terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Wunderwaffen T07: Amerika Bomber



Richard Nolane, Maza (2015). Wunderwaffen T07: Amerika Bomber. Toloun: Soleil.

É sempre divertido regressar a esta série, não pelas histórias em si, mas pelo belíssimo trabalho do ilustrador. Nesta realidade alternativa, a invasão da Normandia falhou e a Alemanha Nazi, com ajuda de avançadas armas de guerra, conseguiu suster os aliados nas várias frentes de combate. As histórias levam-nos ao lado mais esotérico dos mitos urbanos sobre o nazismo e II guerra, com o obrigatório toque ocultista, vril e busca por civilizações subterrâneas. Neste episódio, descobrimos armas de controle da atmosfera e bases secretas na antártida. Mas o que realmente distingue esta série de outras similares é o trabalho do ilustrador Maza a recriar todos aqueles projectos de aeronaves futuristas que os engenheiros do Reich criaram, a maior parte dos quais não saiu do papel. Os mais estranhos, avançados ou revolucionários aviões de combate concebidos no final da guerra ganham vida com o traço rigoroso do ilustrador.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Comics


Lobster Johnson Garden of Bones: Numa edição one off, o lacónico herói que enfrenta o mal de pistolas em riste e o símbolo da garra da lagosta cruza-se com um grupo de praticantes de vudu e os seus zombies relutantes. Acção pulp em modo clássico nesta edição de Lobster Johnson.


Shipwreck #03: Já se tinha intuído nos primeiros números, e agora Ellis abre o jogo. A terra desolada de Shipwreck é uma Terra paralela, explorada pela missão falhada que deixou o astronauta à deriva. Uma Terra que parece um espelho distorcido da nossa, mais cinzenta e com um aspecto generalizado de decadência. Resta perceber qual a simbologia dos bandos de corvos, tão prevalente nesta série.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Juiz Dredd: Guerra Total



John Wagner, et al (2015). Juiz Dredd: Guerra Total. Mythos.

Mega City One não é um sítio simpático para se viver. Não basta a hiperurbanização e a sobrevivência num planeta devastado por guerras nucleares, trancada entre os desertos atómicos da américa e a radioactividade do oceano atlântico, ou os choques de um futuro bizarro. A cidade é casa de Judge Dredd, o que se traduz num constante fluxo de ameaças fatais. Desta vez, um grupo de democratas radicais tenta forçar um golpe de estado que deponha os juízes da liderança dos destinos da cidade à força de bombas atómicas. Dredd vê-se forçado a combater uma ameaça terrorista invisível, correndo contra o tempo para evitar detonações nucleares nos bairros mais populosos da mega cidade. John Wagner igual a si próprio, entre o humor corrossivo e a crítica à nossa contemporaneidade, com um trabalho de cor notável da parte dos ilustradores. Edição brasileira da Mythos, coligindo a série publicada nos números 1408 a 1419 da revista britânica 2000 AD.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A Nebulosa de Andrómeda



Ivan Efremov (1986). A Nebulosa de Andrómeda. Lisboa: Caminho.

Começa como uma intrigante narrativa de exploração espacial, mas depressa se revela aquilo que é: uma especulação optimista, diria que quase propagandista, que extrapola os conceitos ideológicos da sociedade soviética para propor um futuro idílico, onde o triunfo do comunismo libertou o homem do jugo do capital e do individualismo, as etnias se fundiram numa união global, sem fronteiras geográficas e com os antigos países relegados à memória histórica investigada por arqueólogos que consideram repelente a barbárie do passado industrial. Um planeta alterado pela ciência, que modificou a sua superfície transformando desertos e zonas geladas em oasis para a vida. Uma civilização que explora outros sistemas solares e está em contacto com outras formas de vida inteligente através de um sistema de comunicações via rádio, trocando mensagens didácticas que, mercê dos vastos vazios espaciais, demoram milénios a ser recebidas. Uma rede intragaláctica de civilizações que conhecem a sua existência, mas jamais se poderão encontrar.

Através dos personagens do livro somos levados num périplo à sociedade futura. Acompanhamos exploradores abnegados que trocam a sua vida na Terra pelo tempo subjectivo das viagens sub-lumínicas na vastidão interestelar, explorando planetas e deparando-se com formas de vida alienígena, em missões de pesquisa científica. A ciência terrestre é-nos mostrada por astrónomos e arqueólogos, entre os institutos que emitem e recebem as mensagens da rede de comunicações galáctica, as pesquisas arqueológicas nos vestígios da civilização industrial - a nossa, refira-se, ou dos convénios onde cientistas em grupo decidem as grandes questões da humanidade. Num futuro onde é esperado que qualquer um se dedique a trabalhar em várias áreas, onde um grande cientista, depois de terminar a sua comissão num instituto de pesquisa, pode querer ir trabalhar para minas na antártida, somos por aí levados à superfície de um planeta transformado por empreendimentos de trabalho para o bem comum.

O interessante neste livro é a construção de mundo ficcional desta utopia soviética num futuro distante. Não é uma visão partidarista, ou dogmática. Este futuro não é vermelho, mas incorpora os ideais de comunitarismo, superação do indivíduo, união perante grandes objectivos, progresso através da ciência e tecnologia, domínio do mundo natural e igualdade social que estão na base das utopias comunistas. Efremov transmuta aos seus contemporâneos através da ficção científica os grandes ideais que torneavam a sociedade soviética, mostrando-lhes uma utopia futura quase bucólica  que seria o corolário da grande luta social. Efremov não se esquece de incluir um gulag, onde os inadaptados que não se conformam ou se sentem parte da engrenagem social se auto-exilam ou são deportados, embora diga-se que uma ilha paradisíaca onde se leva uma existência pastorícia parece mais agradável do que o inverno siberiano. Depois da leitura, não sei se qualifique o livro como FC no campo das utopias ideológicas, ou propaganda política. Os apelos elementares propagandísticos não estão muito presentes no livro, mas este serve essencialmente como um veículo de transmissão ideológica que ao ser lido, hoje, desperta uma certa ostalgia pelos velhos tempos dos sovietes.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Comics


The Autumnlands #14: Kurt Busiek encerra o segundo arco desta intrigante mistura de pulp, fantasia e FC conseguindo fugir à questão central: o que é, precisamente, o mundo de Autumnlands, onde a magia pode ser ciência, bárbaros de espada em riste controlam nano-implantes digitais, cariátides são robots inspiradas no mito de pigmalião, animais antropomórficos constroem civilizações, e personagens aparentemente divinos se mostram humanos detentores de alta tecnologia? Suspeito que Lord of Light de Zelazny tenha sido uma das fontes de inspiração desta série. Pelo menos partilham a mistura de FC com misticismo.

Batman #14: Uma vinheta surpreendente, a rematar uma sequência impressionante. Creio que nenhum argumentista se tinha atrevido a tornar tão explícita a relação entre Catwoman e Batman. Tom King surpreende com os seus argumentos discretos, contidos, sólidos mas que se atrevem a desbravar terrenos inesperados.

domingo, 8 de janeiro de 2017

sábado, 7 de janeiro de 2017

x + (1/2)





Traços do inverno profundo. Nevoeiro cerrado na Malveira, salas geladas e infraestruturas na Venda do Pinheiro, o último nascer da lua de 2016 nas Gaeiras.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pirate Utopia



Bruce Sterling (2016). Pirate Utopia. São Francisco: Tachyon Publications.

Está claro que Bruce Sterling, como se costuma dizer, has gone native. Já se andava a perceber, quer pelos contos mais recentes, quer pelo fascínio no seu blog com o movimento maker e a cultura inter-fronteiriça do norte de Itália e balcãs. Este texano veterano do cyberpunk enamorou-se do espaço de ideias da europa progressista, das cidades centenárias, história e irreverência. Uma certa atração pela ideia de uma Europa como zona de progresso social, humano e técnico já se notava nalguns dos seus romances (recordo, por exemplo Holy Fire) mas agora que fincou raízes no makerspace de Turim e se divide com Belgrado, o fascínio é confesso e torneia a sua obra, por pouca que seja. Sterling, nos últimos anos, tornou-se um pós-escritor, guru da modernidade que se alicerça num poderoso currículo literário para transmitir as suas ideias, sem que tenha nos últimos produzido obras de fôlego. Longe vão os tempos de Schismatrix ou The Difference Engine.

Curiosamente, este Pirate Utopia ocupa o mesmo espaço conceptual de Difference Engine, o romance a quatro mãos (com William Gibson) que se tornou pedra basilar do steampunk. Pirate Utopia inspira-se numa época e local muito específicos da história europeia, levando o leitor a um delirante e se que mistura figuras históricas e a vertigem do futurismo. Não o de especulação informada sobre futuros, mas o movimento artístico de quebra conceptual com o passado e fascínio pela aceleração mecânica que nasceu em Itália nos primeiros anos do século XX.

Com o fascínio que só quem vem de fora consegue transmitir sobre momentos históricos e culturais a que os nativos de uma cultura sempre viram como normais, Sterling diverte-se a projectar um caldo fervente de futuristas, anarco-sindicalistas, comunistas e outros vibrantes movimentos de mudança na cidade de Fiúme, actualmente Rijeka, transformada numa zona autónoma temporária no final da I Guerra. A revolta de italianos com a entrega da cidade ao recém-fundado reino da Jugoslávia levou um grupo de ardentes patriotas liderado pelo poeta D'Annunzio a tomar a cidade. Na história real, foi coisa que durou pouco, e depressa se metastizou no fascismo de Mussolini, para onde também migraram os ideias de muitos futuristas. Aqui, nesta fantasia de Sterling, D'Annunzio consegue manter Fiúme como cidade portuária e pólo de atracção de todos os rebeldes europeus, que se juntam para criar utopias sociais. Entre estes, encontra-se um antigo engenheiro militar italiano, que depois de passar a guerra a manter as máquinas de combate operacionais no rigor da frente alpina, vai para Fiúme fundar um bando de piratas especializados no roubo de tecnologia e, detentor de uma fábrica de munições abandonada em parceria com uma rija austro-italiana cujo marido se anda a divertir pelas ruas de Viena e Munique em putschs com um certo cabo alemão de bigode inconfundível, se dedica a inventar temíveis torpedos aéreos, a arma decisiva do futurismo. É o mote para uma aventura desconexa com piratas, operárias sindicalistas, líderes rebeldes iluminados como poetas-guerreiros, comunistas que não sabem conduzir carros blindados, condessas italianas amantes de arte radical, e missões de espionagem americanas lideradas pelo ilusionista Houdini e por um escritor de Providence que largou as trevas arcanas da sua imaginação para se dedicar à publicidade, colaborando num projecto secreto místico e tecnológico desenvolvido em Manhattan.

Sterlig cruza nesta intrigante novela elementos das suas vertentes de intervenção cultural. Propriedade intelectual, progressismo social e tecnoluxúria cruzam-se com ecos de vibrantes movimentos culturais do passado, pontos absurdos da história recente e a sensação que coisas interessantes se passam nas franjas do calmo continuum do devir histórico. Não é Sterling no seu clássico melhor, é um mestre à procura de uma nova voz, e a mostrar que claramente se diverte com o processo. A completar o livro estão ilustrações de John Coulthart inspiradas nas estéticas futurista e construtivista, que replicam um pouco do fascínio pela vertigem mecânica afirmado por Marinetti no seu clássico manifesto. E se dúvidas persistem sobe Sterling se ter tornado nativo, há coligida no livro uma fantástica entrevista onde o veterano do cyberpunk discute a história turbulenta do século XX na europa meridional e a importância da fantascienza enquanto género de fusão entre FC, ficção especulativa, fantasia e fantástico.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Visões


Rogue One: A Star Wars Story (Gareth Edwards, 2016).

Fui ver The Force Awakens com um espírito céptico, inclinado a desvalorizar o filme como um produto comercial nostálgico destinado a manter viva a rentabilidade do universo Star Wars. Saí da sala de cinema convencido, depois de noventa minutos de excelente cinematografia que, dentro dos estreitos limites do universo ficcional, recuperou o espírito de aventura clássico dos primeiros filmes.

Claro, estamos a falar de Star Wars, notem que para que qualquer fã conhecedor de Ficção Científica apreciar estes filmes, tem de desligar parcialmente o cérebro. Star Wars é FC no seu pior, sem plausibilidade nem especulação, mera história de aventura entre o western e o medievalismo, com sabres laser e naves espaciais para as quais os limites da física não existem. No entanto, é inescapável e um prazer culposo, admito.

 

Rogue One tinha tudo para ser mais um excelente filme da saga. Os já habituais efeitos especiais de excelência, uma história que completa a linha narrativa do universo ficcional detalhando como é que a Aliança obteve os planos da Estrela da Morte para a história de A New Hope, personagens interessantes e condenados à partida, a boa vontade de um público reconquistado por The Force Awakens. Mas falha redondamente. É um problema claramente técnico de realização, que torna a história desconexa, feita de cenas mal encadeadas, onde as tentativas de piscar o olho aos fãs com meta-referências visuais e verbais se sentem como forçadas e derivativas. Os actores estão especialmente pouco convincentes. Digamos que quando o único personagem com o qual os espectadores conseguem estabelecer empatia é um robot, algo correu muito mal na realização. O pormenor de utilizar actores sintéticos, reconstruindo a figura do falecido Peter Cushing para volta a desempenhar um papel na saga, é demasiado creepy e foi parar ao lado errado do uncanny valley. A técnica está lá, o cérebro detecta o artificialismo e arrepela-se, e as implicações éticas de ressuscitar digitalmente um actor falecido são muito fortes.

Uma história com tudo para ser empolgante, entre aventura, drama e fantásticas batalhas espaciais, acaba por ser um longo bocejo de tédio. Os fãs mais hard-core da série jurarão a pés juntos sobre a excelência do filme, enquanto o analisam em busca de easte eggs, pistas ou outros acenos aos fãs, mas não passa de uma boa história, muito mal contada. Mesmo sendo Star Wars, há limites para o desligar de cérebro.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

The Phantom Atlas



Edward Hitching (2016). The Phantom Atlas: The Greatest Myths, Lies and Blunders on Maps . Londres: Simon & Schuster.

Um catálogo de erros, efabulações, vigarices ou o imaginário a preencher as lacunas do conhecimento que se encontraram ao longo de séculos de cartografia. Uma exploração de terras que nunca existiram mas, durante anos, séculos nalguns casos, fizeram parte dos mapas de navegação que registavam os recantos do planeta. Alguns são a transposição da sabedoria da antiguidade clássica para a era moderna da navegação. A maior parte são erros de localização, confusão entre miragens e terra firma. Não podem faltar as experiências de embusteiros que inventavam novas e maravilhosas terras para colonizar, quer para lucro próprio quer como invenção de aventuras que nunca viveram. O meu favorito é o comentário fugaz de um pintor de mapas do século XVI, creio, que afirma que a existência de uma ilha inexplorada e desconhecida se deve ao capricho da sua mulher, que gostaria de ver uma ilha num espaço vazio do mapa que o marido, meticulosamente, pintava. Resquícios do imaginário a preencher o vazio do conhecimento, nas eras onde boa parte da superfície planetária era desconhecida, algo que hoje nos parece divertido e excêntrico nesta era onde a cartografia ampliada por satélites não deixou um milímetro quadrado deste planeta por esquadrinhar.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Comics


Six Pack and Dogwelder: Hard-Travellin' Heroz #05: Aparentemente, autorizaram Garth Ennis a escrever uma série satírica para a DC. O resultado é estes Six Pack & Dogwelder, sobre uma equipa algo bizarra. O super-poder do seu líder, como o nome indica, é emborcar cerveja, e os restantes são ainda mais estranhos. Há um demónio dos infernos que passa o tempo a berrar o seu nome, uma criatura constituída unicamente pelas entranhas do sistema digestivo, acompanhada do marido, um pervertido que tenta constantemente violar qualquer coisa feminina. E, claro, o segundo elemento do título, um soldador que é compelido a soldar cabeças de cães a criminosos, e que só consegue comunicar quando enfia a mão pelo traseiro de um cão morto, que utiliza como marioneta de ventríloquo. Yep, a DC está a publicar isto. É absurdo e hilariante, com Ennis a ridicularizar num humor corrosivo e visceral todas as tropes do género. Este é o tipo de comic capaz de provocar palpitações de sensibilidade chocada aos mais incautos. Afinal, estamos a seguir a viagem de auto-descoberta de um soldador que precisa de enfiar o braço no rabo de um cão morto para poder falar.


Harrow County #19: É por isto que este é o melhor comic de terror actualmente publicado. Suave, subtil, misturando um bucolismo faulkneriano com horror profundo.


The Mummy #02: Pete Milligan a reinventar o terror da Hammer para a Titan? Os velhos filmes de série B das maldições das múmias são aqui actualizados numa história que envolve vítimas de tráfico humano e elites aristocráticas que se mantém imortais sacrificando vítimas adequadas a um processo de mumificação em vida que reencarna, temporariamente, uma sacerdotisa egípcia. É glorificação de série B, o que é que esperam?

domingo, 1 de janeiro de 2017

Where's my jetpack?




Diria que 2016 foi um ano fantástico, com projectos pessoais que cresceram e me levaram a sítios imprevistos. Mas não é a percepção que se tem de um ano em que denegri-lo se tornou meme. 2016 ficou marcado pelo falecimento de muitas figuras da cultura global, rostos e vozes que nos acompanharam desde que nos recordamos. Desde sempre, até ao dia em que nos recordaram o poder da mortalidade. Chocaram-nos, mas em termos estatísticos não foram mortes inesperadas. Este também foi o ano em que os ideais de progresso parecem ameaçados de regressão perigosa. Brexit, trumpismo, a subida ao poder de políticos autoritários um pouco por todo o mundo, guerras violentas e caóticas contínuas no médio oriente, o espectro do regresso em força dos extremismos religiosos, o jugo um percentista de um neoliberalismo. Não são tendências que nos deixem optimistas, apesar de todos os sinais de progresso tecnológicos e científico, e da vontade de construção de um mundo global mais justo e sustentável.

Dizem os historiadores que o século XX só começou realmente não em 1900, mas 1915, nas trincheiras da frente ocidental, quando o velho mundo proto-industrial da honra aristocrática enfrentou a matança industrial na lama varrida a metralhadora. O século XX foi aí forjado, a sangue e a dinamite.

É assim que nos sentimos quando a nossa cultura começa a  desvanecer-se? Talvez 2016 seja o ano em que o século XX se extinguiu. Talvez seja isso o que realmente nos choca com o desaparecimento de figuras de charneira da cultura do século XX, e com as evoluções preocupantes da sociedade global. 2017, sucessor do ano assassino, o primeiro ano que se possa dizer verdadeiramente do século XXI. Soa bem?

Se bem que o século XXI é deprimente. Fui à internet marcar viagem nos voos orbitais translunares, com escala na ISS. Estava-me mesmo a apetecer beber um dry martini em órbita, enquanto aguardava o transbordo para a injecção translunar e umas merecidas férias a passear na poeira lunar e relaxar na base. Estava já a antever umas belíssimas selfies com o meu capacete no sítio arqueológico do módulo Eagle. Mas bolas, tudo a que net me deu foram mensagens de 404 file not found. Isto já não se fazem futuros como antigamente. 2017 está aí mesmo ao virar dos dígitos do contador de tempo, e eu ainda não tenho um jetpack. Bolas.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Dr. Estranho: O Juramento



Stan Lee, et al (2012). Dr. Estranho: O Juramento. Oeiras: Levoir.

Três visões sobre a origem deste intrigante personagem da Marvel, contidas nesta edição da colecção Heróis Marvel da Levoir. Primeiro, a visão clássica de Stan Lee e Steve Ditko, datada na estrutura narrativa mas intrigante na estética. Lee e Ditko inspiraram-se no surrealismo e nas contra-culturas dos anos 60 para traçar a estética misticista do personagem, o que se traduz em grafismos arrojados e surpreendentes, muito diferentes do estilo gráfico comum aos comics da época. Em histórias curtas, Lee e Ditko contam a origem de Strange, o seu primeiro confronto com Dormammu, a inimizade com Mordo, o discípulo malévolo do Ancião, e a paixão por Clea, princesa da dimensão negra que só o poder de Dormammu impede de ser avassalada pelos seres sem mente. Um dos pormenores interessantes da Marvel é a forma como entendeu os seus vilões mais marcantes como seres de motivação complexa, que não se encaixam facilmente nas categorias de bem e mal. Nesta série há um excelente exemplo. Dormammu, arqui-inimigo de Strange, com a eterna ambição de conquistar o plano terrestre, é um protector justo dos seus domínios.

Em seguida, o grafismo mais realista, quase noir, de Roy Thomas e Dan Adkins a contar essencialmente a mesma história, condensada numa única aventura em que Strange salvará, novamente, o Ancião dos ataques do seu pupilo renegado Mordo.

A encerrar o livro, uma visão contemporânea. Os esforços de Strange de localizar um elixir que promete a cura para todos os males, para salvar o fiel Wong, acometido por um tumor cerebral, colidem com os interesses de uma indústria farmacêutica apostada em manter o seu domínio lucrativo sobre drogas terapêuticas. Night Nurse, a enfermeira que cuida das maleitas ocupacionais dos super-heróis, personagem raramente aproveitada pela Marvel, entra também nesta história de Brian K. Vaughn com múltiplos níveis de leitura, da aventura de super-heróis à crítica aberta sobre a maneira como a indústria farmacêutica consegue os seus avultados lucros. A complicar a situação, há a intervenção dos fantasmas do passado de Strange.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Babylon's Ashes



James S.A. Corey (2016). Babylon's Ashes. Londres: Orbit.

Tenho sentimentos mistos em relação a este livro. É, por um lado, mais um da série Expanse, em modo space opera, excitante, plausível, e a trazer o melhor da FC enquanto espectáculo ao leitor. Por outro, é mais um da série Expanse, às voltas com as intrigas e guerras entre os habitantes de um sistema solar divido entre a Terra, Marte, a constelação de estações espaciais, asteróides e luas habitadas que forma a Cintura, com alguns laivos da expansão humana para lá dos limites do sistema solar mediada pelos anéis-artefacto alienígena que nos limites do sistema permitem às naves humanas explorar outros sistemas estelares. Ou seja, a mesma história que a série conta desde o primeiro livro, tirando a rara excepção de Cibola Burn, uma espécie de western com biologia incompatível e artefactos alienígenas a colidir com os diferendos entre colonos e corporações num planeta extra-solar.

O irritante na série é que se sente sempre que enquanto mergulhamos nas intrigas bizantinas que culminam inevitavelmente em empolgantes batalhas espaciais, o mais interessante passa-nos ao lado. Não sei se a comparação é justa, mas imaginem o que seria o Senhor dos Anéis se fosse passado integralmente no Shire, centrado nas aventuras de um punhado de personagens que, com um pano de fundo de transformação, se dividem em conspirações e pequenas guerras de controlo territorial, com de quando em vez algumas sugestões de que algo muito maior se passa para lá da história, com Mordor, irmandade do anel e restantes peripécias. Este foco no colapso fraticida da humanidade tem merecido comparação com Game of Thrones, o que não é necessariamente um elogio, a menos que se seja mesmo fã de intrigas palacianas e se ligue pouco às possibilidades imaginárias levantadas por sistemas extra-solares, artefactos alienígenas e armas biológicas adormecidas num tempo em que a humanidade ainda era uma possibilidade celular nos oceanos da Terra primeva. Por muito interessante que seja o enredo da série Expanse, a maneira como não toca nos pormenores intrigantes que despertou logo nas primeiras páginas do primeiro livro, com os efeitos da protomolécula alienígena, focando-se apenas nas lutas políticas musculadas dentro do sistema, chega a ser desesperante.

Especialmente porque está muito bem montada e escrita. Os Corey mantém-se no campo da plausibilidade cientifica e técnica, com poucas concessões. Os artefactos alienígenas e os motores Epstein, capazes de acelerar naves a velocidades sub-lumínicas, são as poucas excepções numa narrativa onde o espaço é vasto, demora semanas ou meses a atravessar, os combates são travados não com lasers e escudos mágicos, mas armas cinéticas e variações orbitais de trajectória. Onde os projécteis de titânio dos canhões protectores das naves que não encontram o seu alvo estão condenados a seguir para sempre a sua trajectória no vácuo do espaço. Ou os efeitos da ausência de gravidade e radiações sobre o corpo são um dos elementos chave da narrativa. São estes pequenos pormenores que dão um valor especial à série.

Este sexto livro da série inicia-se à beira do apocalipse, com a Terra em escombros sob ataque constante de asteróides, lançados pela facção mais radical dos rebeldes libertários da Cintura. Donos de uma poderosa frota desviada à marinha espacial marciana que intitulam de Free Navy, com as Nações Unidas a lidar com o colapso do berço da humanidade, parecem prontos a dominar o sistema, travando a migração humana para lá do sistema solar. A descoberta de planetas habitáveis colocou em risco a sobrevivência das sociedades marciana e da cintura, motivando este ataque que desestabilizou o consenso entre as diferentes facções humanas. No entanto, o que resta da Terra e de Marte não deixam de ser forças poderosas, e a consolidação da Cintura pelos rebeldes da Free Navy colapsa graças à sede de poder do seu líder, cego perante a ruína económica e sistémica a médio prazo provocada pelas suas acções. O resultado é uma aliança estranha entre terrestres, marcianos e rebeldes, que lançam uma frota de reconquista das principais estações e asteróides da Cintura como manobra de distração para possibilitar que, com uma acção cirúrgica, Holden e os companheiros da nave Rocinante consigam conquistar a estação espacial que controla os portais de passagem para os sistemas exo-solares. A cegueira do líder dos rebeldes da Free Navy custar-lhe-á as suas conquistas e a própria vida, com a união entre as facções da humanidade a mostrar um novo caminho para os nativos da Cintura, já não os sobreviventes que arrancam a sua subsistência a minerar asteróides, mas como os únicos capazes de garantir a transição de exploradores e comércio entre os planetas colonizados.

Esperemos que a história fique por aqui, com este ponto final de triunvirato entre Terra, Marte e OPA que dá paz ao sistema solar. Ao longo livro os Corey vão largando algumas sugestões do que por aí virá, com algumas interferências de uma das novas colónias que se isolou e parece estar a construir uma base industrial e militar capaz de rivalizar com a do sistema solar, sem nunca anunciar as suas reais intenções. Parece ser por aqui que os autores vão seguir o caminho desta divertida e muito bem escrita Space Opera.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Comics


Black Hammer #06: Pronto, eu sei, é aquela cena pop will eat itself de auto-referências cíclicas na cultura popular, mas Lemire está a fazê-lo tão bem nesta série da Dark Horse... nesta edição, a iconografia e narrativa inspiram-se nos clássicos comics de terror em antologia, com personagens repelentes a servir de anfitrião aos leitores em busca de arrepios. 


Batman #13: Depois dos divertidos delírios de Zack Snyder à frente de Batman, a DC trouxe Tom King para dar um tom mais conservador, de regresso ao classicismo, ao personagem. King está a revelar-se um argumentista de trabalho muito interessante. Com um tom discreto, marca profundamente as personagens com que trabalha. A sua temporada à frente de Vision, da Marvel, surpreendeu, tal como a série Sheriff of Babylon, talvez a mais madura das edições recentes da Vertigo. Discreto, sólido e claramente clássico na sua aproximação à narrativa em comics, não deixa de surpreender. Como esta espantosa abertura cinematográfica da mais recente edição de Batman.


Locke & Key: Small World: Prendinha de natal da IDW? Joe Hill e Gabriel Rodriguez regressam com uma nova história da premiada e muito apreciada série Locke & Key. Se os eventos da série original se encerraram, há ainda muito para explorar no passado desta família guardiã das chaves que abrem fechaduras inesperadas.

sábado, 24 de dezembro de 2016

void boasFestas


Estamos novamente na época do solstício invernal, e das suas tradições milenares de fugir do frio e da escuridão junto dos que nos estão mais próximos. Se chegou a época natalícia, então felicidades, e corram o código de boas festas!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Dylan Dog: La Paga dell'Inferno; Benvenuti a Wickedford



Giovanni Di Gregorio, Daniele Bigliardo (2014). Dylan Dog #334: La Paga dell'Inferno. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma história agradável do Old Boy. Dylan é convocado ao inferno, ou melhor, a um dos muitos infernos possíveis, para resolver uma série de crimes misteriosos. Alguém está a assassinar as almas de assassinos em série presos no inferno. As convocatórias de Dylan assumem a forma de mortes sucessivas, a única forma que o demónio tem de o chamar à sua presença. O que distingue esta história é o lado onírico que Di Gregorio dá ao inferno. Não um lugar de negrume e ranger de dentes, antes uma indústria burocrática sob constante pressão orçamental, onde um demónio-mor enterrado em papelada tem de gerir a aleatoriedade das almas que lhe chegam com um quadro de pessoal constantemente a ser reduzido. Os demónios desta história são um mimo, um cruzamento de soldadinhos de chumbo com toques de Hyeronimus Bosch.


Michelle Medda, Marco Nizzoli (2014). Dylan Dog #340: Benvenuti a Wickedford. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..


O Inspector Bloch é um dos grandes pilares da série Dylan Dog. Eterno aliado de Dylan na Scotland Yard, mascara a sua boa vontade em ajudar a resolver os bizarros casos em que se envolve o detective dos pesadelos com uma eterna preocupação com a pensão de reforma. É daquelas personagens que pensamos nunca virem a ser alteradas, por estarem tão entrelaçadas no historial da série. Numa recente revisão a Dylan Dog, Bloch foi reformado. Irá passar os seus anos de reforma numa pacata vila à beira mar, enquanto no seu lugar ficará um novo inspector que não suporta tão bem as bizarrias de Dylan Dog. Claramente, uma tentativa de aumentar o peso dramático da série.

Habituando-se às rotinas da vida de reformado, Bloch é visitado em Wickedford pelo seu amigo Dylan. Como não poderia deixar de ser, há um mistério na vila, com o desaparecimento de um grupo de jovens visitantes. O segredo tenebroso envolve um jovem violinista que, sofrendo de elefantíase, tem dentro dele um monstro ainda mais violento.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

REI




Rui Zink, António Jorge Gonçalves (2007). REI. Lisboa: ASA.

Há uma história neste volumoso e surprendente livro. Um jovem português, com uma relação tormentosa com a sua mãe, apresentada como pessoa muito influente e importante, parte para o Japão em viagem de auto-descoberta. Parte inspirado pelo seu professor de artes marciais, um poeta japonês que naufragou em Portugal no 25 de abril e foi ficando, abrindo uma escola de artes marciais sem que realmente seja destas especialmente adepto porque nessa altura os restaurantes de sushi ainda não eram moda. O choque da chegada ao Japão é suavizado pelo encontro inesperado com Rei, uma menina rebelde, talvez a galgar a fronteira entre o real e o virtual, entre a goth girl e a idoru. A história adensa-se quando a mãe decide ir ao Japão procurar o filho, obrigando o seu mentor a regressar ao país onde nasceu. Mas se esperam deste livro uma história de drama familiar, desenganem-se. Finaliza num bizarro toque de ficção científica, com o jovem viajante transformado num banho de nano-partículas onde a sua mãe irá mergulhar, finalizando uma experiência manipulada por uma sombria elite de homens poderosos em que participou.

Mais do que a narrativa, o que deslumbra neste livro é a experiência visual. O seu volume e peso gráfico apontam logo para uma óbvia tentativa de fazer um mangá à portuguesa, replicando a estrutura mas não o estilo gráfico. António Jorge Gonçalves segue um estilo visual mais pictórico, próximo da pintura contemporânea, intersectado por elementos estilísticos de BD clássica, úteis mas pouco predominantes. Todo o livro é uma aventura visual, com um grafismo estimulante que traduz a sobrecarga de sentidos, entre a tradição e a hipermodernidade acelerada, que associamos ao Japão contemporâneo. É impossível não ler este livro sem recordar os vislumbres fugazes, tipo impressões ou vídeo-postais, que Wim Wenders colocou no filme Tokyo-Ga. Afirmando os autores no posfácio que este livro foi escrito após uma viagem ao Japão, tem o seu quê de exorcizar o impacto visual de um mergulho no mundo nipónico para os olhos dos europeus.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Comics


Descender #17: E se o Pequeno Príncipe fosse um andróide, simulacro de criança, inocente mas com capacidades de letalidade extrema? Um toque culto de Lemire e Nguyen em mais um episódio desta excelente série.

 

War Stories #21: Garth Ennis sabe tocar nos pontos certos. As suas War Stories, para além do rigor histórico, equilibram a banalidade do dia a dia dos seus protagonistas com una violência extrema que questiona o sentido da guerra, mas não esquece o lado de adrenalina e aventura. Esta textura complexa distingue o foco de Ennis sobre este género, sendo leituras questionadoras que olham de forma meticulosa para o passado histórico, não o reduzindo a estereótipos militaristas.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Lentes






Semanas afadigadas. Pavilhão do Conhecimento, CCB, Planetário e as luzes de natal na Avenida da Liberdade.

Marcianos


O Mark Watney, out of Mars? Percebemos o que queres fazer, James S. A. Corey. O John Galt também se percebe, mas bolas, Ayn Rand? A cripto-fascista gananciosa e má escritora ao lado da referência ao optimismo científico de Andy Weir? Essa dispensava.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Dylan Dog: Ucronìa



Tiziano Sclavi, Franco Saudelli (2006). Dylan Dog #240: Ucronìa. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..


Sclavi raramente se dá ao trabalho de esconder as suas influências, e este Ucronìa não é excepção. Parte da inspiração sai do romance American Psycho de Ellis, que Sclavi utiliza para basear um dos personagens desta história, um serial killer fascinando pelo luxo a que o argumentista apelida de Brett Ellis. É uma vénia assumida. A mescla de fontes de inspiração, de vénias à cultura literária e cinematográfica do fantástico, é uma das grandes marcas do trabalho deste argumentista e escritor. De certa forma, Sclavi não criava, destilava, recriava, e essencialmente recordava aos leitores o quanto há para descobrir, nas suas histórias de forte textura e múltiplas camadas de sentido.

Se as façanhas do elegante corretor de bolsa são um dos fios condutores desta aventura singular do Old Boy, outra é a obscuridade de um refugiado que se sente sempre perseguido. E talvez o seja. Sclavi vai buscar outra fonte de inspiração à teoria quântica, à simultaneidade do paradoxo de Schrödinger, e lega-nos o que dá a verdadeira força a este episódio de Dylan Dog. Aqui, diferentes realidades coexistem, mundos paralelos em sincronismo, todas as Terras e histórias possíveis coexistem nos mesmos momentos, imperceptíveis até que algo quebre as barreiras da percepção. Dylan é mergulhado numa aventura que testa os sentidos, com constantes vislumbres de realidades que lhe são incompreensíveis. Sclavi não segue a tentação clássica de colocar os seus heróis em realidades alternativas. Antes, cruza-as em simultaneidade, como ondas que vão e vêem. Por vezes, parte da história leva-nos a outros mundos. Noutras, são pequeníssimos pormenores, idiosincrasias visuais que nos mostram que, sem que os personagens se apercebam, o mundo que julgam imutável está sob choque constante de alternativas em fluidez. Das mais tocantes é a curta vinheta em que um ovni se aproxima, ominoso, do planeta onde Dylan e Groucho conversam, mas na sua realidade a Terra é um deserto inóspito. O alienígena afasta-se, perdendo a esperança de encontrar vida, rendendo-se ao vazio existencial de se sentir totalmente só num vasto universo que depressa o engole, enquanto Groucho termina mais uma das suas absurdas piadas.

Uma história de primeira merece um ilustrador à altura, e nesta aventura o grafismo está a cargo do lendário Franco Saudelli, um dos grandes nomes da banda desenhada italiana.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Acedia



André Coelho (2016). Acedia. Cascais: Chili Com Carne.

Nos anos 90, David Lynch realizou uma sitcom. Leram bem. Pegou nas tropes nostálgicas do género e remisturou-as com o seu surrealismo bizarro, em seis brilhantes episódios que contaram as aventuras de um programa de entretenimento televisivo nos anos 50. Googlem a série On The Air, hilariante, subversiva e surreal. Recordo-a porque uma das suas personagens, um operador de efeitos especiais que sofre de um síndrome que o faz ver 25.5% mais do que a visão normal, está construída a partir de uma premissa similar ao deste livro de André Coelho.

Acedia, o torpor da angústia depressiva, do perder empatia e preocupações com o outro, é aqui despertada por um corpo estranho alojado na cavidade ocular de Daniel, o personagem deste livro perturbante. A pressão sobre o olho provoca alterações na visão e percepção, e resta ao personagem escolher o caminho da intervenção médica ou o deixar-se levar numa nova forma de viver, talvez mais libertadora e de assumida anormalidade.

Os livros de André Coelho lêem-se como murros no estômago, e este não é excepção. Obra a solo, o poder narrativo de Coelho não é diluído pelos argumentos de outros autores. O murro é mais forte. O carácter duro do grafismo, entre o experimental e o clássico, com um traço ao mesmo tempo rude e elegante, misturando estéticas, recorrendo à mistura de iconografias entre imagética técnica e desenho, sempre num registo sem compromissos de forte contraste em preto e branco, é o que mais se destaca quer neste livro quer na obra deste autor. A linha narrativa não é muito clara, e suspeito que não o pretende ser. A justaposição violenta de imagens perturbadoras leva o leitor a mergulhar na psique em mutação de um homem que deixou de ver o mundo da mesma forma que os outros, compreendendo a sua confusão, ansiedade e caminho de evolução.

Acedia é profundamente ballardiano nalguns aspectos, como na justaposição entre imagiologia médica e desenho, ou a alteração de carácter induzida por factores externos. O que me recorda. Há uns anos atrás, André Coelho mostrou no Fórum Fantástico pranchas de uma adaptação sua de histórias de J. G. Ballard que, ao meu olhar de fã incondicional deste escritor inglês, me pareceram a transposição para BD das imagens mentais que formei quanto li pela primeira vez os contos em adaptação. Um livro que nunca mais vê a luz do dia, e que aguardo ansiosamente.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Comics


Providence #11: Repararam? Não? Olhem com mais atenção. Um homem, no cerne da sua bibioteca, a ditar palavras a uma secretária que as transcreve? Já repararam?  Alan Moore está a encerrar a sua monumental e tétrica homenagem a Lovecraft, seguindo por caminhos inesperados. Se em toda a série seguiu o percurso de redescobrir os mythos como uma segunda realidade, neste penúltimo volume regressa ao real, e enquanto deixa morrer por suicídio o seu personagem principal (recuperando as casas da morte de Chambers nos contos de King in Yellow) vai-nos mostrado, vinheta a vinheta, o legado do escritor de Providence, desde Derleth e Bloch aos Cthulhuzinhos em peluche.

Pelo meio, esta vinheta. Já perceberam? Escritor argentino, legou-nos uma obra que colocou o fantástico no cânone literário. Marcante e fascinante, bibliófilo. Jorge Luis Borges, acompanhado por Maria Kodama.


Unfollow #14: Esta série toca em pontos curiosos. Instabilidades geográficas, sede narcisista de reconhecimento via meios digitais, o enorme poder dos algoritmos das redes sociais em analisar e categorizar indivíduos em padrões, manipulando as suas percepções através do controle de fluxos de informação.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Ocres





Tons do canto de cisne de um outono que se está prestes a render ao inverno. Foz do Arelho e Torres Vedras.