sábado, 28 de fevereiro de 2015

Boas Surpresas


Confesso que estou muito impressionado com esta colecção da Levoir editada com o Público. O alinhamento de autores e livros é de luxo, e vai tornar muto acessíveis obras significativas do melhor que se tem feito em graphic novels europeias e americanas. Num país em que andamos sempre a quexar-mo-nos da escassez cultural é um pouco difícil de acreditar que nas banais bancas de jornal, todas as semanas, vão-nos cair livros de Tardi (e logo o espantoso C'etait La Guerre dans les Tranchée, obra seminal sobre a I Guerra), Moebius/Jodorowsky, Miguel Rocha, Sergio Toppi (com o visualmente deslumbrante Sharaz-De), Jîro Taniguchi (cujo Quartier Lointain deslumbrou os franceses e chega agora cá), Enrique Breccia, Robert Crumb... enfim, um alinhamento fantástico que nos dá um pouco do melhor e mais criticamente aplaudido na banda desenhada. Começa com o traço espantosos de Will Eisner na sua primeira graphic novel, que segue a tradição de Isaac Bashevis Singer e Woody Allen no retratar das idiosincrasias da diáspora judaica entre o velho e o novo mundo.

Há um nome que gostaria de desatacar. A curadoria editorial é de José Freitas, que aposto ser o mesmo que esteve envolvido nos comics da Marvel editados em Portugal pela Panini (história que acabou mal por decisão inqualificável da editora) e através da G.floy nos está a trazer Fatale, Chew e Saga. Suspeito que noutras indústrias, ou em vertentes mais nobres da edição literária, alguém que consistentemente traz para Portugal o que de melhor se fez e vai fazendo, com alguns toques mais comerciais para agradar aos fãs, seria certamente mais destacado e celebrado com um importante divulgador cultural. Mas como são histórias aos quadradinhos, o que é que isso interessa? A verdade é que voltámos a ter nas bancas BD de qualidade, e esta colecção extraordinária sublinha isso. O Leituras do Pedro tem a lista completa desta colecção notável.

Bom dia.




Fiel a um amor antigo/Acabo sempre por voltar/à casa que gostaria/de poder chamar lar.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Quem é?


Ou o algoritmo se enganou, ou está-me a piscar o olho porque sabe que gosto de chá e 3D, tendo decidido pregar-me uma surpresa ao estilo Utah Teapot. Ou isso. Mas se calhar é a primeira.

Visões


Nathan Barley ep01: Desde que vi o primeiro episódio da série Black Mirror que percebi que Charlie Booker tem o dedo firmemente assente no pulso do tempo contemporâneo. Aquele primeiro episódio, com a conspiração e rapto seguida em tempo real através de redes sociais cuja pressão obriga o primeiro ministro britânico a sodomizar um porco ao vivo na televisão para salvar a vida da vítima, cumprindo com as exigências de um pretenso terrorista que afinal se revela ser um artista conceptual com uma doença terminal. Quando correu a notícia que a série iria ter uma versão americana pensei logo a sério? Quem será o argumentista que se atreve a meter o presidente dos Estados Unidos a sodomizar suínos, cedendo às exigências de terroristas? Uma questão que fica em aberto. O que me surpreendeu nesse episódio foi a forma certeira e dinâmica como Booker geriu a questão do imediatismo e pressões mediáticas dos media em tempo real. Essencialmente, Booker é um tipo que percebe as coisas. E, como se nota por este delirante episódio de uma série antiga, já percebe as coisas há muito tempo. Quer pela estética fragmentada e dinâmica, quer pelas personagens, patéticas caricaturas dos piores excessos da cultura hip mediática que, francamente, me parecem bem representativas de alguma parte do jornalismo digital e do tipo de programação cheio de inanidades bizarras e freakshows intencionais que enche a paisagem mediática fragmentada dos canais de tv por cabo.


The Quatermass Xperiment: Seria todo um tratado sobre a evolução estrutural da ficção científica a forma como estas histórias de um passado recente nos parecem hoje pueris e simplistas. Ainda divertidas, para os que conhecem mais profundamente o género e compreendem o enquadramento narrativo dentro da evolução da FC. Se bem que os elementos transversais às épocas estão lá. Viagem ao espaço, cientista confiante e determinado no progresso a todo o custo, evento misterioso no espaço que traz à terra uma força invasora com tendência para transformr o seu portador num monstro. Não é assim tão diferente de muitos enredos contemporâneos. Difere é na forma directa e pouco subtil com que se desenvolve desde o choque da descoberta inicial até à vitória final que aniquila o monstro invasor, com um longo e inevitável intermédio em que os mistérios se adensam. O Quatermass que dá nome à série é um irascível tecnocrata prototípico, incapaz de ver limites à busca da verdade científica. Imaginem um Doctor Who não alienígena, sério à quinta casa e sem qualquer pingo de irreverencia, e percebem este Quatermass. Uma obra obviamente datada, mas a ver por quem se interessa pelo lado clássico da FC.


Belarmino: Muito poderia ser dito deste filme de Fernando Lopes, pedrada no charco da cinematografia portuguesa da época e um dos grandes marcos do Cinema Novo. Poderíamos entrar pelo retrato dessa Lisboa de outras eras que este documentário ficcional regista, na visão crítica sobre um país oprimido, mantido pobre e fechado, na magistral banda sonora. Pessoalmente destacaria o absoluto rigor geométrico dos enquandramentos. A disposição das formas e das massas de cor no espaço visual é espantosa no seu rigor. Não é difícil imaginar as linhas visuais de força que equilibram as imagens deste filme muito próximo de um rigor fotográfico quase abstracto. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Aces High


George Evans (2014). Aces High. Seattle: Fantagraphics.

George Evans pertence aos melhores daquela geração de ilustradores clássicos da Golden Age que ajudou a definir o estilo gráfico da época pré-comics code. Grafista para toda a obra, especializou-se nas histórias de horror, crime, suspense, desporto mas distinguiu-se ao ilustrar histórias de combate aéreo na I guerra. Aces High colige um pouco de tudo. Confesso, descaradamente, que nem me dei ao trabalho de ler as histórias que Evans ilustrou de true crime, terror ou suspense. Sabia ao que ia e ao que me interessava: o seu excelso trabalho a retratar as fabulosas máquinas voadoras da I guerra, algo que fazia com um traço preciso, meticuloso mas ao mesmo tempo capaz de captar o dinamismo do voo. As histórias em si são hinos algo patrióticos à coragem de pilotos, exaltações simplistas de valores militaristas datadas e bastante desinteressantes. Sâo as ilustrações que fazem valer a pena revisitar estas histórias, originalmente publicada na revista Aces High. Ex-mecânico aeronaútico nos tempos em que ingressou no exército americano, Evans era um apaixonado da aeronáutica clássica e isso nota-se na forma como recria no estrito espaço da vinheta a poesia visual modernista dos engenhos de metal, madeira e tecido que afrontavam os ares.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

This is Sparta


Apanho uns seguidores muito estranhos no Twitter. Devo lá ter uma boa quantidade de bots e os habituais auto-promotores literários. Mas este parece-me especial, talvez do ponto de vista das necessidades especiais. Aquela foto de perfil é um mimo. Gosto particularmente dos raios que saem da mão convidativa. Certo. Pimbalhice é pimbalhice, quer venha com sotaque espartano ou beirão. E se este é um bot, diria que bom humor talvez seja um bom esquema para ser aprovado no teste de Turing. Algo me diz que este espartano não partilha do This Is SPARTA saído das ranzinzices heróico-machistas do Frank Miller.

Da bonomia na censura


Eis algo para aquecer o coração dos que respeitam as liberdades, que estranhamente parece estar a passar despercebido por todos os je suis charlie, à excepção dos suspeitos do costume. Talvez porque seja uma coisa mais new media do que edição tradicional, ou por ter um carácter de recorte moralista. A moral e bons costumes são sempre terrenos pantanosos, ao contrário das mais cristalinas liberdades políticas. Não é por acaso que esta medida tem sido descrita como um cleaning up, um limpar de casa, de um serviço web.

Os bloggers que utilizam a plataforma que deu o nome à prática têm vindo a ser notificados que as regras do serviço mudaram e que a Google decidiu deixar de permitir conteúdos explícitos. Pilinhas e mamocas passaram a ser fruto proibido no Blogger. Mas tranquilizem-se, defensores da liberdade de expressão. A Google não irá eliminar nenhuma página que passe a violar este ditame, simplesmente torna-a privada e inacessível às pesquisas. Quanto a futuros desvios, recomendam com bonomia orwelliana que "evite criar novos conteúdos que possam constituir uma violação desta política", algo que não sei porquê soa na minha mente com a voz de um diácono moralista provinciano dos primórdios do século XX.

Não tendo queda particular para erotismos, esta é uma medida que me passa muito ao lado no seu corpo. Mas não no seu princípio. Independentemente de se achar bem ou mal usar um blog para conteúdos mais ou menos explícitos, independentemente de o fazer ou não, note-se que de um dia para o outro a detentora de uma das maiores plataformas de publicação na web muda unilateralmente as regras de publicação. Quando isto acontece fico sempre a pensar e amanhã, como vai ser? Hoje são conteúdos explícitos, algo complicado de defender por mexer com questões que vão da moral às relações de género ou objectificação sexual. Mas, e amanhã? O que é que irá criar pruridos aos responsáveis pela plataforma? Não vou cair no simplismo de começar a definir possíveis alvos. A verdade é que não sabemos, nem saberemos até ao dia em que os bloggers mais atrevidos começarem a receber emails informando-os que aquilo que sempre fizeram passou a ser considerado uma violação dos termos de serviço. E é isso, este efeito amordaçante, o que me inquieta nestas iniciativas.

Note-se também que a definição de conteúdos que possam constituir uma violação desta política é em si vaga, apesar da garantia que naquilo que a Google considerar contextos artístico ou educacionais a coisa passa. Há aqui imenso potencial para o tipo de polémicas em que se metem as redes sociais que censuram fotos mães que alimentam bebés mas demoram a reagir perante imagens de violência extrema. Ou, num hilariante caso recente, confundem uma imagem do interior de um fruto com orgãos genitais. Note-se também que ao reservar-se o direito de decidir o que constitui arte ou pornografia, a Google está de facto a assumir o papel de censor. Não há nada como decidir o que tem valor artístico ou não, baseado em critérios invisíveis, conhecidos apenas pelos decisores. E fá-lo sobrepondo-se às definições legais do que constitui conteúdo de cariz violador de direitos. É um papel nitidamente em conflito com a razão de ser de uma plataforma que possibilita a publicação digital de milhões de vozes em todo o mundo.

A Google também é normalmente opaca nas decisões que toma. Não há qualquer explicação para isso, e os poucos rumores que se lêem prendem-se com uma vontade de limpar a casa. O que se sabe é que fica ao arbítrio deles se qualquer blog continua disponível para todos ou fica restrito a partir de dia 23 de março. Medidas como esta recordam-nos que os nossos espaços comunitários digitais não são, ao contrário do que afirmamos e acreditamos, realmente nossos. Estão sujeitos aos arbítrios de quem é dono da infraestrutura que os sustenta. Donos esses que se mostram generosos ao fornecer as ferramentas para tantos de nós tirarem partido para partilhar tudo o que nos vem à mente, dos fait divers aos conteúdos mais elaborados. Mas que não o são.

Uma boa regra no mundo digital é perceber que se o serviço é gratuito o utilizador é o produto. Algo fácil de perceber nas redes sociais, que vêem cada novo utilizador como mais um agregado de fonte de dados para engordar as suas vastas bases de dados monetarizadas através da gestão fina de anúncios. Um mercado de milhares de milhões, note-se, que sustenta os gigantes do mundo digital. No caso do Blogger imaginem um paralelo com os media tradicionais: um jornal ou um canal televisivo gratuito em que alguém fornece o acesso mas são os consumidores que criam os textos a ser lidos ou os programas a ser vistos. Acaba por ser um pouco como um restaurante onde cabe aos clientes confeccionar a comida. E que neste caso tem um dono que um dia decide que não gosta de ovos e proíbe em absoluto que os convivas cozinhem omoletes.

Há alternativas, claro, que vão da migração para serviços que se mantém mais tolerantes, como o Tumblr ou o Wordpress, ou a solução mais óbvia mas não ao alcance de todos, o manter e albergar em domínio próprio. Com isto há o risco de perder anos de trabalho e construção de uma página. Mas a mancha fica. O resvalar para a censura é óbvio. E a pergunta fica no ar. Se hoje decidiram que o corpo nu não é aceitável, amanhã o que é que lhes causará pruridos e será proibido com bonomia?

Se daqui a um mês desaparecer do ar, já sabem. Algo nos dez anos que já leva este blog (bolas, já passou tanto tempo...) causou alergia moral aos algoritmos da Google.

Edit: entretanto parece que a Google desistiu de implementar esta nova política. Há que dar crédito aos tecnocratas da Google (que sim, baseada em algoritmos e privilegiando uma eficiência mecanicista que se assume como de veracidade auto-contida, funciona como uma tecnocracia pura) por ao serem confrontados com as consequências reais da sua visão destilada do que deve ou não deve ser por, de quando em vez, recuarem. Nem sempre o fazem.

Visões


A Touch of Evil: Vi o fantástico opening shot deste filme de Orson Welles numa sessão de formação do Plano Nacional de Cinema e comecei a espancar-me com facepalms mentais. Como é que ainda não tinha visto este filme? Afinal, Orson Welles é uma das personalidades que admiro. Citizen Kane é um filme que nunca me canso de rever, e para o lado de amante de ficção científica há que recordar que a sua adaptação para teatro radiofónico da Guerra dos Mundos de Wells ainda hoje mexe com quem a ouve. Para a história, quer do género quer dos media, fica o histerismo provocado pelo impacto das técnicas inovadoras de Welles nos ouvidos de um público incauto.

Sem querer cair em lugares comuns, é óbvio dizer que Welles foi um visionário do cinema, Citizen Kane impressiona mais pela estética do que pela história. É um filme onde todo o visual está ao serviço da narrativa, criando um todo coerente que mergulha o espectador na história. A Touch of Evil vai ainda mais longe. Assenta num dinamismo extraordinário de cenas onde nada é estático, sucedem-se os enquadramentos em ângulos cortantes, incómodos para o espectador, o trabalho com reflexos e profundidade de campo é excelso, os raccords são perfeitos a interligar diferentes momentos narrativos. Assinalaria ainda a omnipresença do movimento automóvel, quer como presença constante quer como ponto de vista da câmara. A estética em preto e branco de forte geometria, quase abstracta no equilibrio de massas na imagem. Este filme é uma experiência estética espantosa. Parte de uma convoluta história de policial noir cheia de reviravoltas e surpresas, onde nada é o que parece. Uma história policial que nas mãos de outro realizador seria banal, igual a tantas outras, mas nas mãos de Welles se torna magistral. Apanhei a versão editada de acordo com as instruções do realizador. São bem conhecidas as tropelias dele perante o comercialismo impiedoso do studio system. E tem uma cena que não fica nada atrás dos melhores filmes de terror. Quando o rosto de olhos esbugalhados raiados de sangue do gangster estrangulado pelo polícia corrupto se abate sobre o olhar da mulher raptada que acorda drogada na cama de um hotel seboso, é o mais clássico dos enquadramentos de horror. E o mais eficaz.


Coisa Ruim: Se, como eu, ficaram curiosos por ver pequenos excertos deste filme de terror português ficarão com a sensação que o filme é melhor do que o que realmente é. Assistir à conversa com realizador e argumentista, completa com intrigantes excertos, no último encontro Sustos às Sextas despertou-me a curiosidade para algo que já de si é raro, um filme assumidamente de terror português. O que fica do visionamento é, de facto, uma boa história de fantasmas e maldições com imensa atenção à tradição portuguesa. Nisto o filme é eficaz, levando-nos ao Portugal rural e profundo, com tradições obscuras e mistérios centenários que colidem com o racionalismo contemporâneo. E poderia ser um bom filme se os realizadores não estivessem tão enamorados do slow travelling dentro de espaços claustrofóbicos para tentar criar suspense. Aquilo é tanta câmara em movimento de aproximação lenta que o efeito acaba por ser mais de provocar bocejos do que intrigar o espectador. Junta-se a isso uma estranha falta de coerência narrativa no encadear de uma linha narrativa feita de cenas sucessivas, algo previsíveis, mas estranhamente desconexas. A intensidade emocional de um filme que se quer assumir como provocador de emoções fortes  também não é algo que se note. Há poucos momentos em que realmente se sente que os actores encarnaram os personagens que representam. Coisa Ruim não deixa de ser um esforço interessante, quer pela temática quer pela forma como a aborda. A filmografia de género por cá é rara e mal vista, porque, enfim, todos os filmes (e livros) têm de ser sobre coisas muito sérias e importantes porque o que é preciso é que sejamos todos sérios e importantes e pensemos em coisas sérias e importantes, deixando as infantilidades de outros imaginários ou para as crianças ou para o domínio daqueles maluquinhos que se vestem demasiado de preto ou passam demasiado tempo a sonhar com naves espaciais. Coisa Ruim é um filme normal de terror leve, perfeitamente banal no panorama cinematográfico global, mas por cá interessante por inerência da raridade do artefacto.


The Babadook: Don't get scared, it's just a book. Ou será? Uma belíssima e arrepiante surpresa, num filme muito ambíguo que tanto pode ser a descida à locura de uma mãe viúva, incapaz de ultrapassar a depressão pela morte do marido e com um filho complicado nos braços, ou ser mesmo um monstro que se aproveita das fraquezas humanas. A ambiguidade é deliciosa, assente num espantoso trabalho de interpretação da actriz Essie Davies. O seu olhar e prostura corporal transmitem na perfeição aquela sensação de se estar a revalar para um abismo apesar de todos os esforços para nos mantermos à tona. Filme com momentos genuinamente arrepiantes, apesar de se situar naqueles padrões clássicos do horror psicológico dentro de casas tenebrosoas com criaturas ameaçadoras do além. Tem uma estética curiosa, feita de enquadramentos estáticos e um cinzentismo intencional que sublinha o horror da banalidade e normalidade em conflito com o resvalar da loucura. E o livro é um extraordinário pop up from hell.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Interzone #256


Para arranque de novo ano a Interzone não nos traz nomes sonantes, mantendo algumas apostas de continuidade. Algumas, caso de Bonnie Stufflebeam, já se percebem que não terão muito futuro no género. Já Neil Williamson, com a sua prosa clara e ideias bem assentes em mundos ficcionais coerentes, é claramente um nome a manter debaixo de olho. Promete ir longe. Destacaria ainda o editorial, nesta edição a cargo do crítico de vídeo/DVD, que nos leva a reflectir que tiramos muito mais de uma obra cinematográfica do que o elementar gozo de descobrir as intricacias dos enredos. Já a sempre interessante coluna de McCalmont traça o aprofundar de sentidos e crescer da ambiguidade nas estruturas narrativas da ficção científica.

Nostalgia - Bonnie Jo Stufflebeam: arranque pouco auspicioso desta edição da Interzone. A autora tem publicado regularmente na revista, com resultados mistos mas claramente a afastar-se da FC como cerne narrativo e a usar os elementos do género como decoração cada vez mais ténue. É o caso deste conto, em que o possível elemento FC estará na personagem talvez transexual, de género indefinido. Essa ambiguidade nunca explicada mantém-se em ponto de fundo numa história onde a amante desta personagem regressa à cidadezinha americana que a viu crescer. O motivo desse regresso, participar numa cerimónia pela morte de um amigo de infância, merecia ser melhor esclarecido. O amigo afinal não está morto mas o facto de a comunidade o considerar morto poderá indicar que ele, tal como a transexual, não cai dentro de padrões de comportamento normativos e aceitáveis numa comunidade fechada e é por isso proscrito. Mas o conto não segue este caminho. Aliás, o conto não segue nenhum caminho discernível. Insinua algumas ideias que poderiam, sendo exploradas, ser interessantes, mas nada mais.

An Advanced Guide to Successful Price-Fixing in Extraterrestrial Betting Markets - T.R. Napper: este escritor rebentou na #254 com um conto fabuloso de futurismo pós-apocalíptico passado na China. Este não lhe fica atrás, a começar neste título cerebral e complexo que oculta uma história divertida sobre jogos mentais, autismo funcional, fascínio com padrões matemáticos e espécies alienígenas intrigadas com a imprevisibilidade do cérebro humano e viciadas nos jogos de azar. Napper parece claramente ser uma daquelas vozes a prestar atenção.

The Ferryman - Pandora Hope: há algo de tenebroso e sobrenatural nesta história longa onde um viúvo encontra algum consolo nos braços de uma mulher que oferece abraços mediante pagamento. Haveria por aqui muito que explorar, desde a solidão da viúvez às tensões familiares, passando pelo lado fantástico de uma mulher cuja casa se assemelha a uma floresta e um homem cujo passado poderá estar ligado à mitologia nórdica. Haveria, mas o conto não é suficientemente claro para se perceber por onde vai, ou quer ir. Retirem-se os elementos de fantástico e ficamos com uma banal história de solidão na terceira idade.

Tribute - Cristine Gholson: Há algo de inacabado nesta história difusa. Saltamos entre dois pontos de vista. Por um lado o de uma criatura jovem, habitante de estepes desoladas, a tentar tirar sentido do falecimento dos seus progenitores e muito intrigada pelas minúsculas criaturas esbracejantes que algo lhe deixa em aparente oferenda. O outro ponto de vista é a do arquivista de uma cidade milenar, que assiste à tomada do poder por um grupo que invoca ameaças de antanho e envia vítimas sacrificiais através de um portal para apaziguar as divindades ameaçadoras cuja defesa da cidade é a base do seu poder sobre os seus concidadãos. Intrigante, mas o conto é mais eficaz a invocar imagens mentais do que a tornar-se claro no seu mundo ficcional.

Fish on Friday - Neil Williamson: Este escritor também tem surpreendido os leitores da Interzone com contos consistentemente interessantes. Este curto foi, ao que parece, inspirado na recente tentativa de independência escocesa, mas Williamson vai muito mais além, imaginando os dilemas de uma sociedade sob a égide da bonomia de controles sociais potenciados por tecnologia pervasiva. Ou, colocando a questão noutros termos: onde está a liberdade e a privacidade quando a bem da nossa saúde e bem estar as dietas são restritas, somos obrigados a manter comportamentos socialmente aceitáveis e saudáveis, e os dispositivos do dia a dia estão repletos de sensores cujos dados coligidos criam perfis precisos dos hábitos das pessoas? Williamson coloca a questão em tom de bom humor, com uma velhota ex-hactivista a levar um puxão de orelhas da agência para a saúde e bem estar por não ver uma televisão cheia de programas desportivos e ter dado a volta aos sistemas do frigorífico para mandar vir bifes em vez dos filetes de peixe transgénico considerados benéficos para a saúde, clima e sociedade. Sorrimos, mas há aqui implicações reais da convergência entre moralismos sociais, proliferação de sensores internet of things e o interesse específico de organizações. Mesmo nos mais suaves sonhos dos proponentes do Big Data/Internet of Things, a mão do Grande Irmão está presente. Pesada, mas com um sorriso, enquanto nos diz que as restrições aos comportamentos considerados desvios à norma são necessárias para nosso bem.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Comics


Ei8ght #01: Ok, isto é weird, mesmo para mim. Começa como uma história de FC high tech sobre viagem no tempo. Amnésia profunda é o efeito secundário que afecta os crononautas, que acordam num passado profundo... onde bandos de refugiados do futuro domesticaram dinossauros. Os cruzamentos entre fantasia e FC já não novidade, como se nota pelo sucesso da série Saga, mas há algo de profundamente infantil no cavalgar de tiranossauros. É daquelas coisas que aquece o coração do puto de oito anos que reside dentro de nós.


Ivar, Timewalker #02: Belíssima escolha, a de Fred Van Lente como argumentista desta série derivada de Archer & Armstrong. Van Lente é blá blá blá (não vos maçarei com mais dos meus elogios ao trabalho dele quer nesta série quer em Magnus Robotfighter). Para não perder muito tempo com discussões sobre a viabilidade dos paradoxos temporais Van Lente coloca-se logo no campo doas que assume que o espaço-tempo é fortemente resiliente à interferência de viajantes no tempo. Brinca à descarada com as inúmeras variantes da trope "vamos assassinar Hitler", que passa a designar Godwin's law of timetravel. Preciso de vos explicar a referência à lei de Godwin? Não? Excelente. A história continua delirante. Adorei o pormenor dos homens do ano trinta mil que amalgarão em redes sociais inteligentes de corpo robótico especialistas em vandalizar o espaço-tempo for the lulz. Pessoalmente, como adoro um argumentista culto, saliento esta referência brilhante a um dos filmes menos conhecidos de Woody Allen. De facto, um dispositivo Zelig permite a camuflagem camaleónica perfeita. Para quem não conhece, o filme é sobre um homem medricas e amorfo que desenvolve a capacidade de mimetizar os grupos sociais com que se cruza.


The Multiversity: The Mastermen #01: O delírio do mês de Grant Morrison em Multiversity é levar-nos à Terra paralela em que um certo foguetão vindo do planeta Krypton aterrou na recém conquistada região dos sudetas. Terra onde o Superhomem é realmente um übermensch ao serviço da raça ariana e do ditador que com ajuda deste alienígena plantará a bandeira da cruz gamada em todo o mundo. A série, inventiva e delirante como é habitual apanágio deste argumentista, parece cada vez mais um reboot da DC Comics a personagens esquecidos, testando mercados para novos títulos. Ou isso ou está a fazer jeito à editora para relançar propriedade intelectual esquecida. Homens superiores em planetas nazis é algo com que Morrison até joga de forma muito sisuda, mas repare no fundo desta vinheta. Nos edifícios, a influência de Fritz Lang, cujos tentáculos nunca parecem terminar... afinal, no império germânico, não deveria Metropolis ser como a cidade futura do filme com o mesmo nome?

From the Internet


Onde é que já vi isto, pensei ao ouvir esta música do mais recente álbum dos Atari Teenage Riot. Não vi ou ouvi, li.


É apropriado que uma canção de hactivismo interventivo se venha inspirar em Doktor Sleepless, um dos comics de Warren Ellis mais pulsante de modernidade contemporânea. De tal forma que as ideias que Ellis soltou nas vinhetas vieram a inspirar comunidades online futuristas.

Sim, os Atari Teenage Riot têm novo álbum. Reset está muito na sequência de Is This Hyperreal, com letras interventivas mas uma sonoridade mais melódica, sem perder a electricidade pura desta excepcional banda electropunk.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sincronismo


O que é interessante é atar as pontas soltas. Visionei durante a tarde, na sessão de formação do Plano Nacional de Cinema na Culturgest, o ponto marcante do Cinema Novo que foi Belarmino de Fernando Lopes. Durante a discussão que se seguiu a formadora refere o quão incómodo este filme foi, malquisto pelo regime mas também por uma oposição socialista e comunista que preferia a exaltação do neo-realismo às nuances desta obra. Os círculos de esquerda acusaram Fernando Lopes de não passar de um sensualista. Palavra que me ficou na mente. Recordou-me o dogmatismo do realismo soviético, a exaltação propagandística da arte ao serviço da ideologia.

Adiante. Horas depois, na sessão Recordar os Esquecidos organizada por João Morales na Livraria Almedina, o escritor Miguel Real falava apaixonadamente da obra de José Régio, também ele mal visto pela intelectualidade mais à esquerda. A sua prosa não se enquadrava na literatura que punha a nu a pobreza extrema do país sob a bota fascista. O próprio Álvaro Cunhal apelidou a sua obra de presencista por representar uma visão de arte mais virada para si própria, ao invés de interventiva no combate político e ideológico. Curiosa polémica para denegrir a obra de um homem que, como Miguel Real nos contou, se definia como cristão, republicano e socialista, ou que foi o único a defender um colega comunista do liceu de Portalegre num processo movido pelo ministério da educação.

Vivemos hoje, espero, em tempos mais tolerantes em que os caminhos artísticos não têm necessariamente de ser colocados ao serviço de ideias, apesar de também o poderem ser. O que fica é que polémicas e lutas à parte, estas são obras que ficaram para o futuro e hoje surpreendem quem com elas se cruza. E, como gosta muito de dizer João Morales, nisto o que é interessante é atar as pontas. Cruzar diferentes meios e perceber que as interligações entre campos isoladamente vistos como díspares. Não o são, nunca o são, mas precisamos de sair das nossas caixinhas para sentir isso.

A sessão da manhã foi dedicada ao software livre, numa sessão sobre Libre Office organizada pela Anpri no Museu das Comunicações. E o que é que isso tem a ver com clássicos do cinema novo ou escritores a cair no esquecimento, perguntam-se? Nada, à partida, mas quando começamos a pensar em questões como o vendor lock-in, utilização de plataformas fechadas e os riscos de por capricho do vendedor o nosso trabalho poder passar a ficar ilegível, ou os excessos da propriedade intelectual percebe-se que também aqui há ramificações. Boa parte das obras com significação cultural estão tão protegidas por direitos de autor que ninguém lhes pega. Poderiam ser gratuitas, mas não o podem ser, e não há justificação para grandes investimentos para públicos restritos. Belarmino está disponível no Youtube, suspeito que a violar descaradamente a legislação portuguesa sobre direitos de autor. Depois desde longo dia passei pela Fnac à busca de bilhetes para os Kraftwerk (com sucesso) e livros de José Régio. Obras deste autor, não dei com nenhuma nas estantes de literatura portuguesa, mas encontrei um exemplar esquecido dos Contos do Gin-Tonic de Mário Henriques-Leiria. Daqueles livros que volta e meia me recordo que havia de o conhecer. Livro que começa logo com este caveat lector, avisando-nos que as coincidências têm causas matemáticas bastante curiosas.

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Lost & Found & Created.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Projectos


Estava a perguntar-me porque é que o meu habitualmente sonolento cantinho dedicado às TIC em 3D teve um disparo de visitas... e nem tinha dado por isto na página da BeeVeryCreative. Devo confessar que me agrada! Mas convém esclarecer que a beethefirst chegou-nos há vinte dias, foi estreada numa sala de aula, desperta a curiosidade dos alunos e já se prepara para ir visitar escolas do primeiro ciclo. Projectos totalmente concebidos e impressos por alunos é que ainda não conseguimos. Mas está por poucos dias...

Dedo no ar!


Dedo no ar quem também sempre sentiu que O Senhor dos Anéis é uma história com o seu quê de retrógrado e anti-moderno, uma elegia e elogio aos valores aristocráticos e ao ruralismo de uma pretensa era dourada destruída pelos fogos iníquos da indústria e progresso? Não é uma interpretação nova, e costuma deixar arrepiados os fãs do fantástico de Tolkien, mas é  uma que partilho. Sempre tive a sensação que se vivesse na terra média, seria um goblin a inventar mecanismos nos poços industriais de Isengard. Foi nessa passagem da trilogia que senti pela primeira vez a defesa, consciente ou não, que Tolkien faz de um ancien régime nostalgista num mundo irremediavelmente transformado pelo progresso industrial. Ou, pondo a questão de outra forma, e que tal ver os altivos elfos como capitalistas latifundiários que vão dispensando alguma caridadezinha por entre os que lhe são submissos e as hordes de orcs como proletários grevistas em busca de condições de vida mais digna?

Bem visto, Sr. Moorcock, e é imperdoável que depois de mais uma elegia destas eu ainda não tenha lido Mervyn Peake.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Leituras

What ISIS Really Wants: Leitura longa, mas vale a pena. O barbarismo do Estado Islâmico horroriza-nos, o facto do caos que se vive no médio oriente ter possibilitado o ressurgir de fanatismos cada vez mais exacerbados choca-nos, mas para lá dos vídeos de decapitação ou imolação de prisoneiros e reportagens dos combates no terreno, o que é que sabemos sobre a lógica do grupo? É algo que este artigo analisa a fundo. Como surgiu, e qual a lógica por detrás das suas acções, que assentam numa interpretação arcaica mas rigorosa das profecias originais. Mas talvez o melhor do artigo, em termos de metáfora, é quando compara o Estado Islâmico ao que aconteceria se algum dos famosos líderes de seitas suicidas tivessem realmente tomado conta de algum território. Curiosamente, deter território é precisamente o que justifica e legitima a existência destes bárbaros como califado auto-proclamado. Crentes firmes no apocalipse, não estão de facto interessados em existir como estado no sentido clássico do termo. Anseiam, talvez, pela imolação sob as balas, crentes numa derrota final face aos cristãos que trará um apocalipse final.

The Anti-Information Age: A internet tem uma aura de ferramenta libertária que dá a voz aos mais silenciados e possibilita formas de organização que ameaçam poderes instituídos. É precisamente por isso que os poderes instituídos investiram em formas mais ou menos discretas de controlo das comunicações digitais, com técnicas cada vez mais sofisticadas de censura, vigilancia e retaliação contra as vozes discordantes. As invasões de privacidade do tipo NSA/GHCQ são até benévolas se comparadas à grande firewall chinesa, à prisão e tortura de bloggers no médio oriente ou a repressão aberta sobre a dissidência na Rússia. Ou como os autores observam, certeiros: "to empower a government, give it the Internet".

If Dishwashers Were iPhones: Um divertido tiro de Cory Doctorow nas políticas de gaiola dourada que asseguram o mundo digital contemporâneo, ridicularizando com um exemplo absurdo os riscos reais de censura e limitação de liberdade trazidas pelo lock-in do consumidor a plataformas pensadas para maximizar lucros empresariais, mas apresentadas como benévolas e protectoras da segurança dos utilizadores.

The Poem That Passed the Turing Test: Reclamar vitória neste teste é algo de muito controverso. Parece que de facto um poema gerado por um algoritmo artificial foi aceite por uma revista de poesia que não desconfiou que o dito não tinha sido escrito pela alma torturada de um poeta humano. Para além da possível forma de dar a volta ao teste de Turing, este acontecimento levanta algumas questões. A mais óbvia parece ser sobre o que é a arte, quando um algoritmo programado com as técnicas de escrita de poesia consegue gerar aleatoriamente um texto que nos parece profundo e cheio de sentido. Poderão as máquinas produzir arte? Serão criativas? Talvez esta seja a questão errada. Dificilmente o programa que gerou este poema tem a noção dos sentimentos que quer provocar com as palavras. A sua inspiração é o correr de uma rotina que gera poemas em ordem alfabética. Talvez isto nos ensine um pouco mais sobre a forma como sentimos e construímos o significado que damos aos textos e imagens com que nos cruzamos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Visões


Space Station 76: Fiquei surpreendido quando percebi que este filme não chegaria ao circuito comercial. A ideia de uma comédia com as tropes e estética da FC clássica, do 2001 às séries televisivas que marcaram muitas infâncias, parecia algo irresistível. Depois de ver o filme, percebi porque é que foi condenado ao straight to DVD. O filme é sofrível e falha em quase toda a linha. Safa-se a estética, que replica na perfeição o futurismo dos anos 70. É suposto ser uma comédia, mas as piadas não conseguem sequer despertar um sorriso. Os actores agem de forma mais estática do que os elementos decorativos e as suas interpretações são feita naquele tom monocórdico do vamos lá despachar esta coisa que até paga as contas mas tenho mais que fazer. Esperava uma comédia com fortes vénias a toda uma iconografia cinematográfica e televisiva, saiu uma história medíocre. Nem Keir Dullea no papel de comandante obviamente gay que se finge machão perante uma tripulação que sabe perfeitamente quais as suas inclinações consegue convencer, e é de longe o único actor que se esforça minimamente neste filme. Resta a iconografia, perfeita na referenciação à estética futurista dos anos 60 e 70, tão confortável a ecoar 2001 como Buck Rogers in the XXVst Century, recuperando a alta tecnologia obsoleta dos primeiros robots ou das nintento power glove. Tudo o resto falha, e o filme é um suplício de ver até ao fim.


The Book of Life: É pena que um filme tão deslumbrante como este passe boa parte do tempo a agachar-se em busca de legitimação por parte do público americano. No seu melhor é uma homenagem vibrante ao sincretismo da cultura mexicana, misturando as raízes da mitologia azteca com as tradições hispânicas. Mariachis, touradas e todo o submundo alucinante do Dia de los Muertos colidem numa história infantil visualmente espantosa. Toda a iconografia fascinante e colorida da tradição mexicana explode no ecrã. A cor é exuberante, o barroquismo visual espantoso, e a história dá-nos a conhecer La Muerte e Xibalba, com os seus paraísos para os recordados e o inferno do oblívio para os esquecidos. Sendo um filme infantil a narrativa é simples, apesar de ter uns desvios interessantes para a capacitação feminina numa sociedade vista como machista. E, visualmente, é deslumbrante. Já escrevi isto, não escrevi?

Infelizmente todo este brilhantismo é apagado pela submissão do filme aos padrões culturais da cultura pop comercial americana. Por exemplo, não se percebe porque é que sempre que os personagens cantam são variantes de músicas pop anglo-americanas. Não faz nenhum sentido um torero que se recusa a matar toiros dedilhar na arena uma canção triste ouvida apenas pela mulher que ama, e essa canção ser o Creep dos Radiohead. Este sintoma é exacerbado pelas intermissões que estruturam o filme, contado como uma história destinada a interessar na cultura mexicana um bando de crianças mal-comportadas em visita de estudo. A mensagem que passa do filme é que sim, há outras culturas fascinantes no mundo mas só são válidas se agradarem a um bando de putos americanos ranhosos e mimados. Esta condescendência dilui aquilo que poderia ser um filme infantil excepcional.


Jupiter Ascending: Este filme foi a experiência cinematográfica mais desapontadora que tive nos últimos tempos. A estética e os autores prometiam mais, mas o que vi foi uma história patética do tipo Cinderella no espaço com lobisomens musculados, muitas perseguições e explosões. Para fãs conhecedores da riqueza da FC este filme não só é mau, como é ofensivo. Pretende ser uma space opera barroca, e visualmente assume-se nesta tradição tão bem explorada a partir dos anos 70 com Niven e Delany. O problema é que toda essa estética é posta ao serviço de uma fantasia urbana erotico-romântica não consumada com uma menina humilde que limpa casas de banho e afinal é uma princesa de uma vasta civilização galáctica, mergulhada numa intriga palaciana pela herança de uma familia milenar. Uma desculpa não muito boa para perseguições infindas. O conceito de Terra não como berço da humanidade mas como um pequeno elemento de vastos impérios feudais é interessante, e a ideia de semear planetas com vida humana para eventualmente a colher para processar os humanos na fabricação de uma substância rejuvenescedora destinada a prolongar indefinidamente a vida de uma elite afluente poderia ser um bom comentário em modo de FC à distribuição desigual de riqueza e à hegemonia do 1%, mas depois do choque inicial perde-se em intrigas bizantinas. Todo o filme é absurdo, mas o final é especialmente cretino. Porque quando se é uma princesa galáctica, dona de um planeta, o melhor destino que se pode escolher é voltar a ser lavadora de sanitas com fugas regulares para os braços musculados do seu amante alienígena com genes de lobo e asas de anjo negro.

Restaria, talvez, o lado visual para salvar algo neste filme. O barroquismo visual impera, os cenários e VFX são deslumbrantes, mas acabam por se render a uma monotonia estética muito própria do deslumbre com as capacidades do 3D. Onde o filme muda um pouco, e se aproxima do interessante, é ao chegar ao verdadeiro berço da humanidade, um planeta sobrepovoado onde a estética se aproxima do clockpunk retro. É nesse momento a única cena verdadeiramente interessante de todo o filme. O planeta é todo ele uma vasta cidade, referência óbvia ao Trantor asimoviano (ou ao Coruscant da Guerra nas Estrelas, para quem nunca tenha lido a série Fundação de Asimov). É rodeado por uma outra vasta cidade que o orbita num anel de möbius, referência ao Ringworld de Niven. E por entre os detritos, naves espaciais e estações em órbita num espaço super congestionado há um rápido vislumbre de um toro de Von Braun. Não um qualquer, mas o mesmo que Kubrick usou em 2001. Graças a isso, durante uma fracção de segundo pude gostar do filme. Não é a única piscadela de olho estética do filme. Apontaria a vénia a Frank Gehry na sequência inicial, à estética de Gilliam em Brazil no berço humano, e o estranho fascínio com catedrais dos realizadores. Adoraria que tivesse correspondido às expectativas de uma space opera divertida e visualmente deslumbrante, mas um argumento patético e uma estética excessiva que se torna monótona descarrilam numa abordagem estupidificante que se socorre da FC para vender pipocas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sustos às Sextas (II)


(Imagem descaradamente rapinada da página do facebook do Sustos às Sextas.)

Ouvir uma história de arrepiar na noite profunda, no salão escurecido de um palacete iluminado por luz de velas e o crepitar da lareira que se vai desvanecendo. Foi um momento clássico, que remete para o mais tradicional das ficções arrepiantes. Só podia vir do classicista erudito que é António Monteiro,  representante contemporânea daquele anglicismo eduardiano do horror fantasmagórico das veredas cobertas de névoa que rodeiam mansões decrépitas. Parece crítica, mas não é. O terror não se esgota no gore ou bodyhorror, na angustia psicológica ou monstros lovecraftianos. Também é bom regressar às raízes do terror com momentos de erudição clássica. Tal como a FC, o horror é um género que não esquece a sua memória e continuidade evolutiva. E eu, apesar de ter os pés firmemente assentes no admirável mundo novo digital com um braço encostado às naves espaciais, não deixo de ter um fraquinho pelo clássico conto das casas a ranger na noite vitoriana. As histórias de Carnacki The Ghost Finder e os contos de fantasmas andam na fila de leituras do e-reader (bravo, Projecto Gutenberg).

E aposto que aquele momento em que o conto chega ao pico do terror e a lareira crepita, quebrando o silêncio e a voz, tão cedo não será esquecido pelos presentes.

Finalizou à luz de velas, mas o grosso desta sessão partiu de uma longa conversa de António Monteiro com Rodrigo Guedes de Carvalho e Tiago Guedes, argumentista e um dos realizadores de uma das raridades da cinematografia portuguesa, o filme de terror Coisa Ruim. Rodrigo Guedes de Carvalho é um comunicador nato e numa interessante e divertida conversa falou-nos sobre um filme imensamente bem escrito mas mal realizado (uma clara private joke entre ele e os realizadores, que teve piada da primeira vez que foi preferida mas nem tanto das restantes), das dificuldades de contar histórias em cinema (curiosamente, vim a reflectir sobre coisas que Guedes de Carvalho observou no contexto de formação sobre Plano Nacional de Cinema onde estive no dia seguite a este Sustos), sobre inspirações e todo o processo de filmar uma história onde o sobrenatural é preponderante. Ainda não vi este filme. Na altura em que saiu o factor de conotação com uma celebridade nacional levou-me a desconsiderar o filme como uma brincadeira de alguém com nome estabelecido noutro género que vem ao recreio do terror brincar um bocadinho. Mas do que vi e ouvi nesta sessão dos Sustos fiquei com a curiosidade desperta.

Curiosamente, reparei numa estranha tentativa de descolar o filme do rótulo "terrror", com os entrevistados a cair na tentação de afirmar que não, aquilo no fundo não é um filme de terror, é uma história sobre um casal em desagregação que ao ir viver para o campo descobre que perdeu a chama do amor, e os efeitos do processo de separação sobre o filho adolescente. Pois. Faz lembrar aqueles autores ou críticos que o David Langford tanto gosta de observar que ficam muito felizes e contentes quando a sua obra deixa de ser conotada com essa coisa horrenda que é a ficção de género. Coisas que quando muito têm uns pózinhos de fantástico/terror/ficção científica para apimentar, mas no fundo são obras perfeitamente dentro dos cânones do mainstream. Fazer observações destas, mesmo en passant, no quadro de um encontro de fãs dos géneros do fantástico nas artes, soa a algo estranho. Mas percebe-se. Essas coisas da ficção científica e do terror são coisas para maluquinhos, e o ICA não desperdiça o dinheiro dos contribuintes com coisas para maluquinhos. Os financiamentos vão só para obras de arte comprovadas. Como se nota, pela história de António de Macedo, realizador que por cá fique conotado com géneros fora do cânone não só pode esperar não voltar a ter apoios para filmar como assistir ao esquecimento da sua obra, pese embora esforços pontuais de fãs que tentam lutar contra este estado das coisas.

Esta segunda edição dos Sustos às Sextas começou com a interpretação de duas canções do musical Phantom of the Opera. Se os dotes da pianista são de excelência, eu pessoalmente sou algo imune ao género musical em geral e em particular ao génio de Andrew Lloyd Weber. Mas ouvir musicais que sempre me soaram algo banais faz parte do ambiente de boa parte do público do Sustos às Sextas. Questão de gostos, que não deixam de ser legítimos. Afinal, fãs de culturas de género compreendem melhor que ninguém a sensação terrível de ver as nossas paixões desconsideradas por questões de gosto. Posto isto, a perspectiva de ouvir mais excertos do Fantasma da Opera não me anima muito. Posso sempre chegar atrasado. Ou esperar novo repertório. Não se exige a Fantástica de Berlioz (mas olhem que as bruxas à meia noite condiziriam muito bem com o ambiente do palácio dos Aciprestes), mas certamente que o teatro musical de terror não se esgota em Lloyd Weber.

António Monteiro é o anfitrião de sempre, e o responsável por manter um espírito algo diferente neste género de iniciativas. Tem o seu quê de formal e proto-académico. Em essência é clássico, old school. E porque não o poderia ou deveria ser? A diversidade é essencial à cultura, e o Sustos às Sextas desde cedo me pareceu afirmar-se como evento cultural ambicioso. Notei que a sala tinha mais cadeiras, e todas preenchidas. Esperemos que a tendência se mantenha.

No dia 13 de Março lá estarei novamente. Quer a descobrir ou redescobrir o lado clássico do horror, quer a reencontrar amigos e pessoas que admiro entre os fãs do género. O espírito de tertúlias também vive disso, de ponto de encontro daqueles que no dia a dia raramente se cruzam, excepto em espaços virtuais, e que partilham o gosto por géneros do imaginário. Espero que menos exausto do que nesta sessão, vítima como fui da sublime conjugação de reuniões de conselho de turma, aulas, leccionar sessões de formação e dominar a impressora 3D. Se disser que nestas duas semanas tenho fechado a escola ao início da noite não estou a exagerar. Entre o horror dos demónios e das criaturas que arranham no escuro e o holocausto das reuniões, digamos que mais valem as garras do demo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Comics


Divinity #01: Fiquei muito intrigado por este novo título da Valiant. Escrito por Matt Kindt e muito bem ilustrado por Trevor Hairsine e Ryan Winn, não se parece inserir no universo ficcional desta pequena editora que renasceu das cinzas e insuflou nova vida em comics dos anos 90. Com, por sinal, muito bons resultados. Archer & Armstrong não tem falhado na aventura e bom humor com argumentos interessantes de high weird. Das restantes não posso opinar, tenho andado com cada vez menos paciência para o género heróico nos comics e títulos como Rai, Harbinger ou Bloodshot não me atraem. Já este Divinity surpreende. Fala-nos de um cosmonauta afro-americano enviado nos anos 60 aos confins da galáxia numa nave experimental. Sim, leram bem. Cosmonauta. O porquê de um orfão afro-americano a crescer na União Soviética é um dos pormenores que intriga nesta promissora série. Isso e o cerne da aventura, uma missão de muito longa duração que ultrapassa os limites do sistema solar onde o cosmonauta permanecerá em hibernação criogénica. Só o ao regressar deparar com um mundo radicalmente diferente de onde partiu, onde a União Soviética à qual jurou fidelidade eterna é agora uma pálida memória histórica, já daria uma boa história. Mas parece que Kindt ainda se mete com os efeitos da viagem prolongada sobre os limites do ser. A ver vamos, se se mantém interessante ou decai para a habitual e banal história de origem de mais um herói com super-poderes.


Deep State #04: A Boom! Studios de vez em quando surpreende com as suas séries, e esta tem sido uma delas. No seu cerne é mais uma história de invasões alienígenas, pragas zombificantes e agentes ultra-secretos no estilo X-Files/The Crazies, mas a ilustração foge quer ao banal apressado quer o realista, com um forte grau de expressionismo que fica muito bem numa aventura onde o invasor alienígena é afinal um resquício viral de uma forma primitiva de proto-vida terrestre, arrancada ao berço pelo cataclisma que nos legou o satélite lunar. Poderíamos discutir a plausibilidade de um vírus terrestre adormecido sob o solo lunar durante milhares de milhões de anos que se reactiva com as primeiras missões soviéticas e americanas à lua, contaminado e absorvendo astronautas para eventualmente aprender a dominar os restos dos módulos lunares e regressar ao berço para se espalhar pelas criaturas bípedes que entretanto se tornaram na forma de vida dominante no calhau com atmosfera utilizado um misto de bio-implantes electrónicos, mas diga-se que não é nada mau ponto de partida para uma história. A invasão foi, como não poderia deixar de ser, debelada, mas a série promete continuar com novas camadas de conspiração secretista.


Wild's End #06: E, por falar em Boom! Studios, foi um privilégio acompanhar o revisitar por Dan Abnett do clássico de H.G. Wells. Os elementos estavam lá, mas Abnett recontou a clássica invasão sob a perspectiva da ficção infantil que antropomorfiza animais, interligando-a com a tradição classicista da literatura infantil anglófona que imagina uma espécie de era dourada nos tempos de transição da era agrária para a era industrial. Culbard, como sempre, foi soberbo nas ilustrações. Este fim, como percebemos, é afinal um início, mas suspeito que a série tenha ficado por aqui. Quando chegar a edição em TPB é uma boa adição à biblioteca de qualquer apreciador de banda desenhada e ficção científica.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

2001 Nights

Devo culpar o Rui Bastos por me ter feito cair esta estante dele em cima. Desconhecia de todo este manga de FC. Fui surpreendido pelo classicismo da FC Hard com uma vénia fortíssima a esse filme maior que é 2001, transmitindo o fascínio por toda a visão estética e filosófica a ele subjacente. Belíssma sugestão, a de este portento de manga, que se calhar não agradará ao grande público por se afastar da espectacularidade fantástica e apostar no rigor.



Yukinobu Hoshino (1996). 2001 Nights: The Death Trilogy Overture. VIZ Media LLC.

Uma obra notável e surpreendente. Ficção científica pura, em modo de space opera hard sf. 2001 Nights é um manga de histórias curtas e autocontidas, cada qual uma sólida narrativa que mistura rigor científico plausível com esse grande sonho da exploração espacial. Histórias contidas, mas sem ligação entre si. 2001 Nights não é um manga episódico em que seguimos as aventuras de um grupo de personagens. Não há qualquer continuidade entre as histórias, excepto temporal. Estas unem-se numa sequência mais ambiciosa, episódios isolados que no seu contínuo  nos mostram a real intenção do autor: contar num longo arco narrativo a sua visão de como o homem poderá espalhar-se pelas estrelas. Sem concessões ao aventureirismo infantil, batalhas com bug eyed monsters ou tecnologias tão fantásticas que parecem magia.

Suspeito de 2001 Nights não é um título inocente. Nota-se ao longo de todas as histórias uma profunda homenagem de Hoshino ao filme de Kubrick, quer pela visão filosófica do destino do homem nas estrelas quer pela sua estética meticulosa de futurismo plausível. Não é por acaso que as primeiras histórias quase repetem os principais momentos do filme, mas a série depressa se afasta dessa raiz e cresce por mérito próprio, mantendo sempre a vénia ao icónico filme.


Yukinobu Hoshino (1996). 2001 Nights:Journey Beyond Tomorrow. VIZ Media LLC.

Se no primeiro volume apontaria o filme 2001 como fonte principal de inspiração, neste não descartaria a influência das Crónicas Marcianas de Ray Bradbury. Não pelo tema, uma vez que a visão de Hoshino está mais dentro da Hard SF clássica de Clarke do que no futurismo nostálgico de Bradbury, mas pela estrutura. Tal como o livro, estas 2001 Nights estruturam-se como uma série de narrativas contidas, sem relação directa entre si, interligadas apenas por um tema abrangente. Cada nova história é, na visão do autor, um novo passo na colonização das estrelas.

Se no primeiro volume fomos da pré-história aos primeiros passos além do sistema solar, com naves geracionais e inteligências artificiais a irem onde o homem estava impedido de ir pelas distâncias relativísticas, neste Hoshino já introduz a ideia de viagem a velocidades translumínicas. O primeiro volume terminou com a descoberta de um planeta de anti-matéria no sistema solar, capaz de fornecer o combustível que permitirá à humanidade desenvolver a tecnologia de viajar para lá da velocidade da luz. Neste volume colonizam-se planetas e descobrem-se indícios de vida alienígena, alguma inteligente mas com um tipo de inteligência que escapa à percepção dos exploradores.

Sente-se o peso das datas. Parte das histórias aborda as rivalidades entre o bloco ocidental e o soviético, agora transpostas para as vastidões galácticas. Hoshino não nos dá aqui futurismos de inocência utópica. As velhas rivalidades, os vícios de sempre, os opressores e os oprimidos mantém-se neste futuro. Termina reflectindo que se as naves humanas conseguem saltar através do espaço-tempo, a relatividade é implacável. Se dentro da nave poucos meses passam em expedição, para o resto da humanidade o tempo passa como sempre passou. Suspeito que estará aqui aberta a porta para o próximo volume.


Yukinobu Hoshino (1996). 2001 Nights: Children of Earth. VIZ Media LLC.

Neste terceiro volume o carácter de FC clássica optimista na veia de Clarke é mais acentuado. Hoshino encerra o périplo pelas estrelas com duas notas. Por um  lado, o regresso da humanidade ao berço, exausta pelo esforço de colonização de planetas inóspitos ou pouco habituados à vida humana. Mas o espírito pioneiro de exploração continua vivo naqueles que nasceram no espaço, vivo o suficiente para se espalharem pela galáxia. São duas notas curiosas, também presente na FC clássica, o desmoralizar do berço da humanidade e o legado de curiosidade e gosto de exploração dos seus herdeiros.

Se as histórias que compõem a série são interligadas apenas pelo tema abrangente, há uma excepção. No primeiro volume um dos contos falava-nos de uma primeira tentativa de espalhar a humanidade pelas estrelas através de uma nave que continha adn congelado, pronto a iniciar a gestação de novos humanos assim que encontrasse porto seguro. Nave lenta, sub-lumínica, que levará séculos a chegar ao destino. No segundo volume regressamos a esse tema, com os descendentes do casal que doou o adn a terraformar um planeta que sabem ser o destino provável destes irmãos do passado ainda por nascer. No terceiro volume trata-se de uma expedição em nave geracional super-lumínica que recorre a este adn, agora com os festos crescidos e a brincar numa espécie de éden, como recurso de diversidade genética para a sua longa viagem. Basta-me este exemplo para se perceber de que forma este manga é rigoroso e cerebral no seu futurismo, sem ceder à FC como espectáculo de aventuras.

Num pormenor inteligente, Hoshino não cruza a humanidade com civilizações extraterrestres, embora não fuja ao tema da vida alienígena com soluções muito inventivas. A melhor delas é um planeta cuja vida vegetal, ameaçada pela instabilidade dos sóis que iluminam o sistema, evoluiu para lançar para o espaço as suas sementes usando uma forma biológica das velas solares impulsionadas a laser. Mas nada de bug eyed monsters, ou primeiros contactos. Não há impérios e hegemonias, nenhuma batalha espacial. 2001 Nights lê-se como o livro de registos de exploração de um novo continente, passado nas frias vastidões estelares.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

aCalopsia: Poem Strip.


Este mês, a escolha para o Olhar Atrás no aCalopsia é o fumetti surreal Poem Strip do escritor Dino Buzzati. Uma banda desenhada obscura, tida como uma das precursoras da moderna graphic novel como o romance gráfico que é. Está fora dos cânones estabelecidos e longe quer do mainstream do fumetti quer da BD de autor italiana. É, na sua essência, um hino à mulher, ao amor, ao desespero da solidão e à resignação perante forças inquebráveis do destino. A narrativa oscila entre a poesia onírica e a referência à mitologia clássica, com momentos de amargura existencial e mal estar do ser perante o mundo e do mundo perante o ser. Visualmente inquietante, abalando expectativas sobre o género. Mais sobre este corpo estranho, intrigante e pouco recordado no aCalopsia - Poem Strip: A Poesia Visual de Dino Buzzati.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Chá Forte Com Limão e outras delícias cinéfilas.


Preciosidades que encontrei por puro acaso. Andava pelo YouTube à caça de trailers para fornecer como recurso aos formandos de  uma acção de formação sobre edição vídeo que tive de dinamizar e dei com estas belas surpresas. Antes que pensem que os meus formandos são uns sortudos, recordem-se que já sofrem o suficiente com um formador cujas crédulas noções de "fácil" e "simples" provocam traumas na maioria dos estudantes adultos. Mas adiante. A boa surpresa foi encontrar pelo YouTube versões completas de filmes icónicos de António de Macedo. Para além do esplendoroso Chá Forte Com Limão, também se encontram Domingo à Tarde, o divertido A Maldição de Marialva (dobrado em italiano...), o documentário sobre Fernando Lanhas e um documentário recente sobre Macedo.

Normalmente não utilizaria este espaço para divulgar e hiperligar para obras claramente publicadas à revelia dos direitos de autor, mas este caso é especial. Tratam-se de filmes e documentários realizados por uma figura única do cinema português que raramente são visíveis fora dos poucos ciclos que lhe foram dedicados na Cinemateca e de festivais de cinema fantástico que apostam também no recordar dos valores maiores desse género por cá. São filmes fechados nos arquivos, bem protegidos dos olhares dos cinéfilos, talvez reflectindo o esquecimento forçado a que este realizador se vê condenado por optar por caminhos que não se adequam à erudição monótona do mainstream cultural nacional. Filmes arredados das colecções de DVDs, indisponíveis online sem ser desta forma, que suspeito que dure pouco tempo. As cópias podem não ser as melhores, com A Maldição de Marialva dobrado em italiano e Chá Forte Com Limão com as suas belíssimas cores da fotografia original deslavadas e som dessincronizado. Note-se que há poucos anos, quando descobri o belíssimo e bem preservado espaço das ruínas da aldeia de Marialva, acessível pelo IP2 entre Trancoso e Vila Nova de Foz-Côa, falei deste filme à responsável museológica que me confidenciou que sabia que existia mas nunca o tinha visto, e gostaria de o ver.

É nestes momentos que a protecção legal da propriedade intelectual colide com o acesso à cultura. Quando a a protecção da propriedade intelectual impede que se aceda a marcos culturais, quando a falta de vontade, ou o custo elevado, de recuperar e divulgar obras para as dar a conhecer a um público mais alargado, valha-nos a pirataria. Por muito que se deva respeitar os direitos dos criadores (e se o sistema actual realmente os respeita ou beneficia conglomerados financeiros seria uma longa discussão), nestes casos a excepção justifica-se. Sublinho que se houvessem filmes de Macedo em DVD eles estariam na minha colecção.

Curiosamente estou a iniciar actividades do Plano Nacional de Cinema na minha escola. Olhando para a lista de filmes e cineastas seleccionados pelas eminências da cultura cinematográfica que me foi divulgada notei uma ausência gritante. Nenhum filme de António de Macedo.

Bónus: nestes meus vasculhares pelo YouTube em busca de material para os meus formandos ainda deparei com outra preciosidade: um dos raros filmes portugueses de ficção científica, ainda por cima baseado num conto de J. G. Ballard, um dos meus autores favoritos do género: Aparelho Voador a Baixa Altitude. É caso para dizer, pirateiem, senão nunca terão oportunidade de ver estes filmes. E se algumas vez forem editados em DVD ou apareçam em festivais de cinema, redimam-se desta acção de ética duvidosa. Até porque o cinema faz-se é para ser visto em ecrã gigante e não em janelas difusas do computador ou tablet, em cópias que façam jus à estética cinematográfica (e os filmes de Macedo distinguem-se por um sentido de cor apuradíssimo) e não transcodificações cujo algoritmo de compressão é implacável com subtilezas e nuances visuais.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Revoir Paris


Benoit Peeters, François Schuiten (2014). Revoir Paris. Paris: Casterman.

Deslumbres visuais é o que habitualmente esperamos da dupla criativa Peeters e Schuiten. O imaginário urbano do argumentista e o estilo clássico do ilustrador conjugam-se para nos encantar desde o primeiro álbum da série Cidades Obscuras. Não são uma dupla alheia à Ficção Científica, também presente de forma discreta na sua série mais icónica. Este Revoir Paris mergulha fundo na FC e leva-nos a um futuro que também se constrói de passados imaginários.

No século XXII uma jovem astronauta é o único elemento que não dorme o sono criogénico da tripulação de uma nave vinda de uma colónia orbital que há muito tempo que cessou o contacto com o planeta mãe. Também é o único elemento não geriátrico da expedição, elemento cujo simbolismo confesso não ter percebido. Há indícios de que teria sido autorizada a partir por se recusar a procriar, e a pergunta do porque é que apenas pessoas de idade avançada desejariam rever a Terra não nos é respondida neste primeiro volume. Nostalgia? Um progressismo em que os mais novos desdenham os laços do passado e resta aos mais anciãos o peso da memória? Mas adiante. A jovem tem um fascínio estranho por Paris. Viciada numa droga que parece dissolver as barreiras do espaço e do tempo, viaja para os passados da cidade, mas só o pode fazer com os referenciais visuais de velhas fotos ou ilustrações. Somos levados com ela para a Paris dos primeiros momentos da Torre Eiffell, ou mergulhados no retrofuturismo da Paris do futuro imaginado pelo incontornável Robida. Curiosamente ausente está o modernismo austero da Paris de Le Corbusier.

A chegada à Terra é uma queda numa realidade mais dura. O futuro é estranho, industrial, feio e de forte toque neoliberal. Ficções produzidas neste momento difícil da história europeia e mundial tendem a reflectir o desagrado com a visão do mundo que nos querem impôr que reduz o homem a um mecanismo de eterna lufa lufa económica. A própria Paris é uma cidade sob redoma, de entrada controlada e atribuída apenas àqueles cuja afluência financeira é desejável pelas autoridades. No seu interior a velha cidade tornou-se peça de museu, local pensado para ser visitado mas não vivido, algo que não consigo deixar de sentir como um comentário amargo sobre a tendência contemporânea de transformar as cidades europeias em locais belos mas estéreis, apostando no encanto fugaz do turimo de massas afluentes para sustentar economias que substituem o charme artificial pela autenticidade e sustentabilidade.

O traço de Schuiten continua o deslumbre de sempre, tão à vontade na estética do ferro forjado industrial como na bizarria que dá corpo a Robida, como num futuro que consegue ser-nos ao mesmo tempo familiar e estranho, com um forte ênfase em geometrias tridimensionais complexas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Comics


Annihilator #05Annihilator é Grant Morrison no seu pior. Pretensamente cósmico, a tentar chocar com conceitos-base incoerentes. O ponto de partida meta-ficcional do argumentista de cinema com um tumor cerebral que se vê metido numa aventura de proporções cósmicas fica completamente desperdiçado numa incessante e frenética sucessão de perseguições. A personagem pulp que ganha vida é irritante, o que é bom. Pelo menos tem alguma dimensão. A série decaiu numa banal história de invasão da Terra por uma força mortífera que apenas um herói acossado e o seu ajudante poderão travar. Mas vai tendo os seus momentos interessantes. Como esta referência à mais clássica FC, com Morrison a recordar o autómato Olympia de E.T.A. Hoffman nesta sua andróide cujo criador será a força tenebrosa vingativa que persegue o herói pulp através dos multiversos.


Legenderry Vampirella #01: Dizer que Legenderry foi um sucesso é talvez um exagero. Começou muito bem, mas Abnett parece ter perdido o interesse a meio da série e aquilo terminou de forma muito fraquinha. Mas a Dynamite não desiste de vestir as personagens de que é a actual detentora da propriedade intelectual (longa história) em roupagens steampunk. A Dynamite não é uma editora inovadora, seguindo o mais fácil caminho do sugar as personagens que adquire até ao tutano como revisionismos habitualmente banais. Desta vez coube a Vampirella a honra dúbia de ter uma série dentro do universo steam da Dynamite. A história é previsivelmente desinteressante, a estética steam está bem conseguida, mas o pormenor de interesse está nas vestes da personagem. Vampirella é uma das clássicas do erotismo nos comics, com aquele fatinho a fazer inveja a muito bikini, mas nesta série tem roupas menos reveladoras e mais consentâneas com um padrão neo-vitoriano.


Nameless #01: Grant Morrison, novamente, agora com a sua muito antecipada nova série para a Image. E a começar muito bem, com uma mistura psicadélica de futurismo e terror, cenário pré-apocalíptico conspiracional, e um personagem em equilíbrio precário entre o real e o terror que se oculta para lá da nossa percepção. Morrison tem afirmado que quer com esta série ir mais longe do que foi em The Filth. Sem os constrangimentos da DC será interessante ver até que ponto Morrison irá derrubar as portas da percepção com o bulldozer da sua imaginação.


Velvet #09: O que torna esta série interessante é a forma como desfaz os pressupostos da ficção pulp de espionagem. É uma história muito bem montada de segredos e conspirações dentro de conspirações, sem quaisquer simplismos moralistas e a rever numa estética retro o pós-guerra fria imediato. Outra coisa não se esperaria do argumentista Ed Brubaker. Mas o verdadeiro ponto de interesse é o reverter que faz da imagem do hiper-masculino super-espião sedutor, que aqui é uma mulher a entrar na meia idade. Velvet é uma James Bond inteligente e mortífera, uma beleza a fenecer capaz de bater os melhores agentes num jogo perigoso onde nada é o que parece.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Starjammers


Warren Ellis, Carlos Pacheco, Cam Smith (1995). Starjammers. Nova Iorque: Marvel Comics.

Os Starjammers são um grupo das mais divertidas personagens secundárias dos X-Men. Piratas espaciais liderados pelo pai de Scott Summers, o Ciclope do grupo de mutantes, reúne um bando de alienígenas combativos que se vão aventurando pelo espaço a bordo da nave inteligente Windjammer. Mantém uma relação complexa com o império S'hiar liderado por Lilandra, imperatriz apaixonada pelo Professor X. Confusos? Não estariam se conhecessem melhor a mitografia dos mutantes X. Fruto dos tempos em que Chris Claremont expandiu o universo X nos anos 80 e 90, os Starjammers são daquelas personagens secundárias que enfatizam o lado de aventura em ficção científica classicista, daquelas que aparecem pontualmente nas aventuras das principais personagens e que deixam sempre vontade de ler algo mais com elas. Algo que normalmente quando acontece desilude muito os leitores.

Não neste caso. Esta curta mini-série foi entregue às mãos de um Warren Ellis que fiel à reputação que veio a estabelecer ao longo dos tempos nos lega um texto denso, cheio de intrigas e possibilidades de aventura, com várias peripécias em linhas narrativas que confluem num final apoteótico. Pegando no conceito de piratas e impérios espaciais, Ellis dá-nos uma grande aventura de space opera barroca, com impérios poderosos a resvalar para um fascismo militarista, uniões de rebeldes que se vão mantendo em tréguas inquietas com os colossos militares, e um daqueles conceitos tipicamente saídos da mente deste escritor, uma espécie de alienígenas de ateísmo tão militante que se dedicam a exterminar planetas que alberguem civilizações profundamente religiosas. No meio disto tudo os próprios Starjammers estão divididos, com o seu líder a perceber que apesar de estar do lado dos ameaçados pelo império, para assegurar a paz na galáxia tem de se manter ao lado de uma imperatriz que, ela própria, tem de lidar com as forças fascizantes do seu governo. Algo que não cai bem com alguns elementos da tripulação, sedentos de vingança pelo passado de violência e escravidão que sofreram. Intriga política, space opera de grandes vistas, e uma ilustração a condizer fazem desta curta série um interessante momento na história editorial de personagens que normalmente se ficam por fugazes vislumbres no meio dos arcos narrativos dos heróis habituais. Uma lufada de ar ainda refrescante vinda do passado dos anos 90, época cujos comics hoje nos parecem tão irremediavelmente inocentes.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Super-Cannes


J. G. Ballard (2000). Super-Cannes. Londres: St. Martin's Press.

A ficção de Ballard não é estranha às psicopatias induzidas pela arquitectura modernista. Induzida talvez não seja o termo correcto. Talvez, despertas, na suprema ironia do rebentar de surtos de violência irracional por entre a geometria simbólica do triunfo da racionalidade fria trazido pelo modernismo. Tem sido assim desde o clássico High Rise, e com o passar dos anos o autor introduz lógicas pervertidas de psicologia que racionalizam o irracional. Caso de Running Wild, sobre as depredações cometidas por crianças que sublimavam na violência a bondade de uma educação conforme os mais avançados pressupostos psicopedaógicos.

Tendências que colidem neste implacável Super-Cannes, que ainda se revela de uma presciência arrepiante no que toca aos excessos das classes plutocratas. Tendências visíveis desde sempre, sabemos, mas particularmente evidenciadas nestes tempos contemporâneos de crise sucessiva, esmagamento de direitos sociais tidos como financeiramente incomportáveis e disparo das desigualdades de rendimento para níveis estratosféricos. Hoje, mais do que nunca, a realidade em que os plutocratas vivem está desfasada da dos restantes habitantes planetários. Sintomas que Ballard detectou e perverteu com o seu estilo muito espcial neste romance de 2000 que nalguns aspectos soa tanto a 2015.

Descobrimos o paraíso tecnocrático de um parque-modelo de negócios à beira do Mediterrâneo. Arquitecturas limpas recortadas sobre os profundos azuis, espaços interiores sóbrios e anónimos servidos por vivendas prazenteiras e espaçosos parques de estacionamento interiores. Espaços propícios para a nova aristocracia empresarial e as suas legiões de servos em fatos de três peças, com o clima aprazível de Cannes a recompensar o empenho contínuo no profissionalismo. O nosso guia é um aviador de asas danificadas, piloto que está a convalescer de um acidente que o impede de voltar a voar e acompanha a jovem esposa ao parque de negócios de Eden-Olympia, jovem médica recém-recrutada para preencher a vaga deixada por um antecessor que, num assomo de loucura que irá obcecar o aviador preso ao chão, assassinou colegas e amigos do centro de negócios antes de ser abatido pelos seguranças privados.

Através desta obsessão, e dos comportamentos bizarros dos pequeno-burgueses com evidentes psicopatias sublimadas que povoam as salas de reunião e gabinetes de trabalho, descobrimos o segredo por detrás da bonomia empresarial. Uma psicopatologia induzida pelo psicólogo do parque para curar maleitas e neuroses que estimula os analistas financeiros, burocratas empresariais e decisores negociais a sublimar as suas neuroses e frustações com erupções de violência sobre minorias. Espancamentos aleatórios nos bairros árabes, violações sistemáticas das prostitutas das zonas pouco recomendáveis à beira do mediterrâneo, jogos amadores às voltas com pedofilia e tráfico de drogas, todo um catálogo de perversões violentas devidamente registadas em câmaras de vídeo pensado como terapia para manter elevados os níveis de energia e motivação dos corporate drones que prosperam na utopia racionalista financeira do parque empresarial. Jogos perigosos aos quais as autoridades fecham os olhos. Perante a prosperidade financeira, as vidas e o bem estar dos mais desfavorecidos tornam-se moeda de troca para garantir a continuidade do sucesso do parque empresarial.

É esta presciência sobre o gosto predatório de classes superiores que ganham energia exercendo violência directa sobre os seus inferiores que torna Super-Cannes arrepiante. Não que haja por aí muitas ratissages (limpezas étnicas de bairros degradados) onde advogados e economistas invadam casas de imigrantes para espancamentos aleatórios. As armas predatórias são mais insidiosas e passam por todo um sistema cada vez mais desumano que perverte a sociedade em nome de uma ideologia amarfanhada que mal disfarça compor-se de ganância de lucro a qualquer custo, indiferente aos problemas sociais, éticos, económicos e ambientais que gera. Algures no livro Ballard fala-nos de executivos hiper-produtivos, domadores de uma realidade e dependentes da violência para se manterem no auge das capacidades.

Fiel ao seu futurismo surreal, Ballard centra-se nos paraísos europeus onde o alto modernismo arquitectónico legou legiões de monólitos de cimento armado sob o azul profundo do céu como gigantescas antas cerimoniais para um novo milénio. Tal como mais tarde William Gibson, Ballard foi daqueles escritores de ficção científica que percebeu que a melhor forma de extrapolar o futuro para melhor compreender os desafios contemporâneos está no aproximar temporal. Do imaginar de futuros longínquos transferiu-se para a modernidade próxima, o futuro ao virar da esquina, os próximos minutos que são ao mesmo tempo estranhos e familiares. Especulações que extrapolam tendências do presente que, por vezes, se revelam de arrepiante presciência.