sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Leituras


Why one New Jersey school district killed its student laptop program: Há muitas lições a tirar deste artigo. Mas antes de mais há que louvar a coragem dos administradores, que podiam ter deixado cair o projecto na obscuridade em vez de assumirem publicamente o falhanço. É que ao fazê-lo permitem reflectir sobre o que corre mal neste tipo de iniciativas, das quais suspeito esta não ser um exemplo isolado mas um caso muito típico. A notícia resume-se em poucas linhas: uma escola americana terminou o seu projecto de dotar todos os alunos com computadores portáteis ao fim de poucos anos porque a gestão técnica de avarias, danos e vírus se tornou incomportável, as vantagens educativas era pouco claras porque o uso em sala de aula era mínimo, a rede local colapsava debaixo do peso de utilizadores e a substituição e renovação de equipamentos se tornava excessivamente onerosa. Há ainda dois pormenores que se destacam. Os administradores escolares responsáveis por lançarem o projecto já não se encontram na escola e há um hábito de aderir a este tipo de iniciativas só porque sim, porque parece bem dotar todos os alunos de computadores.

Há aqui lições a tirar. Uma delas é a infraestrutura, porque para este tipo de projectos não basta só largar computadores e pronto. Há que gerir manutenções, prevenindo que os alunos não irão ficar tão deslumbrados como se pensa e irão tratar mal material que nos piores casos mesmo sendo-lhes entregue não vêem como deles, mas como algo descartável. Tive essa lição quando comecei a gerir portáteis na minha escola e via, com horror, os danos a acumularem-se devido à falta de cuidado deliberada de muitos alunos, aliadas à pouca vontade de vigilância dos professores. Quando reclamavam comigo sobre o mau estado de algumas máquinas, era sempre obrigado a sublinhar que os danos ocorriam em sala de aula acompanhados por professores responsáveis por actividades. E mesmo nas melhores condições irão haver sempre avarias e imprevistos que sobrecarregam o pessoal técnico (algo que por lá parece que existe mas por cá... bem, o professor é um profissional flexível. E elástico, por vezes).

A ideia de projectos que despejam computadores nas escolas é aliciante. As salas e os alunos ficam com equipamentos, e os vendedores de hardware ficam com sorrisos nos lábios. É a pedagogia Tech & Learning, alegremente patrocinada por quem interesses financeiros na questão. O problema é o depois. O que fazer com as máquinas. Que rendimento pedagógico tirar. Para isso são precisas ideias, formação e acompanhamento pedagógico. Algo que no projecto em causa não foi pensado e eu não consigo deixar de pensar no Magalhães e no PTE, que sim, dotaram escolas e alunos com equipamentos, mas deixaram a formação de professores de lado. Há uma espécie de espírito mágico, de suspensão de descrença, quando se fala de introduzir computadores em ambientes pedagógicos. Parece que basta dar máquinas para como que por magia estas sejam utilizadas para brilhantes aprendizagens. A história do Negroponte a largar tablets no meio de áfrica ilustra bem essa concepção. Não que pegar nas máquinas e dar-lhes a volta não seja uma experiência viável de aprendizagem, mas num ambiente pedagógico objectivo não é o suficiente e pode ser contraproducente. Sem formação e ideias de abordagem a coisa não vai lá, não passa do trocar o caderno diário pelo Word e promover apresentações em PowerPoint, na melhor das hipóteses. Geralmente é muito mais fácil culpar a suposta incompetência e falta de criatividade dos professores, aos quais, tal como as crianças, deveria bastar a simples aproximação a um processador para passarem a ter brilhantes estratégias pedagógicas. Diga-se que a este respeito o artigo sublinha a vontade de administradores ficarem bem e parecerem modernos, deixando os destroços para outros resolverem.

No fundo, é uma questão de estratégia. É a lição a retirar disto. Sim, os desafios da sociedade digital são reais, sim, a escola tem de preparar os alunos para o que de novo a tecnologia nos trás, sim, são precisos equipamentos. Podemos discutir a teoria das omeletes até ao infinito mas sem pegar em ovos e frigideiras a coisa não vai. O que falhanços como este, ou projectos de sucesso duvidoso como o Magalhães, nos ensinam é que o despejar de computadores nas escolas não só não resolve nada como cria problemas adicionais e acaba por ter valor pedagógico nulo ou reduzido. Fica bem na fotografia, dá um aspecto moderno à coisa, mas mal disfarça o vazio. Se não houver uma estratégia bem pensada por detrás, que inclua não só o equipamento mas essencialmente contemple para o que vai ser utilizado, as possibilidades de sucesso são maiores. Com ideias e formação o computador tem uso garantido em ambiente pedagógico e não apenas como máquina de jogo aos intervalos. Sublinho que não vejo qualquer problema nisto dos jogos. Os computadores são máquinas de uso geral, tanto servem para o lúdico como para o trabalho. O problema está na escola não conseguir encontrar estratégias em sala de aula, algo que só se consegue com formação, debate e troca de ideias e experiências.

Ah, sincronismos. Apareceu ontem no Medium um artigo curioso que reflecte precisamente nesta questão. A tecnologia por si só não potencia nada, e a observação tem mostrado que sem estratégias de abordagem não há melhorias significativas nos desempenhos, bem como na redução de assimetrias entre crianças de meios mais favorecidos e menos favorecidos.

As coisas não são tão cinzentas quanto isso e os professores, essas flexíveis criaturas, lá conseguem encontrar estratégias para conseguir incorporar computadores na sala de aula. Alguns até agradecem que lhes despejem equipamentos, facilita o trabalho e permite pôr em prática ideias mais arrojadas. Mas o conceito sistémico de despejar computadores nas escolas para por si só potenciar aprendizagens apenas beneficia quem fabrica e vende computadores. Por outro lado, equipar escolas é um passo necessário e que beneficiaria se fosse pensado em termos cíclicos. Pessoalmente aterroriza-me que o PTE tenha largado computadores e saber que esses equipamentos têm vida útil, que no ambiente tecnicamente agressivo das escolas essa vida útil reduz-se, e que no corrente estado das coisas a perspectiva de renovação sistémica do parque informático é nula. Ou como às vezes ouço de ex-alunos: esses computadores ainda funcionam? Ainda. Mas dá trabalho, muito, de vigilância à infraestrutura, manutenção, e responsabilização positiva. O meu lado de administrador dos sistemas de uma escola sente toda a compaixão por aqueles que neste projecto tiveram de levar todos os dias com portáteis avariados, desconfigurados, danificados ou contaminados. É que não é fácil. A tecnologia não é nenhuma varinha mágica que resolve problemas com um agitar e um encantamento. Não é infalível, é frágil e avaria. Entretanto parece que o abandono não foi completo, tendo os responsáveis técnicos optado por centralizar as máquinas na escola. Percebe-se. Perdem-se as vantagens de ter a tecnologia individualizada mas permite uma melhor gestão de recursos.

Like Clueless Guinea Pigs: A física social, aparentemente, é uma tendência. A ideia é utilizar apps como portas de acesso a um imenso manancial de dados que permitam dar aos utilizadores empurrões gentis para que este modifiquem e melhorem comportamentos. Com o valor acrescentado da rede social, em que ver amigos a fazer determinadas acções aumenta as probabilidades do utilizador as fazer. Uma variante cheia de bonomia do clássico a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha, livre da inveja e motivando cada um a esforçar-se por melhorar a sua galinha, resultando num ciclo global de reforço positivo. Parecem boas intenções. Usar a big data, uma versão bondosa da pressão do pares e os sensores nos nossos dispositivos móveis para termos um dia a dia mais saudável, produtivo e enriquecedor parece um objectivo social atingível. Se por nós somos preguiçosos ou poderemos não ter a motivação necessária para melhorar, as apps e os dispositivos podem ajudar a tomar decisões mais correctas, a vigiar comportamentos potencialmente nocivos para a saúde e melhorar o desempenho cívico. Parece tão bem, não parece? Um elevado e sadio objectivo social a atingir, certo? Ou talvez não. A mesma tecnologia que nos liberta de vícios (e note-se que a definição do que constitui "vício" depende de quem a define) também nos vigia e controla. Confiar as nossas decisões a apps e tendências detectadas em quantidades massivas de dados significa relegar decisões para padrões de pensamento externos, decidindo de acordo com as necessidades de quem programa os algoritmos. No fundo, como Evgeni Morozov explica muito melhor do que eu, encarreirar sorridentes no que é de facto um totalitarismo enquanto as organizações que nos tutelam ou rodeiam se embrenham em cada vez maiores níveis de secretismo. O paradoxo da tecnologia digital é que o que nos dá maravilhas impensáveis para o nosso dia a dia também pode ser usado como sonho húmido dos tiranos e ditadores. Ou apenas os sonhos gananciosos daqueles que colocam o lucro pessoal e os mercados acima das pessoas.

quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Ficções

Call: Se este conto parecer estranhamente similar ao recém-estreado The Zero Theorem de Terry Gilliam é porque foi escrito por Pat Rushin, o argumentista do mais recente tour de force do realizador. E a estrutura do filme está neste conto, nesta história de um homem isolado que se refere a si próprio na terceira pessoa, trabalha como numbercruncher de algoritmos complexos, que se vê obrigado a desconfortáveis interacções sociais e sofre as atenções de uma beldade atrevida, mas no fundo apenas espera, num progressivo desespero, por um telefonema que nunca mais chega. Ausentes do conto estão o futurismo noir delirante de Gilliam e as linhas narrativas necessárias para dar corpo ao filme, mas a base é clara.

Backscatter: Um intrigante exercício de hard SF saído da mente rigorosa de Gregory Benford. A premissa remete para uma clássica estrutura narrativa de FC, a do astronauta encalhado por avaria ou acidente num planetóide ou asteróide isolado. Neste conto, uma astronauta que faz levantamento de materiais com aproveitamento comercial na cintura de asteróides despenha-se e, enquanto aguarda o contacto dos supervisores que a virão resgatar, faz uma descoberta explosiva. Auxiliada por uma instância de inteligência artificial com rotinas de humor acutilante, explora as cavernas do asteróide e depara-se com uma espécie vegetal alienígena que evoluiu para ser capaz de aproveitar a parca luz solar que chega à cintura de Kuiper. É um conto curto com premissa sólida mas que deixa muitos pormenores inexplicados. Começaria por assinalar o como é possível um ecossistema com apenas uma única espécie vegetal, tendo em conta o que sabemos sobre a complexidade da vida. Outra é o final, algo atabalhoado, com uma promessa de enriquecimento cultivando uma espécie vegetal alienígena pela galáxia fora. Isso e o carácter deus ex natura do conto, uma vez que a descoberta das plantas extra-terrestres é o factor decisivo que salva a astronauta. Mas Benford é um veterano e isso sente-se na leveza com que o conto se entranha, apesar das óbvias incongruências.

Winter Solstice: Um conto já antigo de Mike Resnick, a brincar de forma muito elegante com os mitos arturianos. Resnick imagina Merlin como um homem amaldiçoado a percorrer o tempo no sentido oposto. Vindo do futuro, vive ao contrário. Para ele o passado é desconhecido e o futuro algo que se desvanece na memória. Progride no inverso, esquecendo as maravilhas da ciência enquanto mergulha progressivamente num obscurantismo pré-medievalista, algo que o deixa desesperado. Compreende-se. É particularmente acutilante quando esquece as portentosas naves espaciais do futuro de onde veio que o transportaram entre planetas e considera as estrelas como velas acesas, penduradas num pano de veludo negro.

An Inhabitant of Carcosa: Um conto clássico de Ambrose Bierce, que inspirou Robert Chambers para o seu King in Yellow. Numa paisagem desolada um homem busca pela cidade que ama, acabando por descobrir que se encontra nas ruínas da cidade, contemplando a sua sepultura. O goticismo negro da ambiência deste conto é quase palpável.

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

The Collapse of Western Civilization


Naomi Oreskes, Erik Conway (2014). The Collapse of Western Civilization: A View from the Future. Nova Iorque: Columbia University Press.

Esta é uma versão expandida para livro de um artigo científico muito interessante que aproveitou a ficção científica como forma de reflectir sobre as problemáticas ambientais. O tom especulativo mantém-se, tal como a reflexão sobre aquele que é o maior paradoxo contemporâneo.

Vivemos hoje o maior desafio e ameaça à escala global de sempre desde os tempos da guerra fria. Com a variante que nesses tempos a ameaça de destruição global dependia do acto consciente do carregar nos botões que disparariam as armas nucleares e esta ameaça que enfrentamos, do aquecimento global, manifesta-se de forma gradual e cada vez mais intensa, dependendo de decisões de hoje que só mais tarde surtirão efeitos. Sabemos quais as suas consequências à escala planetária, desde a escassez de recursos naturais à subida do nível das águas do mar que irá alagar as zonas costeiras. E o que fazemos para mitigar e travar essa ameaça? Preocupamo-nos com o bem estar dos mercados e alimentamos a importância da eficiência nas transferências de capital para gerar lucro a curto prazo, presos a um neoliberalismo alastrante que para além de contribuir para agravar o problema global ainda tem como bónus adicionais o fazer crescer as desigualdades económicas e sociais, empobrecendo a maior parte enquanto enriquece para lá do imaginável uma elite restrita.

É uma história que se contada só dá vontade de gritar estúpidos! aos personagens, mas de facto estamos a vivê-la. Este livro é uma forma elegante de pôr o dedo nas feridas, apontando para as consequências da inércia, criticando os contrapontos vindos de sectores intelectuais directamente financiados por aqueles que têm mais a ganhar com a manutenção do corrente estado das coisas, discutindo a cegueira ideológica que coloca a fé num conceito distorcido de mercado livre, ignorando os desvios induzidos por grupos de interesse e proclamando um optimismo assente na fantasia ideológica alimentada pela ganância.

Oreskes e Conway falam-nos de um futuro em que a civilização ocidental colapsou sob o efeito do aquecimento global, e não é um voo de imaginação nada implausível. O que salva a humanidade é o planeamento central chinês, que ao se esquivar às leis do mercado continuou o investimento em tecnologias verdes enquanto os paladinos do mercado livre incentivavam a queima de combustíveis fósseis. Tirando a extrapolação futurista isto é a realidade hoje, apesar da UE ainda não ter decaído o suficiente no neoliberalismo para retirar os incentivos às energias alternativas. O derreter das calotas polares faz subir o nível médio dos oceanos em cinco metros, o que alaga as principais cidades europeias e americanas (os autores não falam muito do resto do mundo) provocando o colapso de nações cujos territórios passaram a ficar submersos. O exemplo da Holanda reduzida a ilhas, com os holandeses refugiados na escandinávia, é o exemplo que abre o livro.

A crítica à cegueira dos mercados, ao cinismo do neoliberalismo e à desregulamentação e não intervenção estatal em áreas cujo interesse publico ultrapassam a esfera da economia de lucro rápido são também alvos de críticas acérrimas. Mas, em essência, esta mistura de ciência com ficção é um enorme j'accuse, apontado à cretinice colectiva de uma sociedade que vai alegremente caminhando para o colapso.

terça-feira, 29 de Julho de 2014

Verde




Verde lisboeta. E trocadilhos com verde alface e alfacinhas são demasiado óbvios, nem vale a pena o esforço.

Revista Gerador


Suponho que deve haver algo profundamente errado com os meus neurónios por não me conseguir render em admiração a esta revista tão proclamadora de amor às culturas portuguesas. Até à banda desenhada reservam uma declaração. Cheia de boas intenções e declarações elogiosas esta nova revista cultural está, o problema é que não passa disso. O hype gerado é enorme e contam com colaboradores de peso, dos quais se destaca à cabeça o romancista Afonso Cruz. O grafismo é excelente, com paginação cuidada, muita e boa ilustração, fotografia de qualidade e desafios gráficos de estética bem conseguida.

Só que... depois da parra pega-se na uva e sai de lá muito pouco sumo. Talvez esteja a ser injusto. Talvez, por ser a primeira edição, esta não passe de um manifesto, de uma carta de intenções. Espero que assim seja, porque o que li é de uma superficialidade aterradora. Odes ao pastel de nata, o elogio do portugal, portugal, portugal até à exaustão. Não que haja nada de mal em admirar o que nos caracteriza, bem pelo contrário. Mas resumir isso ao mero apregoar de listas de coisas mais ou menos na moda no espírito pop-cultural dos tempos é prometer muita uva mas fornecer pouco sumo. Talvez o que melhor resuma este extraordinário desequilíbrio entre grafismo e conteúdo seja a banda desenhada publicada, com um traço de desenho excelente e um argumento de uma puerilidade abismal. Note-se que não me refiro ao tema. A questão da co-adopção é de facto uma de justiça humanista, ao longo da minha carreira tenho assistido a muitos exemplos de como o superior interesse da criança não fica nada bem servido pelas famílias biológicas, e a co-adoção é nisto um pequeno mas muito importante pormenor das crises de uma sociedade conservadora com o emergir de verdadeiras liberdades individuais. Posto isto, o autor safa-se com uma história ao nível da mais típica ingenuidade adolescente, algo que pela biografia me pareça que já não seja.

Se calhar estou a ser injusto. Passa-me ao lado porque não está pensada para a minha tipologia de gostos. Está claro que esta revista não se destina ao meu tipo de público cultural. É um produto bonito para ser consumido por pessoas de aspecto cuidado mas alguma superficialidade. A revista é fortemente hipsterizada e fica melhor se lida nalguma esplanada patrocinada pela TimeOut, nalgum espaço lisboeta trendy descaracterizado pela gentrificação, algures entre a loja de decoração, o espaço de bric-a-brac vintage e o café decorado com andorinhas e bebidas que talvez até incluam café. Aposto que estes públicos se deliciarão com as odes ao pastel de nata e aos piropos aplicados à arquitectura (algo que tem de ser lido para ser acreditado).

Espero que melhore e não se fique pela banalidade do sorriso deslumbrado com a iconografia da cultura portuguesa. Precisamos de mais meios de divulgação cultural que combatam o cinzentismo monolítico da grande cultura portuguesa, impondo as outras culturas em pé de igualdade com a visão que tanto se sente como imposta da intelligentsia. Mas para isso estes geradores precisam de ser menos hip e mais profundos. É que já li coisas mais acutilantes naqueles blogs de crítica literária que se limitam a copiar a sinopse dos livros do site da editora e comentam com uns "foi fixe" ou "não gosto porque... razões" à laia de crítica. Da forma como está trai a banalidade de uma certa vanguarda que aposta no estilo e no soundbyte oco como justificação para a rapidez com que ciclam entre produtores e produtos culturais de consumo rápido.

(Há uma certa vantagem em ser um blogger obscuro. Posso escrever destas e continuar a ir à minha querida Lisboa sem temer que hordes de tipinhos barbudos de cabelo bem apessoado emoldurado por chapéus e óculos de massa, com propensão para usar camisolinhas e calças justas com sapatilhas coloridas me agridam com os seus moleskines e iCoisos e livros semi-lidos que estão na moda. De qualquer forma vou-me mantendo afastado dos locais trendy. É que os iphones são rijos e podem fazer doer na eventualidade de acertar no alvo.)

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Insta




InstaLisboa.

Comics


Afterlife With Archie #06: Nunca imaginei escrever isto sobre as aventuras do all american boy, mas esta série está sublime. Depois da obrigatória vénia a Romero ter transformado o sonho da bucólica pequena cidade americana numa infestação de zombies, é a vez das anódinas bruxarias de Sabrinna The Teenage Witch levarem um toque lovecraftiano. Um toque é má metáfora. Está a ser mais rolo compressor. O argumentista Aguirre-Sacasa traz-nos o escritor de horrores da Nova Inglaterra e não se esquece de uma boa dose de Machen. Já a ilustração de Francavilla está excepcional, dando o toque extra a uma série muito intrigante. Diga-se que a Archie Comics anda a levar a sério o conceito de inovação disruptiva. Na linha mais clássica parece que há um arco narrativo onde o eterno adolescente é assassinado ao tentar proteger um amigo gay que se vai casar. Devo dizer que é muito interessante ver esta aposta de uma casa editorial que poderia muito bem apostar na reciclagem do que tem feito ao longo dos anos, que está a alienar alguns sectores da comunidade de fãs, mas renova iconografias clássicas para o mundo contemporâneo.


The Midas Flesh #08: Esta divertida e bem escrita série Young Adult da Boom! chega ao fim em excelente forma, com um certo toque cósmico. Deuses intervêm, mas os três intrépidos heróis não se deixam intimidar pela supremacia das divindades. Heróis que, note-se, são um exemplo de inclusividade: uma jovem corajosa, uma muçulmana cheia de génio e um dinossauro falante. Há aqui um demolir deliberado de estereótipos raciais e de género, outro dos aspectos intrigantes da série. O final é cósmico. A maldição de Midas alastra pelo universo, cuja transmutação em ouro vai acelerar a entropia final e o nascer de um novo universo onde a história se repete, cíclica. Um título de uma profundidade inusitada para o género.


Supreme: Blue Rose #01: Não conhecendo o historial desta personagem de super-heróis da Image não posso dizer muito sobre este comic. Só que é escrito por Warren Ellis, o que causa logo alertas no radar. Se a mitografia do personagem me escapa o estilo narrativo de Ellis, como sempre, não desilude com a singular mistura de radicalismo e poesia da hipermodernidade com doses de ficção científica em estado surreal. Toda a sequência premonitória de sonhos com uma criatura que nos fala da superfície de um lago de metano em Titã remete para o historial clássico da FC. E Ellis não se esquece de ser levemente meta-ficcional inserindo as aventuras pulp do personagem favorito da personagem.


Velvet #06: Se o argumento de Brubaker é um primor de thriller de espionagem com a variante intrigante de se centrar numa agente de meia idade, há outro elemento que transforma Velvet numa série espantosa. A ilustração pictórica de Steve Epting e Elizabeth Breitweiser oscila ente o normal dos comics e vinhetas muito próximas da pintura.  Isso nota-se particularmente neste sexto número da série, com a equipe de ilustrador e colorista a deslumbrar nas paisagens urbanas.


Wild Blue Yonder #05: O épico retro-futurismo distópico de sensibilidade dieselpunk está de regresso, e que espectacular regresso. Parece estranho recomeçar in media res concluindo a acção da primeira série, mas funciona e estabelece o palco para novos desenvolvimentos. Mas vou ser honesto. O que me faz gostar desta série não é a história em si, mais uma iteração do conceito de rebeldes contra autoridades imperialistas num futuro distópico. É o conceito de um mundo caído em desgraça, onde viver em terra firme é sinónimo de baixeza social e só acontece no topo das montanhas, enquanto frotas de aeronaves deambulam pelos céus. O céu como vasto oceano, com uma frota militar a dar caça implacável a uma aeronave tripulada por rebeldes, que se defendem com variantes a jacto de P-38s, Mustangs e guerreiros com jetpacks. É o suficiente para deixar o fã de fc e o fã de aeronaves que vivem dentro de mim em partilha deslumbrada.

Cidade Suspensa


Penim Loureiro (2014). A Cidade Suspensa. Lisboa: Polvo.

Devo dizer que estamos perante um dos melhores livros de BD editados este ano. Não pelo lado inovador, ou por ser pedrada no charco, mas pelo expor de pura mestria do traço deste autor. A narrativa percorre a história recente de Portugal pelo olhar de toque autobiográfico de um narrador cuja história pessoal o leva a intersectar-se em curvas sinuosas com amigos atomizados por um mortífero e misterioso acontecimento nas areias do Saara. Pelo caminho vão surgindo referenciais oníricos que remetem para a sempre elusiva ideia de um imaginário fantástico de raiz portuguesa.

A história recorda-nos as tropelias da história contemporânea através de um olhar europeísta, mas o que torna este livro deslumbrante é a qualidade da ilustração. Penim Loureiro tem um traço preciso e fluído que se traduz em vinhetas de grande beleza. A sua formação como arquitecto denota-se na profunda mestria como retrata a arquitectura urbana, talvez a personagem mais omnipresente deste livro. Se bem que o que realmente faz é amalgamar elementos arquitectónicos similares que acabam por corresponder à imagem mental que fazemos das ruas de Lisboa. É uma espécie de dérive a tinta da china e ecolines.

O livro deslumbra-nos com um referencial iconográfico de grande riqueza, onde podemos encontrar alusões à estrutura gráfica da BD de Loustal, vénias ao Incal de Moebius, e um singular uso de ícones portugueses como o sebastianismo, virgens marianas, galos de Barcelos (muito úteis para contrabandear pistolas, note-se) e esplendorosas passarolas. O que mais intriga é iconigrafia da arquitectura de uma Lisboa que tanto nos leva da elegância art-deco de Cassiano Branco aos palácios setecentistas e novecentistas, ao estilo modernista aportuguesado de António Ferro que se tornou marca de uma nova cidade, sem esquecer a contemporaneidade de edificações arrojadas. A segurar as imagens temos uma história que se vai entretecendo, levando-nos em ritmo pessoal de diário narrativo e gráfico através da intemporalidade da amizade.

domingo, 27 de Julho de 2014

Supermassive Warm_Up_Party!


Não tive tempo para acompanhar a fundo esta iniciativa da SciFi Lx que reuniu no IST filmes, apresentações, exposições e role-playing sob a temática da ficção científica. O tempo andou curto, mas não quis deixar de dar um salto e sentir o pulso a um evento que me parece muito prometedor.


Os livros expostos recordaram-me que me falta uma edição para completar a colecção das antigas colectâneas da Simetria.


A ideia de espalhar contos de autores portugueses acessíveis por código QR parece-me uma boa forma para aproveitar o evento para divulgar o que se faz cá no género. Queria ter assistido à apresentação do Comandante Serralves, mas tinha de estar a controlar o tempo para poder ir ver o The Zero Theorem e perdi o evento.


A zona de gaming, quer em digital quer em jogos de mesa estava cheia de coisas interessantes. Em especial pelas maquetes intricadas que são tabuleiros de jogos temáticos.


E o espaço da Portuguese Lego Users Group tinha lá estas deslumbrantes Eagles do Espaço: 1999, um fantástico R2D2 e esta espantosa aeronave steampunk. Esperemos que este evento se repita (e que eu nesses dias tenha maior folga de tempo para o aproveitar).

Penim à Transparência


Se ainda não passaram pela El Pep para visitar a exposição Penim à Transparência, de que é que esperam? o evento marca o lançamento do livro A Cidade Suspensa escrito e ilustrado por Penim Loureiro. Dá-nos um vislumbre dos processos de trabalho do autor, e em especial da mestria e espectacularidade do seu traço, tão solto e ao mesmo tempo tão preciso, da forma como sabe usar perspectivas e da fortíssima influência arquitectónica.


Deslumbrante, este painel de azulejo que se desincorpora. As transparências mostram um traço de cair o queixo, que no livro, enquadrado pela cor e narrativa, nos dá vinhetas de enorme beleza.



A avenida da Liberdade, vista pelo olhar da imaginação de um autor veterano cujo livro se tornará pela mestria gráfica um marco da BD portuguesa. Em exposição na El Pep, Imaviz Underground, onde também podem adquirir este livro imperdível.

Traços




... da medievalidade reinventada no pós-modernismo económico.

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Underground




Cada vez a gostar mais do Imaviz Underground. Há o espaço agradável e com cerveja em conta do Aloha, a galeria-livraria da El Pep, e mais lojas com coisas muito interessantes. Um excelente exemplo de como uma subcultura consegue dinamizar um espaço esquecido pelo mainstream.

Ficções

Polynia: Glaciares e o consumado urbanismo de Mieville colidem neste conto que me fez recordar o título Sometimes they come back de Stephen King. O título, porque o resto do conto não tem nada a ver. Os céus de Londres são infestados por uma praga de icebergs voadores, que se limitam a flutuar sobre os telhados, desafiando qualquer tentativa de exploração ou explicação. Com o passar do tempo acabam por fazer parte da ecologia arquitectónica da cidade, transformando o clima local como espíritos materializados das calotas polares que o aquecimento global fez desvanecer nos oceanos. Mistério científico, elemento paisagístico, desafio para urban explorers intrépidos que se apercebem que nos icebergs o visível é uma pequena parte do que existe. Londres tem os seus gelos, os prédios de Bruxelas são infestados por incrustações de coral e nas fábricas japonesas irrompem periodicamente pragas de floresta virgem. Simbólico, que Mieville tenha escolhido estes três ícones da destruição provocada pelo aquecimento global, para dar forma a este conto.

Single-bit Error: Num conto magistral, Ken Liu mistura o conceito bizarro de erros de hardware induzidos por raios cósmicos com uma homenagem a Hell is the absence of God do consumado contista Ted Chiang. Um programador com veia de poeta lida com a morte da namorada, uma rapariga que confessa ter sido transformada pela visão de deus. Ao deduzir que o acidente mortal foi provocado por um protão que induziu um erro de hardware na centralina do carro, causando um erro de software que inverteu os sistemas de aceleração e travagem, pergunta-se se este tipo de acasos não estará por detrás das visões divinas. Procura formas de induzir o êxtase espiritual, sem sucesso, até que um dia, por acaso, uma partícula de luz estelar lhe causa a modificação mínima num neurónio que lhe dá, por breves momentos, um vislumbre do divino. Nesta narrativa brilhante Liu, talvez um dos mais metafísicos dos escritores de FC contemporâneos, integra teorias da neurociência sobre a consciência religiosa e a ideia estranha mas plausível de erros raros induzidos em chips por efeito de raios cósmicos.

Report on an Unidentified Space Station: Um grupo de viajantes do espaço explora uma pequena estação espacial abandonada. Quanto mais exploram, mais o espaço que os rodeia parece expandir-se. A cada novo passo a pequena estação aumenta de dimensões, até englobar o planeta, o sistema, o universo inteiro, em constante expansão. Uma curiosa metáfora de J. G. Ballard, naquela prosa seca e perfeita que só este autor conseguia, originalmente publicado naquela lendária edição da Semiotext(e) SF, dedicada aos mundos da ficção cientifica.

Gold Mountain: E se... o mundo fosse diferente de como o conhecemos? É um conceito recorrente na ficção científica, com as estruturas e ideias específicas da história alternativa. Normalmente este tipo de histórias centra-se num acontecimento histórico que ou não aconteceu ou aconteceu de forma diferente, alterando a continuidade histórica como a conhecemos. Chris Roberson escolhe outro caminho. Olha para um futuro presente sem nos explicar como lá chegámos. Neste seu mundo a China imperial nunca perdeu o peso civilizacional e, no dealbar do século XXI, prepara-se para colonizar o planeta vermelho a partir da sua base orbital, cidade ligada ao continente por um elevador espacial. A história centra-se numa arquivista chinesa de origem americana que se dedica a registar as memórias dos construtores do elevador, mão de obra barata trazida das américas que ainda sobrevive numa China agora mais tolerante mas que durante décadas os reprimiu como elementos indesejáveis, excepto para trabalho braçal de alto risco. A Europa não merece sequer menção e sabemos que as américas estão divididas entre colónias árabes na Califórnia, estados de descendentes europeus e o império dos mexicanos autóctones. Escrevo américas para situar, porque o nome dado ao continente é de origem viking. Um pouco similar à Roma de Silverberg, mas com a China no lugar de potência hegemónica. A inversão à história dos coolies asiáticos e questões raciais, com os homens brancos no papel de seres humanos secundarizados, obriga a reflectir nos caminhos trilhados pela história real. Quase diria que Roberson poderia ter inventado uma espécie de fardo do homem amarelo, a civilizar os bárbaros das brumas europeias, e se calhar chegou lá, noutras obras deste mundo ficcional.


quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Homem das Neves



(1983). Homem das Neves. Moscovo: Ráduga.

Uma pérola da FC que descobri a vasculhar as caixas reaproveitadas como prateleiras da livraria-alfarraista Ler Devagar em Óbidos. Não a da igreja reconvertida, cuja visita se recomenda pelo bom gosto arquitectónico e pelo desconhecimento dos livreiros que lá trabalham dos livros que têm do género fantástico português. Podem lá encontrar livros da lendária e rara colecção da Caminho. Podem encontrar Macedo, Barreiros e Luís Filipe Silva. Procurem nas estantes de literaturas lusófona. E o arranjo arquitectónico das prateleiras é excelente, transformando a igreja num templo dedicado ao livro. Este livro foi apanhado na dependência que consegue o estranho milagre de misturar mercearia de produtos biológicos com livros usados, e que suspeito que funcione mais como atracção turística do que livraria séria, a avaliar pelos magotes que lá entram, torcem o nariz aos livros velhos e tiram a obrigatória fotografia. Ter a maior parte das prateleiras com livros inacessíveis à procura por estarem a roçar o tecto também não é o melhor dos indícios. Talvez seja embirração minha, mas a estratégia Óbidos Vila Literária parece estranha numa localidade conhecida pelas feiras medievais, vilas natais, festivais do chocolate e magotes de turistas que peregrinam ao longo da rua direita até ao castelo provando ginginha em copos comestíveis. A vila tem mais ruas, mas costumam estar ermas. Mas não me queixo. Venho bastantes vezes a esta zona e é um prazer passear pela vila, apesar do acotovelar de excursões, e passar aqueles belíssimos momentos que só os bibliófilos compreendem a vasculhar prateleiras repletas de livros. Já a ginginha dispenso. Not my cup of tea.

O livro é um achado. Editado poucos anos antes da queda do muro de Berlim, é um artefacto doutros tempos que me caiu nas mãos. Colige contos de ficção cientifica de autores soviéticos, traduzidos em Moscovo para português e editados por uma editora crente que a divulgação das obras dos autores russos irá fomentar uma melhor intercompreensão fraterna entre os povos. Não estou a ironizar, é o que está escrito na última página do livro, que incluiu uma morada em Moscovo, hoje certamente casa de algo muito diverso do que uma editora dedicada à promoção da fraternidade universal de estilo soviético. O livro faz parte de uma colecção literária dedicada à FC e aventura, traduzida com o algo inquietante nome de "biblioteca de ciência-ficção e aventuras". Leram bem. Ciência-ficção. Tradutores russos a traduzir do russo para português dá pormenores linguísticos desajeitados, e isso não se sente só nestas expressões.

A promoção da cultura soviética sente-se no tema, com uma FC de recorte progressista, confiante no poder da ciência e tecnologia. Os autores não são nenhuns Lem ou irmãos Strugatsky, mas são capazes de contar histórias divertidas e intrigantes nos pressupostos. O que a torna diferente de ficção anglo-americana nos mesmos moldes é a introdução de elementos propagandísticos, mais ou menos óbvios, nos contos. É evidente que tentam envangelizar o mundo português, no caso desta edição, para as virtudes da vida soviética. Algo que após estes anos todos, depois da queda e dissolução do império soviético, faz sorrir pelo carácter pitoresco. Junte-se a isso um conjunto de ilustrações bizarras e o artefacto ganha um gosto especial. Ilustrações bizarras, parece, é algo recorrente nestas edições.

História de Um Homem das Neves, de A. e S. Abramov, fala-nos dos prodígios de um génio da matemática, cujos trabalhos permitem saltos científicos inimagináveis. A sua misteriosa incapacidade de envelhecer, o desconhecimento das suas origens  e resistência aos frios gelados da zona siberiana onde se situa o instituto de investigação fazem correr o boato de que foi salvo no sopé dos himalaias durante a II guerra e que seria descendente dos lendários homens das neves. A verdade é mais extraordinária. O brilhante cientista foi o responsável pelos cálculos de uma missão de exploração de uma civilização extra-terrestre decadente, que teve a má pontaria de aterrar no meio de um campo de batalha. A nave avançada não resistiu às primitivas balas de alto calibre da artilharia soviética, que a confundiu com um dirigível nazi. O único sobrevivente é recolhido, amnésico, como um soldado russo ferido, e daí por diante segue-se um percurso académico brilhante, se bem que as fantásticas descobertas são apenas vestígios da memória de uma ciência mais avançada. Num toque dogmático, é-nos mostrado pelas recordações do alienígena o como uma civilização avançada se torna decadente, fechada sobre si própria, vítima da descrença no progresso científico, porque lhe faltava a necessária bipolaridade trazida pela esperança do socialismo soviético para contrabalançar as forças obscurantistas. É um toque subtil de propaganda, talvez adicionado para que o conto seja ideologicamente aceitável para publicação, e que vinte anos depois dá que pensar. Afinal, sem a bipolaridade da guerra fria vemo-nos como civilização ameaçados pelo aquecimento global ajudada a curto prazo por uma rapacidade neoliberal que se tornou possível precisamente com o fim de referências alternativas ao sistema capitalista que o obrigavam a manter alguns limites humanistas. Note-se que não estou a defender a perfeita validade dessas referências, uma vez que os sovietes depressa se assemelharam aos regimes que os precederam ou combateram.

As tuas mãos são como o vento - No primeiro conto de V. Firsov desta antologia um neuro-cientista luta com um dilema moral. Parte de uma equipa que conseguiu dominar a indução artificial de emoções, debate interiormente se deverá utilizar a tecnologia que ajudou a desenvolver para induzir paixão por si na mulher que ama, uma artista-cientista que trabalha no edifício ao lado do seu centro de pesquisas. Não o chega a fazer, porque a ética se sobrepõe à paixão.

Cuidado com o Canguru - O segundo conto de Firsov é uma visão humorista sobre burocracias, economia e civilizações extraterrestres num futuro utópico onde o dinheiro foi abolido, o que complica as transacções comerciais entre as milhentas civilizações da galáxia. O canguru do conto é o pérfido representante de uma civilização reaccionária que se aproveita da bolsa similar à dos marsupiais para roubar um documento importante para as relações entre a Terra e as restantes civilizações.

Água Morta, de I. Valentinov, é uma divertida pérola que oscila entre aventura pueril, fantástico, ficção científica e propaganda panfletária. O conto começa nos anos 20, quando um ingénuo comissário do partido enviado para o campo é assassinado por um perigoso ex-presidiário, preso por crimes contra o povo. O criminoso rouba-lhe os documentos e assume o papel de comissário soviético. Sempre temendo que seja descoberto, acaba por se tornar num excelente comissário, sempre a fazer progredir a região que tem a cargo, apesar de no seu interior odiar profundamente o progressismo soviético. Este vil vilão vê na invasão nazi a oportunidade para se vingar do sistema, tornando-se um temido comissário local ao serviço das SS e exímio torcionário de guerrilheiros soviéticos. Com o fim da guerra consegue sobreviver assumindo a identidade de outra das suas vítimas, passando despercebido como soldado sobrevivente na confusão do pós-guerra e escapando, novamente, à justa punição pelos seus crimes contra o povo.

Um destino melhor espera a sua vítima, deixada como morta numa ravina de onde pinga uma água com estranhas propriedades curativas. Em vez de morrer, vê-se miraculosamente curado. Apresenta-se no gabinete local da bondosa GPU (e escrever isto sobre uma das polícias secretas soviéticas já dá uma boa ideia do tom panfletário do conto). Como bom e fiel comunista ao serviço do estado, conta as suas desventuras mas é considerado louco e internado num hospício. Afinal, a pessoa quem ele diz ser anda a fazer um bom trabalho como comissário e a história das águas é demasiado fantasiosa. Internado num asilo, consegue travar amizades e convencer os médicos que não está louco. Mostrando grande promessa como estudioso, apesar da sua baixa formação, regressa à vida normal e equilibra um dia a dia de trabalhador ferroviário e fiel participante nos comícios com um exigente regime de estudos nocturno. Porque o nosso homem tem uma missão. Incapaz de convencer quem o rodeia da veracidade das águas milagrosas que não só o curaram como o rejuvenesceram, decide usar a ciência para provar que não está a mentir e usar esse conhecimento em benefício de todos (se ainda não perceberam como este conto é propagandístico, ainda vão tempo de o fazer). No instituto científico onde virá a fazer uma fulgurante carreira reencontra a filha de uma mulher que lhe deu abrigo na já longínqua noite em que sobreviveu à tentativa de assassínio. Apaixonam-se, e seguem em direcção à Bielorússia para uma missão de prospecção. Apanhados pela ofensiva nazi, juntam-se a um grupo de guerrilheiros e dedicam-se a combater o invasor fascista. Um dia, numa operação arriscada onde a mulher e o comandante do grupo são gravemente feridos, descobre outra fonte de água miraculosa. As vítimas são salvas, e o nosso herói, bom comunista e paciente sobrevivente de muitas adversidades, consegue que a mulher que ama rejuvenesça e ganhe a longevidade de que ele já goza. Mas ainda não é deste que consegue convencer o mundo da validade das águas curativas. Fora dos locais de recolha, perdem as propriedades curativas. E os locais conhecidos são arrasados em nome do progresso ou pelas batalhas da guerra patriótica (recordem-se, isto é FC soviética, eles têm outro nome para a II Guerra). Bons elementos do sistema soviético, vão progredindo como cientistas e alcançam as honrarias advindas dos seus esforços. Quando a mulher adoece, vítima de tuberculose, o agora cientista parte numa busca por outras fontes de água milagrosa, pois agora já sabe que o que as torna curativas é uma rara combinação de condições cientificamente comprováveis. Salva a mulher e ganhar um ainda maior reconhecimento científico. Finalmente vê a sua verdade reconhecida.

Há algo das torturas de Job nesta intrigante história, que mescla fantástico com policial e narrativa de combate. O vilão, culpado dos mais hediondos crimes, acaba sempre por escapar à justa punição enquanto o dedicado e fiel comunista sofre tribulações inesperadas. O final de um é amargo, e o do outro a recompensa esperada, ideologicamente plausível, para um esforçado quadro que colocava o seu saber ao serviço do povo e da nação. O paradoxo nunca assumido é que a violência do vilão é o que torna o verdadeiro herói capaz de seguir um destino mais interessante e recompensador do que o previsto como humilde comissário de um soviete rural. O tom de aventura é divertido, embora a história tenha inconsistências literárias talvez explicáveis pela tradução. Mas o que a torna digna de nota é o seu óbvio carácter propagandístico, apregoando aos leitores as virtudes do bom e fiel cidadão soviético.

Underground



quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Solidificar o imaginário


No fablab Lisboa, a aproveitar o encontro 3D Hubs para aprofundar a investigação naquele que será o passo lógico para este projecto 3D Alpha: impressão 3D. Se os alunos já lidam com modelação, porque não avançar e mergulhar nesta tecnologia que está agora a implementar-se em força? Há factores financeiros a ter em conta mas suspeito que haja aqui muita mais valia pedagógica, em especial se integrada em projectos interdisciplinares. Não que eu seja de desdenhar a criatividade por si só, mas é quase magia quando ideias e conhecimentos de diferentes áreas se conjugam no acto criativo. O que nas vertentes de aprendizagem é algo de fundamental. As horas lectivas separam as áreas, e há que mostrar que os pontos comuns são mais que muitos. Isso, apostar na criatividade e na capacidade de resolução de problemas.


Ver a prusa pelas traseiras, controlada por um thinkpad a correr linux. Open source rulez!

O espaço do fablab, que desconhecia, é um mimo para quem gosta de criar. Nem só de impressoras 3D vive o espaço. Há por lá muita ferramenta e zonas de trabalho que vão da marcenaria tradicional às CNC que cortam materiais a partir de CAD. Tenho de arranjar forma de ir lá mais vezes.


Hello makerbot replicator!

O objectivo deste encontro 3D hubs era o de colocar pessoas em contacto com o 3D Printing e a conversa entre aqueles que estão mais avançados nas utilizações desta tecnologia foi uma experiência de aprendizagem fantástica. Ouvi-los permitiu-me perceber que certas escolhas que ando a fazer estão na direcção certa, despertou dúvidas, esclareceu outras, e aprofundou potencialidades desta tecnologia. Elas são bem conhecidas, e a ideia de que têm um impacto sobre o conceito de indústria tal como a conhecemos é repetido como um mantra. Pessoalmente creio que não será tanto assim. É verdade que quem tem acesso a esta tecnologia tanto pode imprimir um como mil objetos. Mas os custos e economias de escala não se aplicam. E ficam de fora as questões ligadas ao design, à criação enquanto acto mental. Por giro que seja descarregar um modelo em stl de um repositório e imprimir é muito mais interessante conceber, representar, criar e... materializar. Um processo que pouco tem de novo, é algo de elementar desde que há artistas e artesãos. O 3D printing apenas traz para os meios digitais esses processos tão normais em pintura, escultura, enfim, em qualquer expressão criativa que solidifique num material o imaginário do criador. O que intriga é esta nova forma de ser artesão com ferramentas digitais. Percebi que muitos dos presentes olham para a impressão 3D pelo desafio técnico de montar e refinar a impressora e só depois percebem que o processo criativo tem tudo a ver com o objectivo desta nova tecnologia.


As beethefirst como objectos de design.

Em exposição, ou melhor, a imprimir furiosamente, impregnando o ar com o aroma do plástico pla derretido, estavam vários modelos de impressoras trazidos pelos participantes. Interpretem o furiosamente da frase anterior muito ao ralenti. Imprimir objectos não é um processo rápido. O aspecto rude e diy da makerbot impressionava, e o cuidado estético no design das bee nunca cessa de me surpreender. Mas claramente aquela que melhor se adequa aos objectivos do que ando a preparar é a Prusa. A makerbot é bastante cara, algo que também se aplica à bee. Nestas, o conceito de 3D printing doméstico é uma excelente ideia que temo estar um pouco avançada no tempo. Talvez, e espero que assim seja, consigam fatia de mercado com designers e outros criativos que se querem concentrar no conceber e fazer e não nos aspectos técnicos de montar e calibrar equipamentos. As impressoras que vendem são um equipamento muito apetecível.

Mas para objectivos pedagógicos, que é por aí que estou a avançar, a ideia de ter um equipamento semi-fechado faz perder uma das vertentes de abordagem educativa possível com esta tecnologia: o mexer nela, abrir e perceber como funciona, conseguir resolver problemas advindos do seu uso. Em suma, conhecer o que está debaixo do capot, resistindo à tendência de obsolescência programada e restrição do uso do hardware que vamos adquirindo. O Cory Doctorow explica isto muito melhor do que eu, que estou cansado e ainda tenho um relatório de avaliação interna de cem páginas para rever.

Percebi que estou correcto na minha intuição informada sobre a Prusa em termos de equilíbrio entre preço, complexidade de montagem, e comunidade de apoio. Entretanto mostraram-me as OneUp, com preços mais convidativos, mas suspeito que para neófitos pouco à vontade com electrónica é melhor apostar num equipamento que tem uma fortíssima comunidade de utilizadores. Na inevitável hora do SOS é um factor que é capaz de fazer jeito.

Em suma, entrei nervoso sem saber o que esperava. Cheguei lá com muitas ideias. E saí de lá a planar, com muito mais ideias e vontade de levar para a frente esta minha ideia pedagógica de sanidade duvidosa para os mais conservadores. Saí direitinho para um jantar com pessoas ligadas à ficção científica portuguesa e brasileira, e cheguei lá a dizer meus caros, acabei de vir do futuro. Efeitos da exposição ao fablab.

Adrastée


Mathieu Bablet (2013). Adrastée T01. Roubaix: Ankama.


Mathieu Bablet (2014). Adrastée T02. Roubaix: Ankama.

Um rei amaldiçoado pela imortalidade parte em busca do porquê da sua incapacidade de morrer. Quando jovem sempre que comia vomitava uma pedra. Deixou de comer, e parou de envelhecer, acompanhando viçoso o declínio e extinção da sua Hiperbórea. O filho odeia-o, a mulher fenece, os seus súbditos tornam-se pó, só restam o seu palácio e a esfinge que lhe guarda as fronteiras. Mil anos depois, atravessa os portões do seu reino esquecido para atravessar a Grécia antiga, cruzando-se com reinos desavindos, rainhas amaldiçoadas, deuses impotentes, sátiros narradores com propensão para lhe dificultarem a vida com retoques narrativos, descendo aos infernos para questionar as três parcas do porquê da sua imortalidade. Pelo caminho sofrerá atribulações, desesperos, e lutará constantemente pela sua memória que também se desvanece.

Fábula em dois volumes que homenageia a mitologia grega, Adrastée vive do esplendoroso traço do seu criador. Bablet deixa em cada vinheta cenas arrebatadoras. O tratamento que dá à arquitectura é espantoso, com arquitecturas de fantasia a deixar sonhar a imaginação. O lado mais humano da história também não lhe fica atrás. Por mim, estou indeciso entre a espectacularidade das arquitecturas fantásticas deste autor ou a visão que deixou nas pranchas de Talos, o mítico homem mecânico da Grécia antiga. Aliás, não estou. Estes dois álbuns são uma profunda vénia à magia mítica de narrativas que o tempo e a memória humana não só não esqueceram como continuam a apaixonar e influenciar a ficção contemporânea. Há arquétipos poderosos nas velhas histórias vindas das noites profundas da ática e do peloponeso.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Trasgo #03


A terceira edição desta revista digital brasileira continua a manter um bom nível literário, trazendo ao mundo a voz de novos autores do lado de lá do Atlântico. O conteúdo intriga, com boas e divertidas histórias, algumas muito bem conseguidas ao nível literário. A capa deslumbra, algo a que esta publicação também já nos habituou. A Trasgo está disponível para leitura online e ebook.

O Empacotador de Memórias: um conceito intrigante funciona como base deste conto de contornos oníricos de Gael Rodrigues que inicia a terceira edição da Trasgo. Um homem tem a capacidade de materializar memórias daqueles com quem se cruza, tornando-se muito requisitado por aqueles que desejam reviver momentos fugazes, perdidos nas brumas mnémicas. Mas há um empecilho. O retirar a memória implica o seu esquecimento permanente. Tem conceitos interessantes, como o materializar de memórias em bolhas arrancadas que ao rebentarem levam consigo as recordações, ou a ideia de meter memórias numa caixinha para mais tarde redescobrir.

Rosas Brancas: o conto de Roberto Causo é claramente uma parte de algo mais ambicioso. O tema anda à volta de humanos artificiais com falsas memórias, quase super-humanos que não se apercebem do quanto são diferentes em relação à humanidade à qual se julgam pertencer. Esta é uma história de origem, com a filha bio-mecânica de uma andróide a ser raptada como parte de uma conspiração iniciada por um criador que decide optar pelo lucro fácil e vende os segredos da criação de seres artificiais a rivais. Pelo que ficou explícito no editorial esta é uma história que terá futuramente novos episódios. A vénia a P.K. Dick e a Mary Shelley é bem conseguida numa história cheia de acção.

Feita de um Sonho: muito próximo do realismo mágico, este conto de Carolina Veloso parte de uma ideia interessante. Uma rapariga sofre com sonhos muito reais após a morte da mãe, até que esta lhe confessa em sonho que o pai que nunca conheceu afinal a concebeu durante um sonho. A narrativa arrasta-se em lirismos desnecessários, mas surpreende especialmente depois de se perceber a jovem idade da autora.

Invasão: um conto delirante e hilariante de Claudio Parreira. Um jovem a tentar aproveitar um sábado pachorrento vê a casa invadida por uma avalanche de gente bizarra. O bom humor impera e o final é de ir às lágrimas. Aquele "só quero uma cerveja" é brilhante.

Viral: ao ler este conto de Tiago Cordeiro fiquei com aquela sensação de que já tinha lido algo muito parecido algures. E tinha. Num dos episódios de Global Frequency de Warren Ellis um bairro é infectado por uma mensagem viral que transforma os pacatos habitantes em agentes de uma inteligência alienígena. Este conto é muito similar, só que em vez de origem extra-terrestre o sinal nasce de uma experiência criptográfica, é transmitido por emissoras de rádio piratas e transforma os afectados em zombies capazes de articular discurso. Não parece tratar-se de plágio, antes do reconhecer de uma fortíssima influência de, como o autor refere nas entrevistas que encerram esta e-zine, um comic que já não se recorda o nome.

O Vento do Oeste: um conto de Liége Toledo que se aproxima de contornos épicos, cuja mais valia é a belíssima e convincente construção ficcional de inspiração da fantasia épica de sabor orientalista. Desprezado pelos habitantes de um país desértico, um filho de um demónio enfrenta o pai para salvar a vida a uma jovem rapariga, devolvendo-a à família e evitando que tenha o mesmo destino do da sua mãe.

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Black Swan



Bruce Sterling (2010). Black Swan. Milão: 40K.

Tem sido evidente que Sterling se apaixonou pela ideia de Europa de uma forma que só o turista prolongado consegue. Fascinado pela elegância italiana, celebridades francesas, capacidade alcoólatra ex-jugoslava, pelas complexidades rizomáticas da intricada cultura europeia que admira pelo optimismo progressista. Haja alguém que ainda acredite no sonho europeu. Ou isso ou sabe-lhe demasiado bem enrolar a língua com nomes estranhos ao inglês texano. Este antigo enfant terrible do cyberpunk metamorfoseou-se em guru da tecnologia e isso sente-se na sua ficção. Suspeito que os contos que vai publicando aqui e ali sejam escritos para se convencer de que ainda consegue escrever mais qualquer coisa que não sejam insights potentes sobre as armadilhas da era digital, algo em que é muito bom.

Este é um caso típico. Percebe-se o deslumbre pela forma como utiliza a iconografia pan-europeísta com toques de hipermodernidade tecnológica. As personagens são os prototípicos entes do novo mundo digital, desde o blogger que vive de scoops ao hacker sombrio, sem esquecer as personalidades vácuas dos media e a modernidade decorativa e arquitectónica que preserva o clássico pitoresco. Dá uns toques cyberpunk com uma história sobre realidades paralelas criadas colapsando probabilidades quânticas de acordo com a interferência do observador. Mas o que realmente o deslumbra é imagem soalheira do pan-europeísmo chic, mescla de elegância, fascínio tecnológico, arquitectura pitoresca das velhas cidades e traços de carácter nacionalistas, que acabam por levar a primazia nestas suas mais recentes histórias. Isto é o Bruce Sterling de Holy Fire, versão redux, longe do Sterling de Schismatrix. Mas sublinhe-se que um Sterling mediano é mais acutilante, interessante e observador da modernidade do que excelência de muitos, por isso vale sempre a pena ler. É como mergulhar no Beyond the Beyond ou no Tumblr, com ficção a substituir as realidades de ponta.

Comics


Judge Dredd Megazine #350: Confesso que apesar de ser fã do ol' stoney face e da 2000AD não tenho muita paciência para a Megazine. O universo ficcional de Dredd é divertido mas não há pachorra para as infindas variantes dos juízes justiceiros. Mas há excepções, e esta é uma delas. The Man from the Ministry é ficção científica de alto nível, misturando o secretismo institucional dos Men in Black com o retro-futurismo de Ministry of Space de Warren Ellis. Se bem que o tom é pós-austeritário, com um representante de um departamento governamental que já viu dias mais gloriosos como resquício de uma organização cuja tarefa é a defesa do reino contra ameaças alienígenas mas que ao longo dos anos não tem conseguido vencer a ameaça dos cortes financeiros burocráticos. O tom narrativo é excelente, com o argumento de Gordon Rennie a criar um mundo ficcional convincente e intrigante, enquanto o traço clássico a preto e branco de Kev Hopgood remete para o ambiente gráfico dos comics clássicos dos anos 50 e 60. Não sei porquê, isto faz-me pensar nos Quatermass Experiment.


Legenderry A Steampunk Adventure #05: Bill Willingham é exímio no trabalho derivativo, como se comprova pelo sucesso recorrente da série Fables. É isso que torna esta salganhada steampunk divertida. Deram a Willingham a tarefa de pegar nos personagens cujos direitos são agora detidos pela Dynamite e metê-los num universo ficcional coerente, e tem-se safado com isso. Não é tarefa fácil misturar Flash Gordon com The Shadow, ou colocar Red Sonja a partilhar espaços ficcionais com Vampirella. A suspensão de descrença na suspensão de descrença funciona ao criar um espaço alternativo, utilizando o alternativismo Steampunk como aglutinador. Parte do jogo está no identificar de quem é quem, e de que até que ponto o personagem continua reconhecível neste universo diferente. Para fãs do steam a ilustração é uma delícia, servindo-nos o que esperamos da iconografia do género.


Manifest Destiny #08: Esta série não parece estar a atrair muitas atenções, o que é pena. A mistura de weird western com história alternativa é muito inteligente neste recontar da viagem exploratória de Lewis e Clarke pelas vastidões americanas, aqui neste comic um espaço habitado por monstros e criaturas de fábula. Os ineptos exploradores cruzam-se constantemente com ameaças inesperadas e intrigantes habitantes habituados à sobrevivência numa terra inclemente onde os rios são habitados por batráquios carnívoros gigantes, as florestas por zombies verdejantes e as pradarias por centauros canibais.


Silver Surfer #04: Duas boas razões para ler esta nova iteração do Surfista Prateado. O bom humor do argumentista Dan Slott. O encadeamento inteligente de frases espirituosas aniquila as tentativas de criar dramatismo, mas que se dane. Comics a usar e abusar do carácter dramático é coisa que por aí abunda. O trabalho gráfico de Michael e Laura Allred, naquele impecável registo pop/retro a fazer recordar as capas garridas da era dourada dos comics.


Witchfinder: The Mysteries of Unland #02: Hellboy é o que é, caso de sucesso deixado em banho-maria para não morrer por saturação. B.P.R.D. expande-se mas arrasta-se na repetitividade. Restam este Witchfinder e Baltimore para continuar o gostinho pelo horror gótico de Mike Mignola na Dark Horse. Este Witchfinder é eminentemente anglicista e remete-nos para os ambientes ocultos de W. H. Hogdson, Shiel ou Conan Doyle no seu lado mais obscuro. Mistérios arquetípicos, segredos ocultos em aldeias inglesas, stiff upper lip e monstros do além espaço. Divertido, creepy na maneira certa, e a homenagear o terror gótico.

domingo, 20 de Julho de 2014

Acasos


É bem conhecido o argumento da nostalgia como uma das explicações para o gosto pela ficção de género. Algo explorado pelos que coleccionam antigas edições e se apaixonam pelas iconografias do imaginário de outras épocas, que hoje nos parecem pueris mas pitorescas. Algo visível nas eternas discussões sobre o género e as épocas douradas que precederam a contemporaneidade. E algo que não surpreende. O chamado sense of wonder, esse carácter de surpresa e deslumbre absolutos tão valorizados por quem gosta das ficções fantásticas, está talvez intimamente ligado com as descobertas feitas na infância e adolescência, e uma incessante busca por replicar esse sentimento.

Há algo de indissociável de experiências precoces, quase iniciáticas, e a continuidade da busca da sensação do deslumbre. Não quero com isto dizer que essa seja a razão fundamental para os gostos das ficções de género. Para mim, são as elaborações de mundos ficcionais, os voos de imaginário e a especulação futurista informada que me atraem. Mas não deixa de haver um factor nostálgico. Não se esquece a sensação de deslumbre com o primeiro livro de ficção científica que realmente me tocou - as Crónicas Marcianas de Bradbury. A iconografia das velhas séries entrevistas na televisão a preto e branco persiste. A verosimilhança dos módulos Eagle, o alto modernismo arquitectónico de Buck Rogers, a excitação do combate espacial de Galactica são imagens mentais que persistem, mesmo sabendo que exceptuando nestes detalhes estes produtos mediáticos envelheceram mal, e o que parecia espantoso à época oscila hoje entre o ingénuo e o patético. Suspeito que até estou a ser simpático no qualificar das estruturas narrativas, efeitos especiais e estereotipagem dos personagens.

Mas confesso que tenho uma memória mais antiga, ou talvez contemporânea, os neurónios não são clementes com o tempo, de algo ligado ao horror. Recordo-me de ser muito jovem, ainda sem dez anos feitos, e passar as férias de verão na aldeia dos meus avós paternos. Recordo entrar na casa de um dos amiguitos da aldeia, na altura, o filho da gente rica da terra, ir à garagem para irmos buscar um qualquer brinquedo, e ter o olhar atraído pelas páginas lúridas de uma revista. Recordo vagamente de uma história com mulheres estonteantes semi-despidas, homens de armadura, e uma imagem que se fixou para sempre na minha mente: a de uma espada que corta um homem ao meio, com o pormenor da anatomia interna seccionada pelo gume. Não diria que fiquei traumatizado mas que a memória ficou impressa nos neurónios, lá isso ficou. Há medida que ia avançando pelas literaturas e bandas desenhadas de terror recordava essa sensação de curiosidade e fascínio. Mas nunca esperei reencontrar essa imagem específica. Até ontem à noite, quanto olhei com atenção para uma digitalização de uma antiga edição da Zakarella. Onde, para minha grande surpresa, reencontrei a vinheta que nunca esqueci. E ao fim de trinta anos, se não isso, lá perto anda, li finalmente a história que me despertou a curiosidade para os horrores clássicos. Trata-se de um trabalho de Sam Glanzmann, possivelmente para a Vampirella, Eerie ou Creepy, republicada em português na revista que incluía as bizarras ficções pulp de Roussado Pinto com Zakarella, uma bastardização muito surreal da vampira sensual do terror clássico na banda desenhada.