quinta-feira, 23 de março de 2017

Desolation Jones: Made In England



Warren Ellis, J.H. Williams III (2006). Desolation Jones: Made In England. Nova Iorque: DC Comics.

Warren Ellis a reduzir-se ao seu essencial. Um anti-herói amoral, que acaba por fazer a coisa certa no final de uma sequência de acções violentas, escapado à normalidade graças a efeitos perversos de experiências científicas secretas. Personagens quase autistas no seu foco específico que auxiliam o herói. Submundos ocultos, onde pululam os soldados e agentes de teorias da conspiração, neste caso específico a cidade de Los Angeles como prisão dourada para ex-operacionais de serviços secretos. Perversos endinheirados, de imoralidade particularmente enviesada, deleitando-se com o mais impensável do escabroso. Mundos que coexistem com a nossa visão de normalidade, mas escapam por completo ao nosso olhar. São tendências típicas deste argumentista, bem exploradas numa aventura cheia de acção cinética de um destroço dos serviços secretos britânicos exilado na cidade dos anjos, contratado por um ex-general da CIA para lhe recuperar o mais precioso dos artefactos da sua colecção de amadas perversões: uma bobine de filme que regista para a posteridade as proezas de Hitler na cama. Um ponto de partida para uma avalanche amoral de violência.

terça-feira, 21 de março de 2017

The Inevitable


Kevin Kelly (2016). The Inevitable: Understanding the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future. Nova Iorque: Viking.

É inevitável, de quanto em vez, ler um destes panegíricos de optimismo alastrante ao estilo de Sillicon Valley. Kevin Kelly é um conhecido incorrigível desta linha de pensamento tecnológico, deslumbrada com a acelaração e as promessas de tecnologias, vistas sempre sob um prisma de cândido optimismo. The future's so bright, I gotta wear shades, como na canção pop dos anos 80, e hoje os óculos escuros até podem ser um interface de realidade aumentada a enriquecer a nossa percepção do real com camadas de virtualidade.

Kelly não está errado. Identifica uma série de tendências culturais trazidas pela tecnologia, da inevitável automação e inteligência artificial, assunto hoje na ordem do dia, à desmaterialização dos bens culturais, ou a já bem estudada questão da colaboração assente em redes digitais. A sua intuição de inevitabilidade também está correcta, as suas visões de um futuro próximo assentam na percepção de transformações que já fazem parte do nosso dia a dia. O problema destas visões é a forma deliberada como são cegas perante outras interpretações, ou consequências previstas ou imprevistas destes avanços. Pintam o futuro com um optimismo a brilhar de tão polido, esquecendo que se há algo que caracteriza a evolução dos tempos é a complexidade e assimetria.

Uma pet peeve minha neste livro: ler todo um capítulo sobre a extinção do livro e da leitura linear trazida pelas hiperligações, livros digitais, multimédia e acesso constante à internet, celebrando o poder do salto entre ligações em detrimento da linearidade da leitura em parágrafos e capítulos... num capítulo linearmente estruturado de um livro. Ironias. São estes pequenos pormenores que revelam os pés de barro destes ídolos do futurismo contemporâneo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Comics

The Wildstorm #02: Warren Ellis em grande esta semana, com a sua reconstrução dos Wildstorm originais, dentro da sua onda de hipermodernidade apocalíptica, tecno-fetichista e paranóica. A fugir aos estereótipos do comic de super-heróis, mergulhado em ambientes conspiratórios e lutas secretas pelo domínio global.

Injection #11: O outro momento Ellis da semana, com o regresso de Injection. Ellis está a contar esta história num ritmo muito próprio, mudando regularmente o foco para nos mostrar mais o que representam as personagens principais do que os efeitos do vírus memético que libertaram a sociedade. Ao contrário de Trees, que é claríssimo na pequenez humana face a uma presença alienígena que nem sequer nos regista, Injection tem-se desenvolvido como uma deambulação pelos temas habituais do argumentista, com a sua frieza radical. Diga-se que é uma boa altura para ser fã de Warren Ellis.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Doctor Strange: What Is It That Disturbs You, Stephen?



P. Craig Russell (2016). Doctor Strange: What Is It That Disturbs You, Stephen? Nova Iorque: Marvel Comics.

Uma celebração do trabalho de P. Craig Russell a ilustrar histórias de Doctor Strange. Uma colectânea curiosa, que mostra o panorama da evolução do traço marcante deste ilustrador em sentido inverso. Começa por publicar uma história totalmente ilustrada no estilo único de Russell, e continua com outras histórias onde o ilustrador teve a cargo o desenho ou a aplicação de cores. É intrigante ver em caminho inverso a evolução do estilo gráfico, da iconografia elegante e feérica que é apanágio deste autor aos desenhos em estilo comics convencional do início da sua carreira. Diga-se que a elegância surreal de Russell se aplica muito bem ao tipo de histórias de Strange, tantas vezes a passar as fronteiras do real para mundos fantásticos.

terça-feira, 14 de março de 2017

Forbidden Brides of the Faceless Slaves in the Secret House of the Night of Dread Desire



Neil Gaiman, Shane Oakley (2017). Forbidden Brides of the Faceless Slaves in the Secret House of the Night of Dread Desire. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Pobre deste escritor, em busca da capacidade de exprimir na narrativa o que lhe vai na alma. Num mundo tenebroso, repleto de criaturas da noite, casas decrépitas que se erguem por entre a névoa, monstros nos sotãos e maus prenúncios, a maior fantasia escapista é a banalidade do romance amargo, do pagar impostos e do trabalho rotineiro. Uma história meta-ficcional de Neil Gaiman, que inverte os papéis de fantasia e realismo, imaginando um mundo que incorpora todos os lugares comuns da ficcão gótica. Um mundo onde o real é o nosso imaginário tenebroso, e o fantástico o nosso banal. Shane Oakley ilustra, num registo visceral e expressivo que transmite a intensidade excessiva da negritude da iconografia do terror gótico.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Comics


Man-Thing #01: A Marvel lembrou-se de redescobrir a sua cópia mal sucedida de Swamp Thing. Este Man-Thing é um clone óbvio, e R.L. Stine, como argumentista, brinca com isso misturando reminiscências da sua origem e passado, nitidamente decalcadas do personagem da DC, com uma divertida carreira falhada onde o Monstro é mal sucedido como monstro em filmes de série B.


Silver Surfer #09: Talvez a série mais marcante da Marvel, nestes tempos. Um contraponto colorido ao grimdark ou aos epicismos dos universos cinematográficos, onde os comics deixaram de ser o ponto principal e se tornaram complementos às séries televisivas e filmes. Cores brilhantes, uma certa inocência evocativa da era dourada, e o estilo Pop dos Allred tornam esta temporada do Surfista algo de imperdível.

sábado, 11 de março de 2017

Vai-vém




Sábado silencioso na escola, a primavera que desponta em Torres Vedras, e o pêndulo de Foucault em Lisboa.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Rocket Girls






Housuke Nojiri (2010). Rocket Girls. São Francisco: Haikasoru.

Uma curiosa mistura de Hard SF com ficção YA, apesar do lado Young Adult ser o que mais pesa. Neste romance, uma adolescente japonesa que aproveita as férias escolares para ir às ilhas Salomão em busca de um pai que abandonou a sua mãe na viagem de núpcias, vê-se envolvida num projecto experimental japonês para colocar um astronauta em órbita. Um projecto que decorre nas ilhas um pouco à revelia das estruturas rígidas das agências espaciais tradicionais, e que se encontra em perigo. Os sucessivos insucessos com os seus foguetões mais avançados levaram o governo japonês a ameaçar cortar o financiamento de que dependem. A solução está em lançar astronautas com foguetões menos potentes, e também menos propensos a explodir no lançamento. Motores menos potentes implicam menores cargas de lançamento, e é aqui que a jovem adolescente entra. As suas proporções diminutas e baixo peso tornam-a a candidata perfeita para astronauta desta missão japonesa.

O resto, como se diz, é história, com as peripécias de uma jovem que até nem quer ser astronauta mas pensa que é a forma de obrigar o pai, transformado em chefe de tribo nativa das ilhas Salomão, a regressar ao Japão, as agruras do treino, a amizade com a sua meia-irmã, que também se torna candidata a astronauta, e uma missão inicial em que após um lançamento bem sucedido para a órbita terrestre, tudo corre mal e só uma missão pilotada pela irmã a conseguirá salvar. Pelo meio, ainda visita a estação espacial MIR, com consequências funestas para a base orbital.

Leitura leve e divertida de FC nipónica, com alguns toque de hard sf na discussão de tecnologias espaciais, mas que é essencialmente um romance despretensioso de YA.

terça-feira, 7 de março de 2017

Four Futures



Peter Frase (2016). Four Futures: Life after Capitalism. Brooklyn: Verso.

O futuro não nos parece animador, neste início de 2017. Four Futures olha para o futuro combinando dois desafios à  humidade cujo impacto se faz sentir, hoje. Primeiro, o espectro das alteraçõe climáticas, com as suas consequências nos recursos e vida humana. Depois, a automação e seus impactos nas relações laborais. O livro pega nestas duas forças e analisa os seus impactos numa matriz que assume como premissa que, condicionantes físicas à parte, as principais consequências destas forças sobre as sociedades se deverão às escolhas sociais e políticas que são feitas por aqueles que têm poder de decisão. Um conjunto que, como sabemos, está cada vez mais nas mãos de plutocratas  e gabinetes corporativos do que em decisores eleitos.

A primeira visão é a mais risonha, postulando um futuro de adaptação às alterações climáticas e onde a riqueza gerada pela automação permite dar qualidade de vida às massas. É um futuro comunista, não um comunismo de gulags  e metas económicas fictícias, mas da utopia futurista pós-escassez de Star Trek. É um futuro de tecnologia, ócio e rendimento básico garantido, onde as desigualdades foram abolidas.  É o único futuro optimista do livro, e diga-se que o mais improvável, por estar tão dependente da vontade de decisores que, tanto quanto sabemos hoje pende para outros caminhos que não a de um mundo equalitário onde a riqueza seja distribuída.

Os futuros restantes são mais plausíveis e espalham tendências presentes na nossa sociedade contemporânea. Ainda na categoria futurismo optimista, por se basear no mitigar  das consequências das alterações climáticas,  embora sem redistribuição de riqueza, temos uma economia rentista, com élites a colher os frutos dos rendimentos trazidos pela automação, com algum fluir para classes laborais não automatizáveis (serviços de segurança e advocacia) , para protecção contra convulsões sociais. Um optimismo relativo, com a prosperidade de alguns e pobreza progressiva para os restantes. A partir daqui,  a visão piora.

Colidindo consequências das alterações climáticas nos ecossistemas e automação de indústrias, mitigando impactos sociais, é postulada uma sociedade de escassez socialista, com alguma redistribuição de riqueza para garantir paz social. Pior do que isso é a visão final deste autor, a de um futuro exterminista, onde a plutocracia assegura prosperidade e sobrevivência num planeta em decadência apoiada em militarização e extermínio expresso daqueles que não têm lugar na nova ordem social.

Four Futures inspira-se na ficção científica e tendências sócio-económicas contemporâneas para especular uma matriz de quatro futuros possíveis. Deixando sempre claro que a escolha do que faremos face aos desafios das alterações climáticas e automação da economia são, em última análise, o que irá ditar consequências e impactos sociais. Se a visão de um futurismo limpo pós escassez ao estilo de Star Trek parece o mais desejável, o mundo contemporâneo aponta para as distopias de desigualdade e colapso ambiental. Independentemente do futuro que construirmos, algo é evidente: a corrente ordem global de capitalismo neoliberal é danosa à escala planetária, e procurar alternativas implica também olhar para a Ficção Científica, analisando as suas especulações em busca de contraditório ao mantra de "não há sistema social e económico alternativo" que impera.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Comics


2000 AD #2020: A 2000AD tem estado menos interessante, mas não deixa de ter os seus momentos. Caso desta tira hilariante. Dica: não olhem para o primeiro plano, prestem atenção ao fundo, que captura a ironia distópica, muitas vezes esquecida, de Judge Dredd.
 

Batman #18: No corrente arco da série, Tom King surpreende pelo ritmo rápido e marcante da acção. Nem damos pelo folhear das páginas, em sequências quase cinematográficas. Este argumentista está a explorar muito bem os limites narrativos dos comics.

Royal City #01: Toques de realismo mágico na nova e intrigante série de Jeff Lemire, uma graphic novel estruturada como comic. Um reencontro familiar numa cidade decaída do rust belt americano é o ponto de partida para uma história que se inicia de forma aparentemente banal mas dá o salto para o próximo capítulo com uma revelação surpreendente.

sábado, 4 de março de 2017

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ser Moderno


Registo de visita à abrangente exposição retrospetiva de Almada Negreiros na Fundação Gulbenkian. Visita com sentimentos mistos. Por um lado, o reconhecimento da importância deste artista para a arte portuguesa, e o deleite com a enorme mestria pictórica, estética elegante e cor vibrante que caracterizou a sua obra. Por outro, uma certa sensação de vazio de conteúdos, de artista de temáticas confortáveis, de grande rigor técnico mas sem levantar ondas ou questionar a sociedade contemporânea para além do trazer as estéticas modernistas para as práticas artísticas em Portugal. Está tão giro! era a expressão que mais ouvia dos visitantes, o que me deixa algo inquieto, com a sensação que na arte valorizamos o esteticamente agradável e o decorativo, evitando o que nos possa provocar ou questionar. Por cá, só se pode ser rebelde com respeitinho, que é coisa muito bonita...





Se tiver de escolher o que mais me tocou na rigorosa exposição retrospectiva de Almada Negreiros  é este estudo abstrato, da fase final da sua obra, onde se dedicou a explorar as estéticas quase iniciáticas da geometria pura. Num destes estudos vêm-se inusitados pingos de tinta a contrariar a perfeição estética do corpo da obra em exposição.

Não me interpretem mal, Almada foi um artista excepcional e marcante, mas esta exposição sublinha que visualmente é demasiado confortável. O que é algo comum à arte portuguesa mais conceituada. Como nos casos recentes de Vhils ou Joana Vasconcelos: visualmente interessantes, com mestria técnica, mas confortáveis e nada desafiantes nas suas temáticas, fundamentalmente mais decorativos do que provocadores.

Almada Negreiros: Uma Maneira de Ser Moderno está na Gulbenkian até junho. Conta com um acervo enorme, representativo das muitas facetas do pintor. E, coisa estranha por cá, tem filas de espectadores, algo que há poucos anos seria quase impensável no nosso panorama cultural.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Os Vampiros

 
Filipe Melo, Juan Cavia (2016). Os Vampiros. Lisboa: Tinta da China.

Recordo dois textos que li sobre esta nova pedrada no charco que Filipe Melo faz no campo da banda desenhada portuguesa. Um, surgido numa daquelas revistas literárias que se dedicam ao monolitismo da intelectualidade, saudava o autor por ter amadurecido, largando as puerilidades da BD de terror e dedicando-se a um tema verdadeiramente sério. É o tipo de comentário que causa logo erupções alérgicas. A profunda homenagem que Dog Mendonça e Pizzaboy faz ao género fantástico não se esgota em poucas linhas, e esta descredibilização é sintoma daquele mal habitual da intelectualidade nacional que só se revê num estrito espartilho de temas que considera sérios e dignos. Tudo o resto é puerilidade, de vez em quando acolhida com um sorriso condescendente. Outro texto, dividido numa sequência de três crónicas de Pedro Moura no aCalopsia, disseca este livro na sua estrutura. Acho que não tenho muito a contribuir depois de uma análise destas, excepto talvez com as minhas percepções enquanto leitor.

O elogio à seriedade da obra prende-se com o tema que se atreve a defrontar, os traumas da Guerra Colonial (ou, dependendo da etnia de origem, Guerra de Libertação). É um dos grandes temas contemporâneos, visto mais recentemente por esse filme tecnicamente soberbo que é Cartas da Guerra, realizado por Ivo Ferreira. Filipe Melo, no entanto, não se limita a uma história de episódios de guerra. Há fortíssimos elementos de horror na estrutura desta obra, alguns directamente relacionados com o tema, como o terror da guerra ou a violência de que os homens são capazes quando libertos das regras da civilização, outros perfeitamente enquadrados no horror clássico. Há criaturas vampíricas, vislumbradas mas raramente totalmente reveladas, e toda a história culmina numa típica cena de filme de terror com personagens acossados por ameaças letais, cercados numa casa isolada.

Há muitos subtextos nesta obra que tanto se inspira no sobrenatural como na história ou no substrato cultural português. Este grupo de comandos, da unidade Vampiros, destacado para uma missão de reconhecimento que os levará a uma base rebelde no Senegal, silenciada em circunstâncias não explicadas, com o objectivo de marcar coordenadas para um ataque aéreo, vai mergulhando em terrores cada vez mais profundos à medida que penetra na selva. Apesar das alusões à situação política e social do Estado Novo e da guerra, exploradas por Filipe Melo nos diálogos, estes Vampiros são mais Joseph Conrad do que Zeca Afonso. Replica-se aqui a mesma sensação de mergulho progressivo na bestialidade que caracteriza Coração das Trevas. Podemos não ter um Coronel Kurtz, mas temos um Sargento Santos, pacato contabilista que quando se vê na guerra descobre o gosto pelo sangue, e sabe que jamais poderá regressar à tranquilidade de família e emprego. Num paralelo com o filme de Coppola inspirado na obra de Conrad, temos também um soldado como principal protagonista que mergulhou no desespero e alcoolismo, que após perder  mulher e filha num ataque da guerrilha se mantém na guerra por sentir que nada mais o aguarda.

Os Vampiros faz desvios para o género filmes de guerra, acompanhando um grupo de soldados que recupera este tipo de iconografias. Nenhum é herói, mas a proximidade que nos é colocada leva-nos a sentir empatia por eles. O grupo mescla soldados endurecidos pelo combate e outros mais inexperientes, que sob a folhagem espessa da selva depressa perderão a sua inocência e descobrir-se-ão capazes de fazer o impensável. Todos estão condenados. Note-se, no entanto, que numa obra com este tema se foge à tentação de diabolizar os combatentes. Sente-se um profundo respeito por estes, como homens que foram arrastados para uma guerra sem sentido, tornando-se insensíveis e violentos por exposição contínua à angústia do combate.

O lado cinematográfico do livro é sublinhado por um excelente trabalho de enquadramentos, com muitas tiras ilustradas por Cavia a replicar a visão cinemascope dos espaços naturais da selva africana. Como sempre, o traço deste ilustrador acompanha na perfeição o argumento de Filipe Melo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Visões



Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)

Há muito para reflectir neste filme avassalador, a começar pela história de um homem tão consumido pelo amor que acaba a vaguear pelos desertos americanos, sem memória, em busca de um local desolado que simboliza um paraíso de inocência perdida. O que me tocou especialmente foram o sentido da paisagem e a mediação da comunicação humana por utensílios tecnológicos. Neste filme, os personagens não conseguem exprimir a profundidade dos seus sentimentos senão através de formas mediadas, quer por filme, quer por gravação, quer até, nas fortíssimas cenas finais, através de um vidro baço onde dois antigos amantes se vislumbram, amargurados, por entre reflexos num vidro espelhado, confrontando os fantasmas do seu passado conjunto num diálogo mantido em telefones e intercomunicadores. Palavras demasiado difíceis de dizer cara a cara fluem, mediadas por ecrãs ou microfones.



A sobrepor-se a tudo, a omnipresença da paisagem colidida com um certo fascínio por uma américa exótica aos olhos de um realizador europeu, dos wide open spaces desértico da américa profunda, entrecortados pelas luzes de néon dos strip malls ou rampas de acesso e viadutos de auto-estrada. É na estrada que este filme realmente se desenrola, com a sua eterna promessa de poder ir sempre para lá do horizonte. Wenders explorou esta imagem com ângulos de câmara inquietantes, mostrando a estrada do ponto de vista do condutor, olhando para nós através do espelho retrovisor. É toda uma estética de não lugares, paragens de estrada, vias infindas entrecortadas por motéis e restaurantes de fast food, de luz crepuscular onde o ambiente é iluminado tanto pelo azul arroxeado do céu como pelas luzes dos automóveis, néons dos negócios de beira estrada ou reflexos nos arranha-céus nas raras zonas urbanas. Este sentimento de espaço, trazido pela forma como Wenders o filma, amplia-se com a assombrosa e inesquecível banda sonora de Ry Cooder.

O Espaço Nimas repôs este filme, em cópia restaurada, como parte do seu festival dedicado ao cinema de Wenders. Este é daqueles filmes que tem de ser visto no ecrã de uma sala de cinema para ser realmente sentido. Só num ecrã de grandes dimensões se sente o quanto os dilemas humanos são engolidos pela paisagem omnipresente.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Comics


The Visitor and Why He Stayed #01: A nova série de Hellboy promete ser uma reminiscência pelos momentos fortes do historial do personagem, agora sob o olhar de um alienígena que esteve presente no momento em que foi invocado. Tinha como tarefa eliminar Hellboy logo nos primeiros momentos, mas algo o travou, a sensação que talvez este demónio viesse a ser uma força para o bem. E o resto, é a história das histórias deste personagem cativante. Curiosa a escolha de ilustrador, que imita o estilo gráfico original de Mignola.

The Hellblazer #07: Constantine em Paris, sempre com  um humor negro corrosivo e ilustrado num estilo de perder o fôlego. Continua a saga da luta contra a ameaça dos djnn, os génios que estão apostados em sair de vez de dentro da lamparina.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Wunderwaffen: La Foudre de Thor



Richard Nolane, Maza (2015). Wunderwaffen #08: La Foudre de Thor. Toulon: Soleil.

O elemento mais interessante desta série, o imaginar no espaço da banda desenhada dos projectos de armas de alta tecnologia criados pelos engenheiros nazis no final da guerra, perde-se bastante nesta viragem da história para campos mais alternativos. Bases nazis na antártida e naves alienígenas enterradas sob o gelo, com tripulantes em hibernação, são o mote deste episódio de Wunderwaffen, que não está à altura desta interessante série. Se em termos narrativos explora outras mitografias da iconografia nazi, visualmente o trabalho de um ilustrador que é excepcional nos mecanismos sofre quando focado apenas em personagens.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Southern Cross


Becky Noonan, Andy Belanger, Lee Loughridge (2016). Southern Cross Vol. 1. Berkeley: Image Comics.

Uma surpresa intrigante, num mundo ficcional de ficção científica fortemente reminiscente de Alien. Uma jovem viaja até Titã para investigar a morte da irmã, funcionária de uma mina de metano nos oceanos da lua. A viajem é feita na Southern Cross, nave que faz o percurso regular entre Terra e Titã. Durante a viajem, descobre que a morte da irmã é a chave de muitos mistérios que se sobrepõem, entre grupos criminosos, estranhos artefactos alienígenas e um motor gravitacional que parece invocar criaturas do além e se revela capaz de abrir um portal para outras dimensões.

Misto equilibrado de FC pura com terror, este livro distingue-se pela claustrofobia da sua ilustração. Este não é o futuro luminoso das utopias, antes um mundo degradado de operariado sem esperança. A nave em si parece ter sido montada a partir de um petroleiro, adaptado dos mares para as vias espaciais. É toda uma estética de ferrugem e metal, de espaços confinados povoados por personagens com histórias violentas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Comics


Monsters Unleashed #03: O mega-evento crossover da Marvel, assinado por Cullen Bunn, é sem dúvida divertido. A Terra ameaçada por monstros gigantes, capazes de derrotar os mais poderosos heróis. Demolição urbana em larga escala por criaturas horrendas, como não adorar? Se vos soa familiar, é porque o é. Monsters Unleashed é um óbvio mashup de Pacific Rim (e todos os filmes de kaijus que o antecederam) e Tokyo Storm Warning, a aventura de Warren Ellis nestas andanças, ela própria uma derivação assumida do mangá. Tal como em Pacific Rim, os monstros seguem a estética orgânica de del Toro. E tal como no comic de Ellis, são despoletadas pela imaginação de um jovem adolescente amante do desenho, que tem a capacidade de dar vida às criaturas que imagina no papel. Ok, hábitos derivativos são o expectável nos comics, esperemos que quer a Marvel quer os leitores sejam capazes de dar crédito às bases deste divertido crossover.


The Wild Storm #01: Warren Ellis de regresso à DC, com uma nova série de 24 números de Wildstorm. Uma daquelas propriedades intelectuais que a DC adquiriu mas nunca soube muito bem o que fazer com ela, com algumas tentativas depressa esquecidas de enquadramento na continuidade habitual da DC. O mesmo se passou com The Authority, cuja última iteração fez parte da DC'52. Para este regresso, Ellis foca-se no essencial, nas conspirações, na tecnologia de ponta em evolução selvática e nas forças que modelam o mundo por detrás das cortinas da normalidade.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Habitat



Simon Roy (2016). Habitat. Berkeley: Image Comics.

Uma interessante variação sobre o tema dos habitats espaciais e naves geracionais, a recordar um pouco o que Bruce Sterling fez em Taklamakan ou Kim Stanley Robinson em Aurora. Habitat é uma prototípica estação espacial tipo O'Neill, cujos habitantes, agora na quarta geração, estão isolados do resto da humanidade e decaíram civilizacionalmente num ecossistema em colapso. Tempos antes, um acidente provocou uma quebra no casco e os protocolos de segurança isolaram a estação. Gerações depois, as equipes de trabalho degeneraram em tribos, com os sanguinários herdeiros da segurança em combate contínuo contra engenheiros. A salvação virá, graças a um cadete da segurança do habitat que descobre um chip contendo planos proibidos para as impressoras 3D da estação. Numa sociedade decaída a níveis pré-históricos, a possibilidade de deter uma arma laser vai colocar em movimento um processo que, felizmente, se saldará pelo regresso dos habitantes da estação à humanidade.

História interessante, mas o que torna este comic intrigante são as visões do habitat em si. Simon Roy pega nas iconografias utópicas dos planos dos anos 70 e 80 e fá-las decair em selvas. As ecologias colapsadas e arquitecturas futuristas envoltas em lianas são as imagens mais marcantes deste livro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Captain Marvel by Jim Starlin: The Complete Collection




Jim Starlin (2016).  Captain Marvel by Jim Starlin: The Complete Collection. Nova Iorque: Marvel Comics.

A obra de Jim Starlin sempre se caracterizou pela ponte que estabeleceu entre dois géneros, o comic de super-heróis e a FC space opera. Captain Marvel foi talvez a série marcante que projectou esta mistura inesperada, que o argumentista e ilustrador viria a explorar, mais livre de constrangimentos, em Dreadstar, Warlock, épocas à frente de Silver Surfer e mais recentemente na temporada inicial de Stormwatch na DC Comics.

Este volume reúne as histórias que, colectivamente, formam a saga de Marvel no combate a Thanos, o mais inquestionável vilão do universo Marvel. Distinguem-se pela capacidade de Starlin em ultrapassar os limites conceptuais dos comics. Com ele, os personagens são mais do que criaturas musculadas em constantes combates lineares. Culturas alienígenas, aventuras interplanetárias, frotas espaciais em combate, e especialmente um sentimento quase psicadélico do cosmos, de espanto pela sua vastidão e maravilhas que poderá encerrar. Mar-Vell, militar da espécie alienigena dos Kree, apaixona-se pela Terra e utiliza os seus poderes para a defender de ameaças cósmicas, das quais Thanos é a mais complexa. No seu lado mais simplista, estas são histórias elementares onde os heróis combatem contra as acções do vilão, com a linearidade dual que se espera do género, mas a sensação abrangente de algo maior, de sentimento cósmico, é constantemente introduzida por Starlin nas linhas narrativas. A saga encerra em nota triste, com a morte do personagem, evento à época inédito na linha editorial dos comics e explorado pela editora na sua primeira novela gráfica. Starlin mostra a morte de um super-herói fragilizado pelo cancro. Morte nos comics raramente é totalmente terminal, mas sublinhe-se que se o nome deste personagem tem sido utilizado por outros, o capitão Marvel original nunca foi ressuscitado em enredos convolutos que reescrevem décadas de histórias admiradas pelos fãs.