sexta-feira, 31 de julho de 2015

Engines of War


Christian Wolmar (2010). Engines of War: How Wars Were Lost & Won On The Railways. Public Affairs.

Um livro intrigante para estes dias em que o cérebro exige estímulo em alta rotação mas o corpo implora por desacelaração. Mergulhamos na história milita dos caminhos de ferro, numa análise que nos leva da guerra civil americana até aos dias hoje, demonstrando como o transporte ferroviário foi um factor decisivo nos principais conflitos que forjaram a contemporaneidade.

Previsivelmente, o livro centra-se nos desafios logísticos trazidos pelo transporte de homens e materiais, sublinhando como a gestão eficiente das linhas ferroviárias contribuiu para o desenrolar dos acontecimentos nos campos de batalha. Mas não resiste a alguns pormenores mais empolgantes, como as histórias rocambolescas de comboios blindados de combate que percorreram as estepes asiáticas (mais sobre isto no post do Medium que me alertou para este livro).

É interessante rever a história contemporânea sob a perspectiva dos caminhos de ferro. Aprender como estes meios foram fundamentais para a vitória nortista na guerra civil, que estabeleceu as bases da gestão eficaz de caminhos de ferro em tempos de guerra. Como não respeitar essas bases geralmente deu em desastres, como se observou na guerra franco-prussiana. A importância crescente do transporte ferroviário na I guerra e nos tempos conturbados que se lhe seguiram no leste europeu e na Rússia, onde o exército vermelho não teria triunfado sem o controle das ferrovias. Mostra também como pequenos pormenores - como o tamanho das bitolas utilizadas em diferentes países, são decisivos nas operações militares. Não esquece esselado tenebroso da eficiência ferroviária que foi o transporte das vítimas dos campos de concentração nazi. Termina com uma análise dos métodos altamente móveis da guerra contemporânea, que deixaram de necessitar da ferrovia como elemento infraestrutural.

Mas nada bate as histórias de frotas de comboios de combate deambulando pelos caminhos de ferro nas estepes da ásia central.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Ficções

Reality Check: Disponível gratuitamente no Smashwords, este conto antigo de David Brin apresenta uma visão muito pessimista das tecno-utopias. Leva-nos a um futuro singularitário e pós-humano, onde os habitantes preferem mergulhar no ópio ilusório das simulações do que lutar pelo progresso. É uma variante intrigante do conceito de conflito como faísca do progresso tecnológico e social, com uns pózinhos intrigantes da teoria que o universo em que vivemos poderá ser uma simulação.

The Unsafe House: Bruce Sterling a misturar Cli-Fi com distopia hipermoderna contemporânea. Vinheta em forma de diálogo, entre um narco-traficante envelhecido que busca, junto de um agente da lei, encontrar uma forma de terminar os seus dias em paz bucólica. De caminho vai sendo traçada uma visão desoladora de um futuro devastado pelo aquecimento global

Nana Neném: Um curioso conto de terror com sabor tropical. Nas profundezas da amazónia a terra vinga-se das sevícias de uma empresa madeireira com extremo prejuízo. Vítimas transformadas em jacaré zombie, carnificina generalizada e uma metamorfose de maldição. O terror gore dissolve-se nos mitos tropicais numa história que não poupa no grand guignol, do brasileiro Newton Nitro.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Leituras


A Remarkable Armored Train Fought Its Way Across Eurasia: Quando a realidade história ultrapassa a ficção. Um daqueles artigos que deixa a vontade de ir querer saber mais, relatando a odisseia do Zaamurets, um comboio militar que entre a I e a II Guerra dominou as estepes asiáticas com os seus canhões ao serviço do Czar, do Exército Vermelho, de um exército de independentistas checos que combateu ao longo de toda a Rússia até poder chegar a Vladivostok para regressar à pátria, forças japonesas na Manchúria e senhores da guerra no norte da China. Uma odisseia atribulada, e uma história daquelas, a aguçar a curiosidade. Que se não ficar desperta com esta aventura, fica de certeza com a ideia de que este era apenas um de frotas de comboios armados que combatiam nas linhas de caminhos de ferro. Um artigo que se lê como as descrições de Michael Moorcock em The Steel Tsar, com combóios em vez de dirigíveis.

The Original Net Artists: Para quem se interessa sobre arte digital nas suas variadas vertentes, e gosta de conhecer as suas origens, este curto documentário é uma pérola. Redescobre um dos sistemas de interligação digital proto-internet, hoje obsoleto e esquecido, que foi utilizado por comunidades de artistas para experimentar com arte digital.

You’re Using Instagram Wrong: Um artigo curioso, que faz nota que o Instagram é uma rede social atípica, onde não nos interessa seguir as intermináveis banalidades dos nossos amigos, mas sim os deslumbes visuais partilhados por completos estranhos. Há outras redes que gerem muito bem a diversão da banalidade diária. Já o Instagram funciona como, em tempos atrás, o DeviantArt (essa proto-rede social para artistas) funcionou: um espaço de partilha de conteúdo visual, de inspiração para aqueles que não conseguem viver sem ter a lente de uma câmara ou lápis e papel para criar algo. E, também, de inúmeras selfies, más fotos de paisagens e food porn a rodos. É intrigante ler este artigo e perceber que, intuitivamente, a minha gestão do Instagram segue estes moldes. Também raramente sigo amigos da vida real ou digital nesta rede, e prefiro conteúdo que me deslumbra visualmente, que inspira e dá ideias. Para o resto, resta a outra rede social. E há o twitter, que ao fim destes anos todos ainda não percebi para que é que serve.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Apreciador de Coxas

Algo de muito bom para começar o dia. Um excerto do último e inédito romance de António de Macedo, Lovesenda ou O Enigma das Oito Portas de Cristal. Pelo excerto, Macedo invoca o fantástico com base na tradição histórica e substratos lendários tradicionais, com o seu habitual bom humor. Deixa vontade de ler mais, mas pelo que o autor deixa expresso parece haver pouco interesse dos editores em publicar este livro.

O que é irritante. Ao fim destes anos todos de vida e carreira saber que um dos decanos do cinema português tem dificuldades em editar os seus livros. António de Macedo é homem de longa carreira que nos legou filmografia e literatura únicas, premiado com, apontando apenas os mais recentes, o primeiro Sophia atribuído pela Academia Portuguesa de Cinema e o primeiro Prémio Adamastor distinguindo personalidades dedicadas ao fantástico.

Enfim. Apetece terminar este post com uma refilice sobre o panorama qualitativo da cultura neste portugalito, sempre tão lesta a premiar os esquecidos mas a investir nos modismos mediáticos, chagas-freitismos e outros nomes confundíveis com meninas bem da alta sociedade para legar ao futuro sob a forma impressa.

Oops. Parece que afinal refilei. É por boa causa. Deixo aqui a ligação para o excerto partilhado por Macedo na sua página do facebook:

[O duque] saiu da câmara das mulheres e dirigiu-se à sala grande. Sim, era verdade! Encontrava-se no seu castelo, em...

Posted by Antonio de Macedo on Terça-feira, 28 de Julho de 2015

Das Idades do Mundo


Foi um dos grandes momentos de uma sessão particularmente animada da tertúlia Recordar os Esquecidos, organizada por João Morales, contando nesta com a participação dos escritores Fernando Pinto do Amaral e David Soares. Por entre uma acalorada conversa sobre livros e autores caídos no esquecimento, David Soares recordou o humanista português Francisco de Holanda. E mais do que recordar os seus escritos, mostrou-nos algo que raramente recordamos: a sua obra gráfica. Abrindo um volumoso e pesado tomo fac-similado, deu-nos a conhecer o traço do pintor, arquitecto, cronista e humanista que na Roma renascentista conviveu de perto com Miguel Ângelo.

Francisco de Holanda é recordado mais pela sua obra ensaística do que pictórica, e foram excertos dos seus Diálogos que iniciaram a conversa. Embrenhados pelo pensamento renascentista, esquecemos habitualmente que de Holanda também foi pintor. É curioso que por cá não se dê o destaque merecido à sua obra pictórica, como um dos nomes importantes da pintura portuguesa entre Grão Vasco e Josefa d'Óbidos. Algumas razões residem na quantidade do seu espólio que se encontra em Espanha. Confesso que já passaram uns anitos desde as aulas de história de arte que frequentei, e posso ter andado distraído, mas apercebi-me naquele momento que nunca tinha visto nada pintado ou desenhado por de Holanda.

Foi uma grande surpresa. David Soares apelidou o grafismo simbolista das obras que nos mostrou de proto-blakeano, algo que se tornava cada vez mais aparente a cada página virada. Trouxe-nos a sua cópia fac-similada do Livro das Imagens das Idades do Mundo, De Aetatibus Mundi Imagines. Não sendo livro leve ou barato (estas edições fac-similadas especializadas têm mercado em Espanha, com algumas editoras a apostar no mercado de conhecedores e amantes profundos dos livros antigos), está, felizmente, disponível para leitura online no site da Biblioteca Digital Hispânica.

Infelizmente o leitor de livros digitais desta instituição não está pensado para ser embebido noutras páginas, por isso se quiserem descobrir e deslumbrar-se com o traço deste pintor e humanista português, visitem-no aqui: De Aetatibus Mundi Imagines. Há uma possibilidade de exportar toda a digitalização como PDF, mas a resolução das imagens é muito baixa e não lhes faz justiça.

Em 2008 o sempre intrigante e bibliófilo BibliOdyssey destacou as melhores gravuras das Idades do Mundo de de Holanda, com um post de encher o olho (tão habitual neste site que já nem ligamos). Se o livro nos dá a dimensão da fisicalidade da obra, a acessibilidade do digital permite-nos ficar a conhecer a obra. É interessante perceber que ao falar de livros precisamos por vezes do objecto físico para nos quebrar o ruído do fluxo digital e redescobrir uma das grandes valências da internet: o tornar acessível o bastante inacessível.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Comics


2000 AD #1940: A divinal dupla Ian Edginton e D'Israeli juntou-se para mais uma deliciosa aventura de pura ficção científica. Em Helium o planeta está permanentemente coberto por uma nuvem de gás tóxico. São três mundos num. Debaixo das nuvens sobrevive-se graças à tecnologia, e sobre as nuvens os céus são o limite dos habitantes. Por entre o gás vive uma espécie de mutantes, e os três mundos colidem de forma violenta nesta intrigante série, a mais interessante do corrente alinhamento da 2000 AD.


Archie Vs. Predator #04: Alex de Campi conclui muito bem esta mini-série completamente over the top que mistura os personagens clássicos do comic delicodoce para pré-adolescentes e um dos mais hiperviolentos personagens do cinema. A sátira às convenções dos géneros é assumida e levada a extremos sangrento. O convencionalismo do comic mainstream é desmontado com ironia assassina ao longo desta curta série.


The Infinite Loop #04: Uma série invulgar no panorama dos comics. O traço da ilustradora Elsa Charretier é encantador, e o argumento de Pierrick Collinet surpreendente. A série lida com paradoxos temporais, mas o seu real foco está nos dilemas e dificuldades de assumir a sexualidade. Debaixo de um invólucro de ficção científica está aquela que é uma história sobre o compreender a homosexualidade. Também inusitado neste tipo de comic e editora é o elevado nível de sensualidade explícita da série.

sábado, 25 de julho de 2015

Azul Matinal



Curto regresso à Ericeira, aproveitando o dia de sol radioso para uma longa reunião (da maneira como esta terra anda rendida ao turismo de modas, só lhe faltam tuk tuks a entupir as praias).

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Ultima


Stephen Baxter (2014). Ultima. Londres: Gollancz.

O meio do caminho é um sítio tramado. Olhamos para trás e contemplamos o quanto já caminhámos, em frente resta o que nos falta para andar. Diz-se que nas séries literárias se passa o mesmo, que o segundo livro da trilogia, o meio da história, é aquele que menos prende o leitor e o que mais parece enchimento que se nos leva um pouco mais perto da conclusão não o faz de forma a que a nossa curiosidade fique suficientemente satisfeita.

Ultima sofre, e muito, deste mal. Parte do livro é um exercício curioso de história alternativa, e o restante uma longa odisseia num fim dos tempos. Ambas se sentem como excessivas, como enchimento, podendo ser mais sucintas sem que com isso houvesse prejuízo para o arco narrativo.

Mesmo escrevendo com uma óbvia visão de páginas a metro, Baxter não deixa de brincar com um conjunto de ideias intrigante. Andar às voltas com um mundo ficcional de multiversos permite aventuras de especulação histórica, e o autor não nos desilude, embora talvez peque pelo excesso de detalhe. Numa das duas variantes que nos dá é o Império Romano que, vivendo numas tréguas violentas com a China e uma união dos povos nórdicos, se vai espalhar pela galáxia. Na outra, esse fardo recai sobre um império Inca que homogeneizou o planeta e instalou o seu centro imperial num gigantesco O'Neill no ponto L5. Boas desculpas para alongadas especulações sobre como se adaptariam as estruturas políticas e culturais de dois povos esquecidos caso a história como a conhecemos tivesse decorrido de outras formas.

Parte da premissa deste universo ficcional está na divergência e colisão de linhas temporais. Baxter segue um caminho mais de história alternativa, aproveitando para brincar com história e sociologia, mas confesso que prefiro a tessitura de Benford em Timescape, livro onde o colapso dos tempos se traduz num constante fluxo de alterações históricas ao nível micro perceptível apenas ao leitor. Baxter segue o caminho oposto, com um núcleo de personagens que sabe que está a viajar entre universos que colapsam e se recorda de outros tempos. Este é o livro que nos responde a essa premente pergunta que é o que aconteceria a uma legião romana se combatesse um exército inca nos altiplanos andinos... apesar destes serem uma elaborada simulação dentro de uma vasta estação espacial.

O outro ponto de interesse desta série é o volteio que Baxter dá à hipótese gea. Devem recordar-se, aquela mistura de ciência ambiental com misticismo new age que postula que o planeta terra é um organismo consciente. Baxter vai mais longe. Imagina a vida a surgir nos primeiros tempos da expansão do universo após o Big Bang, não como formas complexas mas como colónias de organismos unicelulares que sobrevivem nos substratos rochosos do interior profundo dos planetas. Colónias que acabam por atingir sentiência. Praticamente imortais, apenas vulneráveis à aniquilação dos planetas onde vivem, comunicam através de pedaços rochosos atirados pelo espaço que trazem a vantagem adicional de semear vida nos planetas estéreis. Intrigante, esta noção de uma mente profundamente alienígena, interligada de formas inimagináveis, latente aos olhos de uma humanidade que se move num tempo fugaz perante seres capazes de viver até ao fim dos tempos. De uma humanidade que, aliás, parece ter sido criada como instrumento desta forma de vida para espalhar túneis entre o espaço-tempo pela galáxia fora. Toda a nossa evolução é um piscar de olhos das mentes-enxame unicelulares residentes nas profundezas rochosas.

A história não acaba aqui. Somos levados ao final dos tempos, ao colapso final das linhas temporais. Seria uma bela maneira de terminar o livro, mas Baxter prepara o terreno com a salvação de alguns dos personagens num passado que sendo o nosso futuro não deixa de ser antediluviano aos olhos de quem assiste ao colapso do universo. Colapso que poderá ser artificial e talvez não seja final, porque aniquila um grupo de personagens demasiado interessante para que sejam mera carne para canhão.

Será que o terceiro volume nos trará inteligências artificiais que sobreviveram para lá do espaço-tempo? Só se saberá no terceiro volume. Tendo em conta o investimento que Baxter colocou nas suas IAs, centrais à narrativa, duvido que as deixe cair no final deste segundo volume. O que sabemos que podemos esperar é uma linha temporal alternativa em que a alemanha talvez nazi se espalhou pelos espaços. Bolas. Terminar um livro com um "vira o disco e toca o mesmo" não é bom prenúncio.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Peer Gynt


Confesso que temi o pior. Aproveita bem o café, vão ser três horas e meia de espectáculo numa sala quentinha que convida ao soninho, disseram-me momentos antes da peça começar. Três horas e meia, no final de uma das minhas habitualmente longas semanas, com o corpo fatigado por uma noite no Super Bock Super Rock. Temi que iria lamentar a minha sanidade em ter vindo ao Teatro Experimental de Cascais assistir à representação de Peer Gynt. E a sala era, de facto, quentinha. Numa noite de verão, quente como um forno de cozedura em lume brando. Aposto que será uma sala acolhedora nas noites frias de inverno. Felizmente, a sala excessivamente quente e abafada foi o pior aspecto desta noite teatral.


Tudo o resto foi uma surpresa avassaladora. Pode parecer uma comparação exagerada, mas não consigo encontrar outra que transmita o quão surpreendente foi este espectáculo. Três horas e meia? Não se sentiram. O cenário austero, uma estrutura que deve ter provocado alguns dolorosos acidentes durante os ensaios, não distraía o olhar com elementos decorativos e convidava a mente do espectador a imaginar os espaços cénicos, direccionado pelo texto, actuações e uns deliciosos figurinos de Fernando Alvarez, entre o realismo clássico e a pura fantasia. Aliás, no registo fantástico dos trolls da montanha ou das lascivas criaturas da floresta, os figurinos estavam fabulosos.

A tradução do texto de Ibsen soube manter o ritmo da poesia e, trabalho certamente mais difícil, o sentido das rimas. Quando, por exemplo, o Bøyg diz dá a volta, não é de um gesto físico que se trata, mas de toda a atitude de dar a volta aos problemas, e percebemos isso. O humor, as camadas de sentido, o ritmo poético foram preservados pela abordagem ao texto.


Foram três horas e meia, disse? Só se sentiram pelo calor na sala. O ritmo foi muito rápido, com um enorme dinamismo nas cenas. Quase frenético, nalguns momentos. Fiel à vertente musical desta peça clássica, houve vários momentos de canção e bailado, em complexas coreografias e com uma qualidade musical que surpreendeu. Os esforços de Natacha Tchitcherova e Ana Neves na coreografia e canto, respectivamente, traduziram-se em cenas encantadoras e de elevadíssima qualidade, especialmente levando em conta a grande quantidade de actores em palco a cantar e dançar ao vivo. Já na banda sonora Grieg foi o obrigatório ponto de partida, mas a peça não seguiu o caminho do bailado e buscou outras sonoridades. E até influências cinéfilas. Quando vemos actores a pular como macacos (e a fazê-lo mimetizando muito bem os movimentos dos símios) à volta de Peer enquanto se ouve o Zarathrustra de Strauss, sabemos que a piscadela de olho a 2001 é intencional.


Nada disto funcionaria sem actores no topo do seu desempenho. O elenco incluiu veteranos, com uma Maria Vieira apaixonante como Aase, mãe de Peer, a oscilar na perfeição entre o humor e o trágico. Constança Rosa como Solveig traduz a iconografia da delicada e apaixonada donzela nórdica. Mas o palco, aliás, a noite, pertenceu a José Condessa a incorporar Peer Gynt. Leiam "pertenceu" com o mesmo sentido que os l33tspeakers dizem pwnd. Tudo gira à sua volta, em três horas e meia incansáveis, que começam com um registo energético e intencionalmente pueril mas terminam com amargura e possível redenção. Sempre imparável, Condessa levou-nos às aldeias norueguesas, aos desertos africanos, aos mares revoltos e ao regresso a um lar que se desvaneceu em busca da vida de que se fugiu. É a força e energia que imprime ao seu desempenho que, de facto, sustentam esta peça.

Resta sublinhar o trabalho dos restantes actores, que nos leva à grande ambição revelada nesta produção. Os veteranos ancoravam o trabalho de finalistas e alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais, mas o trabalho destes foi de excelência, A peça não funcionaria sem o melhor desempenho de todos. Um dos aspectos surpreendentes foi a qualidade do desempenho destes alunos numa peça que teve o seu quê de prova de aptidão final de curso profissional. Quanto à ambição, note-se a coragem do encenador Carlos Avilez a levar em diante esta representação com largas dezenas de actores em palco. Sublinho o largas dezenas. Funcionou, encantou e espantou.


Ibsen caminhou entre o naturalismo, o fantástico e o proto-surrealismo nesta peça onde pegou em lendas do substrato de folclore noruguês, legando uma história intemporal que nos leva a questionar se todos nós, aqueles que mantém vivos os seus sonhos e não desistem de resistir aos sufocos têm algo de Peer Gynt dentro de si. Isso, a impossibilidade de retornos, a acção na inacção, aspectos focados num texto que têm uma forte componente de magia e fantasia clássica. Algo que esta representação também sublinha. Os antros do rei da montanha são um excelente exemplo, tal como o orientalismo das arábias imaginárias com odaliscas e dunas, ou, na mais magistral de cenas magistrais, a tempestade em alto mar onde o corpo dos actores e um vago fumo como efeito especial chegam para conjurar uma portentosa tormenta. Um tecnólogo como eu, apaixonado pelos efeitos das tecnologias e por dead media, não pode deixar de reparar na referência à daguerreotipia como uma nova tecnologia capaz de fixar o espírito que ouvi algures na peça. Suspeito que o texto de Ibsen, disponível no Projecto Gutenberg, se irá tornar leitura próxima.

Só não se perdoa o forno abafado que é a sala do TEC. Foi uma provação para a sala esgotada, e certamente que também para os actores. No restante, no que realmente importa, Peer Gynt é uma encenação excepcional, ambiciosa, que agarra quem a vê, com um ritmo e dinamismo imparáveis. Está em cena até dia nove de agosto no Teatro Experimental de Cascais. Diria que é imperdível para conhecedores de teatro (coisa que se deve notar que não sou). Para fãs do fantástico nas artes, digamos que é uma belíssima experiência ver o texto desenrolar-se aos nossos olhos pela voz e postura corporal dos actores. Peer Gynt tem o seu quê de existencialismo, mas também nos leva para mundos feéricos povoados por sensuais leiteiras, trolls egocêntricos, implacáveis demónios e a voz incórporea do bøyg. Fantástico, no sentido clássico do termo. E não vão precisar de café, mas levem água que a sala é uma sauna que vos irá desidratar.

Imagens descaradamente surripiadas à página Facebook do Teatro Experimental de Cascais.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Visões


Dark Matter: O canal SyFy anda a surpreender, produzindo séries de ficção científica mais a sério do que as patetices de filmes de série B em que nem os efeitos especiais se aproveitam ou inúmeras variantes dos monstros sobrenaturais com problemas sentimentais a que nos habituou. Dark Matter é uma variante do clássico western in space. O seu universo ficcional vai sendo ampliado a cada episódio, e parece um vasto recreio para as aventuras de um bando de inadaptados que, aparentemente, são mercenários criminosos procurados em toda a galáxia mas que acordaram com amnésia numa nave espacial em trânsito. A galeria de personagens socorre-se de todos os arquétipos do género, dos durões aos desenrascados e carismáticos, sem esquecer uma fria andróide que na forma seca, mecânica e autista como interage com os restantes personagem é de longe a mais divertida destes. Metodicamente, quer pela base ficcional quer pelo tipo de histórias que nos dá a cada episódio, parece querer estar a almejar ao estatuto de culto que Firefly tem, esse sim um descarado western in space.


Killjoys: Já a outra aposta do SyFy depressa se reduz à mediocridade. A premissa de uma sociedade neoliberal meritocrática de conglomerados financeiros e servos, sistema social ao qual só escapam os caçadores de recompensas ao serviço de uma entidade neutra dentro de um sistema triplanetário é interessante, mas a execução é o que se espera: as aventuras de três caçadores ao serviço da companhia. Boa desculpa para inevitáveis cenas de acção que se parecem suceder na mesma temporização em todos os episódios, cenários mais intuídos do que investidos, e actores a passear armas em coldres mas incapazes de qualquer profundidade emocional. E o inevitável mistério que se arrastará ao longo da série, nunca revelado, sobre uma das persoangens principais. Resta a actriz Hannah Kamen, que não se está a safar nada mal como sensual badass SciFi queen.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

SciFi LX Ano Zero


Que grande salto. No ano passado, a Massive Warmup Party desta que ambiciona e muito bem estabelecer-se como uma forte convenção de Ficção Científica em Lisboa, ocupava parte do átrio e algumas salas do edifício principal do IST. Este ano fomos surpreendidos com um programa vasto e multidisciplinar que se estendem por espaços ao longo de três pisos, com exposições, espaços de gaming, cosplayers, palestras e uma área central cheia de bancas de livrarias e grupos interventivos que mostram o seu trabalho na área da FC. Tanta coisa para descobrir, e tive imensa pena de ter de me ficar por pouco mais do que uma visita relâmpago.


Mostrando o seu dinamismo, a Imaginauta aproveitou o evento para mostrar o trabalho multidisciplinar que estão a fazer com o seu Comandante Serralves, que em breve terá o seu próprio RPG. As ilustrações estão fabulosas.


O Portuguese Lego Users Group já é habitual neste evento, mostrando algumas construções temáticas e um robot EV3 ocupado na difícil tarefa de resolver um cubo de Rubik. Para fãs e nostalgista da clássica série Space:1999, esta base Alfa é um mimo.


Sem dúvida a bancada que mais atraía o olho pela qualidade do seu projecto, a Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas mostrava o que tem andado a fazer com os seus deslumbrantes cosplays de steampunk. Quem os segue e sabe o que fazem no Arranca Corações conhece o dinamismo deste grupo.


Awww, tão kawaii... este Dalek fofinho fazia as delícias dos que passavam pelo espaço dos Gerrilla Crochet, tricotadores dedicados à cultura geek.


Como podem ver, uma bancada cheia de bonecos apetecíveis.

Os espaços de livreiros eram uma tentação, com livrarias especializadas e alfarrabistas a trazerem muitas tentações para a carteira. Assim por alto, estavam lá representadas a Kingpin, Bookshop Bívar e Leituria, entre outros. É deprimente pensar que os espaços de livros em segunda mão são, por cá, os únicos que apostam na literatura de FC.

Fiquei-me por aqui. Não tive tempo de visitar as zonas dedicadas a workshops, RPGs e jogos, nem a estar presente no extenso mas interessante programa de palestras. Pelo panorama nota-se uma aposta multi-disciplinar, indo para além do fandom e trazendo em força a ciência e tecnologia para a convenção, algo que faz todo o sentido num evento dedicado à Ficção Científica. É muito bom ter um programa que nos fala de cozinha molecular, aprender a programar Arduinos, mexer com geradores Van de Graaf, tomar um café, estragar o saldo bancário com aquisições literárias, ficar de queixo caído com a mestria dos cosplayers (sem as habituais confusões do Anicomics, que também vive muito desse público), ir descobrir ou redescobrir os projectos nacionais dedicados à FC. Isto em pouco tempo. Para ficar com uma ideia do que foram estes dois dias rumem ao SciFi World, com um excelente relato deste Ano Zero.

Se isto foi o ano zero, a fasquia para o ano um vai ficar elevada. Fica a dica.

Comics


Mercury Heat #01: Kieron Gillen assina este título descomplexado e assumidamente simplista, que brinca com os elementos narrativos da FC cyberpunk e hard. Não parece pretender ser mais do que um comic de aventuras com uma heroína marcante, mas sublinha o quanto o espaço da banda desenhada parece ser aquele onde a FC contemporânea mais se consegue afirmar. Se o cinema aposta da FC como espectáculo e a literatura mantém um misto de classicismo com inovação, os comics são campo aberto a todo o tipo de FC, da mais arriscada à mais banal. Com a vantagem de materializar as fabulosas visões da literatura só com recurso ao traço e à cor, sem necessitar dos intensos investimentos requeridos pelo cinema.


Trees #11: Ok, isto é um retrato de Warren Ellis? Sempre suspeitei que ele punha muito de si nalguns dos seus personagens-tipo. Especificamente naqueles que são obcecados pelo que lhes desperta a atenção e reagem com violenta ironia verbal ao contacto com o mundo. Spider Jerusalem, anti-herói de Transmetropolitan, é talvez o exemplo que foi levado até aos limites, mas é um tipo de personagem habitualmente secundária que é recorrente nas histórias do argumentista. Para um seguidor dos feeds de newsletter e Instagram de Ellis, a semelhança física é enorme. E as palavras parecem saídas de uma Orbital Operations ou um Morning Computer.


Silver Surfer #13: Quão psicadélico se consegue ser num banal comic de super-heróis? Creio que desde os tempos de Jim Steranko e Steve Ditko que não havia nenhum comic na Marvel que se apoie tão abertamente numa estética psicadélica. O Surfista Prateado sempre foi algo a puxar ao cósmico, e com o casal Allred na ilustração essa veia foi ressuscitada com estilo.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Penny Dreadful


Penny Dreadful: Terminou a segunda época desta espantosa série, que se caracterizou por ter sempre mantido muito elevado o nível do que se propunha fazer. Não se diluiu no melodrama ou reduziu o horror a cinco minutos por episódio. Soube manter as suas intricadas linhas narrativas sem decair na telenovela de episódios sucessivos em que o que realmente confere o interesse à série fica esquecido pelas agruras de intermináveis continuidades narrativas.

É certo que não é uma série original. É o tipo de produto mediático possível e desejado nesta era de cultura corta-e-cola hiperreferenciada, que olha para os repositórios de ficção do passado não como memória histórica e cultural mas como substrato reciclável em novas histórias. Algo que normalmente se fica pelo reavivar da iconografia e pouco mais, mas que nesta série tomou forma de uma boa história que fez rasgadas e respeitosas vénias ao seu material de base. Penny Dreadful não inovou velhos personagens ou refez histórias de sempre. Os seus criadores souberam olhar muito bem para o que os inspirou e canalizar num híbrido de decalque directo e nova história.

Por detrás da série está a marcante tradição da literatura gótica, dos contos de arrepio e espanto da literatura de cordel, dos primeiros filmes de terror. Daí vieram as personagens e ambiente da série. As citações literárias e audiovisuais foram mais que muitas, traindo um conhecimento enciclopédico do corpus fílmico e literário clássico. Alguns personagens - Dorian Gray, Viktor Frankenstein e a sua criatura, vieram directamente desta tradição. Outros são amálgamas bem construídas de arquétipos literários estabelecidos na viragem do século XIX para o XX - a bruxa mística atormentada e misteriosa, o intrépido explorador do continente negro, o fiel servente africano entre a civilidade europeia e as trevas da selva profunda, o licantropo atormentado.

Peguem em Frakenstein de Shelley, Mary, claro, não do outro Shelley. Retrato de Dorian Gray de Wilde. Dracula de Stoker cruzado com Nosferatu (esse também uma cópia de Drácula) e Varney the Vampyre. Quer as aventuras que Conan Doyle escreveu para Sherlock Holmes quer para o intrépido Professor Challenger de Lost World. Os arquetípicos exploradores da darkest africa, quer os reais Stanley e Livingstone quer o clássico Alan Quatermain. Talvez o eterno servo Sexta Feira de Robinson Crusoe. As lendas do velho oeste. A Londres vitoriana de Dickens. As visões licantrópicas de The Wolfman e An American Werewolf in London. Toques de M.R. James e W. H. Hogdson. Pitadas de theatre Grand Guignol, museus de ceraBlack Sunday e do lirismo gótico decadente de Bride of Frankenstein. Decerto que me escaparam mais algumas centenas de referências.

Entre a primeira e segunda série houve poucas variantes do horror clássico que não tenham escapado a Penny Dreadful. Cada episódio brindou os espectadores com um manancia de referências literárias e estéticas que, em muitos casos, decalcou directamente a iconografia de filmes clássicos. Lobisomens a uivar à lua, como sempre o fizerem em cartes de cinema. Bonecas assombradas. Casas de assombro. Feéricos museus. Bailes que terminam com alucinações de banhos de sangue. Sombras que animam as figuras hieráticas nas caves dos museus de cera. Invocar todas as referências visuais com que a série nos brindou seria um jogo interminável.

A série não nos trouxe nada de fundamentalmente novo. Num media repetitivo e simplista que habitualmente se reduz ao menor denominador comum teve, e esperemos que continue a ter, a virtude da erudição respeitosa, do recordar o clássico sem revivalismos nem renovações que o estupidificam. Mantendo sempre um ritmo fílmico marcado, e uma deslumbrante estética tenebrosa. Em suma, uma série talvez divertida para o comum dos mortais, mas um delicioso docinho para o conhecedor do terror enquanto género literário e cinematográfico.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Rocketship X-M


Um clássico do cinema de ficção científica, que consegue reunir o melhor e o pior do género em filme de série B. Do melhor destacaria o optimismo contagiante e inocente, um espírito de época que mistura visões algo ingénuas de progresso com uma confiança cega na ciência e tecnologia. Quanto ao pior... tudo o resto.

É impossível levar a sério um filme que alegremente ignora a ciência mais elementar. A preparação dos astronautas para uma missão à lua fica-se por umas picadelas para testes de sangue, antes da descolagem fumam e bebem álcool com jornalistas. Ir ao espaço não requer fatos de astronauta, casacos de aviador servem muito bem, mesmo como fato protector para explorar uma superfície planetária. O esforço físico da aceleração para velocidade de escape resolve-se com uns beliches e a imponderabilidade coloca casacos a flutuar mas mantém as gravatas dos astronautas firmemente a apontar para o chão. O momento de crise do filme surge quando os motores do foguetão páram, por um erro no cálculo das misturas de combustível. Este momento deve deixar engenheiros astronáuticos com paroxismos de fúria. Resolver o erro causa tanta aceleração ao foguetão que ultrapassam a órbita Lunar e dão por si a caminho de Marte. O desconhecimento da mais elementar astronomia é gritante. Aterrar em Marte não dá problemas de maior, e a atmosfera marciana só requer umas garrafas de oxigénio. Marte alberga as ruínas radioactivas de uma civilização avançada, cujos sobreviventes decaídos à idade da pedra irão matar dois membros da tripulação do X-M. Regressar à Terra revela-se mais catastrófico, uma vez que o combustível não chega para a aterragem e o foguetão despenha-se, havendo ainda tempo para que os sobreviventes da expedição relatem o que descobriram na superfície marciana e encontrarem o amor (um dos elementos da tripulação é uma fria cientista que acaba por ceder aos másculos encantos de um dos pilotos).

Cruzes credo, que neste filme a preocupação com consistências, plausibilidades e verosmilhança, ou até ciência elementar, oscilou entre o nulo e o inexistente.

Confesso que nisto aquele que me pareceu o melhor momento foi ver o piloto olhar pela escotilha para o planeta Terra, contemplado o oceano Índico à procura do Texas. O piloto. Porque, como se sabe, os pilotos nunca na vida tocam em mapas. Percebe-se a ideia da cena, mostrar que na vastidão do espaço até os wide open spaces do oeste americano são grãos de poeira no oceano cósmico. Mas um piloto que olha para a Índia e pergunta where is Texas... bolas.

Para além do deslumbramento pueril com a ciência de foguetões, fiel ao espirito da época, Rocketship X-M consegue ainda conter uma mensagem pacifista sobre os perigos da guerra atómica. Clássico da FC de série B, vale a pena ser visto como artefacto que caracteriza uma época marcante na cinematografia do género.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Proxima


Stephen Baxter (2013). Proxima. Londres: Gollancz.

Neste primeiro volume de uma nova série Stephen Baxter dá-nos space opera num assumido estilo clássico. Estamos a 300 anos do nosso mundo contemporâneo, com a humanidade a recuperar das convulsões políticas e económicas que, no rescaldo de um quase colapso ambiental, remodelaram o mapa do planeta e geraram uma nova cultura global que se espalha pelo sistema solar.

Cultura global, mas a emular a guerra fria, com dois grandes blocos a competir pelas vastidões espaciais. Os chineses, apoiados em tecnologia convencional, colonizam Marte e asteróides. Mercúrio e a Lua são domínios de umas Nações Unidas que descobriram, no planeta mais próximo do sol, uma matéria de propriedades exóticas que permite gerar energia para acelerar naves espaciais a velocidades sub-lumínicas. Controlar este recurso gera tensões cada vez mais profundas com os Chineses, que se irão resolver numa guerra cataclísmica que irá aniquilar a vida na Terra e planetas mais próximos. A intervenção de Inteligências Artificiais, vistas com desconfiança por uma humanidade que não as consegue desligar, não chega para travar uma guerra que recupera, no futuro longínquo, a mais antiga das pulsões humanas pelo controle de recursos.

Haverá sobreviventes, não coincidentemente os personagens mais marcantes da narrativa. Na Terra e em órbita, uma física que conhece bem as propriedades da estranha matéria que permite à humanidade acelerar as suas naves espaciais descobre-se levada pela maré dos acontecimentos. Envolvida com uma inteligência artificial que tenta intervir de forma oculta nos destinos da humanidade, com uma meia-irmã gémea cujo aparecimento inesperado implica uma reescrita da história humana. É principalmente através dos seus olhos que acompanhamos um dos grandes fios condutores desta história.

A outra grande linha narrativa prende-se com os sosbreviventes de uma tentativa de colonizar um planeta extra-solar habitável na órbita da estrela Próxima Centaurus. Missão das Nações Unidas, leva como incautos colonos grupos de prisioneiros condenados pelos mais variados crimes que serão despejados no planeta inóspito. É uma vertente muito negra da aventura espacial, claramente decalcada na colonização britânica da Austrália, mas também fascinante pela vida nativa que Baxter descreve neste planeta extra-solar: comunidades de seres similares a galhos, seguindo uma lógica vegetalistas, com uma cultura milenar estática comunicada por movimentos e feromonas. Neste novo planeta assistimos à luta pela sobrevivência de um personagem com um passado misterioso, que esteve em sono criogénico durante os tempos convulsivos que antecederam a nova ordem global, com uma fiel inteligência artificial e a família que acaba por estabelecer com uma oficial das nações unidas deixada para trás pela expedição colonizadora. A sua filha tornar-se-á a primeira criança humana nascida num planeta extra-solar. Esta inteligência artificial, originalmente desenhada para operar uma espécie de nano-fábrica-impressora 3D-unidade médica-laboratório de observação, é tão curiosa e preocupada com a sua obsolescência planeada, que é de longe a mais humana e intrigante das personagens criadas por Baxter nesta série.

O grande elemento que une estas linhas narrativas e que dá o cerne à space opera é o mistério da matéria exótica que possibilita as viagens espaciais, que se revela claramente artefacto tecnológico de uma civilização desconhecida. A revelação surge com o impossível, a descoberta de uma escotilha na superfície de Mercúrio que o interliga com o planeta habitável de Próxima Centauro. Uma outra escotilha na superfície do mundo alienígena mostra-nos que esta esquecida civilização parece ter deixado pontos de ligação que não só atravessam o espaço-tempo como parecem interligar diferentes universos.

Algo que é intuído aquando da descoberta da primeira escotilha, que parece reescrever a história humana ou, hipótese mais plausível, transporta a física de renome (e com ela os leitores) para um universo paralelo com divergências quase imperceptíveis com o do início do livro. Uma ideia que se fixa na conclusão deste primeiro volume, com o antigo colono, a questão mal respondida que é a irmã gémea da cientista e o núcleo da simpática inteligência artifical a atravessarem as câmaras interiores da nova escotilha e emergirem num planeta desconhecido, aparentemente colonizado por legiões romanas. Um intrigante ponto de partida para o segundo volume, que mantém também em aberto os destinos da cientista, da nativa da nova colónia e de uma cópia da mais interventiva das inteligências artificias terrestres que se refugiam do iminente conflito numa nave espacial. Esta será levada pelas ondas de choque de uma explosão terminal provocada pelo abalroar por um míssil chinês composto por naves espaciais atiradas contra a jazida de matéria exótica na superfície de Mercúrio. Esta explosão de matéria exótica aniquilará a vida na Terra mas terá como efeito secundário atirar a nave dos refugiados para um outro universo.

Proxima é aventura clássica, cheia de deliciosas especulações para os amantes de infodumps e a meter-se com elegância nas teorias sobre multiversos.  Um livro que se lê como um delicioso docinho para os fãs mais arreigados de ficção científica, que pretende ser apenas aquilo que é: ponto de partida para uma série de space opera, entretenimento bem urdido em literatura de género que equilibra a aventura com especulação científica. Ou seja, ficção científica pura e dura. Bem escrito, é daqueles livros que provoca noites em claro pela leitura compulsiva.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Contos do Gin-Tonic


Mário-Henrique Leiria (2007). Contos do Gin-Tonic. Lisboa: Presença.

Cruzei-me, finalmente, com estes textos agora clássicos pertententes a uma variante da literatura portuguesa que, escapulindo-se a normas e sendo subversiva, não fica na sufocante, algo bafienta e nada aversa a modismos memória pública institucional. Mas fica na dos amantes da boa literatura, apreciadores de obras que pisam o risco e saltam para o lado de lá das cercas. Livros marcantes, que se vão encontrando em raras reedições, ou como samizdats alfarrabistas. Sabem o que quero dizer com isto. Aqueles livros esquecidos, se calhar com um grande suspiro de alívio dos meios mais convencionais, descobrimos em papel amarelecido e capa a desfazer-se nos caixotes das lojas de livros antigos.

Estou um pouco rebelde nesta resenha. Enfim. Claramente fiquei sob influência destes contos.

Se há impressão que nos fica ao finalizar a leitura destes deliciosos contos, fragmentos e poemas surrealistas, é a do sorriso perante a ironia corrosiva que os pervade. Algo que oscila entre o simples sorrir com o humor mas chega à caricatura subversiva que, se vista à luz da história portuguesa contemporânea, se compreende como uma reacção aos sufocos do bafiento fascismo de um estado novo prestes a derrocar. Devo dizer que fiquei curioso em saber como é que a primeira edição, de 1973, sobreviveu aos lápis azuis da censura.

Categorizar este livro é algo de impossível, uma vez que saltita entre géneros. Dá até alguns toques na ficção científica. Mas também não interessa categorizá-lo. Vale mais saboreá-lo, acompanhado de golos de gin ou outra bebida igualmente capaz de assaltar os sentidos. E perceber que, tantos anos passados após a primeira edição, a sua capacidade subversiva ainda se mantém actual não pela memória histórica mas por vivermos num momento contemporâneo onde os bafios regressionistas e opressivos de ar respeitável voltaram a afirmar a sua força.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Comics


Batman #42: A icónica personagem é indissociável de Bruce Wayne e eu já me estava a perguntar onde é que o tinham enfiado nesta reinvenção ao estilo transformers. Cá está, como anónimo benemérito cujo olhar trai mais do que nos é revelado nesta linha narrativa onde o Batman original desapareceu, e cai nos ombros do comissário Gordon o assumir do uniforme, agora revisto como um exo-esqueleto robótico com uma unfra-estrutura de apoio decalcada daquelas séries televisivas dos anos oitenta sobre combatentes pela justiça ao volante de carros falantes.


Constantine: The Hellblazer #02: Continua a seguir muito bem esta revisão do clássico personagem de comics de horror. Torna-o mais contemporâneo, sem deitar a perder todo o misticismo anterior criado por Moore e Milligan, afastando-se da recente tentativa falhada de o popularizar dento dos cânones mainstream dos comics de super-heróis. Constantine está menos torturado, de sorriso cínico, sem o endurecimento do evenlhecimento da série Hellblazer, onde Milligan o levou à amargura. E com alguma ambiguidade sexual como pormenor curioso. Algo ausente até agora num personagem sempre visto como claramente heterosexual e com uma relação nunca resolvida com Zatanna. Esta poderosa ilusionista sempre se foi cruzando nas linhas narrativas mais acessíveis do personagem, culminando com um melodrama amoroso nas páginas da divertida mas aparentemente extinta Justice League Dark. Hellblazer sempre teve um longo historial de amarguras amorosas, que culminou com o casamento de John Constantine com a filha de um criminoso londrino. Agora, temos olhares indiscretos em direcção a homens de músculos bem torneados. Curioso. Curiosa aposta da DC. Será que irá funcionar?


Starve #02: Brian Wood pegou na patética proliferação de espectáculos de culinária onde aspirantes a cozinheiros se defrontam em selecção natural darwiniana enquanto se afadigam a cozinhar os mais requintados e inesperados pratos. Misturou-lhe uma saudável dose activista de futurismo deprimido por colapsos ambientais e económicos. E deu-nos isto: um futuro próximo onde as águas dos mares submergem as ruas de Nova Iorque, cidade onde os mais ricos dos um percentistas gozam de luxos inacreditáveis enquanto o planeta se desagrega. A alta culinária é moda, e quanto mais em risco de extinção estiver o animal do qual é feita a iguaria, melhor. Uma metáfora pouco velada para o actual capitalismo colapsante alimentado por clientelas neo-liberais de élites cada vez mais distanciadas de uma humanidade cujo progresso parece estar em regressão em toda a linha.

Lisbon Maker Faire 2015


As TIC em 3D vão estar presentes na Lisbon Maker Faire 2015. Segunda edição da Faire, já não mini, A presença na primeira edição deu-nos muitas novas ideias de desenvolvimento, algumas das quais concretizámos com a entrada na impressão 3D. Que coisas novas iremos descobrir nos espaços de partilha da Maker Faire deste ano? Lá estaremos, para mostrar o que se faz dentro da escola pública, e para aprender, trazendo novas ideias que seguramente irão permitir manter a inovação neste projecto. Em breve, disponibilizaremos mais novidades.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Impressão 3D: Experiência Introdutória


Notas da apresentação no XV Encontro das TIC na Educação, organizado pelo Centro de Competências Entre Mar e Serra nos dias 9 e 10 de julho de 2015, em Leiria.

Slide um: Vou-vos desiludir. Este hello world não foi o primeiro objecto que imprimimos na sala de aula. Na verdade foi o segundo... Para experimentar imprimimos pela primeira vez um objecto de teste, mas não queríamos deixar de homenagear a clássica tradição do mundo digital de dizer “olá mundo” quando se trabalha pela primeira vez em algo de novo. Ao mergulhar no mundo da impressão 3D, a sensação que temos é a de algo de fundamentalmente novo, cheio de possibilidades que começam agora a ser afloradas. Qualquer que seja o primeiro passo, a sensação de “olá mundo” é fortíssima.

Slide dois: Experimentar - Gostaria de começar por mostrar este gráfico. É um Gartner Hype Cycle. Vale o que vale. Produzido anualmente pelos analistas da Gartner, seguindo os seus critérios internos. Mas esta noção de curva para medir o interesse em novas tecnologias é intrigante. Descreve muito bem, pensamos, as atitudes que temos perante uma nova tecnologia. É algo que nos é intuitivo.  Quando uma nova tecnologia nos desperta a atenção entra no que apelidam de período de grandes expectativas. Todos sentimos isso. E depois pensamos afinal, para que é que isto nos serve? É aí que as expectativas caem, e entram em acção aqueles que estão mais interessados no desenvolvimento das aplicações possíveis. Que, lentamente, vão penetrando mercados e consciências. É o chamado plateau of productivity. É o momento em que as tecnologias promissoras e futuristas começam, realmente, a modelar o futuro.

Creio que todos conhecemos um exemplo muito recente deste tipo de atitudes. Lembram-se de quando os tablets chegaram ao mercado? Cheios de promessa, para logo depois serem desconsiderados como meras ferramentas de consumo de media… e agora tornaram-se prevalentes, e avaliamos com muita seriedade a sua utilização em contextos pedagógicos. Sublinha também que fora de domínios específicos (indústrias de ponta, design) a impressão 3D é uma resposta à espera de perguntas. Ela está cá existe. O que é que podemos fazer com ela? E, no nosso caso específico, poderemos tirar partido dela para incentivar aprendizagens nos nossos alunos?

Uma nova tecnologia abre-nos enormes campos de possibilidade. Resta arrisca, testar, experimentar, para perceber como a colocar ao nosso serviço.

Slide três: Impressão 3D - O que é a impressão 3D? Sem querer entrar em muitos detalhes, é a manufactura de um objecto criado digitalmente em camadas de materiais sucessivamente depositadas por um robot controlado por computador. Há muitas variantes desta tecnologia, desde a solidificação de polímeros com lasers ao depósito de filamento termoplástico derretido. Destas, a que tem encontrado maior aceitação junto da comunidade (por uma combinação de simplicidade com o caducar de patentes) é a impressão por depósito de filamento, comummente referida por FDM (fused deposition modeling, termo sob copyright pela Stratasys) ou FFF (Fused Filament Fabrication)/PJP (Plastic Jet Printing).

Grosso modo, a impressão 3D FFF é feita por uma cabeça de impressão que aquece o material termoplástico a temperaturas específicas, forçando a sua saída através de um extrusor que o deposita sobre uma superfície (mesa de impressão). Motores passo a passo controlam a posição da cabeça e mesa nos eixos XYZ, permitindo que o extrusor deposite camadas sucessivas de filamento que vão construindo um objecto.

A tecnologia de impressão 3D, ou manufatura aditiva, é apontada como mudança paradigmática (Winnan, 2013) com uma gama crescente de aplicações industriais, científicas, económicas e lúdicas (Lipson & Kurman, 2012). Que mais-valias esta tecnologia poderá trazer aos processos de aprendizagem? Intuímos que poderá ter potencial e queremos perceber como dela tirar partido para a aprendizagem. Iniciámos um caminho de procura de estratégias concretas de adaptação à sala de aula, em contextos interdisciplinares e integração com as metas curriculares de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC).

Esta é uma área recente, com pouca literatura sobre experiências educacionais. Registam-se abordagens que incidem nas artes e CTEM (Thornburg, Thornburg, Armstrong, 2014) com projectos simples, requerendo poucos conhecimentos de modelação e integrando saberes de diferentes áreas para conceção e impressão em 3D de objetos para jogos matemáticos, módulos de pavimentações, elementos de sólidos ou engrenagens funcionais (Eisenberg, 2013).

Slide quatro: Modelar/Capturar/Imprimir - Nas primeiras experiências em sala de aula nalisámos e implementámos três opções de utilização rápida pelos alunos: 3D scanning, modelação por primitivos, e modelação rigorosa em Sketchup Make. O 3D scanning permite digitalizar objectos físicos a partir de fotografias e aplicações de fotogrametria. Modelação por primitivos é um dos mais antigos processos de modelação em 3D, através da justaposição de formas geométricas para modelar objetos complexos. Utilizar o Sketchup Make para modelação 3D é uma das mais populares opções entre os nossos alunos, requerendo rigor e atenção à integridade do modelo durante a modelação.

Slide cinco: Preparar uma impressão 3D - Preparar modelos para imprimir não é um processo automático e requer alguns procedimentos que variam de acordo com o tipo de modelo. Antes de imprimir é necessário converter para STL (formato de ficheiro para impressão 3D), fazer redução da mesh (diminuir a contagem de polígonos), solidificar (eliminar geometria interior e intersecções), e validar o ficheiro. Usamos uma combinação de ferramentas que inclui o Meshlab (converter e redução da mesh), Meshmixer (solidificar) e netfabb (operações de correcção automatizadas, validação, corte nos eixos). Só depois se importa para o software de slicing e impressão (beesoft, no nosso caso). São operações efectuadas por tentativa e erro, que ainda não conseguimos implementar na sala de aula.

Slide seis: Despertar a curiosidade - Começa por aqui, colocando uma ferramenta avançada nas mãos dos alunos, despertando-lhes a criatividade. No nosso contexto específico, interessava-nos um produto simples de usar, acelerando a utilização com alunos em sala de aula. A utilização decorre em duas vertentes: como recurso de apoio a projectos interdisciplinares, e na disciplina de TIC na sequência da aprendizagem de modelação 3D elementar na abordagem das metas curriculares (Coelho, 2014).

É ainda prematuro tirar conclusões concretas sobre o potencial da impressão 3D, estando abertos caminhos de exploração. A abordagem lúdica suaviza o esforço na aquisição de competências de visualização tridimensional, estando os nossos alunos já a materializar o trabalho desenvolvido virtualmente, trazendo-o do ecrã do computador para o domínio do real.

Slide sete: Mobilizar Conhecimentos - Outra forma de explorar o potencial da impressão 3D é através de projectos interdisciplinares, em que os alunos mobilizam conhecimento e aprendizagem de diversas áreas na concepção e produção de objectos específicos. É, em nossa opinião, uma das mais ricas formas de exploração das TIC em geral e impressão 3D em particular nos contextos pedagógicos.

É o caso deste, que denominámos de Matéria Digital, em parceria entre as áreas curriculares de TIC e Educação Visual. Tínhamos como objectivos construir bonecos articulados e recriar de utensílios de cozinha, com alunos dos 2.º e 3.º ciclos. Podem ver nas imagens quer os resultados quer momentos do processo de trabalho. Em Educação Visual foram exploradas metodologias de trabalho projectual e conteúdos relativos, enquanto TIC abriu espaço à modelação 3D com Sketchup. A impressão efectiva dos objectos teve de ser efectuada fora dos momentos desta actividade, uma vez que o tempo de impressão de um objeto é demorado e não se adequa à duração média de uma sessão de trabalho de 90 minutos.

No cruzamento de saberes de áreas científicas, artísticas e tecnológicas no desenvolvimento de projetos, este tipo de projectos incentiva a utilização criativa de meios digitais avançados. Seguimos aqui o caminho da experiência de introdução da impressão 3D, mas este tipo de metodologia apresenta resultados muito ricos com outras vertentes tecnológicas.

Slide oito: Ideias de Exploração - O interesse pela integração de impressão 3D na educação básica é crescente, especialmente no domínio das CTEM. Não resisto a destacar, a título de exemplo, o trabalho possibilitado por esta app para iOS. Infelizmente, para aqueles que trabalham com tablets do ecossistema android, as escolhas são mais limitadas. Pessoalmente não encontro uma app android capaz destas valências do morphia. Mostra como o 3D printing liberta a imaginação e dá às crianças uma nova forma de explorar aprendizagem e criatividade. Destaco estes porque para além de programarem a app também se dedicam a experimentar, colocando a impressão de 3d nas mãos de crianças, focalizada com conceitos das CTEM. E são um de entre dos muitos que cada vez exploram mais activamente estes campos.

Ideias rápidas? Existem, e começa a haver literatura sobre o tema. Focalizando entre TIC e CTEM, as actividades de concepção e impressão em 3D de objectos para jogos de lógica, módulos para pavimentações, elementos para construção de sólidos ou engrenagens funcionais. Já nos domínios artísticos pode passar pela modelação e captura 3D, reinventando objectos artísticos como forma de apropriação de linguagens artísticas e desenvolvimento de percepção espacial.

Slide nove: Aprender Fazendo - Referências bibliográficas

(2014). Beethefirst Quick Start Guide. Aveiro: Beeverycreative. Obtido a 03 de março de 2015 de https://www.beeverycreative.com/wp-content/uploads/2014/08/BEEmanual-EN-PT-DE-2014-05-19.pdf.
Coelho, A. (2014). Tecnologias 3D nas TIC: Projeto 3D Alpha. in Miranda, G., et al, Aprendizagem Online Atas Digitais do III Congresso Internacional das TIC na Educação (pp. 255-259). Lisboa: Instituto da Educação da Universidade de Lisboa.
David Thornburg, Norma Thornburg, Sara Armstrong (2014). The Invent To Learn Guide to 3D Printing in the Classroom: Recipes for Success. CMK Press.
Eisenberg, M. (2013). 3D printing for children: What to build next? in Read, J., Markopoulos, P., International Journal of Child-Computer Interaction, vol. 1, n.º 1 (pp 7-13). Obtido a 03 de março de 2015 de http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2212868912000050.
Frauenfelder, M. (2013). Make: Ultimate Guide to 3D Printing 2014. São Fran-cisco: Maker Media.
Lipson, H., Kurman, M. (2012). Fabricated: The New World of 3D Printing. Indianapolis: John Wiley & Sons.
Meier, C., Pérez, J., Cantero, J., Díaz, D. (2015). El Patrimonio escultórico en el aula. Actividades con tecnologías de Modelado e Impresión 3D y Gamificación. La Laguna: Universidad La Laguna.
Thornburg, D., Thornburg, N., Armstrong, S. (2014). The Invent To Learn Guide to 3D Printing in the Classroom: Recipes for Success. CMK Press.
Winnan, c. (2013). 3D Printing: The Next Technology Gold Rush. Amazon Digital.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Red Storm Rising


Tom Clancy (1987). Red Storm Rising. Berkley.

Li de relance, em entrevista à WIRED, que este foi um dos livros que inspirou P.W. Singer sobre o recente Ghost Fleet, uma muito interessante especulação realista de uma guerra entre potências globais num futuro próximo. Livro muito interessante em pontos de vista especulativo e tecnológico, não muito em termos literários. A tradição de imaginar guerras futuras é centenária no domínio da ficção científica e especulativa. O que disitngue livros como Ghost Fleet ou este Red Storm Rising é basearem-se em premissas muito plausíveis, inerentes às situações geoestratégicas de momentos históricos bem definidos. Também se assinala uma certa tendência de visão de superioridade e resiliência americanas face a inimigos capazes de, numa primeira fase, os levar às cordas para que depois, com luta e esforço, sejam esmagados pelo engenho yankee. Coisas de uma ficção popular que conhece bem o seu mercado primordial.

Red Storm Rising é hoje um anacronismo, quase artefacto arqueológico sobre um tempo que já passou. O romance imagina o que aconteceria numa guerra convencional entre a União Soviética e o ocidente, baseando-se para isso nas tecnologias militares e visões estratégicas vigentes no final dos anos 80 do século XX. É uma especulação de futuro a curto prazo de um passado que já se esvaiu, hoje praticamente esquecido.

Como escritor pop especializado em thrillers, Clancy obriga-nos a seguir a acção imparável do livro. Os infodumps e especulações sobre geostratégia espicaçam a curiosidade (especialmente para leitores que, como eu, se pelam por este género de especulação) mas o romance lê-se como a crónica de uma guerra que nunca aconteceu. Os pontos de vista dispersam-se para que o leitor consiga perceber a vastidão de possibilidades e zonas de combate, focalizando-se no Atlântico Norte, Islândia e uma Alemanha que à data ainda se dividia em dois países.

O romancista é preciso nas suas descrições. A Islândia, ilha estratégica para controlo do oceano Atlântico, é tomada num raide arriscado por brigadas soviéticas. Aí, um punhado de sobreviventes corajosos com acesso a um rádio vai mantendo os comandos da NATO informados sobre a evolução da situação, permitindo aniquilar as forças aéreas que ameaçam os comboios navais. É na via naval que Clancy se detém com mais detalhe, com linhas narrativas que seguem as aventuras de submarinos de ataque e uma história muito longa e repetitiva sobre um comandante de fragata encarregue de proteger navios mercantes dos insidiosos submarinos soviéticos. Não é por acaso que este autor se tornou famoso pelas histórias claustrofóbicas em submarinos. Aqui usa e abusa disso.

Quanto aos combates de terra, Clancy traça um retrato de pura guerra de atrito na Alemanha, com as forças combinadas da NATO a tirar partido da sua superioridade tecnológica para desgastar e eventualmente travar uma fortíssima ofensiva soviética. Para manter o interesse o autor vai salpicando com operações decisivas de forças aéreas em arriscados combates e não esquece o potencial dos satélites e das armas concebidas para os destruir em órbita. Mas sem naves espaciais. O romance é de ficção especulativa, não científica. Os satélites russos são destruídos com mísseis lançados por caças em grande altitude.

Dos primeiros ataques fulminantes aos combates de atrito que alteram o rumo da guerra, somos levados a uma especulação plausível do que seria uma guerra entre a URSS e o ocidente sem recorrer a armas nucleares. Essa hipótese acaba por se colocar, no final do livro, quando os dirigentes soviéticos se apercebem que perderam a guerra, mas Clancy resolve esta linha narrativa terminal com um golpe palaciano que elimina a facção aguerrida do Politburo e põe fim a uma guerra indesejada. Quanto ao casus belli, é causado por um ataque de terroristas islâmicos num campo petrolífero russo que esvazia os depósitos soviéticos. Como dar a volta às reservas que se esgotam? Planeia-se invadir o médio oriente e, para isso, começa-se por neutralizar a NATO na Europa. Faz sentido. Certo, não, não faz nenhum sentido, mas é uma razão como qualquer outra para atear o rastilho de uma guerra ficcional. Quanto aos terroristas recordo que este livro data dos anos oitenta. Os mujahedins afegãos dos tempos da intervenção soviética no país foram os progenitores dos nossos contemporâneos Al Qaeda e Isis.

Seria o retrato traçado por Clancy neste livro plausível? Creio que é a pergunta que faremos, daqui a alguns anos, sobre Ghost Fleet. Hoje, guerra no Afeganistão tem um significado totalmente diferente, a Guerra Fria e a União Soviética são passado histórico, recordado com carinho pelos fãs da ostalgia ou por aqueles que perante o mundo contemporâneo fragmentado e multipolar suspiram pelos tempos em que a coisa global era mais simples. Quando os actores no palco global mudam, estas especulações ficam como nota de rodapé a histórias de um possível que não aconteceu.

terça-feira, 7 de julho de 2015

The Steel Tsar


Michael Moorcock (1981). The Steel Tsar. Myflower Books

Dos três livros que compõem a trilogia Nomad of the Time Stream este, que o encerra, é o menos interessante e mais repetitivo. Percebe-se aqui que enquanto Moorcock expande o universo conceptual do seu multiverso, fá-lo de forma formulaica. Mudam os adereços, mas a narrativa segue a fórmula que resultou bem nos romances anteriores. Bastable acorda num novo continuum histórico, tem um périplo como vítima de eventos, a situação muda e as aventuras continuam com Bastable agora como interveniente activo, e termina de forma quase apocalíptica. Pelo meio inserem-se batalhas cheias de dirigíveis de combate a disparar temíveis armamentos.

Na fatia de multiverso deste romance estamos em 1941, com um império japonês a arrasar as colónias imperiais britânicas, holandesas e portuguesas do extremo oriente após a detonação de um engenho nuclear sobre Hiroxima. Restam os temíveis aeronautas da Rússia Socialista de Alexander Kerenski para travar o furacão nipónico e é a estes que Bastable se junta, depois de acordar numa ilha remota do império britânico depressa ocupada por japoneses, que transformam os senhores coloniais em prisioneiros de guerra. Mas o nosso herói viandante dos instáveis fluxos temporais, não irá combater no pacífico. O dirigível onde serve é destacado para combater uma insurreição cossaca na Rússia europeia. Comandados por um certo Josef Djugashvili, sacerdote sedento de poder que sonha derrubar os socialistas muscovitas para instaurar a sua ditadura, são apoiados por argutos anarquistas e estão a desenvolver duas armas secretas. Uma falha esplendorosamente em batalha, quando os mecanismos que controlam um gigantesco robot de aço se avariam. Outra promete ser mais perniciosa, com um cada vez mais louco Estaline a abandonar os seus fiéis, tomando conta de um dirígivel cheio de bombas atómicas.

Sim, a referência ao czar de aço é uma metáfora para o Estaline real.

Como sempre nestes livros, as especulações sobre alternativas históricas são fascinantes. Mas neste a combinação de especulação, aventura e combate acabam por se sentir como repetitivas, demasiado similares às dos livros anteriores.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sonho profundo.


Inceptionalizei-me. É desta matéria que os pesadelos são concebidos. Experimentem aqui, no Deep Dream Web Interface, que permite brincar um bocadinho com aquelas experiências de arregalar o cérebro da Google com redes neuronais e inteligência artificial. Ficam avisados: esta estética explodiu e a fila de trabalhos mede-se em milhares de jpegs. Estes andróides ainda não sonham com carneiros eléctricos, mas nota-se uma certa obsessão por olhos e pilosidades: This network was trained mostly on images of animals, so naturally it tends to interpret shapes as animals. But because the data is stored at such a high abstraction, the results are an interesting remix of these learned features.

Comics


Adrift #01: Arranca com um forte sentido do filme Gravity, de catástrofe no espaço vista pelo olhar da única sobrevivente, aquela que promete ser mais uma série de hard SF da Image. Tem um tie-in com um jogo de computador, mas com Matt Hawkins no argumento é muito provável que os fãs de FC tenham aqui mais uma boa leitura, cortesia de uma editora de comics que apostou forte no género. Outro pormenor curioso é o traço estar entregue ao italiano Luca Casalanguida, que conta no seu portfolio trabalho para séries da Bonelli como Nathan Never, ou o meu tão admirado Dylan Dog.


Airboy #02: This isn't the future I envisaged, diz o personagem ficcional quando colide com a complexidade do mundo real. As utopias de quadricromia nunca passaram de sonhos ingénuos num meio gráfico e literário que evoluiu do infantil à maturidade, e esse aspecto é bem explorado nesta visão muito pouco convencional sobre um herói clássico. O contraste com a moralidade binária dos comics tradicionais e as nuances de valor contemporâneas do mundo real é levada a extremos incómodos por James Robinson. Quão incómodos? Bem, depois de provar queques temperados com marijuana o nosso herói é levado a beber um copo num bar de travestis pelos seus degenerados recriadores. Digamos que o nosso herói irá ter uma grande surpresa na casa de banho, ao gozar dos favores do que acredita ser uma generosa e atraente mulher. Está-se mesmo a ver que este comic vai gerar polémica e acicatar as brasas nas guerras culturais americanas.



Onyx #01: O argumento é pouco convicente, e o brilhante e detalhado traço de Gabriel Rodriguez, que deslumbrou os leitores de Locke & Key, não se adapta muito bem à ficção científica. Mas é impossível não assinalar esta nova série da IDW. Faz lembrar, se calhar intencionalmente, um clássico esquecido da Marvel que foi ROM, o Cavaleiro do Espaço. Daquelas personagens típicas dos primórdios dos anos 80, um cyborg enviado à Terra para a defender da ameaça de obscuros seres alienígenas que invocavam um sol negro. Eterno incompreendido, continua a sua luta, exterminando criaturas monstruosas que aos nossos olhos parecem humanos normais. Dando ou tirando uns pormenores, como ser passado num futuro próximo e envolver equipes de soldados de elite, creio que acabei de descrever Onyx ao falar de ROM...


War Stories #10: Garth Ennis continua em terreno familiar, voltando ao teatro de operações europeu da II Guerra para mais uma história amarga de guerra. Desta vez recorda-nos que cidadãos de países neutrais combateram ao lado dos aliados, com as desventuras de um pelotão de inexperientes soldados irlandeses incorporados no exército britânico. Como é habitual nesta série, espera-se uma boa aventura, cheia de rigor histórico.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

The Land Leviathan


Michael Moorcock (1974). The Land Leviathan. Londres: Quartet Books.

Segundo volume da trilogia que se iniciou com o influente Warlord of the Air, neste livro Moorcock volta a trocar as voltas ao capitão Oswald Bastable. Nómada dos fluxos temporais, o aventureiro está condenado a viajar por entre mundos alternativos sem nunca conseguir regressar ao continuum de onde proveio. Crendo regressar ao futuro alternativo onde os dirigíveis libertários implantaram uma república equalitária no meio da China, descobre-se num outro mundo, devastado por uma guerra sem quartel nem fim. Nesta nova linha histórica, as façanhas de um inventor legam ao mundo uma prosperidade jamais vista. A utopia parece, finalmente, ao alcançe da humanidade mas as velhas pulsões cedo se voltam a revelar e as nações, agora prósperas e detentoras de tecnologias inimagináveis, mergulham o planeta numa guerra sem fim. Com a Europa e a América arrasadas sob uma chuva de bombas químicas e biológicas, os resquícios imperiais resignam-se a defender-se dos antigos povos nativos, apanhados no meio de novas potências destrutivas.

Restam dois grandes blocos. A oriente, a união Australo-Japonesa mantém-se neutra e prepara-se para a guerra. Em África, um novo império Ashanti unifica a ferro e fogo quase todo o continente e depressa invade as arábias e a europa. Liderado por um tirano sanguinário, descendente de escravos que busca vingar-se das sevícias que a raça branca infligiu aos negros, prepara-se agora para invadir as américas, libertando os negros oprimidos e novamente reduzidos à escravatura pelos decadentes americanos. No que seria a África do Sul, ergue-se um país próspero e benévolo. Liderado por Ghandi, é um farol do que o planeta poderia ser graças ao conhecimento e tecnologia. É ao serviço deste país que Bastable se vai encontrar, após algumas aventuras que o levam a uma Inglaterra devastada pelas bombas e reduzida à barbárie, e se cruzar com piratas submarinos polacos. Como observador, irá participar na invasão Ashanti das Américas, a bordo de uma fragata que irá sobreviver a uma portentosa batalha naval. É aí que se irá deparar com a mais terrível das armas, um leviatã terrestre, fortaleza sobre rodas eriçada com canhões, temível veículo de combate capaz de pôr cobro aos mais valentes exércitos.

Na continuidade da estética de Warlord of the Air, tão influente no movimento Steampunk, Moorcock vira-se agora para as histórias de guerra futura com uma homenagem muito óbvia a The Land Ironclad de Wells. O primeiro livro invoca Robur e todas as histórias de aeróstatos de combate. Aqui a guerra é terrena, o futuro alternativo menos distante, e o ar apocalíptico omnipresente. Implacável, Moorcock joga com preconceitos de raça e ideiais imperialistas. As suas vítimas também são vilões, as tiranias necessárias para pacificar um mundo decaído e em ruínas. Mantém sempre no alto um símbolo de utopia pacifista, de base tecnológicas e científica, mas recorda-nos que é preciso lutar contra forças muito obscuras para atingir esse patamar e que nessa guerra todos os valores são abalados. Um subtexto curioso, dentro de uma aventura empolgante onde, fiel ao género que homangeia, as descrições de portentosas batalhas com máquinas de guerra futuristas imperam, sempre dentro do tom retro-futurista da série.