quinta-feira, 27 de abril de 2017

Battle Angel Alita: Last Order






Yukito Kishiro (2013). Battle Angel Alita: Last Order Omnibus #1. Nova Iorque: Kodansha Comics.

É sempre divertido, se bem que pouco compreensível, mergulhar de chofre no meio de uma longa linha narrativa daquelas tão à japonesa, de cyberpunk hiper-cinético ultra futurista. A acção diverte, a estética seduz, e a leitura oscila entre o fascínio com a descoberta do mundo ficcional e a frustração porque, não se tendo lido os episódios anteriores, parte dos seus conceitos e premissas nos são inacessíveis. Alita - Gunm no original, é nisto uma boa surpresa, transportando-nos a um sistema solar futuro, colonizado mas com a humanidade a divergir em formas exóticas, com venusianos obesos, jupiterianos que trocaram a carne por corpos robóticos, Marte em perpétua guerra civil, e a Terra como berço, nexo político, alicerçada em duas cidades orbitais umbilicalmente ligadas a cidades flutuantes na atmosfera, sob as quais se espraiam gigantescas favelas.

Vamos descobrindo estas camadas de forma progressiva, através da reactivação da andróide de combate Alita às mãos daquele que tem sido um dos seus mais consistentes adversários. Reconstrói a inimiga com as mais avançadas tecnologias, manipulando-a para conseguir ascender aos segredos da cidade orbital. O resto, são cenas intensas de luta e intriga. A cidade flutuante é palco de uma intensa guerra civil quando os seus habitantes descobrem que os seus cérebros são substituídos no final da adolescência por chips com as suas memórias implantadas, e o destino desses cérebros, fazer parte de uma matriz que alimenta uma inteligência artificial, a obsessão do cientista que reconstrói Alita. Ao chegar à cidade orbital, novas e poderosas forças se revelam, aniquilando os mais poderosos, e Alita só sobreviverá com ajuda de um hacker que sobrevive nas entranhas da cidade orbital. O sentimento de viagem infinda, de cada etapa que prometia ser um final se revelar apenas mais um patamar para outro destino, é a grande característica deste livro, bem como a sua típica estética barroca de mangá cyberpunk.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Wunderwaffen T09: The Night Visitor

 
Richard Nolane, Maza (2017). Wunderwaffen T09: The Night Visitor. Toulon: Soleil.

Há uma certa sensação de back to basics neste episódio desta divertida série. Continuam as intrigas que tentam dar uma linha de continuidade a esta ucronia onde, graças às armas inovadoras desenvolvidas pelos seus engenheiros, a Alemanha nazi não foi derrotada em 1945. Uma linha de continuidade que anda por caminhos estranhos, com um ovni marciano enterrado há milénios na antártida e o seu tripulante, um alienígena de estranhos poderes e detentor de tecnologias insondáveis. Desvios de polinização cultural, reminiscentes do clássico The Thing. No seu cerne, esta é uma série de puro gozo com especulação visual sobre projectos de aeronaves que nunca foram construídas, onde os planos mais arrojados ganham cor nas vinhetas. Algo que tem estado ausente dos episódios anteriores, mas que regressa em força, com belíssimas cenas de combate aéreo entre aviões a jacto improváveis, mas pensados no papel, nos céus de um mundo onde a II Guerra não dá sinais de terminar.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Comics


The Wildstorm #03: Neste reboot da série clássica para a DC, sente-se que Warren Ellis quis apostar num recomeço total. Em vez de super-heróis alternativos, leva-nos ao mundo obscuro de agências secretas alicerçadas em tecnologia, sem nos revelar quem, nesta nova série, são os heróis ou os vilões. Pelo caminho, vai deixando easter eggs aos fãs. Como estes cigarros Dr. Mid-Nite, que aparecem na sequência fugaz em que Jenny Sparks, o espírito do século XX, surge na série.

Injection #12: It's all code, diz, mais à frente, a personagem. Dose dupla de Warren Ellis esta semana, e ambas com o autor em grande forma. E, apesar das diferenças óbvias de editora, a tocar nos mesmos assuntos. Poderes obscuros, tecnologia encarada como forma de domínio mas de consequências imprevisíveis no seu resvalar inevitável.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Saber geometrico, mecánico, lógico y secuencial



"En cualquier caso, se puede afirmar que el concepto del Golem, frente a la creation de "seres artificiales" o autómatas, aunque conteniendo aspectos semejantes en el hecho de ser "concebidos", presenta una profunda incompatibilidad en su esencia: mientras el Golem es creado por una suerte de magia esotérico-divina, el automata ha sido realizado por la mecánica humana. Son, por tanto, dos modelos diferentes de vida artificial, y dos formas diferentes de entender el mundo: el primero nace de una vision mística, sintética, simbólica y arcana de los poderes del universo, mientras que el segundo es el reconocimiento al saber geometrico, mecánico, lógico y secuencial del ser humano. "

Ricardo Iglesias García (2016). Arte y robótica: La tecnología como experimentación estética. Madrid: Casimiro Libros.

Visões



Dellamorte Dellamore (Michele Soavi, 1994)

Há uma razão para a obsessão por Dylan Dog neste blog. O fascínio por este personagem de fumetti entre nós desconhecido começou neste bizarro filme de Michele Soavi. O que começou por me atrair em Dellamorte Dellamore, com o qual me devo ter deparado nalguma lista de bons filmes obscuros de terror, foi o seu título. Da morte, do amor, soava estranho para um filme de zombies. Quando o vi, esperava algo depressa esquecível, algum slasher-giallo com maus efeitos especiais, argumento incoerente e situações absurdas. Igual a tantos outros clássicos filmes de terror italianos dos anos 80, aqueles que íamos buscar às prateleiras dos clubes de vídeo, onde geralmente o melhor do filme era a capa da caixa da cassette.

Não podia estar mais enganado, e ainda bem. Dellamorte Dellamore é um filme de pura poesia negra, oscilando entre comédia, terror, fantasia, sensualidade, crime e existencialismo, num registo de decadência gótica rústica e onirismo negro. O absurdismo do filme está logo patente na sua sinopse, enganadoramente simples, como história de um coveiro cuja real tarefa é manter os mortos... mortos.



Na remota e isolada cidadezinha de Buffalora, uma estranha inquietude afecta os recém-falecidos. Ao fim de poucos dias, regressam como zombies, e é o coveiro, com o seu fiel assistente que apenas consegue pronunciar um vocábulo (num excelente trabalho do actor, que com esse vocábulo transmite uma imensidão de emoções), que defende a cidade contra os mortos vivos. O resto, é a história, uma historia de episódios e vinhetas aparentemente dispersas mas que nos contam as aventuras de Francesco Dellamorte, entre hordes de escuteiros zombies, o amor entre o assistente do coveiro e a cabeça de uma adolescente, ainda cadáver fresco na campa, motoqueiros zombie e as suas apaixonadas, toda uma galeria de personagens absurdos, não no sentido caricatural mas num surrealismo de horror. E, como grande foco narrativo, a obsessão amorosa e sexual de Dellamorte por uma mulher que lhe surge sempre com o mesmo rosto, mas encarnada como viúva, cadáver, virgem e meretriz. Ficam poucos tabus por desmontar, neste filme.


Anna Falchi como a grande obsessão de Dellamorte, aqui como viúva intrigada pelo ossuário.


e aqui como morta-viva, num amor impossível.


Alguém mencionou escuteiros zombie?


O verdadeiro amor: Gnaghi e a cabeça da sua apaixonada.

 Presente em todos os capítulos do romance, um poema à morte. Esta foi a forma que Soavi escolheu para transmitir essa ideia no filme.

Diga-se que Soavi faz plena justiça ao livro original de Tiziano Sclavi. Se virem este filme e o acharem apaixonante, estranho e atraente, notem que o romance percorre caminhos ainda mais obscuros. Tudo o que Soavi faz é canalizar a voz de Sclavi, combinada com a sua visão própria de realizador. Consegue com isso dar mais encanto, tornando Dellamorte Dellamore um filme de culto, épico no seu absurdismo lírico.

E o que é que o filme tem a ver com o fumetti? Sclavi pegou em elementos icónicos do seu romance e no ator Ruper Everett, que dá a cara a Dellamorte, para criar Dylan Dog. Dellamorte monta, interminavelmente, um crânio, Dog tem o seu sempre inacabado galeão. Um guarda um cemitério de zombies, outro investiga casos onde o sobrenatural invade o real. Ambos carregam um velho revólver, embora Dellamorte lhe dê mais uso do que Dog, que tem uma tendência para se esquecer da arma. Ambos têm assistentes estranhos, embora o Groucho de Dylan Dog seja mais comunicativo do que Gnaghi. Até nas roupas, uma espécie de uniforme de ganga preta, camisa branca fora das calças e blazer preto são similares, embora ao contrário de Dellamorte, Dog não seja um anti-herói. Sclavi chegou a escrever uma aventura, Orrore Nero, onde estes dois personagens de ADN similar se cruzam, mostrando a continuidade da inspiração do escritos mas sublinhando as suas diferenças fundamentais, contrariando a ideia que, mais do que ponto de partida, Dellamorte Dellamore é igual a Dylan Dog.

Mais incrível do que o filme, foi ter podido finalmente vê-lo de forma condigna, no ecrã de cinema. Graças às Sessões de Culto no Nimas, com curadoria de Filipe Melo, também um apaixonado por este filme peculiar e pelo personagem de Sclavi. Infelizmente, a presença prevista do realizador não se concretizou.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Man-Thing by Steve Gerber: The Complete Collection Vol. 1



Steve Gerber et al (2015). Man-Thing by Steve Gerber: The Complete Collection Vol. 1 . Nova Iorque: Marvel Comics.

Os comics não são conhecidos por ser um género de elevada criatividade. Para cada personagem de sucesso de uma editora, há outras noutras editoras que são estranhamente similares. Man-Thing é a variante Marvel do lendário Swamp Thing da DC, mas sem ter tido a sorte de ter uma época com Alan Moore no argumento. Troque-se os pântanos da Louisiana pelos da Florida, meta-se uma história de origem muito similar mas com algum contorno de protesto - Man-Thing torna-se assim porque o cientista de um projeto militar de criar um super-ser humano, capaz de viver em ambientes poluídos, e morre, ao fugir de uma mulher traiçoeira que lhe quer roubar a fórmula secreta. Uma curiosa inversão da história de como Alec Holland se tornou o monstro do pântano.

O que realmente distingue Man-Thing de Swamp Thing é a sua inconsciência. Esta criatura, que já foi um homem, não retém mais do que leves vislumbres do que é ser humano. Como tal, é atraído, sem saber como nem porquê, para as mais estranhas situações.

Steve Gerber, argumentista clássico da Marvel e criador de Howard The Duck, escreveu este Man-Thing com misto de terror e fantasia, mas também como comic social e politicamente interventivo. Uma das linhas narrativas envolve os esforços de um construtor civil para drenar o pântano e construir um aeroporto, e se soubermos que o magnata se chama F.A. Schist, está tudo dito. Mas nem só de lutas contra plutocratas desrespeitadores da natureza viveu esta série. Também temos rituais secretos, grupos obscuros, ameaças de feitiçaria interdimensional onde hordes de guerreiros de todos os universos ameaçam o lar dos deuses, que se revela uma pradaria bucólica onde seres humanóides tomam conta daqueles que são os verdadeiros deuses - cães, num delírio especialmente psicadélico de Steve Gerber. Coisas que só parecem possíveis nos idos dos anos 70 do século XX.

Entre o psicadélico, o radical underground e o simplista, Man-Thing marca um estranho cruzamento entre comics mainstream, terror e intervenção social. Os seus argumentos não aguentam bem o teste do tempo, mas os pormenores bizarros mostram que, de certa forma, marcou uma época. Note-se que à altura o seu clone da DC não estava a seguir estes caminhos, e só nos anos 80 se transformou no marco que é. Apesar disto, Man-Thing nunca se tornou um personagem de primeira linha, aparecendo como personagem secundário em séries ou continuidades de outros heróis, com algumas raras mini-séries.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Visões



Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi, 1953)

Pode-se perceber muito sobre um filme pela maneira como se inicia e termina. Contos da Lua Vaga acaba como começa, com o plano final a inverter o inicial. No início, o olhar da câmara passa das montanhas aos campos agrícolas, até se fixar numa casa de aldeia onde a acção do filme vai começar. Termina da mesma forma, finalizando as aventuras dos personagens com um plano que nos leva da casa aos campos, acabando sobre as montanhas. Reforça o efeito circular de um filme cuja história levará os seus personagens ao ponto onde começaram, magoados, mais experientes, acabando por abençoar a humilde existência da qual quiseram fugir. As ambições pagam-se caro, neste filme fantasmagórico.



Tobei, o camponês que sonha ser samurai, tenta de tudo para conseguir juntar-se a um exército de senhor feudal. Lá consegue, depois de muito esforço para adquirir armas e armadura. Após uma batalha em que o general inimigo é decapitado por um dos seus samurai, consegue capturar a cabeça e apresenta-se como o conquistador do rival do senhor a quem presta serviço. Consegue, com esse subterfúgio, tornar-se um senhor da guerra, com direito a cavalo e vassalos. Mas há um preço a pagar por atingir o que sempre almejou. Teve de abandonar a mulher e os seus familiares, tendo esta caído em desgraça. Violada por um grupo de soldados, sobrevive como cortesã num bordel. Tudo o que Tobei queria era impressionar a mulher que ama, mas as suas ações quase a destroem. A verdade vem ao de cima num bordel onde se encontram. Compreendendo finalmente o verdadeiro sentido da sua vida, Tobei resgata a esposa, abandona as armas e regressa à aldeia, preferindo a humildade da vida de camponês. Entre a aventura e o absurdo, a história de Tobei é uma caricatura dos sonhos de glória.
 

 Planos como gravuras japonesas


Já Genjuro, cunhado de Tobei, não quer mais do que enriquecer para poder melhorar a vida da sua família. A guerra, para ele, é uma oportunidade. Lavrador e oleiro, vê nas cidades excitadas pelas movimentações militares bons mercados para as suas peças de olaria. Trabalha, esforça-se, quase cegamente, arriscando a alienação da mulher e filho que adora. Arrisca a sua vida e a dos seus familiares para fazer mais peças, atravessando zonas de combate para conseguir chegar às cidades prósperas. Acaba por cair sob o feitiço de dois espíritos, daqueles que não podemos distinguir como malévolos ou inócuos. Sendo espíritos, são uma má influência, mas tudo o que pretendem é o amor. A velha ama de uma dama japonesa, mortas na queda do seu clã, apenas quer que a sua protegida ame e se sinta mulher. Atraído pelas ilusões, sem perceber que o rico palácio onde julga entrar tem os portões arruinados, Genjuro vive delícias no mundo dos espíritos, como esposo da dama Wakasa. Quase esquece a sua condição e a sua família, mas não há sonho que dure eternidades. A ajuda de um monge budista libertá-lo-á dos espíritos, permitindo-lhe regressar à aldeia, onde irá descobrir que a sua mulher foi morta por soldados esfomeados e apenas lhe resta o filho, da família cuja vida quis melhorar. Um pouco como Ulisses na sua Odisseia, mas o regresso à Ítaca de Genjuro não lhe trará os braços da sua Penélope. Resta-lhe o dom de oleiro, continuará os seus dias lavrando a terra com Tobei, criando as suas magníficas peças de olaria.


As mulheres, pilares de força num mundo violento.


 Num mundo flutuante, sob influência de yurei.

Filme num misto fluído de fantástico, aventura, história, drama e lição de moral (sem ser moralista, os personagens têm de experimentar as aventuras para compreender o que realmente é importante para eles), filmado de forma assombrosa. Os planos oscilam entre o dinamismo que nos coloca nos turbilhões das cidades, ou um bucolismo visual quase de ukiyo-e. Todo o filme é composto de cenas visualmente magistrais. Desenvolvemos empatia para com as mulheres, lutadoras sobreviventes os delírios dos maridos, rimos com as desmedidas aspirações de Tobei, compreendemos o que anima Genjuro, deslumbramo-nos com o mundo espiritual de fantasmagorias onde este mergulhará.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Nightcrawler: The Devil Inside; The Winding Way



Roberto Aguirre-Sacasa, Darick Robertson (2005). Astonishing X-Men - Nightcrawler, Volume 1: The Devil Inside. Nova Iorque: Marvel Comics

Confesso que sempre tive um fraquinho por esta personagem dos X-Men. Menos poderoso do que os restantes, com um aspecto deveras bizarro, ar de diabo mas com o azul a desfazer a demonologia, especialista em agilidade e teleportação a curta distância. Os seus poderes não são devastadores, mas a sua argúcia é imbatível, algo que tempera com um forte sentido de espectáculo e um bom-humor imparável.

Nesta sua série individual, Aguirre-Sacasa puxa a um lado sobrenatural que nos comics da série X-Men não era aparente. Nightcrawler, com este ar de demónio azulado, vai-se ver envolvido em mistérios que cruzam o criminal com o sobrenatural. Num, investiga a morte violenta de crianças num infantário, descobrindo que são vítimas de uma cabala de elementos da alta sociedade que, liderados pelo psicólogo do infantário, usam as crianças com elementos em rituais para aprisionar demónios. Coisa que qualquer leitor de terror sabe que nunca acaba bem. Noutro, estranhas aparições no metro nova-iorquino levam Nightcrawler a descobrir a história esquecida de trabalhadores dos primeiros tempos da sua construção, mortos num acidente, e esquecidos pela memória institucional.

Dois contos sólidos de terror, puxando pouco aos elementos de comic de super-heróis que se esperaria de um personagem deste, desenvolvidos ao longo da série de edições coligidas neste livro.




Roberto Aguirre-Sacasa, Darick Robertson (2006). Astonishing X-Men: Nightcrawler, Volume 2: The Winding Way. Nova Iorque: Marvel Comics.

Na continuação da sua série em nome individual, Nightcrawler irá debater-se com a sua história pessoal, revisitando a sua infância e adolescência, os tempos antes de se tornar um X-Man, e a história das ligações ao oculto da sua família adoptiva. A maga cigana que o adotou, vidente num circo bávaro, e a sua filha, irmã adotiva e também ex-namorada de Nightcrawler, estão ligados a forças sobrenaturais perigosas para uma humanidade da qual se tornam guardiãs. E o herói guarda dentro de si, sem o saber, um artefacto determinante para o triunfo das forças do mal. Torna-se por isso alvo dos mais violentos ataques de criaturas sobrenaturais, que culminará num violento combate nos pântanos da Flórida em que até Man-Thing participará, e onde Wolverine será dominado por demónios. Aguirre-Sacasa toma a opção inteligente de interligar os acontecimentos das aventuras interiores nesta linha narrativa, num final onde o demoníaco vilão Mephisto se revela como mais um agente das forças ocultas que irão usar a Terra como campo de batalha terminal do mal contra o bem.

Sem ser extraordinária, é uma leitura divertida em que o género super-heróis é coberto pelo horror sobrenatural. Aguirre-Sacasa faz belíssimos argumentos de terror dentro dos comics tradicionais, e lêem-se aqui algumas das sementes que germinaram posteriormente nas suas impensáveis séries para a Archie Comics, Afterlife With Archie e Chilling Adventures of Sabrina, que reconstroem a iconografia do comic de humor com teenagers dentro das tropes do horror e sobrenatural com toques lovecraftianos. Só um pormenor, que me deixou surpreendido. Se Nightcrawler foi, como sabemos desde sempre, uma atracção de circo na Baviera, como é que os visitantes do circo pagavam dólares para o ver? 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Comics


http://marvel.com/comics/issue/55667/silver_surfer_2016_10: Dan Slott e os Allred são imbatíveis nas doses mensais de psicadelismo pop nos comics mainstream. Longe do grimdark, das narrativas convolutas, ou das transformações radicais de personagens, mantém um registo luminoso, a remeter para o passado do género sem cair no nostalgismo.


Think Tank Animal #02: É, talvez, o comic com o dedo mais bem assente no pulso da geopolítica moderna e suas intersecções com tecnologia. Matt Hawkins faz o trabalho de casa, e cruza muito bem o fascínio pela luxúria high tech com as tendências políticas contemporâneas. Nesta vinheta, o prenúncio de uma invasão russa nos países bálticos, tendo como pretexto atentados contra interesses russos. Parece ficção? Os analistas de publicações como a Foreign Policy discutem abertamente cenários em que Putin, tendo enfraquecido a américa com Trump e a europa com o financiamento à extrema direita, emprega nos países bálticos a mesma estratégia que utilizou na Crimeia, com uma Nato paralisada pelas dissensões internas dos estados que a compõem. Sim, diria que Hawkins está bem informado, e não hesita em utilizar o que sabe em cenários especulativos.

domingo, 16 de abril de 2017

Visões



Ghost in the Shell (Rupert Sanders, 2017)

A herança de um mangá marcante. Uma história interessante, que pega nos conceitos elementares das histórias originais e lhes dá uma nova aventura. Uma estética assombrosa, a repescar a visão clássica dos anos 90 do século passado sobre o futurismo digital. Estética essa que não se perde nos efeitos especiais digitais e mecatrónicos que lhe fazem jus. Personagens interessantes, actores de renome, e aquele fetichismo ocidental sobre o Japão.  

 
Ghost in the Shell tinha tudo para se tornar um excelente filme, fazendo o cyberpunk old school regressar à memória visual colectiva contemporânea. Mas falha, vítima de um trabalho de realização desconexo, que opta por um misto de técnica de telenovela com mau filme de acção. Infelizmente, na arte do cinema, a realização é o fio que une todos os elementos. Por excelentes que sejam, e este filme tem elementos assombrosos, se a união é desconexa o filme falha. Cenas de acção cansativas, momentos dramáticos que não conseguem transmitir os dramas dos personagens, diálogos filmados a estragar a continuidade, as mesmas cenas filmadas de três ou quatro ângulos diferentes mostrados em justaposição.


Esta antevisão dos primeiros cinco minutos do filme mostra bem as suas falhas e pontos fortes: estética impecável, uma acção frenética fragmentada em mútiplos planos desconexos que não valorizam a intricada coreografia da cena.

O que estraga o filme não é o whitewashing de Scarlett Johanssen como protagonista (e diga-se que esta actriz corre sérios riscos de se tornar uma diva de cinema de FC). O filme afunda-se na inépcia do realizador. Aliás, inépcia não diria, apenas baixa capacidade narrativa. Pegaram em alguém mais capaz de telenovelas ou filmes de acção pipoca e metem-lhe este material nas mãos, que claramente não compreende, e revê como filme de acção pipoca com planos de efeitos especiais que servem só para mostrar as capacidades dos efeitos especiais. Quem conhece o mangá sabe que Ghost in the Shell é mais do que isso, quem não o conhece, espero que se arrisque a ler o original e Man-Machine Interface para perceber porque é que valeu a pena ver este filme. Não, não só pelos efeitos, é por toda a imersão nesta distopia cyberpunk, apesar do péssimo trabalho de realização.

sábado, 15 de abril de 2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Renato Jones: The One%



Kaare Andrews (2017). Renato Jones: The One%. Portland: Image Comics.

Isto é, de facto, a crítica ao neoliberalismo gone wild. Neste The One%, seguimos as aventuras de um anti-herói, aparentemente um playboy bilionário que vive com o seu mordomo numa mansão, mas com uma vida dupla a combater... não o crime ou super-vilões pulp, mas os verdadeiros donos do mundo: a elite rarefeita dos um por cento, daqueles que nunca na história humana tiveram tanta riqueza concentrada nas mãos de tão poucos. Kaare Andrews dá-nos uma história alucinante, onde bilionários pervertidos são exterminados com extremo prejuízo por um assassino que vem do seu meio. No mundo real, sabemos que os um percentistas são intocáveis, acima de leis nacionais, protegidos das hordas de cidadãos por políticos subservientes e seguranças bem equipados. Mas neste comic, sabe bem ver caricaturas óbvias de Trump e outros plutocratas a serem desmembrados, esventrados, manipulados e até apenas assassinados a tiro. O ritmo é alucinante, o estilo gráfico a condizer, e o factor catarse elevadíssimo.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

The Stars Are Legion



Kameron Hurley (2017). The Stars Are Legion. Saga Press.

Sabemos o que esperar de uma Space Opera. Vastas paisagens espaciais, civilizações exóticas, intrigas capazes de provocar cataclismas à escala galáctica, aventuras entre naves e cidades alienígenas. É, na sua essência, uma fórmula narrativa, e grande parte da FC Space Opera segue-a à risca. Este livro de Kameron Hurley não é excepção.

The Stars Are Legion mergulha-nos num universo distante, onde diferentes civilizações feudais guerreiam entre si pelo controlo dos seus mundos. Temos intriga, com uma convoluta conspiração pelo controle dos principais planetas por parte de duas mulheres com ambições que não se inserem no habitual espartilho da sede de poder. Temos o obrigatório périplo de auto-descoberta por mundos estranhos, com novas personagens e relações que colocam em causa os pressupostos iniciais. Temos batalhas espaciais, naves, tecnologias. Tudo conforme o expectável na fórmula Space Opera. O que o torna tão especial, então?

A subtileza com que Hurley começa a subverter os pressupostos é impressionante. Começamos a leitura pelo que em tudo aparenta ser mais uma história de FC , mas depressa começamos a notar pormenores que ultrapassam as premissas esperadas. Começamos por perceber que não há personagens masculinas na história, aliás, em todo o livro. Isso não nos é dito explicitamente. Como leitor, iniciei a leitura com os meus habituais pressupostos e fui apanhado de surpresa pela forma como a autora os fez desmoronar. Mas há mais. Os planetas são de facto estações espaciais, mas são tecnologias vivas, tudo no universo deste livro são biotecnologias. Naves, armas, utensílios são formas de vida ou excreções de formas de vida, parte integrante do ecossistema das naves-planeta. Como iremos descobrir ao longo da leitura, os próprios humanos são elementos do ecossistema, essencialmente utensílios ao serviço da nave, embora se julguem controladores dos ambientes em que habitam. É por isso que não há homens nesta história. As mulheres, os seus úteros, são utensílios ao serviço das naves, produzindo os bens, materiais ou elementos de que a nave necessita. Que podem ser outros humanos, ou peças de equipamento. A simbiose é tão completa que a morte implica a reciclagem dos elementos corporais pela nave, tornando-se nutrientes que irão alimentar os seres vivos no seu interior.

Este desvio inesperado para a biotecnologia, construindo um universo ficcional plausível sem os elementos tradicionais da FC mais hard, é o grande ponto de interesse deste livro. Surpreende, pegando nas fórmulas do género mas atrevendo-se a uma abordagem inesperada, que intriga pela sua frescura.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Robots: The 500-Year Quest to Make Machines Human



Ben Russell (2017). Robots: The 500-Year Quest to Make Machines Human. Londres: Scala.

Em Londres, o Science Museum alberga nestes dias uma fascinante exposição temporária sobre robótica. De visita, optei por não ir ver essa exposição e ficar a conhecer os restantes espaços do museu, mas não resisti a trazer este livro, que não sendo um catálogo exaustivo, nos mergulha quer nos objectos significativos da exposição quer na lógica que determina a sua curadoria.

A história, fascínio e impactos da robótica são explorados em curtos ensaios que, apesar de reduzidos, aprofundam estas temáticas. Em foco está a evolução histórica de uma tecnologia que julgamos apanágio da contemporaneidade, mas cuja existência documentada se remete para a antiguidade clássica. Para os nossos olhos habituados à tecnologia, tem o seu quê de fantástico ler sobre robótica e autómatos na Alexandria Ptolemaica, Idade Média ou Iluminismo. De facto, o conhecimento mecânico tem uma longa história, e as capacidades dos autómatos com mecanismo de relojoaria fascinam, ainda hoje.

Fascínio é outro dos conceitos que caracterizam a nossa relação com estas máquinas. Os ensaios deste livro mostram que a nossa curiosidade contemporânea tem raízes na mitologia grega. Os impactos sociais também são aflorados, embora não os económicos. Pelo meio, há uma curiosa ligação entre autómatos e computação, com a visão dos mecanismos dos autómatos dos irmãos Droz como programação mecânica, Babbage, cujo fascínio com estes mecanismos é bem conhecido, a experimentar jogar xadrez no Mechanical Turk, bem como a conceber uma forma algorítmica de jogar este jogo, e Ada Lovelace a intuir a moderna visão de computação de uso geral ao trabalhar com Babbage nos engenhos analíticos.

A complementar os ensaios estão fotos de alta qualidade de alguns dos mecanismos, proto-computadores, autómatos e robots em exposição.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Comics


Providence #12: Um final magistral para a série onde Alan Moore intersecta as pontas dos mythos de Lovecraft. Ficções que invadem e modificam a nossa realidade, nesta série a realidade transforma-se na ficção lovecraftiana. Uma metáfora da influência tremenda que um obscuro, racista e misógino escritor de estilo discutível mas inegavelmente fascinante acabou por exercer na cultura popular. Sensível ao seu próprio trabalho, Moore encerra Providence com referências aos seus próprios comics lovecraftianos, com personagens de Neonomicon e Yuggoth Cultures a atar as pontas soltas no apocalipse surreal que termina a série.

Black Cloud #01: Continuando no tema das fronteiras esbatidas entre realidade e ficção, esta nova série da Image promete ser interessante, com uma personagem principal capaz de transpor as fronteiras entre a realidade e os mundos de ficção.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Le Cri du Vampire



Carlos Trillo, Jordi Bernet (2011). Le Cri du Vampire. Paris: Albin Michel.

Num registo de humor negro com contornos de algum erotismo, a lendária dupla de argumentista e ilustrador Trillo e Bernet (que nos legaram esse gangster anti-herói que é Torpedo) exploram a ideia que a imortalidade vampírica pode não ser uma ideia tão bela como parece. Aqui, um vampiro consumido pelo amor é procurado por uma das suas discípulas, que ao longo dos séculos não desiste de o encontrar. Estão ambos apaixonados, mas a eternidade é um peso demasiado grande para o vampiro, o que condenará a sua discípula a um suicídio por exposição ao sol, não antes sem ter feito feliz um incauto fotógrafo por ela contratado para procurar o seu amado. História mediana, que vale pelo seu humor negro e traço sensual de Bernet.

terça-feira, 4 de abril de 2017

The Ghost and the Lady



Kazuhiro Fujita (2016), The Ghost and the Lady, Book 1. Nova Iorque: Kodansha Comics.

Porque... Japão, e a sua deliciosa cultura esquisita. A premissa deste mangá assenta num museu de objectos curiosos e a sua curadora, visitada por um fantasma. Estão lançadas as bases para uma série de antologia entre fantasia e horror onde cada episódio se foca na história de um objecto específico, pensa-se. Algo demasiado directo para a cultura japonesa. Em vez de seguir este óbvio caminho, o fantasma que visita a senhora do museu prefere contar uma longa história, sobre a mulher que um dia lhe pediu para a assassinar. Este não é um fantasma qualquer. Antigo duelista profissional, assombra um teatro londrino, e é contactado por uma jovem desesperada que quer pôr termo à vida sem se suicidar. Ela tem a rara qualidade de ver os espíritos, e de sentir os espíritos malévolos que dominam cada ser humano, nesta série apelidados de eidolons. Com um sentido teatral assinalável, o fantasma decide matá-la apenas quando a rapariga estiver no seu desespero máximo, protegendo-a contra ameaças enquanto a acompanha, esperando que as suas lutas e decisões a levem ao desespero.

A rapariga não é uma menina qualquer. É uma jovem que se quer dedicar a causas, fugindo ao destino de mulher da alta sociedade. Irá sempre lutar contra os pais e a sociedade que a rodeia para levar a cabo o que acredita ser a sua missão, cuidar dos doentes. Também não é uma enfermeira qualquer. É Florence Nightingale. Se vos parecer estranho ver a pioneira dos modernos cuidados de enfermagem e a história da sua vida transformada em heroína de mangá em mistura de romance e fantasia, só podem culpar as idiosincrasias da cultura popular japonesa.

 
 Kazuhiro Fujita (2016), The Ghost and the Lady, Book 2. Nova Iorque: Kodansha Comics.

A conclusão, de recorte épico, da história do fantasma que protege Florence Nightingale. A série revê a história desta personagem histórica com elementos de fantasia romântica. A colisão final dá-se nos gelos da Crimeia, com o maior inimigo de Nightingale a usar um subterfúgio para a tentar assassinar, e a violenta fantasma que o protege  a enfrentar o simpático fantasma que está sempre do lado de Florence. Tão ao seu lado que a história resvala para um amor impossível, em que nem a morte por velhice da enfermeira poderá aproximar duas almas que se querem. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Artigo 50
























Há uma certa amargura em calcorrear as ruas de Londres nos dias em que o governo britânico invocou o artigo 50 do tratado de Lisboa. Brexit à parte, saí profundamente apaixonado por esta capital de um império desvanecido, cadilho multicultural, onde a arquitectura reflete os séculos e a hipermodernidade, onde nos sentimos num estado de fluxo imparável. É para regressar, para voltar a sentir o pulsar desta cidade, e até porque esta visita foi em acompanhamento de alunos do AE Venda do Pinheiro, ficando de fora a peregrinação à Forbidden Planet.