sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Descoberta de si Próprio



Vladimir Savchenko (1988). Descoberta de si Próprio. Lisboa: Caminho.

Um cientista apagado de um centro de investigação secundário na ordem académica soviética, ao experimentar com componentes químicos e um computador consegue um resultado inesperado. De um berço bio-digital sai um ser, em tudo a si igual. Ao tentar simular o corpo humano, o computador deu um passo em frente e reconstruiu-o à imagem do seu criador. O que se segue é um livro confuso, pouco interessante, onde os doppelgänger do cientista coexistem, ajudam-no no seu trabalho, apaixonam-se pela mesma mulher, e filosofam muito sobre o potencial do homem aumentado pelos sistemas bio-digitais que querem desenvolver. Se em termos conceptuais tem uma curiosa premissa, e um mistério no ponto de partida, com a morte misteriosa do primeiro cientista a revelar a existência dos seus duplos, o livro arrasta-se em ruminação pseudo-científica de contornos sociológicos. Algo que em si não tem nenhum mal, mas o longo infodump que é não o torna um dos melhores exemplos da famigerada FC soviética.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

The Shadow of a Terrible Thing



Massimo Rosi, Eduardo Mello (2016). The Shadow of a Terrible Thing. Markosia.

A premissa é interessante, apesar de não ser novidade, mas falha numa narrativa previsível e inconsistências de contexto. No final da II guerra, a Terra é invadida por alienígenas, que querem exterminar a humanidade e sugar os recursos planetários, aproveitando os corpos humanos para gestar uma raça de criaturas. As nações em guerra unem-se para travar uma guerra desesperada, e alguns dos membros mais capazes são agrupados numa equipa de combate que intervém nas situações mais perigosas. O seu objectivo é capturar alienígenas e sua tecnologia, para desenvolver novas defesas contra a ameaça. A salvação da humanidade está nas mãos de um duro criminoso siberiano, duro e violento, que se sacrificará para destruir a nave-mãe extraterrestre.

Poderia ser um comic divertido, com os seus combates contra alienígenas, paisagens catastróficas e tecnologias exóticas, mas desenrola-se de forma demasiado banal. Não há muito cuidado com a linguagem visual da banda desenhada, essencial para estruturar a narrativa, e o estilo gráfico, que no início do livro é prometedor, vai decaindo ao longo das páginas.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Captain America Masterworks Vol. 1


Stan Lee, et al (2010). Captain America Masterworks Vol. 1 (Tales of Suspense). Nova Iorque: Marvel Comics.

Ler estas histórias clássicas do segundo início dos comics de super-heróis, nos anos 60, mostra o quanto o género evoluiu até hoje. Escrevo segundo início porque, após o período inicial nos anos 30 e 40, os comics comerciais abriram-se aos mais variados géneros, do western ao horror, passando pelo romance. As pressões moralistas que se mestastizaram na Comics Code Authority, organismo de auto-censura criado pelas editoras para garantir um selo de segurança moral, limitaram os criadores a temas que não fossem considerados ofensivos. Os divertidos excessos do horror ao estilo Warren Publishing foram postos de parte, títulos de humor, cartoon e romance foram perdendo leitores. A moralidade binária dos super-heróis, segura dentro dos parâmetros do Comics Code e capaz de atingir contornos patrióticos, aliada às histórias de aventura de seres com poderes especiais, tornou-se um filão de exploração segura, de tal forma que as restantes vertentes se eclipsaram do mainstream. Os antigos heróis dos anos 40 foram recuperados, novos foram criados, a partir de padrões narrativos que têm sido replicados de forma exaustiva.

Não podemos esperar muito em termos gráficos e narrativos destas histórias, simplistas pelos padrões de hoje. Aventuras contidas em dois ou três episódios, viviam da acção, das cenas de luta onde o herói, com a sua força, agilidade e bom humor, sempre prevalecia. Se o desenho pode ser interessante - e no caso deste Masterworks do Capitão América, com o traço de Jack Kirby, é-o, falta toda a linguagem narrativa de encadeamento de pontos de vista e enquadramentos que caracteriza, hoje, a BD. À época, estes comics eram sucessões de imagens, com continuidade assegurada apenas pela narrativa verbal da história.

Este volume traz de regresso aos leitores as primeiras histórias do Capitão América escritas por Stan Lee, recuperado ao catálogo da Timely pela então incipiente Marvel. São curiosamente centradas no legando antigo do personagem, revendo a sua origem e aventuras dos tempos da II guerra. Curiosamente, há no livro uma aventura contemporânea, passada num Vietname representando como cenário operático por Kirby, mas sente-se que o tema é demasiado sensível para a época, que o que funcionou nos anos 40 - comics patrióticos, com heróis a vencer o III Reich e a ameaça nipónica com o poder dos seus punhos, já não pega no ambiente moralmente mais ambivalente dos anos 60. A II Guerra, e os inimigos clássicos do herói, são terreno seguro que Lee soube explorar muito bem.

Para quem não conheça o passado desta personagem, apreciando a Marvel pelo seu universo cinematográfico, pode ficar surpreendido pela forma como os filmes relativos ao Capitão América são fiéis às primeiras histórias no que toca à origem e primeiras aventuras da personagem, a cor de pele de Nick Fury, que durante décadas foi uma espécie de all american Bames Bond antes de ser revisto como Black Motherfucker no cinema, aparições fugazes da agente Carter, a aparição de Red Skull ou as primeiras iterações de Zemo, Hydra, Shield e IMA. O que vemos hoje, explorado no universo transmedia da Marvel, são variantes e transposições do substrato estabelecido por Kirby e Lee nos anos 60.

Uma leitura nostálgica, muito válida como documento que mostra um estádio clássico da evolução das linguagens gráficas e narrativas dos comics.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Science-Fiction Nightmare World

'nuff said.

Comics


Doom Patrol #01: Pode-se ser mais WTF do que Grant Morrison? É difícil, mas não impossível, e Gerard Way parece querer provar isso com esta ressurreição de Doom Patrol. Se conseguirem perceber alguma coisa deste primeiro número, parabéns. Eu não consegui, ficando no ar a suspeita que todos os bizarros fios soltos se irão unir em algo coerente mais à frente.


Hadrian's Wall #01: É policial procedimental, com assassínios e investigadores, mas... é no espaço sideral. Mais um reforço na curiosa aposta da Image em Ficção Científica, pura ou como ponto focal de outro tipo de histórias.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Visões: Motelx, 10ª Edição



O festival Motelx é a minha grande tradição de rentrée educativa. Nada melhor para celebrar as agruras e desafios de mais um ano lectivo do que mergulhar num transe induzido por filmes de terror. Saí da edição do ano passado com o firme propósito de see moar films, mas as datas do ticEduca apanharam-me e passei parte dos dias do festival a aprender e partilhar ideias sobre tecnologia educativa. O que deu origem a curiosos sincronismos, como estar de manhã a ouvir Sugata Mitra em conferência, e assistir à tarde a uma apresentação e filme de António de Macedo, e perceber que em áreas e experiências diferentes, ambos disseram o mesmo sobre o poder da felicidade individual como elemento basilar para a construção de uma melhor sociedade. Mitra expôs a ideia através de uma matriz de características a incentivar nos alunos, Macedo num diálogo do seu filme, onde um presidente de câmara comenta com um padre de aldeia que por vias ínvias (é um filme de Macedo...) vê o seu sonho de um natal cheio de brinquedos para as crianças pobres, que "mas olhe que isso não resolve o problema social". "Estão felizes, " responde, "é o primeiro passo".

Yep. Conexões entre áreas díspares sem ligação aparente ente si. É um vício, confesso.



Don't Breathe (Fede Alvarez, 2016)

Thriller procedimental muito bem estruturado e montado, apesar de bastante banal na sua premissa. É um misto de casa assombrada/de horrores com um anti-herói violento, que vai dar caça à um grupo de jovens que trespassa a santidade do seu lar, podendo revelar os segredos tenebrosos que as paredes ocultam. Há aqui umas variantes. Ninguém é inocente, as vítimas são pequenos ladrões, e o formidável e imparável adversário é cego. Imaginem um Mr. Magoo muito badass, e já perceberam o filme. Destaca-se pelo uso da paisagem suburbana de uma Detroit caída ao abandono para a sua estética do isolamento geográfico, estrutura implacável e ritmo mantido sempre elevado. A técnica cinematográfica deste filme, de excelente nível, está afinada para manter sempre o espectador intrigado com o inesperado.

Este filme abriu, e muito bem, o festival. Dispensava-se era a longa introdução (mais de uma hora, creio), dos organizadores. Sim, certo, o festival está a crescer e ainda bem, patrocinadores oblige e há que os mencionar, e claro que um simples declaro o festival aberto também não teria piada, mas era mesmo preciso passar tanto tempo a abrir o festival?


O Segredo das Pedras Vivas (António de Macedo, 2016)

Nos anos 90, António de Macedo realizou para a RTP uma série de temática natalícia, que mais de vinte anos depois, com esquecimento e bobines perdidas pelo meio, consegue realizar como o gostaria de ter feito na altura, como narrativa cinematográfica. Com este realizador, já se sabe que a abordagem seguirá caminhos de recorte misticista, na confluência da modernidade contemporânea da época filmada com tradições milenares e esoterismo. Com o seu humor e acutilância muito própria, leva-nos a um Alentejo interior onde as antigas tradições colidem com os interesses venais. Quando um arquitecto chega a uma aldeia para trabalhar na encomenda de uma casa por parte de um grande proprietário local, descobre-se num mundo ancestral, onde antigos ritos são mantidos vivos por mulheres sensíveis, a religião é uma instituição carinhosa, enriquecido pelos dramas, amores, desamores e idiossincrasias de cada um, a tensão entre lucro e tradição é muito grande. Omnipresentes, mas ameaçadas, as pedras, cromeleques e megalitos milenares espalhados pelas terras, talvez alinhados pelas linhas de força telúrica do planeta.

É o grande ponto alto do Motelx deste ano. Pelo regresso deste veterano realizador, já tão tardio e que já tanto tardava, pela homenagem à sua carreira e personalidade. Arrepiou, ver o público que enchia a Sala Manuel de Oliveira do cinema S. Jorge a aplaudir, de pé, este grande e tão esquecido mestre do cinema fantástico português.



The House on the Edge of the Park (Ruggero Deodato, 1980)

Evitei deliberadamente a sessão de Cannibal Holocaust, optando por este para preencher a lacuna na minha cultura fílmica que é não conhecer a obra de Ruggero Deodato. O exagero chocante de exploitation não me atrai. Esperava deste um filme incómodo, sangrento, perverso, a fazer jus à fama do autor. Passei a sessão com sérias dificuldades em manter-me acordado, imune à sucessão de imagens de erotismo violento desta história que parecia ser uma situação em que jovens ficam à mercê de personagens violentos mas no final se revela uma vingança perversa, com as vítimas a deixarem-se vitimizar deliberadamente para justificar um assassinato por vingança. O melhor do filme foi as dessincronização entre o som e a imagem, que nos legou momentos de comédia acidental. Com este filme coloquei um visto no nome de Deodato e pus de lado. Os prazeres viscerais do voyeurismo da exploitation não são de todo uma vertente que goste no cinema fantástico.


K-Shop (Dan Pringle, 2016)

Não tinha quaisquer expectativas sobre este filme, candidato ao prémio de longa metragem do festival. A apresentação do realizador, observando que íamos ver british people behaving badly, despertou a atenção. O filme vive dessa tensão, entre filme de terror tradicional que segue as façanhas de um serial killer e a acidez do comentário social sobre a lad culture e a tradição de bebedeiras sem limites, com todos os comportamentos violentos e degradantes que lhe estão associados e a cupidez de empresários sem escrúpulos que incentivam estas culturas. Ainda toca nas tensões étnicas, com descendentes de imigrantes como alvo da xenofobia de bêbedos violentos. Apesar de algumas linhas narrativas demasiado desenvolvidas face a uma poderosa história fulcral, é um filme forte e divertido. Sem querer fazer muitos spoilers, digamos que o destino que aguarda os bêbedos que vandalizam a loja do jovem ex-estudante de uma prestigiada universidade londrina, herdada do seu pai, refugiado de guerra, nunca mais vai deixar os espectadores deste filme olhar para um kebab da mesma maneira. Tastes like chicken, diziam os antropófagos. Ah, esse é o bónus do filme. Boas lições sobre como fazer kebab caseiro, com ingredientes frescos e naturais. 



Tiaga/A Princesinha das Rosas (Noémia Delgado, 1981)

Um dois em um,  recuperando a cinematografia de Noémia Delgado através de dois episódios televisivos que dramatizam contos fantásticos de autores portugueses. Em Tiaga, adaptado de um conto de Aquilino Ribeiro, acompanhamos uma mulher idosa que revive o viço da juventude, através das artes mágicas de um peregrino tomado pelo espírito do demo. A Princesinha das Rosas mergulha-nos  num decadentismo medievalista de fin de siecle, a partir de um conto de Fialho de Almeida. Conta a história de Naíde, filha dos amores de um pescador e de uma sereia, adoptada por um rei que a encontra, quando bebé, à deriva numa barcaça pelos rios.

Filmes de uma estética notável, belos nos seus enquadramentos e iconografias. A velha e o seu bode preto nas serranias áridas, as sereias caprichosas nas águas, o peregrino a ser possuído pelo demo, a noiva defunta que se eleva da sua campa num cemitério oculto sob o céu nocturno. São imagens poderosas, compostas com um forte sentimento estético. O hieratismo dos filmes, de uma teatralidade monumental nas suas declamações, a lentidão do seu ritmo, marcam o estilo de um certo cinema português, apreciado pelos intelectuais, mas não muito adaptável aos gostos mais generalistas. Visualmente espantosos, mesmo vistos em cópia degradada, são filmes pesados e maçudos.



The Devil's Candy (Sean Byrne, 2015)

Um filme apropriado para encerrar o festival, num registo de terror clássico. Tem uma curiosa indecisão entre filme de assassino em série e possessão demoníaca, apesar de se centrar numa casa amaldiçoada por uma possessão, e na família de um pintor que tem entre os seus clientes um galerista chamado de Belial. Difícil ser mais óbvio que isto. O filme tem um forte pendor para as sonoridades e iconografia do metal, usando muito o som como elemento de tensão. Vai em crescendo até ao final deliciosamente violento e apocalíptico. Não se tornará um clássico deste género de cinema, mas garantiu um final divertido do Motelx.



The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975)

Suspeito que se tornará tradição no festival. Depois da sessão memorável do ano passado, esta delícia de mau cinema regressou, desta vez numa sessão ao ar livre no largo de S. Carlos. Parte do warm up do festival, foi interessante ver o largo cheio de fãs, cosplayers vestidos a rigor (com especial predilecção por Magentas, já que para se encarnar como doutor Frank N Furter é preciso muita coragem), e bastante público atraído pela proposta de cinema ao ar livre numa morna noite de verão. Estes últimos de certeza que não estavam à espera deste tipo de filme.

A sessão sublinha o quanto este filme mostra que se o cinema, hoje, poder ser visto em múltiplos ecrãs e formatos, é na experiência social de ir ao cinema que está a essência desta arte. Este filme, assumidamente mau e over the top, não funciona se for visto em isolamento. É a interacção entre o público e a imagem projectada, canonizada em guiões seguidos à risca pelos fãs, que torna o seu visionamento uma experiência fantástica.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Computer: A History of the Information Machine


Martin Kelly, et al (2013). Computer: A History of the Information Machine. Boulder: Westview Press.

Uma história concisa da evolução do computador, que não segue o caminho habitual do foco nalguns projectos icónicos e personalidades influentes. Mostra os enormes esforços de investigação aplicada quer em centros académicos quer empresariais que, de forma algo imprevista, deram origem ao mundo da computação como hoje o conhecemos. O ser conciso torna-o algo superficial, algo especialmente notório nos capítulos dedicados aos momentos mais recentes da evolução do computador - a massificação do software, o desenvolvimento do computador pessoal e a internet. É muito interessante quando aborda toda a história (apesar de centrada na experiência americana) de calculadoras mecânicas, computadores electromecânicos de uso específico, computadores como pessoas empregadas em tarefas de cálculo rotineiro, de todo um movimento de automação do escritório iniciado em finais do século XIX que preparou o terreno (e criou algumas das principais empresas, ainda hoje gigantes da informática) para a burótica contemporânea.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Rise of the Machines: A Cybernetic History



Thomas Rid (2016). Rise of the Machines: A Cybernetic History. Nova Iorque: W.W. Norton and Company

O que é que queremos dizer quando afixamos o prefixo ciber a qualquer conceito? Cibernético, ciberespaço, ciberguerra, cyborg, cyberpunk. São termos que nos rodeiam num dia a dia contemporâneo, dependente de tecnologias digitais. Neste livro, Thomas Rid leva-nos numa viagem à descoberta da origem deste termo, mostrando como está intimamente relacionado com uma ideia muito específica de simbiose entre homem e máquina, intuída nos conceitos invocados por este termo.

A história começa na II Guerra Mundial, quando o matemático Norman Wiener, às voltas com o problema de controlo de fogo anti-aéreo, se fascina com as possibilidades de sistemas que conjuguem automatização computorizada e o homem. Criou o termo cibernética, definido como o controle automatizado de sistemas. O conceito alastrou numa época em que forma dados os primeiros passos do que viria a ser o nosso moderno mundo digital, com o desenvolvimento das arquitecturas e tecnologias de computação. A visão futurista de mescla homem-máquina passou do campo da investigação aplicada para a psicologia popular, e daí para a contra-cultura dos anos 60, numa mistura curiosa de químicos alucinogénicos e filosofias de transcendência dos limites humanos através da tecnologia digital. William Gibson leva o conceito para a literatura de ficção científica, deixando a marca indelével do seu conceito de ciberespaço como alucinação consensual mediada por computador. Outros escritores de FC mostram-se influentes neste campo, como a visão de mundos virtuais por Vernor Vinge em True Names que inspira as experiências de incipiente realidade virtual, ao mesmo tempo que confluem tecnologias de simbiose homem-máquina militares, especulações trans e pós-humanistas de índole académica, e crescimento do uso de computadores e da então nascente internet. Rid ainda nos fala do fenómeno cypherpunk, quando a matemática se tornou uma arma controlada devido ao poder dos algoritmos de encriptação, e das guerras entre activistas e governos para levantar restrições a esta tecnologia. Termina com o fascínio militar pelo conceito, com as ideias sobre guerra no ciberespaço e análises ao potencial de ataques digitais aos sistemas informáticos que se tornaram a estrutura da nossa sociedade.

O autor resiste à tentação de nos dar um quadro único, mostrando que o conceito, bem como a forma como o entendemos, evoluiu a par com as tecnologias e os seus impactos na sociedade. Mais do que uma ideia estanque, o cyber aplica-se às míriades de vertentes onde o controle humano se mescla com capacidades aumentativas tecnológicas. Quer sejam os velhos sonhos de cyborgs, que a tecnologia médica parece trazer cada vez mais próximo do banal, quer os sistemas complexos civis e militares que pervadem o mundo contemporâneo, e de uma forma especialmente individual a extensão para geografias electrónicas dos espaços onde cada um de nós se move, age e intervém.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Heart of Empire



Bryan Talbot (2008). Heart of Empire, or The Legacy of Luther Arkwright. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Esta aventura bizarra e psicadélica leva-nos ao mundo paralelo onde o Império Britânico renovado por Luther Arkwright triunfou e domina o mundo. Mas a sua própria existência, bem como a dos multiversos por onde Arkwright é capaz de viajar, está ameaçada. Uma estranha criatura inconsciente, misto de humano e algo disforme, prepara-se para aniquilar todos os universos. Entretanto, uma poderosa rainha britânica mantém-se de boa saúde graças aos latagões da sua guarda irlandesa, resistindo a um monge assassino enviado pelo Vaticano e às conspirações dos seus ministros, a sua filha, herdeira do trono, afadiga-se com os preparativos da grande exposição londrina e envolve-se com os agitadores pró-democracia que querem instaurar uma república. Os exércitos reais, com a sua tecnologia superior, acabam de arrasar o império nipónico e preparam-se para consagrar a sua hegemonia conquistando as comunidades russas e os rebeldes da ex-colónia americana.

Bizarro, divertido, daqueles livros em que parte do gozo da leitura é perceber os desvios e paralelos da linha temporal ficcional face à continuidade histórica. Uma obra que vive do fabuloso traço de Bryan Talbot, um deslumbramento retro-futurista misturando as estéticas Steampunk e fin de siècle numa Londres pejada de arquitecturas fabulísticas, máquinas voadoras e engenhos mecânicos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Comics

 

Eclipse #01: Mais uma aposta da Image no domínio da Ficção Científica. Apesar da narrativa seguir os caminhos seguros do policial procedimental, o mundo em que assenta é intrigante. Uma Terra devastada por manchas solares, com os sobreviventes a viver uma vida mais ou menos normal no subsolo das cidades.

Faster Than Light #10: Decididamente, a space opera mais descarada do momento. Desta vez até mete micro-universos sentientes aprisionados, à espera da oportunidade de fazer o seu big bang...

domingo, 11 de setembro de 2016

Ambition



Yoshiki Tanaka (2016). Ambition. S. Francisco: Haikasoru

Este segundo capítulo da série Legend of the Galactic Heroes mantém o estilo de Space Opera geoestratégica. Novamente, o foco da narrativa está nos movimentos e manobras de massas, nas estratégias e técnicas de combate, com o elemento humano relegado para detalhe complementar. Desta vez, as guerras entre o Império Galáctico e a Aliança dos Planetas Livres entra em pausa. Uma guerra civil, que opõe as ambições do intrépido Reinhard Lohengram aos decadentes aristocratas tradicionais dilacera o Império. Para evitar que os rebeldes se aproveitem da fraqueza temporária, Lohengram instiga um golpe de estado na Aliança, que obriga o célebre almirante Yan Weng Li, o grande herói da série, a tomar acções decisivas para restabelecer a legitimidade democrática. No meio destas lutas, os líderes de um planeta obscuro e esquecido que é o berço da humanidade apertam as malhas do seu plano de restaurar a Terra ao lugar de centro do domínio humano sobre a galáxia.

Esta série não agrada a todos. O seu foco nas questões tácticas e de estratégia, com os grandes momentos de combate descritos como movimentos de massa e sem um pingo da tradicional aventura individualista da Space Opera, parece Ficção Científica para historiadores. É uma forma diferente de abordar o género.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

FAB: The Coming Revolution on Your Desktop


Neil Gershenfeld (2005). FAB: The Coming Revolution on Your Desktop–from Personal Computers to Personal Fabrication. Nova Iorque: Basic Books.

Mentor dos laboratórios de fabricação (fablabs), em essência da democratização do acesso à tecnologia e estimular do saber fazer junto das comunidades, figura de base do que hoje chamamos de cultura maker, Neil Gershenfeld estruturou em 2005 um conjunto de ideias-base e experiências práticas que, na altura, estavam restritas a contextos específicos, mas que hoje alastraram num movimento dinâmico à escala global.

Grande parte deste livro é o que se espera. Gershenfeld detalha algumas das tecnologias de base dos Fab Labs (microcontroladores, linguagens de programação acessíveis, ferramentas de maquinação e manufactura aditiva), mostrando exemplos de múltiplas aplicações localizadas que contrariam o paradigma de design industrial vigente. São exemplos que vão de escolas indianas a projectos universitários, e têm em comum a procura de soluções locais para problemas que se fazem sentir em comunidades reduzidas. Esse é um dos elementos estruturais da cultura maker, do DIY, que lhe confere poder social transformativo.

Mais pertinentes, do ponto de vista de um educador, são duas outras ideias contidas neste livro. Gershenfeld traça uma relação muito directa entre o tipo de trabalho propiciado pelos Fab Labs e novas formas de aprender, centradas não na memorização de conhecimentos padronizados mas na aprendizagem dinâmica, significativa, onde conhecimento teórico e prático se unifica no trabalho de projecto. Este aspecto do fazer (propiciado pelo saber) prático, com implicações na expressão e criatividade e no desenvolvimento de competências técnicas e aprendizagens CTEM é uma das grandes mais-valias trazidas pelas metodologias de trabalho potenciadas pelos Fab Labs/makerspaces. Este argumento baseia-se muito no trabalho de Seymour Papert, colega de Gershenfeld no MIT, e talvez o maior proponente do conceito de aprendizagem construtivista, que parte das teorias de desenvolvimento cognitivo de Piaget, influenciadas pelo potencial das tecnologias digitais aplicadas a uma aprendizagem estruturada em projectos práticos.

Outra grande ideia que sustenta os argumentos de Gershenfeld é o potencial desta abordagem no derrubar das barreiras entre conhecimentos artísticos, técnicos e intelectuais. Quebrar a separação pouco natural entre a técnica e o conhecimento, herdeiros do que Gershenfeld aponta como uma tradição vinda do renascimento que valoriza o intelectualismo e relega a aplicabilidade prática para um remoto segundo plano. Uma ideia explorada em dois níveis, na quebra de barreiras epistemológicas e no reconhecimento do potencial expressivo, artístico e criativo das capacidades consideradas como meramente técnicas (programação, concepção tecnológica, design).

Apesar de escrito em 2005, FAB ainda se sente como revolucionário. Onze anos depois, a cultura maker está em crescimento, mas ainda é vista como algo à margem da normalidade técnica e cultural. A impressão 3D, algo incipiente à data de edição deste livro, afirmou-se como tecnologia de fabricação e prototipagem. As necessidades de preparação das crianças para um futuro exigente, aliadas à progressiva disponibilidade de tecnologias de baixo custo (impressão 3D, arduino, entre outras), têm levado os professores e educadores a apostar neste tipo de abordagens, traduzindo-se numa grande diversidade de experiências no domínio da robótica, introdução à programação, sensores/controladores e impressão 3D. As artes adoptaram as linguagens estéticas específicas às tecnologias como forma de expressão plástica. A mudança prometida por este conceito já não é uma especulação.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Networks of New York



Ingrid Burrington (2016). Networks of New York: An Illustrated Field Guide to Urban Internet Infrastructure. Nova Iorque: Melville House.

Um livro curioso, que olha para elementos da paisagem urbana que estão expressamente concebidos para passarem despercebidos. O foco está nos indícios físicos das redes digitais, imperceptíveis ao olhar dos transeuntes mas legíveis para quem conhece os seus códigos linguísticos específicos. Passa por edifícios cuja única função é albergar e interligar infraestruturas de rede, pela taxonomia das caixas que albergam desde antenas wifi a câmaras de video-vigilância e sistemas pouco conhecidos de vigilância tecnológica, até às tampas de esgoto, sinalizadas de acordo com as empresas que controla, as condutas subterrâneas para passagem de cabos de dados e telefone. De forma concisa, apesar de explorar o tecido empresarial e estatal que sustenta estas redes, este livro é um pequeno guia visual de catalogação e reconhecimento dos elementos urbanos de infraestrutura digital.  A vida nos ecossistemas do antropoceno é feita destas tecnologias. Desenhadas para serem invisíveis, acessíveis através de uma linguagem de logotipos e equipamentos, compreensível apenas por aqueles que estão encarregues de lidar com estes sistemas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

aCalopsia: H-alt #02



O quarto número está previsto, o terceiro editado em formato digital, e o segundo disponível em papel nas livrarias El Pep e Leituria. O segundo número da revista H-alt mostra uma aposta de continuidade como espaço de divulgação dos novíssimos autores de Banda Desenhada em Portugal, com um notório salto qualitativo em relação à primeira edição. Crítica completa no aCalopsia: Revista H-alt #2, editada por Sérgio Santos.

Overcomplicated




Samuel Arbesman (2016). Overcomplicated: Technology at the Limits of Comprehension. Nova Iorque: Current.

É algo complicado perceber qual é o propósito deste livro. Promete ser uma reflexão sobre os sistemas complexos que suportam o nosso dia a dia, desde as infraestruturas tecnológicas aos códigos legais. Tem uma linha de pensamento muito clara: da colisão da expansão do conhecimento e desenvolvimento tecnológico surgiram sistemas de elevada complexidade, dos quais dependemos para manter a funcionar a economia, instituições, e cada vez mais, com a computação pessoal e a internet, as nossas vidas pessoais. Complexidade exponencial, que leva a que poucos sejam realmente capazes de compreender todos os elementos dos sistemas, e ao surgir de paralisações ou avarias inesperadas com causas difíceis de descobrir. Analisa o papel da progressiva especialização no domínio do conhecimento, reflectindo sobre a necessidade de abordagens transdisciplinares que preservem a flexibilidade de um pensamento generalista face ao isolamento trazido pela hiper-especialização.

São argumentos interessantes e pertinentes, mas o livro lê-se essencialmente como um longo resmungo acerca das condições da modernidade contemporânea. Os sistemas tecnológicos complexos que dão o tema ao livro são abordados de forma liminar, sem nada mais  profundo do que pequenas histórias de momentos em que bugs ou anomalias fizeram algo correr mal. Ao falar de alguns tipos de sistemas complexos, sente-se até que o grande problema apontado pelo autor está na diversidade de necessidades humanas, que obrigam à complexidade bizantina dos sistemas legais. As leis seriam de facto mais simples se houvessem menos direitos a respeitar. Apesar de abordar questões pertinentes, acaba por ser ler como um misto de análise angustiada e síndrome de choque do futuro.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Visões


From Beyond (Stuart Gordon, 1986)

Vagamente inspirado no conto homónimo de Lovecraft, From Beyond é um delírio de efeitos especiais entre o gore e o viscoso. A premissa das criaturas que estão no limiar da nossa percepção, tornadas visíveis graças a um mecanismo electromagnético criado por dois cientistas que estimula a glândula pineal, é levada a níveis escatológicos pela mesma equipa do lendário mau filme Re-Animator. As criaturas do além são amplificadas pela incorporação em carne maleável do espírito de um dos cientistas que criou o dispositivo cujo campo magnético consegue trazer os seres do além para a nossa realidade. Sádico, com predilecção por couro e chicotes, metamorfoseia-se sem parar em aglomerados tentaculares de criatura disforme, piadas macabras com a carne, enquanto tenta viola a psicóloga que quer ajudar o outro cientista a curar o que parecia ser uma alucinação esquizofrénica, mas se revela ser um horror real e disforme, que nos rodeia continuamente mas, para bem da nossa sanidade, está para lá da percepção. Um festim visual, típico filme de terror chocante dos anos 80.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Comics


Afterlife With Archie #10: São os detalhes, claro. Como é que se percebe num só balão que esta história vai ser sobre vampiros? Fãs que conhecem bem o clássico filme Drácula de 1931 percebem logo esta referência, com o "I never drink... alcohol." Não sendo a mais fiel adaptação do romance de Stoker, este filme marcou a história do cinema de terror ao introduzir Bela Lugosi, cuja caracterização do vampiro ficou icónica. Vem de um momento desse filme a expressão "I never drink... wine...", um duplo-sentido óbvio não entendido pelas restantes personagens, que só mais tarde irão descobrir o vampirismo do conde.

Witchfinder: City of the Dead #01: Templos esquecidos no subsolo londrino, cemitérios assombrados, organizações secretas dedicadas a invocar o inominável, cadáveres intocados pela decomposição ao fim de séculos no esquife. Esta nova série de Sir Edward Grey, Witchfinder, inicia-se com um delicio e old school toque de horror gótico.

domingo, 4 de setembro de 2016

Introduction to the History of Computing



Gerard O'Regan (2016). Introduction to the History of Computing: A Computing History Primer. Berlim: Springer.

Apesar de ser um manual introdutório, é interessante pela forma sequencial como fala da evolução histórica das diferentes vertentes da computação. Sem entrar em muitos detalhes, destaca os passos da história da computação, do computador, internet, telecomunicações, inteligência artificial, software, sistemas operativos e (esta não esperava) bases de dados. Boa referência para partir à descoberta, contextualizar e aprofundar a evolução da tecnologia digital.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ficções

Rios de Sangue, Pedro Cipriano: Basta um pequeno detalhe. Somos mergulhados numa guerra de trincheiras, sob o ponto de vista de um soldado que tem de conviver com a morte, dureza dos combates diários, sobrevivência no ambiente hostil e manutenção da sanidade, enquanto se defende do ataque de inimigos que não nos são explicados. Parece, em tudo, uma narrativa inspirada nas trincheiras da I guerra mundial, excepto pelo tal pequeno detalhe que faz toda a diferença (e, de facto, torna esta história uma narrativa de género fantástico): a velha arma que o soldado empunha foi feita nos tempos da antiga União Europeia.

Totem Poles, Rudy Rucker e Bruce Sterling: Suponho que Rucker ficou encarregue do weird e Sterling do favela chic. Estes dois veteranos juntam-se para contar uma história sobre invasões alienígenas benignas, que estão a salvar o planeta, e os puristas que os combatem até serem digeridos pelas entidades alienígenas, tornando-se forças de perfeição planetária.

Sgt. Augmento, Bruce Sterling: Depois de uma temporada como soldado nas forças progressivamente automatizadas de combate americanas, um veterano dedica-se a suplementar o seu rendimento mínimo garantido servindo de cobaia a empresas que se dedicam a desenvolver algoritmos de autmatização a partir da observação do trabalho de humanos. O veterano sabe que está a contribuir para que drones sejam cada vez mais prevalentes na substituição de humanos nas tarefas, mas não se preocupa muito com isso.

I come from future, Darine Hotait: Mais experiência linguística do que conto coerente, foca-se demasiado no estilismo de uma linguagem arcana futurista para funcionar como narrativa coerente.

Landscape with intruders, Jean-Claude Dunyach: Um vigia de floresta, habituado à solidão que mitiga com bebidas de destilação ilegal, acorda ressacado depois de uma noite de consumo liberal sob as estrelas infestado por uma estranha praga. Descobre-se colonizado por seres minúsculos, que exploram as geografias do seu corpo até, talvez de conhecimento saciado, lançarem um foguetão que os levará a outro mistério.


Folding Beijing, Hao Jingfang: Vencedor dos prémios Hugo, este conto é um poderoso comentário às desigualdades económicas e sociais numa era de avanços tecnológicos. A futura Beijing é uma cidade origami, que se dobra ciclicamente em três. As élites e aqueles que as servem vivem na primeira cidade, espaço de luxos e refinamento. A segunda cidade está reservada às classes médias, fundamentais para manter os serviços de que depende a sociedade. A terceira está reservada aos excedentários, aqueles que estão à margem de uma sociedade progressivamente automatizada. Sem fábricas ou campos, agora trabalhados por drones, resta aos habitantes trabalhar na reciclagem dos desperdícios da cidade. Um processo que também poderia ser automatizado, mas não o é para manter as massas empregadas. A cidade dobra-se sobre si própria regularmente. Os habitantes das cidades dentro da cidade ficam protegidos dentro de casulos enquanto dura o período da cidade que está activa. É impossível não ler a reflexão sobre as tendências tecnológicas, económicas e sociais da modernidade neste retrato de três mundos que, coexistindo num mesmo espaço físico, estão separados por barreiras inultrapassáveis.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Vermillion Sands



J.G. Ballard (2016). Vermillion Sands. Londres: Penguin

Não sendo um livro que me seja desconhecido, não resisti a esta nova edição da Penguin. Aquele padrão OpArt na capa, que ganha vivacidade graças a um plástico reticular incluído no livro, atrai o olhar. A colecção em si é daquelas que quer empolar o lado erudito da FC, não apresentando os livros como de ficção científica, mas como futuros vintage. Inclui escritores como Huxley (Admirável Mundo Novo), Zamiatin (We), Atwood (Handmaid's Tale) ou Gilman (Herland). É uma lógica aceitável. Muitas destas obras estão na zona de fronteira entre géneros, desbravando territórios e desmontando os conceitos de género literário, esses constructos teóricos úteis para categorizar leitoras, tornados espartilhos conceptuais pelo público, academia e escritores.

Vermillion Sands é um livro clássico que se equilibra nas zonas de fronteira. Estes contos de Ballard, organizados no ambiente coerente de uma estância à beira mar, são das primeiras obras que assumem essa ambivalência literária, que se atrevem a desbravar os limiares das fronteiras. A FC aqui não olha para as estrelas, alimentada de aventuras no espaço entre alienígenas exóticos e portentosas naves espaciais. Olha para os espaços interiores, para as neuroses de um espírito humano contaminado de forma indelével pela modernidade, transformado pelo automóvel e ângulos frios da arquitectura modernista. O tal innerspace que Ballard sempre explorou tão bem, na sua sublime combinação do frio abstraccionismo do alto modernismo e da clareza hiper-real do surrealismo.

Desenganem-se quem pense que a estância balnear de Vermillion Sands é uma amálgama das terras descaracterizadas para suporte de turistas de verão que se encontram por todo o mediterrâneo, do Algarve à Grécia. Conhecem o estilo horrendo, vilórias antigas semi-esquecidas, rodeadas por prédios de betão pintado de branco e vivendas vernaculares com piscinas, rodeadas de vias-rápidas e mar de azul profundo. Vermillion Sands é isso, mas também tem esculturas sónicas, viveiros de plantas cantoras, escultores de nuvens, vestidos de tecido vivo e desertos navegáveis por iates em busca de mantas. Entre a aridez da paisagem e arquitectura, é uma arena onde personalidades danificadas se dedicam a perseguir as suas neuroses e obsessões.

A prosa de Ballard está no ponto de colisão estético entre Dali, Magritte e Tanguy. A sua capacidade narrativa sempre se distinguiu pela clareza com que narra o surreal, entre a aridez inquietante de Tanguy, o surreal hiperreal de Magritte e o delírio de Dali. Os contos de Vermillion Sands mergulham-nos de chapa, sem sobreaviso, nestas estéticas.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Visões


Two Evil Eyes (Dario Argento e George Romero, 1990)

Two Evil Eyes é um filme antológico em que George Romero e Dario Argento juntam forças para olhar para a obra de Edgar Allan Poe. Romero revê The Facts in the Case of M. Valdemar como uma história contemporânea de cupidez, em que a mulher e o médico de um homem às portas da morte utilizam o hipnotismo para convencer o moribundo a liquidar bens e acelerar o processo de herança. Com Valdemar a falecer enquanto hipnotizado, abre-se a porta dos horrores, com o seu espírito preso ao corpo decomposto e congelado. É aqui que a parte de Romero ganha algum interesse, depois de um longo preparar do terreno narrativo que prima por ser morno. Como é de esperar, Romero transforma Valdemar num zombie, animado pelas almas que estão no limbo do além. Utiliza bem o anacronismo de suspensão de vida e morte do conto original, com alguns requintes gore, mas perde-se numa história entediante, com a lendária scream queen Adrienne Barbeau a ficar muito aquém do que era capaz.

 
Já com a secção de Dario Argento o maior problema é convencer o espectador que o gato, tranquilo e pacholas, é a criatura ameaçadora de The Black Cat. Oscilando entre o giallo e o terror gore, com os toques surreais típicos do realizador, esta secção é a mais forte do filme. A história de terror e morte é actualizada com a relação em dissolução de um fotógrafo e uma violinista. O fotógrafo é especialista em cenas de crime, o que dá a Argento uma boa desculpa para cenas de terror visual puro. É assim que inicia o segmento, com o rescaldo de um assassínio inspirado em The Pit and the Pendulum, ou outro em que um dentista demente viola campas para arrancar os dentes a noivas recém-enterradas.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Visões


Lo and Behold: Reveries of the Connected World (Werner Herzog, 2016)

Não consigo libertar-me da primeira crítica que li a este documentário do lendário cineasta Werner Herzog, no Kottke.org, creio. Dizia algo como famoso cineasta deslumbra-se em conversa com cientistas e líderes tecnológicos, e de facto é uma boa caracterização deste Lo and Behold. Deslumbramento com as origens, infraestruturas e possibilidades do mundo digital é talvez a palavra que melhor descreve um documentário que não parece pretender dar respostas a questões. Antes, é o registo meditativo de um percurso de aprendizagem pessoal, do olhar de um homem - o realizador, à descoberta do que para ele é um novo mundo. É uma perspectiva com a qual empatizo, recordando o meu fascínio crescente com a história da tecnologia digital, da evolução de algo que se tornou prevalente para os nossos dias. Herzog traz o seu olhar muito próprio ao mundo da internet, o que se traduz em entrevistas intrigantes, onde as palavras são contrabalançadas pela capacidade do realizador em captar um misto de fascínio e inocência no rosto dos entrevistados. As suas estéticas contemplativas conseguem traduzir a poesia dos servidores interligados por cabos, nos padrões aleatórios de luzes a piscar com o tráfego binário, ou a inocência humana daqueles com que se cruza. Os seus documentários têm o seu quê de experiência zen.



É sintomática a forma como Herzog inicia Lo and Behold. Com acordes do início de Das Rheingold de Wagner em crescendo, simbolizando o conceito de fluxo, um dos grandes temas inerentes a este documentário, mostra Leonard Kleinrock a contar a história do IMP-1 e da primeira mensagem enviada pela internet. Esperava-se que seria log, de log in, mas o computador receptor no SRI crashou antes de receber a letra g. Nos registos ficou a primeira mensagem ficou registada como lo, que Kleinrock, com o ar deslumbrado de quem reflectiu muito sobre esse momento, refere como parte da expressão inglesa de surpresa lo and behold!, em prenúncio de todo um novo território a desbravar. Suspeito que se dissermos the imp messaged lo, as in lo, and behold, talvez a expressão mude de sentido.

Parte daí uma viagem documentada a diferentes vertentes deste mundo conectado que tanto fascina Herzog. Com a sua maliciosa inocência, tanto entrevista personalidades de charneira como Robert Khan (um dos criadores da arquitectura da internet), Ted Nelson (criador do conceito de hipertexto, nunca na sua opinião utilizado da forma que defende como a correcta), Lawrence Krauss, Sebastian Thrun, Kevin Mitnick ou Elon Musk, como cientistas, especialistas em cibersegurança, astrofísicos, famílias vítimas de bullying online ou os habitantes da zona protegida de radiações perto do rádiotelescópio de Green Bank, que encontram no isolamento radiológico necessário para a ciência a cura para a sua hipersensibilidade às ondas electromagnéticas das redes celulares e wifi. Da origem da internet à robótica e inteligência artificial, Herzog dá-nos o seu retrato deslumbrado do mundo em hoje vivemos. Um mundo em que monges budistas parecem meditar olhando para os estritos confins do ecrã do seu smartphone, onde as  mudanças sociais e comportamentais possibilitadas pelo alastrar das tecnologias de comunicação nos surpreendem e chocam, embora como Lawrence Krauss observa ao extrapolar um futuro de isolamento humano no meio de redes, IA e robots, maybe for them, it will be good, ilustrando a forma como a percepção do que consideramos socialmente bom e aceitável muda com o passar do tempo.

Apesar do deslumbramento, a isenção de Herzog é admirável neste documentário. O fascínio é inerente à descoberta. Habituados como estamos a tecnologias que se banalizaram no nosso dia a dia e simplesmente funcionam, cuja infraestrutura nos passa despercebida, este olhar cheio de sense of wonder recupera o deslumbre pelo progresso tecnológico.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Comics


The Hellblazer #01: Mais um relançamento para John Constantine? Refira-se que o último, interessante e muito bem feito, era talvez demasiado arrojado para os gostos mainstream da DC. Este é mais comedido e regressa às origens do personagem, mas não deixa de fazer sentir que há mundo para lá dos comics. Como neste cartucho sobre Hitler e a sua promessa de make Germany great again. Parece o discurso de um certo candidato à presidência americana, não parece?


Weird Detective #03:  A banalidade do policial procedimental cruza-se com o horror lovecraftiano. O detective weird é um ser extra-terrestre que se incorpora como um polícia corrupto que mantém em coma na sua casa, para combater as miscigenações tentaculares entre criminosos de rua e os descendentes decaídos dos grandes anciãos. Imprescindível, para fãs de tentáculos à Lovecraft.


Wacky Raceland #03: Quando anunciaram que a série de desenhos animados Wacky Races (A Corrida Mais Louca do Mundo em português) iria ser revista pela DC, pensei que seria mais um título legacy act revivalista. Aparentemente, não foi esse o caminho seguido. As aventuras infantis dos corredores com as suas loucas geringonças foram revistas como delírio pós-apocalíptico. De desenho animado infantil com o grafismo tão anos 60 característico dos estúdios Hanna Barbera, passou a uma estética inspirada em Mad Max Fury Road e Desolation Alley. Com uma narrativa a seguir o mesmo caminho. Os excêntricos personagens e os seus absurdos veículos passaram a caricaturas insanas com automóveis delirantes controlados por inteligências artificiais. A hipérbole é tão exagerada, tão over the top que sobe bem acima dos telhados.

domingo, 28 de agosto de 2016

aCalopsia: Sobressaltos


Geraldes Lino (org.), et al (2016). Sobressaltos: Terror por autores portugueses de BD. Europress/Comic Heart.

Abrimos estes Sobressaltos, passamos as páginas do prefácio e somos avassalados por uma espantosa lição de narrativa e gramática da Banda Desenhada. Em três tiras e uma prancha, Joana Afonso consegue contar a sua história com uma eficácia e foco rigoroso, deslumbrando pela capacidade narrativa. Este livro, partindo de um desafio da tertúlia Sustos às Sextas, é uma boa mostra da qualidade gráfica e narrativa da BD que se faz por cá. Crítica completa no aCalopsia: Sobressaltos.

sábado, 27 de agosto de 2016

Pombagira





Fui à loja chinesa e encontrei a luz da religião. Entre os santos e as virgens marias, estes orixás estilo pr0n star em abuso de silicone. Diga-se que andavam por lá estatuetas de Yemanjá a fazer inveja a estas Pombagira. Ao quilo, é só levar para casa e venerar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Zero to Maker


David Lang (2013). Zero to Maker: Learn (Just Enough) to Make (Just About) Anything. São Francisco: Maker Media.

Os livros da Maker Media não são um primor de profundidade e este não escapa à regra. Livros cheios de entusiasmo, que apostam no cativar de um público que se está a iniciar nas aventuras maker e anseia por saber um pouco mais, com guias introdutórios capazes de mostrar algumas das ferramentas desta nova vertente de trabalho e aprendizagem. É esse o seu mérito, e também demérito. A aposta na simplicidade implica que não sejam livros apropriados a quem queira aprofundar conhecimentos. Se descolarmos a epiderme de isto é tudo fantástico e fabuloso com e olhem que é tão simples usar estas ferramentas, pouco miolo resta. Se querem mesmo aprender a usar as ferramentas, não é com estes guias que se safam. E se querem saber mais sobre as implicações deste movimento, do que nos pode oferecer a nível pessoal, profissional, e, no que toca aos meus interesses, educacional, o que estes livros nos dão são curtos vislumbres de possibilidade. Não deixam de ter o mérito de permitir iniciação rápida.

No caso específico deste livro, o autor decidiu elaborar uma crónica da sua aprendizagem como maker. Lê-se como uma espécie de conto de fadas para fazedores, com uma comunidade aberta, elevada tolerância ao desconhecimento e falta de saber técnico, e um mar de rosas no acesso a equipamentos e projectos. Não que a comunidade maker seja fechada ou avessa à partillha, mas as curvas de aprendizagem técnica não são tão suaves quanto este livro faz parecer, nem o acesso a equipamentos tão facilitado. Diria que a afirmação mais perspicaz do livro está logo nas primeiras páginas, quando num curto parágrafo fala do seu mergulho neste mundo e da forma como passou de consumidor a criador. Um percurso espelhado por muitos. O resto do livro são introduções liminares ao conceito, comunidades, tecnologias de trabalho, modelos de negócio, legislação de direitos de autor e, pormenor que me interessou, iniciativas educacionais.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Ghost in the Shell


Masamune Shirow (2006). Ghost in the Shell. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Demorou o seu tempo, mas finalmente li esta obra seminal quer do mangá quer da estética cyberpunk. Ghost in the Shell é o tipo de livro que só poderia ter surgido nos anos 90 do século XX, com o deslumbramento optimista por tecnologias digitais que inspiraram influentes voos de imaginação. Apesar de ser na base uma história de aventuras policiais, este mangá partilha do mesmo espaço conceptual da obra de escritores com Bruce Sterling ou William Gibson. É cyberpunk no seu estado puro, rico na iconografia tecnológica imaginária que desperta tecno-luxúria, aproveitando a diversão para reflectir sobre os impactos sociológicos das tecnologias, e sonhando com uma promessa dual de sentiência e imortalidade digital, assente nos electrões que circulam pelas redes.

As personagens de Shirow transcendem os limites fisiológicos através de implantes tecnológicos, restando do humano original pouco mais do que a aparência, alguns orgãos vitais e a aderência a códigos culturais, embora o final deste volume pareça colocar em causa este último factor em nome de conceitos de evolução transhumanista. Prevalente na série está uma visão abstracta do ser e da humanidade, vista como algo mental e independente do corpo, abrindo espaço ao oposto, ao reconhecer de sentiência e individualidade a inteligências artificiais. Uma visão explorada com rigor, numa narrativa estrutural progressiva que se mantém constante ao longo das diversas aventuras.

E, claro, é um mangá divertido, com as peripécias dos agentes da secção de operações especiais que se ocupa de missões secretas para manter a segurança num Japão futuro. A equipa operacional, liderada pela esbelta cyborg Motoko Kusanagi, é especialista no combate a ameaças cibernéticas e vai deparar-se com uma inteligência artificial que, sentindo-se transcendente, escapou aos seus criadores. Pelo meio vão vivendo aventuras com muita acção e intriga, temperadas por uma forte dose de humor.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Hail Hydra


Um dos defeitos, ou talvez virtude, dos comics enquanto género é a sua repetição cíclica. Os limites são estreitos, e em títulos com longas histórias de edição boa parte dos leitores não conhece o que está para trás. Num meio em que as origens estão constantemente a ser revistas, recontadas, reformuladas e reinventadas, é fácil perder o fio a uma meada acessível apenas aos fãs mais aguerridos de uma personagem.

A tira reproduzida acima saiu da revista Tales of Suspense #65, editada em maio de 1965 e reproduzida no Captain America Masterworks vol. 1. É uma das histórias originais de Stan Lee e Jack Kirby do Capitão América, escrita nos anos 60, quando a Marvel deixou de lado os títulos de western e romance para se focar nos super-heróis. Nesta, segundo capítulo da origem de Red Skull, vemos o impensável: o símbolo máximo do patriotismo americano a jurar fidelidade ao III Reich.


Soa familiar, não soa? Recentemente, o fandom ficou escandalizado por esta surpresa contida em Steve Rogesr Captain America #01. Novo título da Marvel, dedicado ao seu mais icónico personagem, surpreendeu todos graças a esta vinheta em que o sentinela da liberdade revela a sua lealdade à Hydra, organização que combateu desde sempre. O tom geral do fandom era de desilusão. Será que toda a mitologia do personagem iria ser revelada como falsa, anulando décadas de histórias? Bem, sendo o mundo dos comics o que é, claro que a reposta é mais elaborada e previsível. O Capitão encontra-se sob efeito de um artefacto cósmico cúbico, apropriado por Red Skull para lhe alterar as memórias em mais uma das suas vinganças contra o seu arqui-inimigo, que sabemos, pela própria natureza do género, que falhará redondamente.


Nos anos 60, bastou um gás hipnótico para fazer o serviço do cubo cósmico. Claro que o herói irá recuperar a sua memória a tempo de evitar uma catástrofe, que nesta história seria o assassinato de um comandante aliado para facilitar a vida aos exércitos nazis e desacreditar o Capitão. Nestas histórias, Lee e Kirby utilizaram as aventuras na II Guerra para criar o substrato do personagem que recuperaram da antiga Timely Comics. Curiosamente, uma estratégia similar à que foi desenvolvida no universo cinematográfico que a Marvel tem sabido aproveitar bem. O filme que introduziu a personagem ao cinema desenrolou-se nesta época, terminando com o acordar do personagem nos tempos contemporâneos.


E, por falar em Red Skull e cubos cósmicos... na história He Who Holds The Cosmic Cube, publicada na  Tales of Suspense #80, de julho de 1966, o arqui-inimigo do Capitão apodera-se de um cubo cósmico desenvolvido pelos cientistas da Advanced Idea Mechanics, e prepara-se para dominar o universo. Fica-se com a sensação que ao pegar em Steve Rogers Captain America, o argumentista Nick Spencer fez o seu trabalho de casa, releu as histórias clássicas de Stan Lee e Jack Kirby, e remisturou os seus elementos para chocar um fandom desconhecedor do lado mais arcano dos comics. Os comics vivem muito deste remisturar de material antigo, dando-lhe novas roupagens para se tentarem manter contemporâneos.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy



Filipe Melo, Juan Cavia, Santiago Villa (2016). Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy. Lisboa: Tinta da China.

Nunca me teria apercebido do espanto que se tornou esta série, bem como da pedrada no charco que foi no meio da BD portuguesa, se não pelo Amadora BD. Quando surgiu o primeiro volume, o título não me encantou por aí além. "Dog Mendonça e Pizzaboy? que título ridículo", mais um daqueles livros de BD jocosos, a ironizar os comics de super-heróis. Um pouco à semelhança de Luis Louro e o seu O Corvo, pensei, com um traço interessante mas argumentos a perder a durabilidade naquela piada fácil e ironia simplista que agrada no momento mas não sobrevive à segunda leitora. Vertentes que têm o seu espaço e fãs, mas não são de todo as minhas favoritas.

Foi numa edição do clássico festival, numa exposição dedicada ao segundo volume da série, que me apercebi que talvez estivesse errado nesta minha impressão. O momento de clic deu-se ao ver as espantosas ilustrações de Juan Cavia e Santiago Villa, mostrando visões fabulosas de uma Lisboa reinventada para o visual horror retro deste comic. Arrisquei, e rendi-me. Li, ao contrário do que esperava, uma belíssima e divertida história que, apesar de se aguentar por si, é também uma profunda homenagem ao terror clássico no cinema e literatura.

Esta história de merecido sucesso gerou três álbuns inéditos, e algo que, que eu saiba, é completamente inédito na BD portuguesa: a publicação na Dark Horse Presents, revista antológica editada por uma das maiores editoras de comics norte-americana. Haver ilustradores portugueses a trabalhar para as maiores e mais icónicas editoras de comics já não é, felizmente, novidade. Mas histórias portuguesas editadas nos espaços editoriais de língua inglesa são-no, tanto quanto sei. Este é outro mérito conseguido por Filipe Melo com a sua série. São estes os contos coligidos neste quarto volume da trilogia, trazidos ao público português pela Tinta da China como epílogo merecido.

As histórias publicadas na Dark Horse Presents expandem a história do carismático lobisomem de Tondela. São necessariamente curtas, mas conseguem evidenciar os elementos que tornam Dog Mendonça e Pizzaboy numa merecida série de culto: a sublimação da iconografia do terror clássico, claramente alimentada por uma dieta do argumentista composta por demasiados filmes de série B, e um mundo ficcional original, que parte da influência cinematográfica para se afirmar como universo próprio. Sublinham também a combinação qualitativa que deu o sucesso à série: o argumento de Filipe Melo, o traço realista com toque de cartoon de Juan Cavia e a paleta cuidada de Santiago Villa.

Estas três histórias curtas, encadeadas, constituem uma história de origem do personagem e, por extensão, do seu mundo ficcional. Uma narrativa que é temperada por uma selecção cuidada dos elementos mais esgrouviados do horror clássico: lendas de lobisomens, circos de horrores, nazis com propensão para experiências com o oculto, seres monstruosos mas bondosos que vítimas de perseguições implacáveis. Aqui, sublinho o detalhe das notáveis vinhetas de recorte Myazaki com o périplo dos monstros em fuga. Não surpreende, é mais uma das muitas referências ao cinema que abundam nesta obra. Termina com uma aventura curtíssima a brincar com os mitos do Monstro do Loch Ness, que mostra o equilíbrio entre horror tradicional e bom humor que caracteriza a série.

É interessante notar que os autores têm sabido fugir à tentação de dar continuidade à série. Os fãs gostariam, certamente, e suspeito que os editores também não se importariam, mas sente-se que a série terminou no terceiro volume da trilogia, agora completo com contos. A vontade de ler mais aventuras deste universo ficcional é grande, mas conhece-se o risco de se esgotar e banalizar. A continuidade das colaborações entre Melo e Cavia está assegurada, com o recente lançamento de Os Vampiros.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Comics


Brigg's Land #01: Depois de futurismo proto-contemporâneo apocalíptico, o próximo desafio de Brian Wood são as seitas libertárias extremas, armadas com armamento pesado, balas e bíblias. Com uma vertente de abordagem curiosa: o líder, tipicamente desprezível e carismático, está preso, e é a sua habitualmente submissiva esposa que vai tomar as rédeas ao grupo. Intrigante.


Descender #14: Se é bom ler uma space opera com toques cyberpunk, o que dá valor adicional a esta série de Lemire é o traço solto, aguarelado, de Dustin Nguyen. Toca na estética da FC, sem se perder nos barroquismos a que estamos habituados nestas iconografias.