sexta-feira, 3 de julho de 2015

The Land Leviathan


Michael Moorcock (1974). The Land Leviathan. Londres: Quartet Books.

Segundo volume da trilogia que se iniciou com o influente Warlord of the Air, neste livro Moorcock volta a trocar as voltas ao capitão Oswald Bastable. Nómada dos fluxos temporais, o aventureiro está condenado a viajar por entre mundos alternativos sem nunca conseguir regressar ao continuum de onde proveio. Crendo regressar ao futuro alternativo onde os dirigíveis libertários implantaram uma república equalitária no meio da China, descobre-se num outro mundo, devastado por uma guerra sem quartel nem fim. Nesta nova linha histórica, as façanhas de um inventor legam ao mundo uma prosperidade jamais vista. A utopia parece, finalmente, ao alcançe da humanidade mas as velhas pulsões cedo se voltam a revelar e as nações, agora prósperas e detentoras de tecnologias inimagináveis, mergulham o planeta numa guerra sem fim. Com a Europa e a América arrasadas sob uma chuva de bombas químicas e biológicas, os resquícios imperiais resignam-se a defender-se dos antigos povos nativos, apanhados no meio de novas potências destrutivas.

Restam dois grandes blocos. A oriente, a união Australo-Japonesa mantém-se neutra e prepara-se para a guerra. Em África, um novo império Ashanti unifica a ferro e fogo quase todo o continente e depressa invade as arábias e a europa. Liderado por um tirano sanguinário, descendente de escravos que busca vingar-se das sevícias que a raça branca infligiu aos negros, prepara-se agora para invadir as américas, libertando os negros oprimidos e novamente reduzidos à escravatura pelos decadentes americanos. No que seria a África do Sul, ergue-se um país próspero e benévolo. Liderado por Ghandi, é um farol do que o planeta poderia ser graças ao conhecimento e tecnologia. É ao serviço deste país que Bastable se vai encontrar, após algumas aventuras que o levam a uma Inglaterra devastada pelas bombas e reduzida à barbárie, e se cruzar com piratas submarinos polacos. Como observador, irá participar na invasão Ashanti das Américas, a bordo de uma fragata que irá sobreviver a uma portentosa batalha naval. É aí que se irá deparar com a mais terrível das armas, um leviatã terrestre, fortaleza sobre rodas eriçada com canhões, temível veículo de combate capaz de pôr cobro aos mais valentes exércitos.

Na continuidade da estética de Warlord of the Air, tão influente no movimento Steampunk, Moorcock vira-se agora para as histórias de guerra futura com uma homenagem muito óbvia a The Land Ironclad de Wells. O primeiro livro invoca Robur e todas as histórias de aeróstatos de combate. Aqui a guerra é terrena, o futuro alternativo menos distante, e o ar apocalíptico omnipresente. Implacável, Moorcock joga com preconceitos de raça e ideiais imperialistas. As suas vítimas também são vilões, as tiranias necessárias para pacificar um mundo decaído e em ruínas. Mantém sempre no alto um símbolo de utopia pacifista, de base tecnológicas e científica, mas recorda-nos que é preciso lutar contra forças muito obscuras para atingir esse patamar e que nessa guerra todos os valores são abalados. Um subtexto curioso, dentro de uma aventura empolgante onde, fiel ao género que homangeia, as descrições de portentosas batalhas com máquinas de guerra futuristas imperam, sempre dentro do tom retro-futurista da série.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

As Furtivas Pegadas da Serpente


António de Macedo (2004). As Furtivas Pegadas da Serpente. Lisboa: Caminho.

António de Macedo leva-nos neste livro por dois caminhos que se cruzam de uma forma que não esperamos. Num deles somos colocados nos bastidores da realização de um filme, explorando as tensões entre actores, argumentistas e um realizador cujo maior desafio é encontrar forma de transpôr a sua visão interior para o ecrã. No outro caminho mergulhamos na história que o filme irá contar, uma visão que invoca fantasias mágicas sobre Frei Gil de Santarém. Envelhecido numa Paris cada vez mais sob o domínio de inquisidores dispostos a curar pelo fogo as epidemias de dissidência herética, este médico conhecedor das artes ocultas quer libertar-se do pacto que em tempos estabeleceu com um proto-mefistófoles enquanto se vê envolvido nas tramas dos inqusidores dominicanos, que condenam à fogueira uma princesa cátara que se refugiara em sua casa.

Como leitores, cremos que as duas linhas narrativas irão colidir nalgum momento onde as realidades se cruzam. Mas não, estamos a ver o filme dentro do livro, a visão que o realizador quer fixar no celulóide. Só nos apercebemos disso quando algumas fantasmagorias sonoras parecem repassar do presente ao passado, até compreendermos que não estamos a ler duas narrativas paralelas mas uma só, vista sob uma outra forma de ver. Macedo homenageia aqui a figura faustiana das lendas e tradições portuguesas, um médico que firmou um pacto com o demónio e, envelhecido, se dedica à penitência para derrotar o demónio. Texto que, como observa no livro, antecede em muito a história do Dr. Fausto que viria a inspirar Marlowe e Goethe. Como observa (e muito bem), não tivemos escritores deste calibre a elevar as nossas lendas e tradições aos píncaros dos cânones literários. Esta contribuição do romancista e cineasta que tanto se dedica ao fantástico nas artes recorda-nos aquelas histórias que esquecemos, perdidas no interminável fluxo da cultura contemporânea.

Confesso que me escapa a compreensão do título. Serão as furtivas pegadas uma referência à capa de bonomia que oculta a violência sádica e sede repressiva dos inquisidores? Das tentações da carne que acometem, ou parecem acometer, alguns dos personagens do livro? Referência à luta interminável do demónio untuoso, que vê em cada alma capturada mais uma ferida no corpo divino que deseja, acima de tudo, esquartejar? Nenhum dos personagens deste livro é imune a tentações, sofrendo as suas consequências. Tal como cada um de nós.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Prazeres


Pisquem os olhos, e não dão por isto. O clássico personagem britânico tem chegado ao público português através de edições da brasileira Mythos, que não são tão fáceis de se encontrar quanto se esperaria. Percebi que a livraria do El Corte Inglès costuma ter as megazines brasileiras. Já não vou a tempo de coleccionar a Juiz Dredd, mas de quanto em vez aparecem estas edições especiais, a coligir material mais antigo sob temática coerente. Nesta, a ironia violenta vinda dos tempos thatcheristas que nos ensinam que a democracia não é a melhor forma de governo. Apologia do autoritarismo violento, levada ao absurdo para nos levar a reflectir sobre como é fácil esquecer os valores basilares da moderna sociedade ocidental.


A Comix não faz parte das minhas leituras habituais, mas na edição mais recente tive de abrir uma excepção. Publica a tradução de Dylan Toppi, uma homenagem bem humorada dos argumentistas da Bonelli que usa o estilismo Disney em homenagem bem humorada a Dylan Dog. O título, e a ilustração  são uma vénia profunda a L'alba dei morti viventi, a primeiríssima aventura do detective dos pesadelos às mãos do seu mentor e mais genial argumentista, Tiziano Sclavi. Não se nota na tradução, que nos deu ratos chatos no lugar de alba dei topi invadenti. Tecnicamente correcto, mas perdendo o lirismo bem humorado que remete para a cinematografia de zombies que Sclavi invocou no original. Ainda por cima temos Roberto Recchioni a escrever, o que é garantia de qualidade. A seguir ao genial Sclavi, um caso estranho dentro do panorama dos fumetti, Rechionni tem demonstrado consistentemente ser o melhor argumentista de Dylan Dog, capaz de argumentos que invocam o terror erudito que Sclavi incutiu nas melhores aventuras deste personagem praticamente desconhecido em Portugal. E diga-se que se ao Mickey assenta muito bem este cosplay de Dylan, o Pateta está muito bem como Groucho, o cómico assistente do investigador.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Videojogos em Portugal: História, Tecnologia e Arte


Zagalo, N. (2013). Videojogos em Portugal: História, Tecnologia e Arte. Lisboa: FCA Editora de Informática.

Dei por mim muito atarefado a conquistar território aos mouros. Depois de perceber que precisava de quintas com servos para as cultivar, e mercadores para transportar cereais até aos mercados para gerar riqueza, dediquei-me a treinar um exército invencível. A mistura de besteiros, espadachins e cavaleiros foi reforçada com templários a pé e cavalo. Padres asseguravam a moral elevada das tropas e à laia de artilharia uma força de poderosas catapultas deixava em escombros as defesas do inimigo. Pus-me em campo, passando a moirama a fio de espada. Só soçobrei no alcácer, quando percebi que o esforço para o derrotar me consumiria mais um bom par de horas. Tens que fazer, tens tanto mais que fazer, pensei.

Mas como resistir ao impulso de retro-gaming de Soure 1111, jogo português desenvolvido em 2004 que, emulando a jogabilidade de RPGs como Age of Empires ou World of Warcraft nos leva ao nascimento da nação portuguesa? Este é um dos muitos exemplos que Nelson Zagalo nos leva a descobrir na sua interessantíssima história dos jogos de computador em Portugal. Recensão completa na revista Comunicação e Sociedade #27: Comunicação nos Videojogos: Expressividade, Intermedialidade e NarrativaVideojogos em Portugal: História, Tecnologia e Arte.

aCalopsia: Judge Dredd Megazine Especial Democracia


O fascínio autoritarista sempre foi uma das grandes linhas-guia do Old Stoney Face, pisando uma linha muito ténue entre ironia corrosiva e apologia do iliberalismo. Uma vertente que acaba muitas vezes diluída num Dredd enquanto personagem de aventuras futuristas na estranha mistura de utopia distópica que é o mundo das Mega Cities, cujos habitantes são, em grande maioria, uma caricatura histriónica do mais ridículo que a humanidade oferece. Dredd sempre foi a redução ao absurdo do “If you want a vision of the future, imagine a boot stamping on a human face – forever” de George Orwell no livro 1984. Crítica completa no aCalopsia: Juiz Dredd Megazine Especial: Democracia.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Comics


Annihilator #06: We're done? Graças aos deuses. Por vezes, no seu afã psicadelista, Grant Morrison espalha-se ao comprido. É o que se sente no final desta série que quer tanto ser mind bending que se estampa muito para além da fronteira do compreensível. O ritmo ensurdecedor onde se sente que cada vinheta grita com o leitor não ajuda. O transvasar de realidades entre ficções criadas por um argumentista com um tumor cerebral terminal é um intrigante ponto de partida, desperdiçado por um pouco invejável histerismo narrativo.


Kaptara #03: Seguindo a já notória tendência de sublimar as personagens e temáticas de desenhos animados de uma infância entre os anos 80 e 90 do século XX num absurdismo visceral e histriónico, Zdarsky mete os seus pouco heróicos personagens no meio de uma aldeia perdida na floresta. Capturados por uma tribo de pequenas criaturas, terão de enfrentar o pior inimigo destas ou perecer sob tortura. A piada, óbvia, está nas criaturinhas, um bando de misóginos obesos e monocromáticos que se recusa a participar da restante sociedade por entender que os media não são representativos dos seus pontos de vista. Atrevem-se a mostrar outros, algo que os revolta. Isso e a sua preferência gastronómica por canibalismo, que exigem ser reconhecida como um direito cultural. Convencidos da supremacia das suas ideias, estas balofas criaturas expulsaram a única fêmea da sua tribo por não estarem para aturar complicações emocionais. Se ainda não perceberam a piada, deixo-vos uma dica: Zdarsky está a ironizar os bonequinhos de pele azul que vivem numa floresta, que deliciaram gerações de crianças. Esses mesmo, os Estrumpfes. Aliás, se repararem nos chapéus percebem mais um pouco do humor ridículo e corrosivo desta série.


Where Monsters Dwell #02: Temível, a forma como Ennis desconstrói a figura clássica do personagem masculino heróico das clássicas aventuras na selva ou em terras perdidas. A incompetência do herói adensa-se a cada volteio narrativo. Com uma floresta primeva como recreio de ideias, este ardiloso argumentista vai ironizando com as convenções do género. Como, por exemplo, faz os seus personagens sobreviver às portentosas dentuças de um T-Rex... atravessando uma aldeia de neandertais que irá aquecer o estômago vazio do monstro. Sempre dentro do tema, Ennis ainda nos dá uma luta entre crocodilos e tubarões gigantes, terminando o episódio com nova incursão nos fétiches psico-sexuais quando os personagens se cruzam com uma tribo de esculturais amazonas da selva. Esta série é uma boa desculpa para misturar os ingredientes do pulp clássico e cozinhar algo de muito divertido.

sábado, 27 de junho de 2015

quinta-feira, 25 de junho de 2015

"So-Long" Jim Matou


Ross Pynn (1969). "So-Long" Jim Matou. Lisboa: Galeria Panorama.

Isto daria um excelente mau filme, pensei enquanto lia este clássico do western pulp português. Um sangrento b-movie ou western spaghetti, que hoje não passaria no crivo do politicamente correcto, por muito bom que fosse o possível realizador a passar uma mensagem de ironia. Este livro é, de facto, pulp violento, machista, misógino e xenófobo onde as tropes do género são esticadas ao absurdo.

Acompanhamos So Long, o cowboy clássico de Pynn, numa amarga aventura cheia de mortes e crimes violentos. A sua passagem num campo mineiro granjeia-lhe a morte violenta de uma mulher que o ama, uma vingança inabalável, uma curiosa paixão, o assistir a um assalto bem sucedido e a um violento confronto com uma tribo índia cujas descrições de selvajaria e brutalidade deixarão qualquer leitor de hoje espantado pela visão xenófoba. Mas percebe-se que Pynn apenas estava a responder aos gostos do público da época com um romance que titilava os leitores com as descrições de duelos, lutas, violência sexual, combates entre cowboys e índios, que termina num apocalíptico duelo onde So Long decepa metodicamente o portentoso chefe índio num duelo corpo a corpo de tomahawks.

Isto é pulp clássico, que não pretende ser mais do que é. É intrigante como esta escrita a metro, cheia de pérolas da má literatura que fazem revirar os olhos, mas mantendo sempre um ritmo alucinante, quase cinematográfico.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Cunning Plans: Talks by Warren Ellis


Warren Ellis (2015). Cunning Plans: Talks by Warren Ellis. SUMMON Books.

Creio que não consigo datar com precisão o momento em que me apercebi que venerava Warren Ellis. A coisa deu-se um pouco por acaso, ainda naqueles tempo pré-históricos em que a internet se acedia através de modems analógicos, a blogoesfera mais pura era uma colecção de texto e links, e comecei a seguir uma página escrita por ele. Daí passei aos comics, e fiquei irremediavelmente transfixo pela forma como a mente de Ellis digere tecnologia, futurismo e narrativas empolgantes de banda desenhada. Fiel fã da trilogia divinal Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison, descobri em Ellis algo ausente nestes grandes nomes dos comics: um profundo e difícil de expressar sentimento de compreensão dos limites em constante expansão da modernidade. Há mais no seu trabalho do que bons argumentos e histórias intrigantes. Por detrás destes sente-se uma intricada estrutura conceptual de especulação informada, um andaime conceptual que se deslumbra com a radicalidade da crista da onda científica e tecnológica enquanto especula em direcções inesperadas sobre os seus impactos sociais, morais e civilizacionais. Este carácter, tão ausente de boa parte da Ficção Científica, rendeu-me de vez ao trabalho deste singular autor que se refugia no estuário do rio Thames. Ellis compreende a modernidade tal como Ballard, anteriormente, a sentiu, sendo de certa forma um herdeiro do ballardianismo.

Cunning Plans reúne apontamentos e transcrições de palestras que Ellis tem sido convidado a dar em eventos ligados às intersecções entre tecnologia, design e arte. Sendo um contador de histórias, com um lirismo visceral da palavra electrificada, não se remete para o hype dinâmico ou apresentação estilo TED, com um pé na academia e outro no espectáculo. Ellis tece fiapos de pensamentos que reflectem a condição hipermoderna, misturando narrativas de elementos díspares que se solidificam em pontos de vista inesperados. Não é como Sterling, guru e profeta do admirável mundo novo digital, ou tantos outros oradores conceituados. É um shamã do mundo eléctrico, conjurando noções radicais na mente daqueles que estão encurralados a ouvi-lo com as teias de palavras que urde. Caracterizando as palestras pelos textos, não se trata tanto de aprender coisas novas mas sim de interligar o que se sabe e o inesperado, abrindo novos caminhos para compreender este transiente momento contemporâneo. Estes textos são delícias cerebrais, saída directamente do teclado do shamã da hipermodernidade digital.

terça-feira, 23 de junho de 2015

"Best-Seller" de Ficção Científica


Roussado Pinto (1972). "Best-Seller" de Ficção Científica. Lisboa: Portugal Press.

O que é que andei a fazer a ler esta antologia que é, no sentido literal, mais velha do que eu? Recordem que a FC é um género que preserva a sua memória colectiva, que recorda escritores desaparecidos, reedita continuamente algumas obras marcantes e redescobre periodicamente obras esquecidas. Pegar nesta antologia portuguesa de 1972 é olhar para o passado, para o que se lia e parecia pertinente à época.

Devo ressalvar que esta antologia não tinha por objectivo ser algum olhar revolucionário sobre o género, à época. É uma colecção de histórias que até acaba por ser representativa mas que se nota ter sido criada para atrair leitores e vender livros. O resto, o objectivo mais erudito, é acessório. Ross Pynn, em modo faz tudo, escolheu os contos, escreve introduções para cada um, e até nos deixa contos seus sob pseudónimo. Um, O Voo do XS-102, é muito interessante. A genialidade trashy desta antologia começa nas primeiras páginas, onde o editor assume que optou pelo acaso como critério de selecção e publicação. E isso nota-se, com alguns contos que nada têm a ver com FC, escolhidos porque os leitores reconheceriam os autores dos romances policiais que consumiam.

No meio disto ficamos com uma antologia que consegue meter no mesmo saco Ray Bradbury, Isaac Asimov, Poul Anderson, H.P. Lovecraft e John dos Passos. O ecletismo, aqui, é sublime, embora a qualidade da maior parte dos contos escolhidos deixe muito a desejar. Tal como as traduções, que suspeito terem sido a metro, reduzindo alguns contos à incompreensibilidade.

Esta antologia é hoje um artefacto histórico da FC em Portugal. Chegou-me às mãos por oferta do übergeek Paulo Morgado, exímio caçador destas pérolas na Feira da Ladra. Como acordo mais tarde do que ele e não vivo em Lisboa nunca chego a tempo de as encontrar... como artefacto, achei que merecia ser lido e não colocado na estante, à espera de oportunidade de sair para alguma mostra literária ou bibliográfica.

Nós Vencemos Amanhãs - conto muito curto mas bem estruturado sobre paradoxos temporais. Quando uma armada alienígena vaporiza Vénus, Terra e Marte unem-se para atacar a ameaça. Após a vitória, na sede da vingança, organizam uma armada de naves mais rápidas do que a luz para dar caça aos invasores. Dela nunca mais nada se sabe, até que um cientista se apercebe que a armada voltou atrás no tempo e provocou a catástrofe que gerou a necessidade de criar uma armada vingativa. Simples, bem escrito, apesar da tradução soar algo estranha. Como traduzir "ships" por navios, o que dá um toque de dissonância à narrativa.

O Homem Que Sabia - Conto de J K Marshall, autor desconhecido, que a historiografia da ficção científica não manteve na memória. Ou então, sendo um livro editado por Ross Pynn, nada garante que não seja outro pseudónimo deste prolífico escritor a metro. A história é vagamente sobre mutações induzidas por viagens no espaço, mas é pouco perceptível e está do lado errado da fronteira da incomprensibilidade. Destaca-se o arcaísmo da tradução, que nos dá o divertido "navio astral" no lugar de starship.

O Sorriso de Metal - conto de Alfred Coppel sobre um futuro onde a humanidade se encontra à beira de uma extinção suave. Os avanços da robótica trouxeram robots tão perfeitos que se tornam mais que humanos, e a humanida torna-se obsoleta e vai-se extinguindo, sem gemidos nem dor. Toda a história se centra num autómato que está tão apaixonado pela cultura humana que quer ter um filho, esquecendo-se da condição de infertilidade biológica típica de criatura mecânica.

Um Retrato Perfeito - conto de Alan Nelson sobre um retratista que desenha as pessoas não como são no presente mas como irão ser no futuro, o que geralmente lhe granjeia devoluções dos clientes desmoralizados sobre no que se irão transformar.

Brilho Planetário - desconhecia que Bertrand Russel, filósofo e divulgador científico do século XX, tinha escrito contos de ficção científica. Roussado Pinto desencantou um deles (talvez; com este personagem as fronteiras entre o verdadeiro e o verosímil são muito difusas). Não sendo pérola literária, é uma parábola onde alienígenas funcionam como metáfora para a doutrina da destruição mutuamente assegurada para manter o equilíbrio entre as super-potências americana e soviética. Algo que no nosso contemporâneo mundo multipolarizado nos parece distante e em vias de se desvanecer das memórias.

Jogo de Loiras - conto de John D. McDonald, mais associado ao policial que ao fantástico, onde um homem bêbedo e deprimido encontra redenção graças a uma força misteriosa que lhe permite recuar no tempo e corrigir um pormenor que se tornará decisivo no seu percurso de vida.

Lição de História - finalmente, um dos grandes nomes da FC nesta antologia com um conto de Arthur C. Clarke. Não é dos seus melhores, mas destaca-se pela ironia e pelo ambiente pós-catastrofista. Milénios no futuro, os sobreviventes humanos ao que se assume ter sido um cataclismo nuclear vagueiam pela Terra preservando artefactos de um passado cuja memória perderam. Quando um grupo de cientistas venusianos chega à Terra, ficam particularmente intrigados por um objecto cilíndrico que no seu interior encerra um rolo contendo imagens sequenciais. Percebendo que se o fizerem rodar e projectar conseguem ver o documento, encantam-se com um filme da Disney, antecipando os futuros estudos académicos que permitirão desvendar os segredos das raças humanas desaparecidas da Terra.

Os Homens da Terra - Outro clássico, desta vez um dos contos das fabulosas Crónicas Marcianas de Ray Bradbury. Este é aquele em que os astronautas terrestres chegam a Marte e são recebidos como projecções fantasmagóricas da mente de um marciano doente, algo plausível num planeta onde as capacidades telepáticas podem dar manifestação física às aluncinações. O final, com o supostamente ilusório foguetão a manter-se depois da morte dos astronautas e do psiquiatra marciano que ao ver os seus corpos e equipamentos não se esfumarem, julgando-se também contaminado, acabando por ser um artefacto vendido como sucata, é magistral.

Uma Estrela Portátil - Conto não muito inspirado de Isacc Asimov, sobre dois casais cuja viagem de turismo interestelar sofre uma paragem forçada por avaria num planeta aparentemente sem vida mas habitado por formas de vida que se manifestam na mente dos incautos visitantes. Curioso, o nome do escritor aparecer como Azimov.

Agarrem esse Marciano - Conto curioso de Damon Knight sobre pessoas transformadas em fantasmas desmaterializados ao se cruzarem com um cientista marciano de visita à Terra.

O Voo do XS-102 - Suspeita-se que o autor, R. de Lue, seja um pseudónimo de Roussado Pinto. O conto replica na perfeição a hard SF simplista e inocente dos anos 50 e 60, com o seu quê de Destination Moon e Rocketship X-M. O voo do foguetão experimental deixa um astronauta em apuros. Mas a sua inelutável fuga do sistema solar é travada pela atracção gravitacional da Lua, cuja superfície oculta um fascinante mistério. Afinal, a Lua é habitada por uma civilização avancadíssima que, há milénios, se ia extinguindo numa guerra atómica. Salvou-se passando a ocupar cidades construídas nas cavernas lunares. Seres avançados e benevolentes, capazes de quase tudo com o seu Raio H, ajudam o pobre astronauta a regressa à Terra e à mulher que ama. O conto é uma mistura muito óbvia de variados elementos da FC clássica, não deixando de ser divertido e intrigante. Pergunto-me se o Major Tom, o astronauta do conto, não será um aceno do autor à canção clássica de David Bowie. Se de facto este é um pseudónimo, parece-me bem possível. Este livro data de 1972, a canção de 1969, e Roussado Pinto tinha fama de escrever a muitos metros por segundo. Este conto é uma das curiosidades deste livro.

Preocupação - Conto de Clifford D. Simak sobre o poder da ficção no moldar do pensamento humano, levado ao extremo com um personagem que consegue materializar as ficções que imagina.

Mensageiros da Solidão - Neste conto de Theodore Sturgeon uma mulher espalha a mensagem que recebeu de um disco voador. Mas não trás conhecimento ou perspectivas de invasão alienígena, apenas um curto poema. Porque os discos voadores lançados por civilizações desconhecidas avançadas poderão não ser mais do que o equivalente galáctico às mensagens atiradas ao mar em garrafas.

Apartamento Espacial - Qual será a forma menos traumática de extraterrestres capturarem espécimes humanos para experiências? Que tal camuflar uma nave espacial como um bairro de alta qualidade com rendas de baixo custo, atraindo casais incautos que ignoram estar dentro de uma enorme armadilha? Richard Matheson foi um daqueles autores cuja capacidade narrativa dava forma e interesse a qualquer conceito.

Estrela Fantoche - Conto de Anthony Boucher onde dois alienígenas, perdidos de amor, se encontram na Terra graças aos bons ofícios de humanos com capacidades telepáticas latentes.

A Cor Que Veio Do Espaço - Sim, é esse mesmo, um dos contos do lendário H.P. Lovecraft. Simboliza o ecletismo desta antologia, que apesar de caótica na sua organização tenta cobrir de forma abrangente as várias vertentes e dimensões da FC. Justificada, a inclusão deste conto onde Lovecraft misturou FC com a sua peculiar visão do Terror.

As Nascentes do Nilo - Conto de Avram Davidson, pouco inteligível, talvez pela tradução. Aparentemente tem a ver com a capacidade de antever tendências de futuro, algo que abre possibilidades interessantes para quem trabalha com a cultura pop, sempre dependente dos gostos de um público imprevisível.

O Dia em que Rembrandt se tornou Público - pequeno conto, quase infodump especulativo, de Arnold Auerbach, que imagina o que aconteceria se as grandes obras de arte fossem tratadas como activos financeiros transacionados em bolsa.

Descoberta no Autocarro - Apontamento humorístico de Russel Baker que exorciza os medos de uma guerra nuclear entre os blocos ocidentais e soviético.

O Aprendiz de Feiticeiro - Conto de suspense de Robert Bloch. Uma história sobre uma criança mentalmente diminuída que é manipulada para assassinar um homem, só que a manipulação, baseada nas ilusões da magia, provoca um banho de sangue. Foi difícil perceber como é que um conto destes se enquadra numa antologia de ficção científica. Suspeito que o editor decidiu enfiar um conto de Bloch porque, enfim, é um dos grandes nomes da ficção de género. E não conseguindo encontrar um de pura FC, ficou-se pelo qualquer coisa dá...

A Loja dos Brinquedos - Neste conto de Harry Harrison, os inventores de um sistema revolucionário de propulsão que parece desafiar as leis da física optam por um estratagema curioso para convencer os cépticos: constroem brinquedos que irão intrigar engenheiros e cientistas, levando-os a investigar os mecanismos que contrariam a ciência conhecida.

A Vontade Livre - Conto de Poul Anderson em que um ser vindo do futuro se auto-destrói ao evitar que a humanidade se aniquile no holocausto nuclear. Condoendo-se do destino humano, condena a sua linha temporal a nunca existir. Reduzido a menos que uma memória na mente humana, fica no ar a questão se o fim do perigo de extinção teria sido por efeito do exercer do livre arbítrio humano ou mão divina.

Os Barbeiros - Mesmo relendo o conto de Lawrence Durrell não consegui descortinar quaisquer elementos de ficção científica nesta história bem humorada sobre barbearias. O título da antologia bem nos avisa: "best sellers". E Durrell, à época, era autor de best sellers.

Tudo por uma Gargalhada - Vou assumir que há uma gralha no texto e que o "Mann Rubi" que assina este conto seja o escritor Mann Rubin. A história em si é moralista e concentrada, naquele estilo comercial de suspense e guião para televisão. Um marciano quer compreender o segredo do humor e contacta um comediante falhado para o ensinar. Perante as lições, que se centram no rir do sofrimento alheio, demonstra muito bem que percebeu este negro sentido do humor.

O Infeliz Mr. Morky - Conto de Vance Aandahl onde um personagem se divide e é incapaz de se reconstruir.

Três Prólogos e um Epílogo - Não um conto, um poema, e de John dos Passos, um autor insuspeito de andanças de ficção científica. Poema que é uma ode ao progresso e ao conhecimento científico.

Terra dos Buracos - Conto de Marcus Agnés onde um ganancioso construtor civil se depara com criaturas misteriosas e demoníacas numa propriedade que comprou para obter lucro fácil.

Detective do Século XXX - Roussado Pinto volta a imiscuir-se sob o pseudónimo de Charles de Vet com um conto no limiar do compreensível sobre detectives futuristas que recorrem à telepatia para desvendar conspirações.

O Monstro - O próprio antologista nos avisa que o conto S. M. Tenneshaw é FC no seu mais simplista e infantil, a contar histórias de monstros criados por influência da ciência. Neste não temos bug-eyed monsters, mas um cientista que  sofre as consequências de se expôr a raios cósmicos no seu foguetão.

Salão de Beleza - querendo ser inovador, o antologista decide encerrar a antologia com o que na altura era coisa rara e inédita: um conto de FC escrito por uma mulher. Ideia interessante. Recordem que ainda hoje a questão de género entre os escritores não está ultrapassada e nos anos 70 imperava o machismo nas fileiras da FC. Pynn poderia ter escolhido, por exemplo, algo de Joanna Russ ou James Tiptree Jr., o pseudónimo que permitiu a uma escritora reconhecimento literário num meio hostil. Mas não. A boa intenção desfaz-se em desastre quando o conto de Elisabeth Borgese, esquecida nos anais da FC, se debruça sobre a vacuidade da beleza. O futurismo está num salão de beleza onde as senhoras se vêm pôr bonitas para os seus maridos, que dispõe da mais avançada tecnologia, capaz de transformar as rugas e carnes flácidas em belezas esculturais para melhor agradar aos homens. E não, não é um conto feminista irónico, o que se lê é o que lá está.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Comics


Archie Vs. Predator #03: Devo confessar que é muito divertido ver o venerável Predador a exterminar meticulosamente os eternos adolescentes da Archie Comics. Alex de Campi não poupa no sangue e mutilações, e a ironia segue em velocidade de cruzeiro. Nesta edição até inclui um Robot Archie, o que é impossível não ver como uma referência a um comic britânico clássico.


The Fiction #01: Sabemos que os livros são as portas da imaginação, mas e se um livro conferisse aos leitores o poder de mergulhar dentro dos mundos do imaginário? É essa a premissa desta nova série da BOOM! Studios, com laivos de Lock & Key e The Unwritten, outras séries que também exploraram as fronteiras difusas entre o real e o ficcional. O argumento está a cargo de Curt Pires, que conseguiu deixar em POP! alguns momentos que compensaram o descarrilar desapontador da série em mais um comic futurista de perseguições.


Lazarus #17: Depois de um longo montar de palco, Rucka move-se para terreno clássico da FC e mete-se com o tema da guerra futura. Não entre estados-nação, ou grupos difusos, mas entre famílias oligárquicas que enviam os seus servidores para os campos de batalha. É esse o pano de fundo da série, esta distopia neo-liberal onde famílias financeiras extinguiram os estados-nação e dividiram o planeta entre si.

sábado, 20 de junho de 2015

Time Will Pronounce



Que, irritantemente, não consigo encontrar nos mega canais musicais online. É a maldição de Nyman. Tanta fama com The Piano que os seus mais espantosos trabalhos não são abrangidos pelos algoritmos de pesquisa. Como os String Quartets ou o fantasmagórico Time Will Pronounce.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Seveneves


Neal Stephenson (2015). Seveneves. Nova Iorque: William Morrow.

Este livro deixa-nos indecisos. Pode ser excelente, mas há coisas nele que não jogam bem. A visão é ambiciosa, e há algo de utopia desenfreada na forma como o autor leva a humanidade à beira da extinção para a reinventar. É um livro que vive de exageros absolutos e um espírito de missão ideológica muito vincado. Warren Ellis descreveu-o como um momento Heinlein na carreira do autor, algo que foi escrito para experimentar o estilismo e ideologia e que, mesmo descontado o envolvimento de Stephenson no movimento Hireoglyph, é atípico na visão catastrofista e utópica.

Aviso à navegação. Este é um daqueles livros que não se consegue parar de ler. Ando com uma epidemia de olheiras por causa das longas horas e noites que se arrastaram até à madrugada em leitura quase obsessiva. Stephenson é um contador nato, e neste Seveneves, apesar manter as contagens elevada de páginas quel são típicas deste autor, não revela tanto a tendência que descarrilou Reamde de se perder em páginas infindas de pormenores irrelevantes descritos até à pormenorizada exaustão.

Stephenson assenta numa hard SF duríssima, cheia de especulação futurista informada que extrapola tendências e tecnologias contemporâneas no domíno da genética, aeroespacial, informática e engenharia estrutural. Tempera com o optimismo do grupo Hieroglyph, de futurismo aberto e visões empolgantes que se tentam contrapor ao catastrofismo grimdark que reflecte as crises da nossa era contemporânea. Mas ao levar as especulações ao limite estica muito os limites da Hard SF, o que é bom, mas deixa para trás alguns pormenores estruturais, talvez para tornar a visão narrativa mais abrangente e empolgante. Assume o desespero tranquilo que pervade uma obra como On The Beach de Nevil Shute, onde após uma guerra nuclear os sobreviventes se resignam à morte por radiação nas zonas não afectadas por explosões atómicas mas ameaçadas por uma nuvem radioactiva que se espalha inexoravelmente pelo planeta.

Há uma coisa que incomoda neste livro. A premissa transforma a ideia da sobrevivência da humanidade face a ameaças cósmicas numa urgência, com a lua a ser atingida por um evento que a fragmenta. A princípio a humanidade habitua-se a olhar para cima e ver fragmentos no lugar da esfera lunar, mas os cientistas depressa se apercebem que os inúmeros fragmentos lunares irão cair sobre a terra, provocando uma chuva tremenda de asteróides que irá devastar o planeta. A humanidade descobre-se com um prazo de dois anos para se tentar salvar. O que fazer?

Neal Stephenson lida com a tragédia imediata que se abate sobre todos com a destreza emocional de um autista profundo. Face à morte imimente, governos e populações afadigam-se num projecto de criar à pressa uma base espacial para procurar salvar uma réstea de humanidade. Dado o fascínio do autor por exploração espacial, a possibilidade de refúgio subterrâneo mal é aflorada e segue-se logo para as possibilidades da vida orbital. E é aí que os problemas começam. Stephenson dá-nos uma wild ride de hard sf, criando um refúgio orbital a partir de tecnologias hoje existentes.  E em toda a história de sobrevivência passa ao lado do óbvio problema dos recursos. Naves espaciais são construídas de materiais complexos, os computadores precisam de chips, as baterias degradam-se, os bens alimentares e medicinais esgotam-se. A resposta em como sobreviver quando o cordão umbilical com a Terra se quebra (porque a civilização humana é aniquilada) é uma resposta a que Stephenson foge.

O livro está cheio daquele optimismo sillicon valley, do sim podemos, e sim, vamos fazer, de desenrascar tecnologias e seguir metodologias pouco convencionais, de supremacia conceptual de iniciativa privada sobre instituições científicas. Expande o universo conceptual de Hieroglyph com aquilo que se pode apelidar de de tecnocracia maker/empreendedorista. Ideário que não surpreende, vindo de quem vem. Mas ao apostar tão cedo no absoluto, no argumento da extinção iminente da vida humana apenas evitável por uma ténue jangada no espaço, Stephenson pede-nos uma extensão excessiva da suspensão de descrença. Leva ainda mais longe a docilidade da extinção em que Shute baseia On The Beach.

É sintomático que Stephenson leve a humanidade à beira da extinção por razões sociais e não técnicas. Após a catástrofe que arrasa o planeta (e se prolonga por milénios) os sobreviventes estão divididos entre uma ISS expandida aos limites e um enxame de módulos em órbita. A chegada, no último momento possível, da última presidente americana é ao mesmo tempo uma boa maneira de meter o discreto X37 na história e de desiquilibrar a coesão social. Mesmo enfrentando a extinção, as relações clássicas de poder mantém-se e o choque com a liderança dos astronautas é inevitável. Um grupo solta amarras e decide ir para marte, provocando um acidente que danifica seriamente a estação. Outro grupo, liderado pela ex-presidente, afasta-se da estação espacial e muda de órbita, declarando uma espécie de independência. Resta a cada vez mais diminuta tripulação original para assegurar uma viagem da estação até aos restos da lua, com ajuda de um pedaço de gelo de um cometa resgatado por uma expedição heróica e suicida de um magnata da exploração espacial privada.

Anos depois, porque a mecânica orbital assim o obriga, o que resta destas duas humanidades dividas volta a unir-se, e começa aí o momento mais perturbador do romance. Se entre os astronautas da ISS a mortandade por atrito foi elevada (acidentes, suicídios e degradação física por malnutrição e exposição aos rigores do espaço), a situação no enxame é ainda pior. Das centenas de sobreviventes restam dez, depois do colapso dos sistemas de produção de comida que reduziram as tripulações ao canibalismo. E nesse último momento possível, ainda se mantém as lutas de poder e a vontade de um grupo dominar outro. Claramente Stephenson não acredita na viabilidade dos sistemas morais, preferindo claramente a tecnocracia ténue dos engenheiros. No final, dos milhares de sobreviventes em órbita restarão oito mulheres, que alunam num pedaço da lua e, com ajuda de máquinas de sequenciação genética, irão reiniciar a espécie humana. Aqui nova dificuldade, uma vez que não há homens disponíveis nem restam as amostras criopreservadas de biodiversidade enviadas para o espaço, perdidas em vários acidentes. Resta uma enorme base de dados de pesquisa biomédica e um arquivo de adn digitalizado. E uma bióloga que mistura partenogénese com inseminação artificial para inseminar sete das oito sobreviventes, que irão gerar uma nova humanidade.

Explica-se aqui o título do livro, Seven Eves, sete evas cujos úteros reiniciarão a humanidade a partir dos restos da lua. Suspeito que o número sete não esteja aqui por acaso, dada a sua fortíssima carga simbólica e mítica. Gerar humanos com recurso à engenharia genética permite modificar os parâmetros naturais, e Stephenson claro que segue esse caminho. Dá um salto de 5000 anos e leva-nos a um futuro radioso, com a humanidade espalhada por habitats orbitais a terraformar a Terra, dividida em sete raças que mantém os traços genéticos e comportamentais das suas Evas originais. Mas o que marca é esta atitude de supremacia da técnica sobre o social. Stephenson não foge ao atrito sobre recursos tecnológicos, mas deixa sempre bem claro que o problema real são os humanos e, muito literalmente, leva a sua visão da humanidade ao absurdo lógico, depurando-a de todos os elementos, condensando-a em sete representantes cujas imperfeições são eliminadas pela aplicação judiciosa da genética.

Saltamos 5000 anos, para um futuro em que a humanidade sobreviveu se espalhou pela órbita terrestre. Fieis às raízes, esforçam-se por terraformar o planeta terra, com os seus recursos e capacidades de engenharia clássica e biológica. Os diferentes ramos das sete evas dão origem, com boas doses de manipulação genética e comportamental, a sete sub-espécies de humanidade de culturas e aspectos fisicos diversos. Há uma divisão dualista, com duas facções que mantém entre si o mínimo possível de contactos e estão permanentemente à beira de uma guerra civil. Apesar de depurada, a humanidade mantém os velhos vícios. Num ponto intrigante, estes futuros humanos são mega-engenheiros de excelência, capazes de construir habitats orbitais e terraformar o planeta berço, mas as suas tecnologias digitais estão aquém do que foram nos tempos pré-catástrofe, por escolha civilizacional. É um aceno moralista de Stephenson àquele ideário que lamenta a nossa capacidade tecnológica atingida em aparente detrimento de outras vertentes. Traduzindo: temos nos bolsos dispositivos computacionais altamente potentes, mas mal conseguimos passar da órbita baixa e não construímos mega-estruturas. Um moralismo que esquece que os avanços que levaram o homem à lua foram motivados não pela vontade do progresso mas por imperativos políticos e geo-estratégicos. A nação cujos foguetões fossem capazes de levar o homem à lua garantia que mostrava que os seus mísseis chegavam mais longe que os dos inimgos.

Esta terceira parte é Stephenson a oscilar entre o seu pior e melhor. O arco narrativo envolve um atar de pontas soltas que o autor deixou na primeira parte. Enquanto o cerne da sua história se centra nos sobreviventes refugiados em órbita, deixa algumas linhas narrativas onde grupos específicos se preparam para a catástrofe terminal refugiando-se em túneis profundos ou, com acesso a submarinos nucleares, nos abismos oceânicos. Se sobreviveram é uma pergunta que se vai mantendo ao leitor curioso em pano de fundo ao longo do livro, e a resposta surge neste terceiro capítulo, com o primeiro contacto, em embate violento, entre os descendentes do espaço e os descendentes dos que se refugiaram nas profundezas. Stephenson reflecte a cultura dos habitantes das cavernas como rígida e retrógrada, apesar de manter a literacia e saber tecnológico, com ênfase na patriarcalidade. Da cultura dos sobreviventes vindos dos oceanos pouco nos é revelado, preferindo olhar para as adaptações biológicas que permitiram aos humanos sobreviver debaixo de água. Este final oscila entre infodumps especulativos interessantes e périplos pelos habitats orbitais e terra a reviver de vida, mas a sua força está numa longa aventura de sete espaciais que vão investigar os mistérios dos homens subterrâneos. E aqui é Stephenson no seu mais banal, centrado na acção e aventura, largando a Hard SF que caracteriza o livro para tocar num tipo de história quase pulp.

Incómodo e desafiante, imbuído da Hard SF clássica e espírito heinleiniano, é uma leitura imparável que encanta pela suas especulações tecnológicas informadas e visão magnificente de longo prazo. Talvez, embora seja prematuro dizê-lo, um dos melhores livros de ficção científica deste ano. Concorde-se ou não com o ideário, a técnica narrativa de Stephenson é imbatível e as imagens que invoca perduram na mente do leitor.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Do Futuro nas Escolas


Pequena viagem, motivada por um desafio no fórum do projecto Programação no 1.º CEB. Começemos por uma imagem clássica e bem conhecida, uma das da série En L'An 2000 do ilustrador Villemard (as de Albert Robida são mais giras mas nenhuma versa sobre a forma como concebiam as salas de aula nos futuros imaginados na viragem do século XIX para o XX). É uma imagem que está na fronteira entre o humor e a ficção especulativa, note-se, apesar de ser usada hoje como uma antevisão futurista. Mas sentimo-la como pertinente porque faz sorrir enquanto meditamos numa certa intemporalidade do ensino e aprendizagem.


Saltemos 50 anos (En L'An 2000 vem de 1910) para as concepções de futuro especulativo que o ilustrador Arthur Radebaugh fez para Closer Than We Thinko seu comic semanal. São deliciosos exercícios gráficos de retro-futurismo e utopia tecnocrática dos anos 50, de estética googie (sim, isto é mesmo uma palavra, googlem, vão gostar). Esta é a imagem da sala de aula do futuro, anos 50. Também há uma que especula sobre a aprendizagem com meios electrónicos em casa.


Tem o seu quê de Khan Academy, não tem? Coloquem as crianças frente a um vídeo que elas aprendem. Interacção social é algo opcional...


Esta sala de aula do futuro vem do japão, anos 70, e não consigo estabelecer se é uma visão realmente de especulação ou humorista. Todo o contexto, uma edição da revista Shōnen Sunday dedicada ao admirável mundo novo trazido pelo futuro dos computadores, aponta para especulação informada, mas aquele robot a disciplinar o aluno mal comportado desperta sorrisos. Mas notem as imagens inseridas. Os alunos a falhar e acertar enquanto respondem a perguntas no ecrã descreve bem o software educativo interactivo que temos hoje. A iconografia é a mesma. Só se nota que a foto da rapariguinha de ar interessado a aprender frente ao computador não é actual porque, bem, é nítido que o computador é antigo. Hoje a menina estaria a sorrir olhando para um tablet. O Pinktentacle mostra todas as ilustrações deste retro-futuro potenciado pelo computador.


Já esta é uma daquelas imagens genéricas que encontramos quando pesquisamos sobre sala de aula do futuro ou computadores na educação. Esta. se não me engano, vem de uma  design fiction/flatpack future da Microsoft. Este, Future Vision 2020, creio. O futuro está sempre daqui a dez ou vinte anos nestas especulações corporate.

Conhecem bem estas iconografias, certamente. Salas de aulas com meninos sorridentes a olhar para o ecrã dos portáteis ou, agora, tablets. A clicar nos clickers, contemplando sorridentes os quadros interactivos. Abram um qualquer artigo sobre revolução educativa e a ilustrar vem uma variação deste tipo de imagens. São especialmente acarinhadas por editoras do mercado cativo educacional a querer vender manuais, ou vendedores de software e hardware sorridentes, que nos querem convencer dos enormes benefícios que teremos em adquirir os equipamentos que lhes atravancam os armazéns. Frequentemente recebo catálogos cheios de meninos sorridentes a interagir com equipamentos reluzentes para me convencer a investir dinheiro dos contribuintes a bem das aprendizagens, que, sabendo como sei que tecnologia sem visão pedagógica é tijolo digital, normalmente envio directamente para a reciclagem. Para o ponto azul, o do papel.

Reparem, há um padrão nestas imagens. Mostram visões contemporâneas, nas suas épocas, sobre o futuro da educação imaginado com o impacto dos meios tecnológicos. Mas penso que todas têm um ponto em comum: não conseguem fugir à passividade do aluno enquanto receptor de conteúdos, dando ou tirando um clique num botão ou uma rotação do mostrador do alimentador fonográfico de livros. Em boa parte deles o professor não tem necessariamente de ser humano. É apenas uma imagem num ecrã. Pode ser um actor a seguir um guião. Ou uma animação. Ou até, talvez, um robot.

Porque é que temos tanta dificuldade em escapar a este constrangimento conceptual, especialmente nos dias de hoje, em que abunda investigação de ponta sobre aplicação de tecnologias educativas que mostra o poder de abordagens pedagógicas activas, que apostam na autonomia e criatividade dos alunos, noutros modelos de sala de aula? Em parte, talvez porque funciona, a um nível elementar e introdutório. Também porque fomos ensinados e formados assim, e é-nos dificil sair de uma caixa a que fomos habituados desde pequenos. Se calhar porque os espartilhos do sistema educativo não nos dão muito espaço de manobra. E poder-se-ia continuar a enumerar razões.


Provocação final: que tal um photoshopzinho para meter uns tablets nas mãos destes atentos alunos escolásticos numa sala de aula do século XIII (Bolonha, 1233, mais especificamente)? Não seria assim tão diferente das iconografias futuristas/design fiction que mostrei anteriormente.

Bónus: deixo aqui um link sobre tecnologias educativas futuristas vindo do Paleofuture e outro da Wired, mais polémico, que nos força a reflectir precisamente sobre aquilo que queremos dizer quando dizemos que uma tecnologia trará mudanças de paradigma e revolucionará a aprendizagem: What Technology Will Revolutionize Education. Spoilers: vão adorar quando descobrirem que os videodiscos foram considerados uma tecnologia que iria revolucionar a educação. A partir do minuto 5:28 está o cerne da questão na discussão entre as valências da tecnologia e o papel do professor: "Why do we need teachers? Well, if think the fundamental job of a teacher is to transmit information from their head to their students, then, you're right, they are obsolete.(...) Luckily, the fundamental role of a teacher is not to deliver information, it is to guide the social process of learning". E nisto as tecnologias são uma ferramenta fantástica, mas não um fim em si mesmo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Ghost Fleet


P.W. Singer, August Cole (2015). Ghost Fleet. Nova Iorque: Eamon Dolan/Houghton Mifflin Harcourt

Este é um daqueles livros que consegue ser ao mesmo tempo estupendo e medíocre. Estranha combinação, eu sei, mas se o lado especulativo informado do livro é fantástico e certeiro, como romance é medíocre, previsivel e superfícial. A especulação agarra o leitor, apesar do empecilho literário. O analista e ensaísta P.W. Singer, autor do interessante Wired For War, juntou-se a August Cole para escrever este romance de ficção especulativa que faz lembrar os clássicos da ficção científica que imaginavam guerras futuras.

Em vez de optar por uma análise que extrapola tendências tecnológicas e geopolíticas contemporâneas, os autores seguiram o caminho de uma novela que é empolgante pelo conceito mas desaba na estrutura. Fieis à técnica de escrita comercial de múltiplos pontos de vista, seguimos o percurso de diferentes personagens cujas peripécias as levam ao centro das várias linhas narrativas. Só que estas são meros peões no xadrez da história, autómatos literários superficiais que seguem percursos previsíveis.

É no lado especulativo que este Ghost Fleet deslumbra. Nele, os autores constroem um elaborado e plausível cenário de guerra futura, extrapolando as correntes tendências geopolíticas e tecnológicas. Estamos na segunda década do século XXI, com o mundo a recuperar de mais uma crise financeira, desta vez despoletada por terroristas islamistas que detonam um engenho nuclear sujo na Arábia Saudita e com isso provocam um colapso económico global. A hegemonia americana está em erosão, e uma nova China assume cada vez mais o seu papel como potência global. As transformações sociais trouxeram o colapso do regime comunista, e o pais transformou-se numa ditadura capitalista onde os militares e os grande conglomerados económicos se uniram no poder. Como a contemporânea Singapura, mas à escala continental. Decadentes, os Estados Unidos continuam no entanto como um inimigo formidável, o que não impede os chineses, com algum auxílio russo, de lançar um ataque devastador. No como está um dos grandes voos especulativos do romance. Singer olha para as tecnologias de hoje, lasers, canhões electromagnéticos, caças de quinta geração, coligações supra-nacionais em rede, drones, internet das coisas, pesquisa científica de ponta, e une-as numa especulação coesa sobre um conflito plausível que se caracteriza por rapidez fulminante. O romance começa com uma derrota americana no pacífico, graças a um ataque surpresa russo-chinês que recorre a todos os meios para enganar os adversários. Os primeiros tiros são disparados por caças russos, cuja aliança é mantida em segredo com conflitos fronteiços na Manchúria. Com os americanos focalizados na ameaça chinesa, caças de quinta geração russos penetram no espaço aéreo japonês e neutralizam as bases americanas no Japão com bombas termobáricas. Os porta-aviões e submarinos nucleares, os navios mais importantes das esquadras de combate americanas no pacífico, são afundados por mísseis hipersónicos capazes de localizar a radiação de Cherenkov emitida pelos reactores nucleares. A maior surpresa virá a norte, quando nos portos das ilhas havaianas cargueiros comerciais chineses começam a descarregar drones e tanques, enquanto nos aeroportos voos comerciais se revelam cheios de tropas invasoras. A supremacia espacial americana é aniquilada com tiros certeiros de lasers ocultos na estação espacial chinesa, que destroem todos os satélites de comunicação e posicionamento geográfico. Resta ainda outra arma, mais insidiosa. As mais modernas armas de combate americanas deixam de funcionar, postas fora de combate por malware infiltrado nos elementos electrónicos chineses de baixo custo incorporados nos navios e aviões de combate de custos milionários.

Humilhados, com as ilhas do Hawai ocupadas, a sua presença no espaço anulada, e as tecnologias de que dependem tranformadas num perigo de segurança pelos componentes chineses infiltrados por malware, os Estados Unidos enfrentam ainda colapsos económicos, quando as suas maiores empresas se recusam a colaborar nos esforços de guerra, mostrando serem mais fiéis aos interesses dos accionistas transnacionais do que aos governos. Sendo um romance escrito por americanos, percebemos que a história não acaba na derrota. Um dos muitos pormenores óbvios que tornam este livro num desastre narrativo.

O contra-ataque é outro voo de virtuosidade especulativa dos autores. O restauro do poderio industrial é possibilitado por takeovers de pequenos accionistas sobre os conglomerados, que se afadigam a produzir para o esforço de guerra. Claro que Singer não esquece aqui as tecnologias de impressão 3D. A dominância chinesa no ciberespaço é anulada por uma coligação entre techies de Sillicon Valley e o grupo amorfo que são os Anonymous, que vêem na ditadura chinesa um inimigo maior para a liberdade digital do que as agências secretas americanas. Para capturar a estação espacial um excêntrico magnata inglês decide transformar-se em corsário do espaço e recorrendo a uma nave orbital de turismo galáctico e mercenários, captura a estação espacial chinesa.

Singer detém-se com mais pormenor na frente militar. É evidente o seu deslumbre com o sistema de armamento centrado nas fragatas Zumwalt, que neste livro não passaram de um protótipo que se virá a revelar decisivo. Para contrariar o domínio tecnológico chinês recorre às frotas de aviões de combate e navios armazenados em depósitos (parte daí o título do livro, referência aos navios descomissionais ancorados numa base naval, conhecidos como Ghost Fleet), cujos equipamentos tecnológicos antigos são imunes à influência da ciber-guerra chinesa. Caças F15 e F16 podem não estar à altura dos caças de quinta geração russos e chineses, mas as frotas de drones de combate que se estendem em rede à sua volta. Rebeldes americanos fazem a vida negra às forças de ocupação chinesa nas ilhas havaians, inspirados na experiência prévia de alguns dos combatentes no Afeganistão. E drones são utilizados para tudo, desde ataque de combate a pombos-correio para distribuir mensagens sem passar pelas redes de telecomunicação infiltradas pelo inimigo. Com a NATO colapsada pela vontade da União Europeia de não participar na guerra, os americanos movem a sua influência para dar independência à Gronelândia e assim manterem aberta a passagem do noroeste, vital para transportar as suas forças atlânticas para o Pacífico após a inutilização do canal do Panamá por cargueiros chineses que embateram de propósito nas infraestruturas. É uma intrigante mistura de guerra assimétrica e tecnologia de ponta que Singer e Cole tecem neste voo especulativo.

Nada do que os autores aqui colocaram é imaginário. As inversões geopolíticas, a possibilidade do regime comunista chinês colapsar, sendo substituído por outras formas de autoritarismo, a emergência de novas potências militares são assuntos estudados por analistas. No lado tecnológico os autores metem-se com os suspeitos do costume: robots de combate, armas electromagneticas, combate orbital, redes de telecomunicação e ciberguerra. Afinal, nada menos se esperaria de P.W. Singer. Nestas especulações também sobressai uma forte crítica aos processos de globalização, com as diluições de capital e tecnologia que erodem as regras clássicas de actuação dos estados nação. Há aqui muito daquele espírito crítico americano sobre deslocalização e dependência das manufacturas chinesas, bem como das questões sobre os investimentos multi-milionários em sistemas de armas polémicos, caso dos famosos F-35, caças que depressa são postos fora de combate quando os sistemas GPS de que dependem são aniquilados e os mísseis e sistemas de controlo de tiro não disparam por estarem a ser controlados por chips comprometidos. O livro tem também uma certa nostalgia por guerras frias clássicas, entre grandes blocos de estados-nação, algo de intrigante quando vivemos em tempos em que as ameaças globais estão localizadas e vêem de insurgentes e grupos terroristas que se recusam a seguir as regras da guerra Westphaliana. Pequenos detalhes que dão interesse a uma obra que vale pela especulação informada e não pela qualidade literária. Romances sobre guerras futuras e visões históricas alternativas é coisa que por aí abunda, mas são raros aqueles que se centram em visões rigorosas de especulação.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Visões


Antes de deixar a sua marca indelével no cinema de Horror com Bride of Frankenstein, esse maravilhoso filme de terror gótico bem humorado, James Whale assinou para a Universal este outro clássico do cinema de terror. Em The Old Dark House não se sente o espírito criativo à solta que caracteriza o mais memorável Bride of Frankenstein, mas uma comum história de viajantes encurralados numa casa que oculta um horrendo segredo é levada pelo realizador num crescendo constante de tensão até ao paroxismo final. Destaca-se o ar sombrio da casa, com as sombras a desempenhar um importante papel estilístico, e, graças a uma excepcional caracterização, um cadavérico Ernest Thesiger como anfitrião desta casa sombria. Thesiger viria mais tarde a desempenhar o papel de Dr. Pretorius, o cientista que faz o Dr. Frankenstein parecer mentalmente são em Bride of Frankenstein. As marcas do encarnar o papel com uma excentricidade exuberante e muito própria já se notaram neste filme.


Se se é uma civilização de gafanhotos inteligentes, como é que se resolve o problema do excesso de crescimento populacional? Para os marcianos inteligentes de há milénios atrás, a resposta está em genocídios pontuais. Algo que deixaram marcado no espírito humano quando, em tempos que antecederam a pré-história, tentaram colonizar a Terra com mutações genéticas de antropóides. Deduções que o dedicado Prof. Quatermass faz aquando da descoberta de um misterioso artefacto aquando do alargamento de uma estação de metro londrina. A escavação revela estranhos esqueletos hominídeos e uma nave espacial construida num metal invulnerável às mais modernas ferramentas. No seu interior, os cadáveres preservados dos antigos gafanhotos marcianos. E à sua volta, as estranhas vibrações que se apoderam da mente daqueles que lhe estão próximos, e que transformaram a zona de Hob's End num local maldito. Um clássico da FC britânica, que ainda hoje sabe bem ver.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Comics


Batman #41: Momento WTF DC Comics!? O cavaleiro das trevas foi reinventado como uma espécie de Transformer com... orelhinhas de coelho? Srlsy? Depois de todo o trabalho que Scott Snyder teve a actualizar o cânone do personagem com imenso cuidado com as suas raízes, temos esta consequência do mega-evento da DC deste ano. Resta saber se será catastrófica ou se até irá funcionar. Mas a dissonância cognitiva de ver Batman transformado num uniforme robótico tripulado pelo inspector Gordon é muito grande. Esta revitalização pode ser interessante, mas suspeito que mais cedo ou mais tarde o bom e velho Bruce Wayne e o uniforme clássico irão regressar. É uma metodologia que está no adn das editoras de comics.


Constantine: The Hellblazer #01: Se o novo Batman soa a estranho, este Constantine parece ter sido revitalizado aprendendo as lições do completo falhanço que foi a série anterior. Depois de 300 números de Hellblazer, sempre em grande qualidade, a tentativa de trazer o personagem para a vertente mais comercial e super-heróica da DC foi de bradar aos céus. Não funcionou, porque o personagem não se presta ao simplismo das capas e dos raios lançados das mãos. Por esta nova primeira edição parece que há um compromisso entre a imagem simplificada de Constantine e a complexidade moral de Hellblazer. Pormenores curiosos: o grafismo foi entregue a Riley Rossmo, cujo estilo não se enquadra no mainstream da DC. O trabalho extraordinário deste ilustrador esteve patente nas séries Green Wake, Bedlam e Dia de Los Muertos editadas pela Image. O argumento está a cargo de James Tynion IV, que tem assinado para a Boom! Studios os interessantíssimos The Woods, UFOlogy e Memetic. Com sorte, Constantine voltará a tornar-se uma refência nos comics de qualidade.



Nameless #04: Completamente à solta, sem rédeas editoriais, Grant Morrison pode dedicar-se a estruturas narrativas tão esotéricas que roçam a incompreensibilidade. Que é um pouco um dos encantos deste argumentista. O outro é a forma selvática como solta o bizarro no imaginário. Não é facilmente compreensível para o leitor o que se passa neste Nameless. Será uma alucinação do personagem principal? Estarão de facto astronautas nas cavernas do asteróide que se aproxima da Terra? Terão sido capturados e desfeitos em pedaços, mantidos vivos como bonecos animatrónicos pelos alienígenas vingativos? É desesperante, porque todas estas hipóteses são viáveis e exploradas por um Morrison que se compraz em não poupar o leitor com a complexidade barroca da estrutura das suas histórias.

sábado, 13 de junho de 2015

Padrões




Os dias em que Lisboa se esquece que é uma metrópole e recorda que os seus bairros são como aldeias. Carácter que ainda não se extinguiu por completo, apesar da gentrificação destas zonas e da transformação generalizada da cidade num parque de diversões onde o património cultural diluído e empacotado num estilismo padronizado.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quadradinhos: Sguardi Sul Fumetto Portoghese


Alberto Corradi (2014). Quadradinhos: Sguardi Sul Fumetto Portoghese. Quarto d'Altino: MiMiSol Edizioni.

É daquelas coisas. Passa-se nas livrarias de Óbidos naquela busca de curiosidades e depara-se, muito por acaso, com esta obra especial. Quadradinhos é, em essência, um catálogo de BD portuguesa organizado por Alberto Corradi para o Festival de Banda Desenhada de Treviso, que reúne uma curta mas erudita história da BD em Portugal e histórias curtas representativas das correntes estéticas do género em Portugal. No que toca ao resumo histórico é de sublinhar que é traçado o percurso do género desde as caricaturas de Bordalo Pinheiro aos autores contemporâneos, sem esquecer a BD infantil dos anos 40 e 50 ou o marco que foi a revista Visão nos anos 70.

A selecção dos autores é de luxo, com histórias curtas que dão um panorama abrangente das correntes estéticas da BD portuguesa. O leque vai do experimentalismo visual expressivo ou quase abstracto ao formalismo com marca do punho de autor. Representados estão autores como Nuno Saraiva, João Fazenda, José Vargas, Ana Biscaia com um estilismo espantoso, Francisco Lobo, Afonso Ferreira, Pedro Burgos, Filipe Abranches, Miguel Rocha e o seu grafismo tão próprio, o traço fresco de Joana Afonso, o formalismo expressivo de Jorge Coelho, tão dentro das estéticas dos comics, o grafismo duro e evocativo de colagem visual de André Coelho, a exuberância de Pepedelrey e Rodolfo. Uma longa lista, que apresenta um panorama interessante.

Algo que não se percebe se se ler o prefácio de Marcos Farrajota. O estilismo experimental da Chili Com Carne, legítimo e necessário num campo criativo abrangente, tem a sua representatividade na curadoria mas pelo prefácio parece que é quase inexistente. Nestas situações, de catálogos e mostras, as questões de gosto pessoal não podem influenciar a selecção da amostra. Também sublinho alguns atropelos de tradução, com textos traduzidos do português para italiano e daí para inglês, o que dá pérolas macarrónicas como The Portugal, directamente traduzido do italiano Il Portogallo, mas que não faz qualquer sentido em português. Pequenos pormenores.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dylan Dog: Io, Il Mostro; Il Giudizio Del Corvo.


Pasquale Ruju, Giovanni Freghieri (2012). Dylan Dog #310: Io, Il Mostro. Milão: Sergio Bonnelli Editore S.p.A..

Uma história muito entediante sobre uma rapariga cuja empatia contagiante desperta paroxismos suicidas ou homicidas naqueles que dela se aproximam. Um suplício de levar até ao fim, e não me refiro aos suplícios infligidos sobre os pobres personagens.


Roberto Recchioni, Daniele Caluri (2012). Dylan Dog #311: Il Giudizio Del Corvo. Milão: Sergio Bonnelli Editore S.p.A..

Desde que Tiziano Sclavi iniciou as aventuras deste detective dos pesadelos que a marca do cinema de terror aparece vincada nas histórias. É um dos elementos de erudição cultural que, a par com a literatura clássica de terror e a cultura pop, deram uma dimensão extra ao personagem e o tornaram um dos grandes do fumetti. Na era pós-Sclavi esta erudição diminuiu assinalavelmente, e nalguns casos desaparece por completo. É normal, faz parte da vida de um personagem que transcende a carreia do seu criador. Dos argumentistas que têm pegado no Old Boy após Sclavi apenas Recchioni se tem distinguido por saber dar essa dimensão extra de substrato cultural que com Sclavi era magistral. Este é um desses casos, com uma aventura a remeter para a cinematografia de torture porn. Num enredo similar aos milhentos Saw, Dylan é obrigado a cometer atrocidades para salvar uma vítima de rapto. O desafio está em abandonar os seus escrúpulos e valores morais, fazendo o que é necessário para salvar a vítima a tempo. Claro que Dylan consegue sempre ultrapassar a lógica binária dos desafios mortais, mostrando que consegue resolver as piores situações e, se preciso for, sacrificar-se para não ir contra os seus valores humanos. Julgado por um homem disfarçado de corvo, é considerado justo e apto. A vítima é libertada, mas não está pelos ajustes. No volte-face final da história a suposta vítima é afinal quem orquestrou o ordálio de Dylan, para se vingar do assassínio da mãe às mãos de um serial killer que Dylan travou e enviou para um manicómio. Uma boa leitura, talvez demasiado decalcada dos filmes de torture porn, mas a mostrar que Dylan Dog pode manter-se como personagem intrigante. Não é por acaso que Recchioni é também o argumentista por detrás do potente Mater Morbi.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

aCalopsia: Matiné


Magno Costa, Marcelo Costa, Márcio Moreno (2015): Matiné. Lisboa: Polvo.

Três histórias curtas que se estendem pelas vinhetas numa coreografia de hiperviolência sem redenções nem gradações morais, apenas pancadaria e balas certeiras. A visceralidade e sentimento de inquietação são sublinhados pela crueza do traço. Um livro altamente recomendável para fãs do policial noir violento e duro. Crítica completa no aCalopsia: Matiné.

Dylan Dog: La Dea Madre; L'Autopsia.


Giuseppe DeNardo, Gianmarco Nozzolli (2012). Dylan Dog 308: La Dea Madre. Milão: Sergio Bonnelli Editore S.p.A..

Uma aventura intrigante de Dylan Dog. Apaixonado por uma mulher mais velha, directora de um museu antropológico,  envolve-se nos problemas da filha, recalcitrante aluna de um colégio interno muito exclusivo. Ao levar lá a rapariga, Dylan vê-se enrededado em mistérios que o mantém inexplicavelmente aprisionado. É-lhe de todo impossível sair do portão de entrada e tem constantes pesadelos em que as inocentes raparigas e as distintas professoras se tornam, à noite, sacerdotisas dos cultos milenares às deusas primordiais. Pesadelos que são, de facto, a realidade oculta do colégio, cujas alunas têm como teste final seduzir um homem, atraindo-o para o captruar e dcapitar numa cerimónia dedicada à deusa mãe. Interessante, com laivos de Suspiria de Argento (que também se passa numa escola muito especial), trocando bruxarias por religiões pré-históricas.


Giovanni Gualdoni, Franco Saudelli (2012). Dylan Dog 309: L'Autopsia. Milão: Sergio Bonnelli Editore S.p.A..

Dylan Dog mais em registo policial do que sobrenatural. Nesta aventura Dylan sofre o luto pelo suicídio inesperado de um novo amor investigando as possíveis causas do acto. No processo depara-se com um médico legista com propensão para jogos perigosos e um gosto por assassinatos em série sem deixar rasto. Para isso aproveita-se de uma linha de apoio a potenciais suicidas para identificar vítimas. O assassino é desmascarado, mas o luto de Dylan não tem consolo. A sua amada não foi uma das vítimas. Por vezes, aquilo que parece é mesmo o que é. Este é daqueles números da série que se destaca pelo traço do ilustrador, neste caso nada menos que o lendário Franco Saudelli.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Ficções

O Último: Neste conto de Joel Puga um imortal sente a dura passagem do tempo, após a extinção da humanidade para transição espiritual nas guerras entre deuses e demónios. Aguarda, numa casa repleta de livros, recordando o ascético vampiro que lhe conferiu a imortalidade há milénios atrás, preparando-se para defender a sua individualidade do assalto final dos exércitos demoníacos. Interessante, o ambiente soturno que o autor estabelece neste conto.

Cousins from Overseas: tradução para inglês de um conto de história alternativa do brasileiro Gerson Lod-Ribeiro, que imagina o que aconteceria se o Brasil se tivesse mantido uma monarquia e se em Portugal o assassinato do rei D. Carlos não tivesse chegado a acontecer. Estamos nos primeiros tempos da Segunda Guerra e o Império Brasileiro, um dos aliados, acolhe o rei português refugiado após uma invasão de Portugal continental por forças combinadas da Espanha franquista e da Alemanha nazi, retaliação do recém-vencedor da guerra civil pelo apoio dado às facções monárquicas. Mais do que a história em si, passada numa caçada nas selvas da amazónia, vale pelos voos especulativos sobre a plausibilidade de possibilidades históricas, que espicaçam (e muito) a imaginação do leitor.

Hello and Goodbye in Portuguese: Conto de Joel Jonhson, destacado pelo Boing Boing e que vale não pela qualidade literária, bastante normal, mas pela forma como enquadra os desafios trazidos pela automação aos mercados laborais dominados pela meritocracia neo-liberal. Num futuro não muito distante o progresso da automação é tal que existem apps que medem o momento em que a sociedade humana fará a transição para a automação total, com robots a substituirem todos os trabalhadores. A história em contada em diálogo, entre uma entediada dona de casa afluente que já pertence à elite que vive de rendimentos e não precisa de trabalhar, e um dos inúmeros trabalhadores que, perante a progressiva substituição por robots, vê as carreiras que lhe asseguram subsistência medirem-se cada vez mais em meses, semanas ou até dias, perguntando-se como irá sobreviver até a humanidade entrar numa prometida utopia onde a cornucópia das riquezas geradas pelos robots permitirá a todos viver confortavelmente. Algo inatingível, porque as velhas forças de acumulação de riquezas estão mais pujantes do que sempre.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Comics


Arcadia #02: Delírios de cyberpunk em movimento. Ou como, num mundo virtual, a maneira mais crista da onda de viajar é ser comprimido num ficheiro zip e transferido através de um protocolo de transferência de ficheiros. Arcada está no cruzamento entre Snow Crash e Walking Dead, não pelos zombies, que não tem, e agradecemos por isso que os mortos vivos já perderam todo o interesse. É-o pelo conceito da humanidade reduzida a uma minoria de sobreviventes de uma pandemia que mantém vivos os simulacros digitais dos falecidos em gigantescas quintas de servidores.


War Stories #09: Spoilers, dears (repitam isto com a vossa voz interior a entoar a pronuncia da River Song): os civis sobrevivem, escapam da Prússia acossada pelo exército vermelho, e vivem para contar a história. Que não é uma de heroísmo. Os seus salvadores, andrajosos restos da Wermacht que tentam sobreviver ao cilindro soviético, foram tão torcionários como os seus agora carrascos o são quando estavam a vencer. Não há heroísmos em guerras sujas, genocidas, onde homens que se viam como superiores não tinham qualquer escrúpulo em aplicar as piores selvajarias àqueles que viam como inferiores, menos que humanos. E este, que Ennis tão bem retrata, é o momento em que as ilusões se desfazem, o véu da ideologia se levanta, e aqueles que acreditaram numa falsa verdade se apercebem da real profundidade do caos em que se encontram imersos.


Airboy #01: Airboy é uma daquelas personagens clássicas de comics que, volta e meia, tentam ser ressuscitadas por editoras em busca de propriedade intelectual lucrativa. Se não me engano, a Archaia e a AP Press fizeram algumas experiências que não pegaram. A matéria base não é das mais promissoras. Airboy é um rapaz adolescente que combate nazis na II Guerra com ajuda de Birdie, o seu avião inteligente que voa batendo asas. Para além de eliminar nazis tem ainda de se haver com Valkyrie, a sua nemesis, uma sedutora vilã de decote generoso. Um rapaz e o seu aviãozinho contra os decotes generosos de uma mulher imperiosa é tema para inúmeras análises psicoterapêuticas. Esta variante da Image distingue-se por... bem, digamos que não tem aviões e o personagem só aparece na última prancha. Até lá acompanhamos um argumentista de meia idade sem ideias a quem é entregue o projecto de renovação do personagem, que junto com o seu ilustrador luta contra a falta de inspiração. Mergulhando numa orgia de álcool, cocaína e sexo casual. Faz sentido. Um comic estranho, hilariante e over the top em todas essas boas maneiras erradas. Vamos ver como progride.