão de um futuro utópico onde o trabalho ficaria para os robots, libertando os humanos para o ócio (assumo que quem leia isto saiba que o conceito de ócio não é aquela ideia de preguicite negativista que tantas vezes lhe associamos). Não são discussões espúrias, ou de franja. Na recente edição da Wired editada por Barack Obama, o presidente americano e Joi Ito do MIT abordaram estes mesmos temas em entrevista. Neste campo, a posição de Leonel Moura reflecte que se a curto prazo as mudanças terão impacto negativo, a médio prazo poderão trazer a potenciação e expansão das capacidades humanas ampliadas por robótica e automação. É uma visão optimista, que reflecte a capacidade humana de se adaptar aos desafios e evoluir.

A Invasão dos Robôs é um livro interessante, excelente forma de iniciar os leitores mais leigos nos domínios da robótica. Notável por, por cá, ser talvez a primeira obra generalista sobre este tema escrita por um especialista para o público português. Não pretende ser profunda, antes, é um ponto de partida de conhecimento e reflexão. Neste aspecto, tem uma falha: a ausência de uma bibliografia que mostre as fontes consultadas pelo autor, e dê ao leitor sugestões para aprofundar estes temas.

Pequenas coincidências. Depois de passar na livraria para adquirir este livro, entrei numa loja de electrónica e electrodomésticos onde uma sorridente promotora de vendas andava atrás de um robot-aspirador. Ainda acreditam que estes temas sejam assim tão especulativos?

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Comics


2000 AD #2005: Pete Milligan soltou o seu lado cyberpunk na série Conterfeit Girl, onde uma rapariga que vive do roubo de identidades se tenta curar de um vírus apanhado numa das suas incorporações de identidade. Porque neste futuro distópico, roubar uma identidade é mais do que capturar dados e documentos, envolve também memórias e características de personalidade. Ou doenças geneticamente desenvolvidas. O traço da ilustração condiz com o cyber psicadelismo da história.


Prophet Earth War #06: Talvez a série de FC da Image que mais se inspira em Moebius, quer pelo estilismo quer pela visão de um futurismo surreal. A narrativa tem o seu quê de incompreensível, mas a ilustração enche o olho. E de que maneira.


Sheriff of Babylon #12: O final, inquietante, de uma série que se atreveu a mexer na memória contemporânea. Os primeiros tempos da ocupação americana do Iraque são retratados por Tom King, que correntemente é o argumentista da série principal de Batman. O que parece à partida uma história policial depressa se transforma numa parábola sobre nacionalismo, jogos de interesse e as consequências mais tenebrosas da guerra ao terrorismo.

domingo, 6 de novembro de 2016

aCalopsia: Free Lance



Nos tempos bárbaros, entre castelos exóticos e florestas tenebrosas, vivem-se aventuras palpitantes com muitas lutas contra terríveis criaturas. Quem será capaz de sobreviver nestas eras de um passado épico? Os mais valorosos, ou os mais astutos? A Free Lance não lhe falta força e coragem, mas acima de tudo sobrepõe-se uma astúcia percebida como amoralidade. Não sendo uma novidade editorial, tendo sido apresentado na Comic Con, foi uma das boas surpresas da safra de livros com que vim de lá ajoujado. Note-se que este pequeno livro consegiu deixar um não fã de fantasia épica intrigado, divertido e com vontade de ler mais aventuras deste bárbaro herói com espadas e miolos. Free Lance é uma bem conseguida edição independente, na sequência do que o autor já nos mostrou ser capaz de fazer nas suas obras anteriores. Recensão completa no aCalopsia: Free Lance, de Diogo Carvalho e Nimesh Morarji.