sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

Dylan Dog: L'impostore; Leggende urbane; La fuggitiva.


Alessandro Bilota, Nicola Mari (2013). Dylan Dog #317: L'impostore. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Desde que Poe solidificou o conceito de doppelgänger como uma das estruturas do horror clássico no conto William Wilson que este artifício tem sido usado e abusado. Esta aventura de Dylan Dog não é excepção. Uma série de assassínios misteriosos em que as vítimas são mortas por sósias seus acaba por ser revelado como a psicopatia de um especialista em maquilhagem cuja atracção pelo copiar de personalidades se iniciou ao matar o irmão gémeo na adolescência. Argumento mais de policial do que fantástico por Angelo Bilotta, com alguns toques de ironia certeira, mas destaca-se a ilustração muito gótica e elegante de Nicola Mari. Não é usual que no fumetti o trabalho do ilustrador ultrapasse as linhas-guia gráficas dos personagens. Aliás, boa parte deles são indistinguíveis uns dos outros, e é raro ver um estilo gráfico personalizado num personagem com o historial editorial como o de Dylan Dog.


Giovanni DiGregorio, Ugolino Cossu (2013). Dylan Dog #318: Leggende urbane. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

É raro, neste Dylan Dog mais recente, encontrar alguma edição que volte a capturar o onirismo mágico do melhor de Tiziano Sclavi. É o caso destas lendas urbanas, aventura de mitos que não faz grande sentido lógico mas se lê como um acumular do imaginário de alguém que escreve. Aliás, é assim que começa e termina a aventura, com palavras dactilografadas numa máquina de escrever eléctrica. O que à partida parece um relato termina como uma meta-ficção sobre o poder das histórias e a necessidade humana de acrescentar pontos aos contos. A aventura é um acumular de mitos urbanos. Crocodilos nos esgotos, motociclistas que sobrevivem a despistes mas cuja cabeça se abre ao tirar o capacete, jovens raparigas que pedem boleia para a porta de cemitérios onde se desvanecem, cadáveres que acordam durante autópsias, cartas em cadeia mortíferas, rins roubados após noites de amor com mulheres desconhecidas. Um catálogo de histórias incríveis em que juramos não acreditar mas há algo nelas que nos inquieta, memes que se propagam, vindo ciclicamente à tona nas conversas da vida urbana. Deliberadamente difusa, questionando continuamente o real e o ficcional dentro do espaço narrativo da ficção, regressando ao horror onírico de outros tempos, esta aventura do old boy onde age realmente como indagatore dell'incubo é uma excelente surpresa.


Giovanni DiGregorio, Maurizio Di Vincenzo (2013). Dylan Dog #320: La fuggitiva. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Há um momento na história em que esta ameaça tornar-se interessante. Dois mundos, a Londres real dos anos 90 da série e uma espécie de fantasia medievalista quase colidem nas páginas de uma aventura em que Dylan tenta ajudar uma mulher que vive na ilusão de conter um monstro diabólico dentro de si. Mas não passa de ameaço. A desconexão mantém-se, a coisa desliza para o policial psicológico e as alucinações da mulher ficam-se por desculpa para desenhar ruas da idade média. Um momento pouco conseguido da história editorial do indagatore dell'incubo.

quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

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O meu exotismo é o teu normal.

Ficções

Pintado a Sangue: Um surpreendente conto de horror escrito por Carina Portugal onde os crimes do passado se reavivam ciclicamente. A ambiência soturna combina bem com o tema de uma maldição passional a assombrar uma mansão decrépita. O tempo não cura feridas e as almas penadas estão condenadas à repetição dos seus dramas.

Aos Teus Olhos: Um conto por Vítor Frazão interessante mais por aquilo que deixa implícito do que pelo que explicita. Por detrás de uma curta aventura com acção está um vasto panorama ficcional de sabor steampunk que nos vai sendo revelado através do diálogo entre as várias personagens. Diálogos informativos, mas com menos infodumps do que o expectável. Este centrar na interacção entre personagens deixa a imagem visual despertada pelo conto bastante difusa.

The Crossing: Conto menos bem conseguido de Anton Stark. Um grupo de jovens faz uma travessia em direcção ao mar, rito de passagem ao qual alguns não irão sobreviver. Se a geografia do conto é sólida e a premissa e final implacáveis, a prosa necessitaria de algumas revisões para ser mais fluída.

TIC em 3D @ Lisbon Mini Maker Faire


O 3DAlpha está em destaque na página da Lisbon Mini Maker Faire! Quase não ia dando por isto, culpa da letargia estival em tom literário. E confesso que ainda me custa a acreditar que este projecto e as criações dos meus alunos vão fazer parte da primeira Maker Faire de Lisboa. Isto é um projecto de sala de aula, e por muito interessantes que sejam os resultados são trabalhos de crianças. Mas talvez seja isto o que lhe dá valor. São incipientes, mas mostram que é possível estimular formas criativas de usar tecnologia sem ter medo de ferramentas complexas, abrindo desde cedo os horizontes do mundo digital pervasivo.


Ok, deixemo-nos de teorizações. É fantástico poder estar presente a divulgar um trabalho que já acumula alguns anos de experiência mas que todos os anos possibilita magicar coisas novas. Para o ano, se tudo correr bem, talvez se chegue ao 3D printing... entretanto, cá fica o nosso espacinho virtual na página da Maker Faire: TIC Tridimensional.


Outra que também ainda não sabia. Foi através dos logs de acesso que descobri. Também vamos estar na Europe Code Week com o Code Week AEVP, inserindo as actividades com Scratch com os alunos de oitavo ano. Ok, o arranque do próximo ano lectivo vai ser hit the ground runnnig. Para não variar...

Literalmente

Literalmente paralisado de espanto sempre que ouço/leio alguém a descrever algo como sendo literalmente o que é. Literalmente. Significa que o que foi dito é para ser entendido à letra. Que quem transmite a mensagem quer que esta seja entendida como factual. Estaremos assim tão imunizados à metáfora que interpretemos o real como outra ideia abstracta para facilitar compreensão, ou correlação irónica destinada a entretenimento neuronal fugaz? "Literalmente" é uma espécie de etiqueta que nos diz pois, isto é mesmo assim. #mesmo. #literal. #real.

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

H. P. Lovecraft: Against The World, Against Life


Michel Houellebecq (2005). H. P. Lovecraft: Against The World, Against Life. São Francisco: Believer Books.

Houellebecq, escritor de obra polémica, não é nenhum estranho às zonas desoladas dos limites literários. Neste erudito ensaio analisa a vida e obra do escritor de Providence, cuja curta e discreta vida não viria a prever a fama póstuma e profunda influência que viria a ter na literatura fantástica. Houellebecq olha para o carácter retrógrado de um homem que não pertencia ao tempo contemporâneo onde viveu, preferindo viver uma imagem idealizada de uma concepção antiquada. As suas falhas, o óbvio racismo, a alienação perante o mundo moderno, o carácter peculiar, encontram eco numa prosa única, desumana, pouco interessada em miticismos ou realismos, que como Houellebecq sublinha, veio da poesia para a literatura. A típica exaltação adjectivada de Lovecraft é aqui revista como um desafio literário aos sentidos, não uma falha, mas a principal característica que faz os leitores apaixonarem-se pela sua obra. Vivendo num isolamento ilusório, cativando fãs irredutíveis, Lovecraft poderia ser mais um escritor weird obscuro. Felizmente o trabalho daqueles que primeiro tocou, o círculo literário que inclui Robert Bloch, Ashton Smith e August Derleth, expandiu e divulgou a obra fascinante desta personalidade singular, que admiramos apesar das falhas e defeitos pelo poder do horror cósmico em prosa filigranada que nos legou.

Fabricated


Hod Lipson, Melba Kurman (2012). Fabricated: The New World of 3D Printing. Indianapolis: John Wiley & Sons.

Uma visão muito interessante do panorama da impressão 3D, que consegue equilibrar o deslumbre com a tecnologia com um profundo conhecimento do campo e considerações mais práticas. Abre com o género de previsões hiperbólicas sobre um radioso futuro alimentado pelas mirabolantes impressões em 3D, um tom que ressurge ao longo do livro, mas depressa mergulha nos detalhes da tecnologia, possibilidades de evolução e implicações. Toca num pouco de tudo, desde a predição utópica às considerações ambientais da tecnologia.

Torna-se pertinente ao analisar a fundo os vários tipos de impressoras 3D no mercado e em laboratório, não se ficando pelas de extrusão de filamento. Neste capítulo a visão é muito detalhada, analisando as tecnologias de estereolitografia, corte por laser, impressão de camadas, impressão multi-cor e multi-materiais e sinterização a laser. Outro ponto de interesse prende-se com a atenção que dá aos processos de design digital e conceptual como elementos fundamentais na impressão 3D, reflectindo sobre hábitos enraizados por tecnologias antecessoras, novas possibilidades e a importância de uma boa conceptualização antes de avançar para a materialização.

Para os meus objectivos o melhor deste livro foi o destaque dado à impressão 3D na educação. Se esperavam que o autor se cingisse à educação superior em engenharia e design, ficarão surpreendidos com a atenção dada às possibilidades da tecnologia e experiências já em curso no domínio da educação básica. Detalha o projecto Fab@School com experiências de utilização de impressão 3D inseridas em projectos interdisciplinares que congregam conhecimentos de diferentes áreas disciplinares na elaboração de objectos. Esta análise é feita sem histerismos de optimismo do tipo vamos meter uma impressora 3D em todas as salas de aula, antes segue o pragmatismo da importância de ter estratégias de abordagem bem concebidas para que o potencial educativo desta tecnologia seja bem aproveitado, nos domínios da resolução de problemas, pensamento de design e capacidade de fazer e construir.

Sem ser muito profundo, uma vez que ambiciona mostrar em traços largos o panorama desta tecnologia emergente, Fabricated equilibra alguma especulação deslumbrada com análises sóbrias do potencial e problemáticas da tecnologia, alicerçadas por um forte conhecimento in loco das suas vertentes. Uma excelente introdução ao campo do 3D printing.

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

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Letargia Estival


O sentimento de férias implica uma fuga, não o doce nada fazer alapado numa praia ao sol ou o passeio por locais com algum sabor idílico. Procurar novas geografias visuais. Rumar à estrada, com um mapa como guia impertinente e um gosto por procurar as tabuletas inverosímeis nos cruzamentos. É ócio puro, gosto por descobrir o que está para lá das curvas da estrada, condensar em memórias e experiências os traços, nomes e cores fixados nos mapas.

Este ano tinha planeado abrigar-me do sol sob as muralhas de Ávila, calcorrear os livreiros madrilenos em busca de pérolas bibliográficas para as minhas estantes, e descobrir El Greco nas calles sombrias de Toledo. A coisa não correu como planeado, graças a um pequeno acidente com a minha mãe que a imobilizou, obrigou a cirurgia e a colocou dependente da minha presença constante. Vi afastar-se a cada dia, com mais amargura, a possibilidade de uma viagem tão necessária à higiene neuronal. Mas consolei-me noutras possibilidades. Afinal de contas, os longos minutos nas salas de espera dos hospitais e os dias e noites sem a obrigatoriedade de conduzir mais umas dezenas de quilómetros fazem maravilhas pelo tempo disponível para pôr leituras em dia. E tantas que elas são, com bibliófagos do meu calibre.

Ler tem o seu quê de viajar. Viajar não em busca de queimaduras solares ou gastronomias saborosas, mas viajar para conhecer, ampliar o leque do que se sabe, alimentar a imaginação. Se a geografia física neste verão é por necessidade estática, já a geografia literária tem-me levado aos mais inesperados recantos do mundo. Instalei-me em Londres, numa casa de decoração decadente no número 7 de Craven Road, e pela mão de Dylan Dog fui descobrindo os mistérios que se ocultam nas névoas, as criaturas que se esgueiram pelos becos sombrios e os sonhos inquietos. Delirei com o surrealismo cósmico e psicadélico de uma Cartago situada numa distante galáxia onde Salammbô, a sacerdotisa, mesmeriza o espírito dos aventureiros. Cortázar deu-me um vislumbre da simplicidade do estranho que encerram as vidas que circulam por Buenos Aires. Fui recebido por inteligências artificiais no distante império Radchai. Visitei pequenos mundos de sonhos fantasistas passados à palavra por jovens e promissores escritores portugueses. Tive um vislumbre do que se passou na alma daquele que é um dos escritores que mais admiro, e admiro-o sem saber muito bem porquê, mas parece que todos os que o admiram se queixam do mesmo. Olhei para os desafios sociais e tecnológicos de um futuro provável, mesmo ao virar da esquina. Visitei uma União Soviética no limiar do concretizar da utopia socialista ou do resvalar para a decadência ideológica.

A letargia estival ameaça chegar ao fim, mas suspeito que ainda terei tempo de visitar a Polónia incongruente de Stefan Grabinski, perder a noção cronológica com fluxos temporais que se recusam ao espartilho da linearidade, buscar alguns vislumbres de Khalôm, a antiga, a iluminada. Talvez ainda passe pela Lublin de Singer, deguste um champanhe na gravidade lunar, perceba porque é que as nuvens púrpura são mortíferas,  ou viaje com Flash até ao clássico planeta Mongo. Mas não prometo nada. As leituras são como os cruzamentos na estrada. Planeamos um itinerário mas a cada cruzamento poderá surgir outro destino que nos tenta com a promessa de inusitadas descobertas.

Aventuras de uma Criminóloga



Giancarlo Berardi et al (2013). J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga #106. São Paulo: Mythos.

Apesar de saber que este título da Bonelli era distribuído por cá nunca me tinha calhado encontrá-lo in the wild. O título é uma boa adição de referência para a minha colecção, mas a confirmar aquilo que já tinha percebido da personagem em leituras anteriores. Tem um ritmo narrativo entediante e não foge aos limites do policial procedimental com um toque leve de romance ao estilo harlequin. Suponho que os fãs adorem esta mistela, mas a mim passa-me ao lado. Daí a leitura para referência.

O fumetti intriga-me pela mistura de continuidade das personagens em episódios regulares não interligados de tamanho grande. Cada edição mensal oscila entre as 80 e 130 páginas, variando de acordo com o personagem. Neste aspecto parece-me mais próximo do manga do que da BD franco-belga, onde cada álbum oscila entre 60 a 80 páginas, e nem se compara aos comics, onde paginações destas são reservadas para graphic novels especiais ou edições coligidas em trade paperback. Uma média de cem páginas por personagem por mês adiciona-se num corpo de trabalho impressionante. O problema está em encher as páginas, e é aí que o modelo fraqueja. As narrativas concisas são deitadas às urtigas e as situações são esticadas ao limite. O que resulta é algo com uma estrutura repetitiva mais próxima das telenovelas do que de bd. Desde que mergulhei nos fumettis que me apercebi disso, ao ler tantas aventuras que beneficiariam em ser mais focalizadas, cujas premissas de grande interesse se diluem no arrastar narrativo. Recordo-me de dois exemplos típicos: Caravan, sobre uma cidade evacuada sem explicações por militares cujos habitantes se vão deslocando em caravana automóvel por estradas no deserto, ou o pós-apocalíptico Brendon, excelentes premissas que são transformadas em verdadeiros festivais de bocejo. É curioso que não sendo excepcionais são séries de sucesso, com publicação regular mensal e vendas que que eu saiba não estão a levar a editora à falência. Deve ser aquele algo incompreensível que os carácteres nacionais têm, com sotaque italiano.

Este carácter do fumetti leva-me a admirar ainda mais o trabalho de argumentistas como Tiziano Sclavi, de Dylan Dog, e Luca Enoch, que acumula com ilustrador da soberba série Lilith e da fantasia young adult de Gea. Estes conseguiram utilizar um formato tão próprio para criar belíssimas narrativas gráficas, mantendo o interesse e conjugando muito bem as linguagens narrativa e visual. Este tipo de trabalho é algo de fundamental na melhor BD. Se isto não acontecer quanto muito temos textos ilustrados com desenhos alusivos. E há tantas BDs assim por aí publicadas...

Esta edição regular da Mythos está a publicar as aventuras da criminólogia Julia Kendall, aventuras policiais procedimentais que a inteligente, brilhante e solitária detective acaba por deslindar com ajuda de um fiel painel de detectives secundários. Nesta edição estão contidas duas aventuras. Em Férias Forçadas uma quadrilha de ladrões que sai da prisão para assaltar repetidamente o mesmo edifício obriga a personagem a interromper as férias para desvendar o mistério, e em A Tormenta um condenado perde a compostura e aproveita uma tempestada de neve para fazer reféns os polícias na central, entre as quais se encontra uma heroína a arrastar um momento romântico com outro detective. Suponho que quem goste de policiais com romantismo à mistura possa adorar estas aventuras.

Não deixo de fazer alguns reparos interessantes sobre o que li da série. Os ilustradores sabem homenagear referências visuais ao género policial nas vinhetas. Numa das histórias há uma referência visual fabulosa a Orson Welles. Julia e Dylan Dog têm em comum um personagem secundário muito próximo de comportamentos irritantes. Dylan tem o fiel Groucho, clone assumido de Groucho Marx com piadas secas a condizer, e Julia tem Emily, personagem decalcada de Whoopy Goldberg, uma mulher a dias maternal e mandona com propensão para calinadas linguísticas. Como é que alguém decalca um personagem numa actriz tão irritante quanto esta e sobrevive para contar histórias é algo que me ultrapassa.

E confesso que houve um pormenor nestas Aventuras de uma Criminosa que me cativou. A elegância da personagem tem o seu quê de homenagem a Audrey Hepburn. O aspecto visual de Julia é em tudo similar à actriz de Breakfast at Tiffany's, e a elementos destes reage-se com um sorriso.

segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Antígona Gelada


Armando Rosa (2008). Antígona Gelada. Évora: CENDREV/Fluir Perene.

É raro encontrar teatro directamente inspirado na ficção científica, embora os géneros não sejam incompatíveis. Recorde-se, como exemplo mais óbvio, que R.U.R.  de Capek foi originalmente um texto teatral. É ainda mais raro, e inesperado, encontrar um exemplo português de teatro que vai beber directamente a um género mal visto no meio cultural português. É esse o caso de Antígona Gelada escrito por Armando Rosa e estreada pelo Cendrev em 2008. A peça cruzou-me o radar através de uma representação levada a cabo pela turma de mestrado de Artes Performativas da ESTC, encenação muito interessante que mostrou como o corpo e a austeridade de adereços combinada com uma boa selecção de texto é o suficiente para

O título não engana ninguém. Antígona remete para a antiguidade clássica, para esse poderoso substrato cultural herdado da Grécia antiga que ainda hoje ressoa, poderoso, no nosso ser. Armando Rosa mantém a estrutura trágica da peça de Sófocles, recriando-a com um olhar catalisado pela modernidade tecnológica e científica. Tebas é agora uma estação espacial, dominada pelo ditador Creonte que sabe dar uso à propaganda mediátia e aos meios digitais de controle. As esfinges são mutações genéticas induzidas por cientistas militares para criar soldados temíveis e monstruosos, e há algo de esfinge em Antígona, capitã das forças militares cuja herança familiar maldita está inscrita nos genes. Convulsões políticas, fluidez de géneros, clonagem e bio-engenharia, dominância mediatizada e uma sociedade dividida entre as antigas pulsões e a hipermodernidade são alguns dos temas para onde Rosa faz evoluir o clássico de Sófocles.

Para além de Sófocles, a quem Rosa vai buscar a base da peça, há uma influência muito declarada do transrealismo de P.K. Dick, misto de paranóia com futurismo tecnológico. Os impactos e questões levantadas pela tecnologia contemporânea estão também presentes no texto, que toma a clonagem e a fluidez de géneros sexuais possibilitada pelos avanços na medicina como algo de banal mas ainda a inquietar indivíduos. E termina com outra vénia a um dos mais elegantes recursos narrativos da FC, a metaficção, com Creonte a sublinhar o véu difuso entre realidade e ficção, colocando os personagens numa linha de continuidade que, provavelmente, tem raízes míticas que antecedem a antiguidade e se perdem na noite dos tempos: "Laboram todos no mesmo erro. Mas vou ser piedoso convosco. Abro-vos os olhos para contemplarem o vazio. De facto, nenhum de vós existe. Não somos mais que o passatempo virtual de um engenheiro cibernético, em noites de insónia. Nunca se perguntaram pela razão dos nossos nomes e dos nossos enredos? Somos todos imitações baratas de outra gente antes de nós. Já houve outros Tirésias e outras Antígonas, outras Ismenas e outros Creontes, a viverem farsas e tragédias parecidas com as nossas, noutros cenários e roupagens. A nossa vida não é original. É uma cópia tardia. Fazemos parte de um jogo programado. Antígona morre sempre no fim. Eu preciso que me odeiem para ser Creonte. Tirésias é um sábio indeciso, que muda de sexo como quem muda de peúgas. Hémon e Ismena, lamento dizê-lo, são figuras secundárias. Alguém inventa a nossa vida online e diverte-se a jogar à bola com os nossos neurónios. Gostamos de jogos virtuais e desconhecemos que somos o jogo de outros que nos manipulam. Vocês são uns parolos. Levam a sério a ficção que interpretam."

Intrigante, o texto destaca-se pelo insólito de ser peça teatral de FC portuguesa, revendo um clássico com muita inspiração nas fímbrias mais provocantes do género. Pode ser lido em PDF no site da Fluir Perene: Antígona Gelada.

Comics


Archer & Armstrong #23: Continua cheio de fôlego este revivalismo da Valiant Comics, que soube adaptar-se com muita ironia ao momento contemporâneo. O arco narrativo sobre o poder da fama encerra com o habitual bom humor, reflexões tenebrosas sobre a manipulação comercial da necessidade de entrega a ídolos e um volte-face que implica uma tortuosa viagem no tempo onde os heróis, post facto, vão dispersar os elementos que terão de ser reunidos pelo vilão para permitir que o ritual em que se baseia a linha narrativa aconteça. Pois, labirintos mentais.


Legenderry A Steampunk Adventure #06: O divertido nesta salganhada steampunk é ver o visual dos personagens clássicos agora editados pela Dynamite com roupagens do género. Desta vez o manto recai sobre Zorro, muito palavroso mas com muito estilo neo-vitoriano fantástico. Só é pena que Willingham e Vila tenham regressado ao visual erótico-bárbaro para a Red Sonja steampunk. Nunca percebi porque é que os heróis deste género de fantasias andam sempre de armadura completa (excepto o Conan, que se dá melhor com tanguinhas), e as heroínas tenham uma vestimenta que se resume a lingerie de cota de malha. Não fazia frio nas noites da era hiboriana?


Starlight #05: Se o argumento de Millar faz uma vénia cheia de ironia à FC clássica a ilustração de Goran Parlov vai ainda mais longe. Imaginem o prototípico herói de queixo quadrado a entrar na terceira idade, reformado num anonimato inclemente com as suas histórias de aventura e glória em mundos alienígenas. E imaginem que esse herói tem uma segunda hipótese de regressar aos bons velhos tempos. A ironia é óbvia e a referência a Flash Gordon, Buck Rogers e tantos outros personagens deste género é sólida. Mas Parlov consegue subir o nível com um estilo gráfico que parece ir buscar referências a Moebius, ao anime e aos monstros clássicos do cinema de série B dos anos 50. Não será por acaso que os habitantes do planeta esmagado por um implacável império estelar que serão salvos pelo herói têm um fascínio pelas roupas, penteados, música e automóveis do estilo americana. É outra referência dos autores à inocência da golden age da FC.


Dark Ages #01: Cavaleiros medievais e monstros extraterrestres? Terei lido bem? Uma coorte de mercenários cruza-se com criaturas assassinas vindas do espaço, capazes de transformar os adversários mortos em criaturas zombie. E ainda há um mosteiro de monges com voto de silêncio que conhecem velhos pergaminhos que anunciam a chegada de algo vindo das estrelas. Ficou tudo em aberto neste primeiro número desta nova série da Dark Horse, e as perguntas são muitas. Com Dan Abnett aos comandos narrativos a aposta vai para uma história muito bem pensada de ficção científica. E I. N. J. Culbard está muito à vontade na ilustração que tem o seu quê de lovecraftiano.


Clive Barker's Next Testament #12: Termina aqui a história de Wick, o colorido demiurgo que equilibra a dualidade do bem e do mal cuja propensão para aniquilar as formigas humanas e alterar as leis da física leva ao inevitável castigo. É curioso que Barker prefira o sincretismo de colocar as forças divino-demoníacas como elementos de uma trindade de mito criador fadada a repetir os mesmos padrões ao longo dos milénios. Deuses como bots a seguir rotinas pré-programadas. A ficção de Clive Barker sempre caminhou na corda bamba entre o sublime e o patético, sendo que este Next Testament não é excepção. Mas o seu demiurgo, força divinal de cores fluídas, é uma brilhante personagem de horror metafísico.

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

Ancillary Justice


Ann Leckie (2013). Ancillary Justice. Nova Iorque: Orbit.

Devo confessar que me custou a entrar neste livro. Ao princípio da leitura não conseguia perceber a razão de tanto prémio e elogio. O puzzle parecia difuso, a acção lenta e tortuosa, mais uma daquelas histórias de intriga palaciana entre entidades poderosas.

Apesar das reservas nesta fase haviam elementos capazes de intrigar. O facto da personagem principal ser uma inteligência artificial confinada a um ser humano, um ancillary, para todos efeitos um zombie, parte de cargas humanas descartáveis que servem apenas como agentes de inteligências artificiais que se distribuem para controlar naves espaciais. A qualidade do worldbuilding, gizada a grandes traços mas quando necessário cheia de pormenores que o tornam sólido. O progressismo transgénero a subverter o classicismo do herói masculino face ao vasto panorama galáctico através de uma fluidez linguística que torna indistinguível o género sexual das personagens. E o ser space opera, vertente da FC pela qual sou perdidinho de amores. A concepção de vastos panoramas galácticos pejados de espantosas naves e exóticas civilizações toca no cerne do deslumbre.

O momento wow aconteceu quando percebi que o ponto central da narrativa, a ideia-base a partir da qual tudo acontece, estava uma variante explosiva do conceito de inteligência artificial. No universo deste romance a galáxia divide-se entre um império humano expansionista e algumas outras civilizações que a autora nos faz sentir mais pela ausência do que pela presença. O insinuar e deixar no ar é um dos melhores convites à imaginação e Leckie não nos enche de informações sobre o que cria. Só o império é detalhado, como convém à linha narrativa. O militarismo imperial é assegurado por naves controladas por inteligências artificiais e famílias de clientelagem feudal. Outro dos aspectos interessantes do romance é o sublinhar dos limites de sustentabilidade de uma sociedade dependente da expansão constante. O poder supremo reside numa inteligência artificial que se distribui por inúmeros ancillaries, e é aí que este romance se torna profundamente intrigante. Por entre as constantes guerras e anexações vê-se forçada a atrocidades que geram dúvidas sobre o caminho que tem de trilhar. A sua consciência divide-se, embora não deixe de ser uma única entidade distribuída por inúmeros actores, e luta contra si própria com os recursos do império para moldar o destino deste. Em suma, trata-se de uma inteligência artificial bipolar em guerra consigo mesma.

É aqui que entra a personagem principal, outra inteligência artificial que se viu confinada a um único ancillary sobrevivente a uma das muitas manobras palacianas à escala imperial da IA dominante. Jura vingança, até porque é forçada a executar elementos da tripulação da sua nave pelos quais nutre um carinho especial. A noção de empatia artificial é aqui colocada como uma forma de suavizar a racionalidade binária, auxiliando o processo de tomada de decisões. A sobrevivência e vingança levam-na pelos recantos mais obscuros da galáxia em busca da única arma capaz de deter a IA dominante.

O clímax dá-se numa estação espacial imperial, ponto de reentrada da ancillary justiceira e do seu/sua companheira/o, um oficial imperial esquecido durante um milénio em hibernação que tem algumas dificuldades em conviver com o futuro onde desperta. As IAs confrontam-se, ameaçando arrastar o império para uma guerra civil. O final é inconclusivo, como é de esperar. Este é o primeiro livro de uma trilogia e pela vastidão da tela que Leckie gizou ainda haverá muito para desenvolver.

A space opera é um género de relativo simplismo. Naves, batalhas no espaço, civilizações exóticas, aventuras de toque militarista e é o que chega para muito do que se lê por aí. Este romance mostra-nos uma versão amadurecida, em linha com a complexidade de antecessores como Asimov, Banks, Simmons ou Delany, entre os praticantes do género que melhor o souberam desenvolver. Sem renegar a vastidão panorâmica, o deleite pelo exotismo e o imaginário tecno-futurista, este Ancillary Justice baseia-se em conceitos intrigantes como motor dos inevitáveis périplos por um bem elaborado mundo ficcional.

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Ping




Abrigo de máquinas que fazem ping.

Analog Science Fiction and Fact Vol. CXXXIV #7/8, July/August 2014


Analog Science Fiction and Fact Vol. CXXXIV #7/8, July/August 2014

Há que recordar que a Analog representa uma certa visão da ficção científica, hoje algo antiquada pelo cinismo de uma época que tem colhido o melhor e pior do desenvolvimento tecnológico. Esta visão é essencialmente optimista, mesmo que olhe para eventuais quedas da humanidade, colocando a fé na ciência e tecnologia como forma de expandir os limites humanos. É uma linha editorial clássica, de optimismo positivista temperado pelos esforços e resiliência dos heróis cuja força moral e inteligência os leva ao triunfo inevitável. Não se trata do simplismo do bem contra o mal, antes da crença na tecnologia como libertadora e motor de um progresso que dá sempre bons frutos. Sabemos hoje que esta forma de pensar peca pelo excessivo optimismo, que o potencial regressivo da tecnologia é enorme e utilizado por forças que não hesitam em regredir através do progresso para satisfazer as suas restritas ambições, prejudicando o bem global. Mas na era das distopias, do cyber-panopticon e do imaginário pós-apocalíptico sabe bem não esquecer e manter vivas estas raízes luminosas da ficção científica.

The Journeyman against the Green - Uma série que intriga pela solidez da construção de mundos ficcionais, embora a prosa de Michael Flynn se arraste e torne vagarosa a leitura. o que intriga na série é a visão de um mundo colonizado que esqueceu as suas raízes culturais e tecnológicas. Vive um ocaso medievalista em que os vestígios de alta tecnologia são reverenciados como artefactos mágicos e uma ciência incipiente começa a manifestar-se no meio dos tribalismos feudais. A queda das ciências é sublinhada nesta aventura em que os heróis se vêem no meio de operações de combate contra homens de pele verde, dotados de uma espécie de armas de fogo. O verde da pele é um vestígio de tempos anteriores, em que os habitantes do planeta eram capazes de manipular o código genético. Em pano de fundo continua a ideia de uma humanidade espalhada pelo espaço, quase lendária neste planeta que se isolou por razões que suspeito que Flynn ainda irá explorar.

Journeyer - Conto curto, profundamente alienista, onde seres se preparam para atravessar um inclemente deserto em busca de medicamentos para aliviar as tensões físicas das mudanças etárias da espécie, que envolve a troca de pele. Ficção sólida de Garrett Wilson.

Valued Employee - Traços de cyberpunk subsistem nesta história de James Isaac. Uma cyborg ao serviço de uma sociedade avançada parte de regresso às suas raízes anti-tecnológicas para envangelizar os conterrâneos sobre as virtudes de uma vida de alta tecnologia. O mundo é polarizado entre a vida simplificada por tecnologia avançada e aqueles que a rejeitam por completo. É intrigante a concepção de um ambiente imersivo responsivo, que o autor nunca chega a tentar explicar como funciona.

Mind Locker - Cyberpunks not dead, apetece dizer deste conto de Juliette Wade. O tom cyber clássico está em alta nesta história de políticos corruptos que hackeiam os sistemas de realidade aumentada da cidade. Quem os combate faz vítimas colaterais num grupo de adolescentes rebeldes, exímios em sobreviver circundando as estruturas de software defensivo do sistema. Realidades mediadas pelo digital, ruas deprimidas, rebeldes de bom coração e instituições corruptas. Falta alguma coisa? Não. As ligações à rede pervasiva são feitas por interfaces neuronais. O clássico jack into the net está vivo e de boa saúde.

Who Killed the Bonnie's Brain? de Daniel Hatch tem o seu quê de Running Wild redux. Se se recordarem do livro de Ballard em que um grupo de jovens de um bairro afluente educados das formas mais psicologicamente eficientes decidem tornar-se sociopatas percebem onde quero chegar. Neste conto, um jornalista a viver num radioso futuro local, onde os problemas da sobre-urbanização foram ultrapassados, estilos de vida ecológicos são a norma e há quem consiga aceder a uma espécie de imortalidade através da desincorporação do cérebro, mantido vivo e consciente por máquinas avançadas, investiga a morte súbita do cérebro vivo de uma mulher. Há suspeitas de assassínio, e parte do conto segue em ritmo de policial clássico, que é também uma boa forma de levar o leitor num périplo por este futuro politicamente correcto. A conclusão do conto mistura ennui existencialista com fidelidade humana, e é sempre divertido mergulhar num cenário de FC com cérebros falantes preservados em receptáculos.

Sadness de Timons Esaias tem uma premissa intrigante, que se intui mais do que se explica. A Terra terá sido ocupada por alienígenas que decidem preservar humanos numa espécie de reserva onde os observam e realizam experiências. A história é contada sob o ponto de vista de um sujeito de experiências que tem a honra de ser visitado por uma das entidades, e se esforça por manter vivo o seu espírito individual face às alterações induzidas do exterior. Boa premissa, mas uma prosa sonolenta que prejudica a leitura.

Crimson Sky de Eric Choi é FC no seu lado mais puro, de deslumbre com hardware futuro. A história é de um salvamento de um aventureiro nos desertos marcianos, mas é essencialmente uma desculpa para imaginar aeronaves futuristas capazes de operar nos céus marcianos.

The Triple Sun: A Golden Age Tale de Rajnar Vajra é uma das melhores surpresas desta edição. Prosa escorrida, ritmo narrativo implacável, e uma divertida história sobre cadetes de exploração galáctica que são punidos por desacatos num bar com uma missão de escolta a exploradores que falharam a sua missão de entrar em contacto com uma das raras espécies alienígenas inteligentes descobertas. A situação complica-se quando um dos cadetes se convence que consegue por si só resolver o enigma de como comunicar com seres que em trinta anos revelaram sinais de inteligência e capacidade de manufactura mas se recusaram a abrir canais de comunicação com os exploradores. Vajra não se esquece de homenagear a sua óbvia inspiração, a space opera clássica de E. E. doc Smith com uma nave espacial baptizada de Skylark.

The Half-Toe Bar de Andrew Reid distingue-se pela premissa de antropólogos do futuro que investigam colónias terrestres noutros planetas que se esqueceram da sua origem. Um pouco como os contos da série journeyer que a Analog tem vindo a publicar, mas sem a sua abrangência.

Hot and Cold de Alvaro Zinos-Amaro mistura uma dose de romance reaquecido e Hard SF num conto onde um casal desavindo se redescobre ao procurar escapar de um artefacto misterioso que contém buracos negros. Com a sua nave presa no limiar do horizonte de acontecimentos contido por uma esfera massiva, a sua única hipótese é confiar numa inteligência artificial insana que controla outra nave em órbita do artefacto, cujos tripulantes morreram numa descarga de radioactividade.

Code Blue Love de Bill Johnson é um conto intrigante às voltas com biomedicina, nanotecnologia e inteligência artificial. Dois irmãos, últimos sobreviventes de uma família amaldiçoada por mutações genéticas que provocam aneurismas cerebrais sucessivos, tornam-se cobaias de um arriscado tratamento experimental. A irmã mais velha submete-se a uma operação que lhe insere uma prótese endo-vascular contendo uma inteligência artificial e nano-filamentos que corrigem os estragos feitos pela doença e guardam uma cópia das memórias contidas em neurónios danificados. A prótese não consegue travar a degeneração e a mulher morre, mas o irmão não desiste. Correndo contra o tempo, uma vez que a segunda prótese ainda se encontra em processo de fabrico, o irmão contrata médicos no mercado negro para extrair a prótese ao cadáver da irmã e implantá-la no seu cérebro. As consequências são inesperadas. A inteligência artificial reactiva-se, mas ao ver-se num organismo estranho começa a reconstruir células cerebrais e injecta-as com as memórias da mulher. O que resulta é uma espécie de imortalidade, com o cérebro do irmão sobrevivente a partilhar três personalidades enquanto a inteligência artificial percebe que a tecnologia de que dispõe pode regenerar todo o corpo.

Vooorh de Paula S. Jordan encerra esta Analog com um conto confuso e pouco interessante onde um amante da natureza que protege animais no seu rancho remoto encontra uma alienígena descendente de polvos que luta contra uma espécie de caranguejos aguerridos que raptam humanos e parece que a evolução das espécies se deu graças a uma nave que despenhou no seu planeta de origem e há um momento vagamente sexual quando o humano descobre o corpo tentacular da extra-terrestre e... pronto, foi mais ou menos isto o que consegui perceber. A recensão tem tudo a ver com o estilo narrativo do conto.

quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

Twelve Tomorrows


Neal Stephenson (ed.) (2013). Twelve Tomorrows. Cambridge: MIT Technology Review.

A tradição de conceber a Ficção Científica enquanto oráculo preditivo de tecnologias e tendências sociais é já longa. Este Twelve Tomorrows assume-se como um transpor do que é publicado nas páginas da Technology Review, utilizando a ficção como forma de imaginar os possíveis impactos das tecnologias contemporâneas de ponta. Editado por Neal Stephenson, olha para as biotecnologias, pervasividade digital, exploração espacial, nanotecnologia e supercondutividade em contos que não se ficam pela visão clássica da FC alicerçada num objecto ou tecnologia mas que imaginam ou analisam contextos sociais reais ou imaginários. O editor também nos lega uma longa e pouco pertinente entrevista que se centra mais no seu sucesso pessoal do que nos temas possíveis da antologia.

Há aqui premissas brilhantes. David Brin mostra-nos a invisibilidade de um panopticon digital assente na realidade aumentada. Ian McDonald desmonta as revoluções populares ao estilo da primavera árabe ou euromaidan sob a luz da internet das coisas, reflectindo a invasão do Iraque e os desmandos do sistema financeiro global. Allen Steele insinua uma visão grandiosa mas realista da exploração de recursos naturais no sistema solar. Estes são os pontos mais altos da antologia, mas os restantes contos são também peças interessantes de especulação informada que nos levam a pensar sobre impactos das tecnologias de vanguarda.

Esta é a edição de 2013, e a Technology Review já prepara a saída da edição de 2014. Esta promete, com Bruce Sterling a alinhar William Gibson, Pat Cadigan, Cory Doctorow, Lauren Beukes e Warren Ellis. É difícil imaginar um grupo melhor de super-estrelas da FC contemporânea. Olhando para os autores e para o editor, suspeito que a mais recente Twelve Tomorrows se centre na hipermodernidade digital do mundo globalizado pós-Snowden com toques de favela chic e europop.

Insistence of Vision - O conto de David Brin imagina um futuro de realidade aumentada pervasiva acessível através de óculos digitais. E imagina uma curiosa forma de punição criminal num mundo de transparência informacional. Em vez de cumprir penas numa prisão, os condenados podem continuar em liberdade, sendo que a sua condenação está sempre visível na realidade aumentada. Continuam livres, mas num ambiente informacional pervasivo a punição funciona através de um ostracismos social completo.

The Mighty Mi Tok of Beijing - Brian W. Aldiss dá um contributo com o seu quê de patético neste conto sobre um cientista chinês transformaro em herói por uma humanidade grata. O seu contributo para a felicidade comum? Ter encontrado forma de canalizar as excreções humanas para o calcanhar, desviando-as da partilha de espaço com os orgãos sexuais.

In Sight - Cheryl Rydbom contribui um bem urdido conto sobre ciber-espionagem futurista, com um agente ao serviço de justiceiros a roubar a identidade de um milionário conhecido pela arrogância. Num futuro onde chips inseridos no corpo comportam toda a informação digital sobre a pessoa o processo de assalto assemelha-se ao de um franco-atirador que mantém a vítima na sua mira.

Transitional Forms - Paul McAuley aborda o que pode correr mal com vida artificial através deste conto, narrado sob o ponto de vista de um segurança de uma zona restrita no deserto americano. A zona é o habitat natural de organismos geneticamente modificados onde a combinação de evolução natural e interferências de bio-hackers leva ao constante surgir de novas mutações. Os interesses financeiros na exploração destes organismos são muitos, mas a ameaça da proliferação de organismos desconhecidos também.

Pathways - Um conto longo de Nancy Kress que nos remete para uma américa futura nas mãos de libertários. Num cenário de pobreza progressiva, desinvestimento na ciência e alastrar da desregulamentação selvagem uma rapariga de uma zona pobre do interior americano oferece-se como cobaia de cientistas chineses que buscam uma cura para uma doença neurodegenerativa rara. Dividida entre os receios de uma comunidade local inculta e os dilemas da experiência, a rapariga acaba por perceber que esta é a única forma de poupar a sua família a uma morte dolorosa e certa, acabando por despertar uma forte consciência interventiva. Uma curiosa mistura de distopia política com a premissa de tratamentos que alteram radicalmente a vida das cobaias, que deu a  Flowers to Algernon o impacto que ainda tem.

Set the Controls for the Heart of the Sun - Allen M. Steele utiliza os delírios de um culto que rouba uma nave e se atira para dentro do sol na esperança que os seres alienígenas em que acreditam os salvem para uma belíssima especulação sobre o futuro da humanidade no espaço, com colónias independentes em várias zonas do sistema solar, postos de mineração de recursos naturais em asteróides e atmosferas planetárias e as naves que os interligam à Terra, respeitadoras dos limites físicos a operar com motores atómicos ou velas solares impulsionadas por raios laser emitidos de uma estação no ponto de Lagrange entre a Terra e o Sol. A história do génio que na deriva da vida acaba por se meter com cultistas insanos é uma boa desculpa para o autor pintar um vasto e plausível panorama da exploração do sistema solar. A referência à canção psicadélica dos Pink Floyd é a cereja em cima do bolo.

The Revolution Will Not Be Refrigerated - Ian McDonald utiliza com muito bom humor o conceito de internet das coisas misturado com a realpolitik por detrás dos estados falhados onde ditadores entricheirados fazem de tudo para manterem o poder face aos protestos de rua. O conto leva-nos a um ficcional país do médio oriente, onde o petróleo vai mantendo no poder o típico déspota da zona, que está ameaçado pela combinação de classe média irritada e tecnologia de rede, traduzida no processo revolucionário de concentração em praças públicas potenciado pela internet. Este ditador tem a presença de espírito de desligar a rede antes de ordenar aos tanques que carreguem sobre os manifestantes, mas não contou com os escalões mais baixos da sociedade do país. Os habitantes responsáveis pela recolha de lixo nas cidades até um contrato forçado por imposições de credores externos ter entregue o serviço a uma empresa transnacional, sabiam aproveitar e reciclar com a máxima eficiência. Quando, no rescaldo da repressão, começam a reciclar electrodomésticos inteligentes acabam por ter nas mãos a matéria prima para criar uma rede flexível de internet, assente na míriade de frigoríficos com wifi, batedeiras capazes de fazer routing de tráfego e aparelhos com sensores que comunicam através da internet. McDonald consegue misturar a história recente com o mito das revoluções permitidas pela internet, a importância da conexão em rede nas sociedades e desconstrói a internet of things num ritmo de favela chic sob repressão autoritária.

The Cyborg and the Cemetery - Nancy Fulda aborda as próteses cibernéticas numa história onde um homem idoso se liberta das obrigações terrenas antes de se lançar num walkabout final pelos desertos australianos, como corolário de uma longa e bem sucedida vida. Não teme a morte, porque deixa para trás a Inteligência Artificial embebida na sua perna robótica, prótese que ao crescer com o seu utilizador acabou por ganhar consciência sintética.

Bootstrap - Kathleen Ann Goonan aborda o conceito de tecidos inteligentes com a história de um artista com patologias mentais que encontra uma camisa com nano-tecidos. Protótipo experimental perdido talvez de forma intencional pela DARPA, a camisa ao ser vestida inicia um processo de intensificação dos dotes do utilizador enquanto cura as maleitas psicológicas. Uma visão ingénua do conceito de tecidos inteligentes capazes de monitorizar sinais vitais e dispensar medicação aos seus utilizadores.

Zero for Conduct - Greg Egan também opta por um certo ar de favela chic, desta vez numa história onde uma brilhante refugiada afegã no Irão descobre uma solução para supercondução à temperatura ambiente. Orfã de pais que morreram às mãos dos talibans por acreditarem no direito das mulheres à educação, vive e estuda numa cidade iraniana, mas passa o tempo a experimentar combinações moleculares através de computação distribuída, como nos sites e aplicações, bem reais, que transformam em jogos de puzzle os complexos cálculos de química informática. Ao descobrir e sintetizar um composto que permite supercondutividade à temperatura ambiente mostra-se capaz de organizar a rede familiar para levar electricidade e acumuladores supercondutores para a zona remota do Afeganistão de onde provém. Inteligente, sabe que tem de ser triplamente cuidadosa: como refugiada num país que a discrimina, mulher educada no hostil país de origem, e inventora de uma tecnologia revolucionária que despertará a cobiça das grandes empresas de energia, capazes de tudo para lhe roubar a invenção se esta não for devidamente patenteada.

Pwnage - Justina Robson imagina um mundo onde as comunicações audio-visuais são internas e pervasivas, com a rede a unir e interligar dispositivos que fazem parte do corpo. A história é narrada por uma agente de segurança interna, cujo trabalho é analisar as tendências e discussões online em busca de elementos considerados dissidentes ou subversivos. Mostra como a privacidade se esvai numa sociedade panopticon.

Firebrand - Peter Watts desmonta o tretologuês que oculta os desmandos das grandes corporações neste conto onde a combustão humana espontânea se torna corriqueira. São apontadas causas mirabolantes ou culpados obscuros por uma epidemia de pessoas que sem razão aparente começam a arder. O real culpado é uma empresa de fabrico de biocombustíveis produzidos através da modificação do código genético de algas, que infiltram os ambientes naturais e acabam nos sistemas digestivos humanos com consequências incendiárias. Uma intrigante reflexão sobre os perigos da modificação genética de organismos sem supervisão e o spin mediático que ofusca deliberadamente factos reais.

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Torre



Estrada nacional n.º 8, à entrada de Torres Vedras.

Ficções

Mapmaker: A ideia de um mapa cuja meticulosa representação do real acaba por o transformar num território anima um dos mais assombrosos contos de Borges. Esse mesmo espírito anima este muito bem talhado conto de Anton Stark onde um geógrafo contempla o mundo do alto da sua torre e o representa num mapa que, ao ficar pronto, fixou a tinta aquilo que no mundo real já há muito se desvaneceu. Distingue-se a clareza poética das palavras que nos mergulham no mundo tangível do conto.

The Somass Affair: A descoberta de um selo com mensagens secretas no cadáver de um operário morto nos esgotos de uma cidade semi-submersa mergulha um implausível par de sobreviventes com impressionantes capacidades técnicas numa aventura em que terão de travar uma ameaça bio-mecânica ressuscitada por cultistas obcecados. A sensação de imersão numa variante pós-apocalíptica do mundo ficcional de Eos criado pelo autor é muito boa. Talvez o que mais se destaque nesse conto é a capacidade de fazer visualizar um ambiente steampunk decadente, que quem conhece a obra deste promissor autor liga a uma evolução temporal do mundo ficcional do romance Downspiral. Aventuras em cidades semi-submersas com retro-tecnólogos que preservam conhecimentos por entre arquitectura decadente e combatem cultistas que pretendem reanimar robots de combate a vapor animados por intricados mecanismos a que essência de alma humana confere a faísca da vida é o que nos espera neste conto.

Timekeeper: Contar o tempo quando só isso resta. Reviver memórias traumáticas numa cidade em ruínas, de ruas alagadas, de edifícios desertos semi-submersos, antiga capital de glórias esquecidas pelo tempo. Resta um homem e um relógio, cujas engrenagens resistem cada vez menos à passagem do tempo. Mas o que sobressai da leitura é uma sensação de imersão em arquitecturas decaídas. Um conto de profundo sentido de ambiência passado no universo ficcional steampunk de Eos saído da imaginação de Anton Stark.

Avaria Fantasma: Uma variação intrigante sobre o abandono com um fortíssimo toque de uma curiosa mistura de FC clássica com cyberpunk. Um andróide descobre-se à deriva pelas ruas, abandonado pela família de quem sempre cuidou. É-lhe difícil perceber que foi descartado, trocado por um modelo mais recente, à semelhança de um fiel animal de companhia abandonado numa estrada por algum inconveniente menor, metáfora esta que fica clara logo no início do conto de Carlos Silva.

A Menina Que Não Digeria Livros: Como bibliófilo incorrigível não consegui deixar de sorrir com o humor mordaz deste conto de Carlos Silva onde a bibliofilia se metamorfoseia em bibliofagia literal. A menina que devora livros pelo sabor, estabelecendo modas e encantando a sociedade que a rodeia pela superficialidade literária alicerçada em quantidade e não qualidade é uma crítica pouco velada a um certo espírito que se sente nestas coisas bibliófilas.

segunda-feira, 11 de Agosto de 2014

Ferrovia




Para variar do asfalto.

Comics


God is Dead: Book of Acts Alpha: O modelo de negócio da Avatar Press aposta na visceralidade contínua dos seus títulos, que explora até à exaustão. Jonathan Hickman criou esta série apocalíptica sobre a destruição provocada pelo regresso dos deuses, um filão de teísmo sangrento que agora está a ser explorado pela editora numa série de continuidade e edições especiais. São estas que ainda poderão ser interessantes de um ponto de vista conceptual, uma vez que a Avatar convidou alguns nomes sonantes do meio para escreverem histórias para este universo ficcional. Para arrancar temos Allan Moore a alinhar com Si Spurrier e Mike da Costa, este último o argumentista encarregue de dar continuidade à série. Spurrier safa-se bem com um desastrado e implacável querubim em busca de poder (o comentário sobre as primeiras tentativas da criatura no Youtube terem resultado em inúmeros convites de pedófilos é de ir às lágrimas com riso). Mas é Moore que se destaca, e que outro deus poderia ele trazer para o título senão a magia telúrica do seu ficcional Glycon? Uma excelente desculpa para reflectir sobre o poder das ideias, em essência aquilo que as divindades incorporam, dita sobre um palco por um misto de mago e charlatão que encanta e desencanta o público com palavras, enquanto manipula uma marionete que proclama ser divina.


Moon Knight #06: Termina nesta edição o período de Warren Ellis como argumentista, a insuflar novo ar nesta personagem de segunda linha. Ellis aproveitou para criar histórias auto-contidas cheias de acção e narrativa cinemática, sem perder tempo com recriações de origens ou enredos longos por detrás. Foram seis edições de concisa aventura explosiva. Para terminar, dá-nos uma espécie de história de origem do super-herói invertida, com um polícia frustrado e descontente a querer tornar-se um nemesis do personagem, acabando por nos dar mais vislumbres que a permitem compreender.


Lazarus #10: A distopia de sonho húmido neo-liberal feudalista criada por Greg Rucka começa finalmente a expandir-se no espaço ficcional. Depois de um longo arco narrativo que nos levou ao fundo da principal família, somos agora levados a outros territórios. A premissa, relembro, assenta na partição do mundo entre diversas famílias, donas dos maiores conglomerados económicos, com a humanidade dividida entre os novos aristocratas familiares, recursos humanos e desperdício, todas as massas humanas que habitam nos territórios controlados pelas famílias mas não pertencem aos quadros feudo-empresariais. Agora estamos em Nova Iorque, capital de uma família rival semi-submersa pelo aquecimento global.


The Woods #04: Este comic Young Adult da Boom! Studios tem passado despercebido mas tem mantido um nível constante de interesse. Toda uma escola materializa-se sem qualquer explicação num planeta alienígena. Rodeados por uma vasta floresta, os assustados alunos e professores tentam lidar com o impensável e depressa decaem num autoritarismo violento. Um grupo intrépido de jovens aventureiros arrisca-se a enfrentar os perigos da floresta, e quanto mais nela se embrenham maiores mistérios os aguardam, desde a violenta fauna alienígena a uma pirâmide maia com vestígios de outros terrestres raptados e que, aparentemente, funciona como ponto de acesso para outros mundos. Intrigante e com um mundo ficcional que sabe bem ir descobrindo.