domingo, 20 de Abril de 2014

Estrada fora




Solidão nocturna do asfalto.

Distribuição não-uniforme

(A reciclar textos)

“Utopia” é uma palavra carregada. Está sempre um pouco além do horizonte, a fazer-nos sonhar enquanto caminhamos, porque não queremos escapar ao impulso de construir um mundo melhor e o deixarmos como legado. Podem tentar-nos convencer do oposto, mas não há utopias prontas a consumir, devidamente embrulhadas a vácuo higienizado e prontas a aplicar. Há que as construir, sabendo que são por definição inacabáveis e que o paciente colocar de peças no lugar para criar o edifício perfeito nunca termina. O progresso humano é um fluxo permanente, hoje acelerado pelas ciência e tecnologia em alta rotação, conceitos sociais evoluem, modos de viver transformam-se. Nunca conseguiremos atingir utopias. Felizmente. Se chegássemos à perfeição estagnaríamos, e num mundo pluralista a perfeição de um não tem de ser o sonho do outro. Esta alucinação consensual que é a realidade degusta-se melhor na multiplicidade de visões. Já as utopias, se são inatingíveis como um fim, como processo motivam-nos a lutar por uma contemporaneidade mais justa e avançada.

Somos professores, talvez das profissões mais amargas neste momento de profunda distopia onde os valores iluministas e progressistas estão sob assalto cerrado de forças poderosas, novas variantes de antigos poderes que apreciam um mundo maleável aos seus desejos. Este é um momento em que conquistas que acreditávamos serem já elementares nos são retiradas em nome de uma ideologia de responsabilidade financeira que mal disfarça o revanchismo dos herdeiros das antigas oligarquias dominantes.
Somos professores e estamos na linha da frente do que é de facto uma guerra contra a construção de uma sociedade justa, igualitária e progressista. Tentamos mitigar as baixas que observamos nas crianças, vítimas de um empobrecimento advindo por escolhas políticas. Estamos sob constante ataque à dignidade profissional e laboral. E, de forma insidiosa, ao cerne do que realmente fazemos, com uma constante pressão normalizadora centrada num ensino nivelado pelo menor denominador comum onde só há espaço para a competência mensurável pela estatística, hoje arma afiada na guerra de ideias que sentimos estar a perder. Na tirania dos dados e do back to basics, dizem-nos, não há lugar para coisas acessórias como o sonhar ou culturas que extravasem os estreitos limites do basic. São obstáculos que prejudicam o que nos querem impor como uma bem oleada máquina de aprendizagem elementar. Vive-se um momento crítico. Velhas forças contra-atacam com uma ferocidade quase esquecida enquanto o progresso científico e tecnológico nos dão a possibilidade de um futuro melhor, vislumbrado pelos sonhadores da ficção científica mas hoje tornado possível e quase banal.

Temos responsabilidades acrescidas. Ao combate contra as velhas tiranias reformuladas com respeitabilidade metrificada temos de juntar algo que só faz sentido no dia a dia com os nossos alunos. O não baixar os braços, insistir que há mais mundo para além das visões redutoras dos programas ministeriais, que há espaço e necessidade para a cultura, ensinar-lhes que não têm de se resignar a viver numa sociedade estratificada de elites poderosas e um imenso lúmpen que lhes serve de massa para consumo ou força laboral precária. O futuro existe, mas não está uniformemente distribuído (e isso diz William Gibson, crédito a quem é devido), e temos um papel importante na possibilidade de melhor distribuição.

São estas vertentes que tornam momentos como este Utopias 2014 tão importantes. O seu carácter transdisciplinar, o assumir-se como espaço experimental de aprendizagem, a ênfase no diálogo e discussão de ideias, e, principalmente, a insistência na multiplicidade de expressões culturais e na sua importância para uma educação global. São aspectos que estão sob ameaça na escola esmagada pela pressão deste momento distópico contemporâneo mas que são elementares para a escola enquanto instituição formadora, transmissora dos valores das sociedades em que se insere. É por isto que é perigosa, é por isto que temos de a defender, e reflectir sobre a sua abrangência uma forma de atacar o peso da normalização estatística.

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Erros algorítmicos


O algoritmo de reconhecimento facial a ver para lá do real. Identificou um rosto num pormenor de uma foto tirada à noite à fumarada que avermelha o céu numa fábrica de papel. Existirá por entre o fumo da noite um rosto demoníaco a espreitar? O algoritmo acha que sim.


You had one job! Porque para anunciar um jogo de fantasia medievalista com cavaleiros e batalhas de espada nada melhor que um carro de corrida.

Sad and Damned




À noite, os brinquedos solitários revelam-se arrepiantes. No Museu do Brincar em Vagos.

Analog Science Fiction and Fact Vol. 134, #04


Que boa surpresa, pensei ao entrar na Tema em busca da Interzone e deparar com a Analog. Tive de esfregar os olhos e mirar com atenção, não fosse alguma edição mais antiga que andou esquecida em fundos de colecção e agora estivesse no escaparate a tentar coleccionadores. Mas não, era mesmo a Analog mais recente, e pelo que já ouvi parece que é capaz de regressar aos leitores portugueses. A Asimov seria melhor, no meu ponto de vista que sempre teve um fraquinho por ela, mas a Analog não está nada mal. Até porque são revistas-irmãs. Claro que hoje há formas legais ou nem por isso de ler digitalmente estas revistas, mas nisto há uma certa componente emocional de fisicalidade. Gosto de me deslocar à loja, folhear, e adicionar às prateleiras. É uma fraqueza analógica que ainda me aflige, diria.

Surpreende-me a imutabilidade da revista. Os últimos números que estão nas minhas estantes têm um hiato apreciável com este e pouco, ou nada, mudou. Continua o foco na hard SF, as colunas e momentos editoriais estão no mesmo sítio, e continua a ter um artigo de especulação científica pura para fazer jus ao Fact do título.

A Fierce, Calming Presence - Conto de Jordan Jeffers com algumas variantes interessantes ao western in space. Um ecologista desloca-se a um asteróide colonizado por mineiros na orla do sistema solar para resolver o problema levantado por ataques de gaivotas semi-inteligentes nativas aos colonos. No processo vê-se envolvido numa conspiração para exterminar a vida autóctone no asteróide, aumentado a margem de lucro das empresas de exploração mineira. Esta história de criaturas aladas semi-inteligentes num asteróide nunca é bem (ou sequer) explicada, mas estamos no campo da estética da fronteira do velho oeste transplantada para o espaço, onde as clivagens entre governos centrais e espíritos libertários e um sentido do exótico se sobrepõem ao realismo especulativo de base científica.

Pollution - uma surpresa interessante, misturando robótica, zombies e preconceitos sociais. Num mundo futuro zombies criados por um vírus de preservação de vida, com a massa cerebral inútil substituída por processadores, são uma nova forma de trabalho escravo. Um americano deslumbrado pelo Japão aprofunda o seu conhecimento do país e a sua peculiar cultura enquanto dá aulas de inglês em Nagoya. Responsável por um zombie avariado, trava conhecimento com uma sub-classe de japoneses, tradicionalmente relegados como indesejáveis. E, num clássico final irónico de FC, entra em coma devido a um acidente e é transformado num zombie robótico para passar uma segunda vida como serviçal automatizado. Conto de Don Webb.

The Oracle of Boca Raton - há coisas que se lêem e relêem e fica-se sem preceber sobre o que versam. Nalguns casos são textos de reconhecida complexidade, mas na grande são maioria desastres literários. É o caso deste conto de Eric Bayliss, texto desconexo que não consigo perceber como é que passou o crivo editorial. Vai traindo alguma nostalgia pelo futurismo da FC clássica no meio da algaraviada, mas pouco mais se compreende deste texto.

Wind Reaper - Então e o resto, pensei depois de terminar esta curta vinheta de John Hakes escrita num estilo muito descritivo. Junta como ingredientes futuros pós-apocalípticos e turbinas de vento numa história onde aeronautas especializados em caçar energia de furacões são capturados pelas forças de uma cidade costeira que os acusa de roubar a energia eólica que recolhem no seu parque de aeroturbinas. Soube muito a pouco.

It's Not ‘The Lady or the Tiger?’, It's ‘Which Tiger?’ - a palavra empreendedorismo é o sufuciente para despertar arrepios intelectuais. Ian Stroch cria aqui o sonho húmido dos jovens neoliberais com um pendor para a FC: um eterno empreendedor, que destrói as suas empresas mal começa a ser bem sucedido porque lhe interessa mais o desafio do que a estabilidade financeira e laboral, que é convidado por um seu descendente vindo do futuro a colher os frutos do seu sucesso.

Whaliens - Lavie Tidhar num registo delirante de FC bem humorada. Baleias alienígenas inteligentes que ameaçam destruir a terra se não se puderem converter a uma das nossas religiões (mormonismo e cientologia ficam de parte e tornam-se baleias judaicas), escritores de FC arrebanhados pelos serviços secretos para ensinarem os políticos a lidar com as ameaças alienígenas, e os verdadeiros donos do planeta: gatos com poderes psiónicos, que por detrás da aparência plácida manipualam a vontad dos humanos e se vêem ameaçados pela presença das baleias extraterrestres. Uma sátira auto-crítica cheia de ironia que nos faz sorrir com o dissecar das idiosincrasias da FC e caricatura traços de personalidade dos seus maiores nomes.

Lockstep - A Analog publicou o recente romance de Karl Schroder em episódios, mantendo uma tradição clássica nas revistas do género. Sendo uma parte de algo mais vasto não me atrevo ainda a analisar com cuidado. Fiquei surpreendido pelo conceito - uma civilização que se desenvolve e se espalha pelo espaço graças à criogenia e que se sincroniza num ritmo de hibernações. O que para os seus habitantes são curtas décadas para o mundo em tempo real são milénios, e nesses milénios novas civilizações despontam e novos planetas são abertos à colonização. É uma visão interessante sobre dois elementos clássicos da FC, a hibernação criogénica com os seus efeitos de dilatação temporal e a colonização do espaço interestelar. Por outro lado o motor do romance pareceu-me demasiado centrado nas intrigas familiares dos elementos da família que há décadas-milénios (depende do ponto de vista) liderou o exílio para o espaço e mantém o controle sobre a tecnologia de criogenia.

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Comics: Challengers of the Unknown; Big Baby.


Howard Chaykin (2006). Challengers of the Unknown: Stolen Moments, Borrowed Time. Nova Iorque: DC Comics.

Se Chaykin se distingue pelo seu estilo visual dinâmico há momentos em que o excessivo dinamismo acaba por complicar a leitura. É o caso deste Challengers of the Unknown, que até parte de premissas interessantes mas descamba no estilismo comunicativo do argumentista-ilustrador. A sua revisão a estes personagens clássicos que, volta não volta, a DC tenta ressuscitar sem grande sucesso envolve ex-assassinos programados em luta contra uma conspiração de oligarcas que já domina o mundo. Tem um ponto de muito interesse. A páginas tantas Chaykin coloca-os na lua, onde os oligarcas construíram uma base saída dos sonhos da ilustração dos anos 50. O ilustrador deleita-se a recriar a iconografia clássica das naves, aeronaves, foguetões e design retro-futurista, iconografias que lhe são queridas. conceptualmente consegue tocar na manipulação dos media por interesses financeiros específicos, mas o tom geral de excessivo dinamismo anula as leituras possíveis desta revisão aos clássicos desafiadores do desconhecido. O falhanço torna-se mais evidente porque se percebe o esforço colocado no argumento para levar as aventuras dos personagens para além dos limites desta curta série.


Charles Burns (2007). Big Baby. Seattle: Fantagraphics.

O surrealismo grotesco de Burns está em evidência nesta visão distorcida do bucolismo suburbano vista pelo prisma inocente mas transformado pela cultura pop de horror de uma criança. São histórias do banal macabro transformadas pela visão de Burns em algo que remente para o sobrenatural dos comics clássicos. Não sendo um trabalho tão visceral como Black Hole, vive do grafismo pessoal do autor.

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

O Baile; Living Will #02.


Nuno Duarte, Joana Afonso (2012). O Baile. Lisboa: Kingpin Books.

Tem sido difícil apanhar um exemplar deste livro desde que o vi pela primeira vez, apresentado há dois anos atrás numa edição do Fórum Fantástico. Nesse intervalo a obra já teve espaço de reedição (coisa rara na BD portuguesa), ganho prémios e cativado leitores. E com muito mérito, diga-se, e digo depois de finalmente a ler. 

O Baile conjuga bem um excelente argumento com grafismo na fronteira entre a legibilidade gráfica e o registo artístico de cunho pessoal. É uma perfeita história de terror clássico, com inspirações lovecraftianas e em todos os filmes e contos onde uma aldeia à beira-mar é aterrorizada por misteriosas criaturas maléficas. O enredo do inspector da PIDE, com as suas dúvidas pessoais, que é enviado ao lugar pobre e esquecido para vigiar a pureza ideológica da nação faz a ponte entre a iconografia literária do horror clássico e a realidade histórica portuguesa. Não pude deixar de notar uma certa semelhança conceptual entre este livro e o filme A Promessa de António de Macedo, também este um reflexo da colisão de velhos mitos, condições de vida no Portugal do antigo regime e choques de modernidade. 

O traço de Joana Afonso dá ao livro o carácter fortemente cinematográfico que lhe vem do argumento. Para além do estilo pessoal da ilustradora, realista com um toque forte de expressionismo, há um trabalho muito cuidado de enquadramentos que contribuem para a leitura da história. Este é um livro marcante no panorama da BD e do fantástico em Portugal.


André Oliveira, Joana Afonso (2014). Living Will #02. Lisboa: Ave Rara.

A história de um homem que ao sentir a morte aproximar-se parte em busca de redenção pelo passado é desenvolvida de forma encantadora nesta série. Apanhei o segundo volume, e agora terei de ir, implacável, à caça do primeiro e manter sob vigilância apertada a edição das restantes. Muito boa escrita de banda desenhada ilustrada pelo traço expressivo de Joana Afonso. Se a obra em si e a ilustração já são cativantes o pormenor final do elemento redentor ter sido de natureza aleatória deixou-me rendido à série.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

BD: Les Damnés du Reich; La Main Gauche du Führer; Antinéa.


Richard Nolane, Milorad Vicanovic (2013). Wunderwaffen #03: Les  Damnés du Reich. Toulon: Soleil.

Suponho que deve haver piores desculpas para se ler livros sobre aeronaves de sonho. A história que vai tentando dar fio condutor a esta série envolve as desventuras de um ás dos ares alemão que odeia o regime nazi mas não pode ser eliminado como incómodo ao regime por ser um bom elemento de propaganda. Mas pronto. Não é uma má história mas serve para o que se pretende: ter um espaço narrativo para recriar os projectos de aeronaves futuristas da Luftwaffe em combate aéreo nos céus de uma história alternativa onde em 1946 a Alemanha nazi ainda resiste, graças à superioridade das suas armas avançadas. É nisto que reside o encanto deste livro, para os fãs de aeronáutica, o poder visualizar máquinas voadoras que não passaram de projectos recriadas pelo traço firme do ilustrador.


Richard Nolane, Maza (2013). Wunderwaffen #04: La Main Gauche du Führer. Toulon: Soleil.

A série Wunderwaffen lê-se para saber quais as aeronaves retro-futuristas e outras tecnologias secretas nazis que não saíram das pranchas dos engenheiros. Nos dois últimos volumes o destaque vai para os Focke-Wulfe Triebflügel (aeronaves bizarras com turbojactos nas pontas das asas e capazes de descolar verticalmente). A série redime-se do argumento elementar com algumas vinhetas brilhantes de aquecer o sangue destas aeronaves em combate contra B-29s e Lockheeds P-80 nos céus italianos. Quanto ao argumento em si, entramos finalmente no campo das bizarrias sobre a lendária Neue Schwabenland, a famosa (entre os círculos das teorias da conspiração) base antártica nazi que é o cerne de tantos mistérios da II guerra. Ou lendas. Pessoalmente vejo-as mais como lendas do que mistérios, mas anda por aí muito boa gente que jura a pés juntos sobre a veracidade dos haunebus, vrils, nazis sobreviventes na antártida e outras mitologias na fronteira da dúvidas sobre sanidade mental. São ideários bizarros mas divertidos, de espírito especulativo em estado puro e não contaminado por pormenores do real. Num sentido estrito são perfeitas aplicações do "e se" da ficção especulativa.


Jean-Pierre Pécau, Leo Pilipovic (2013). Le Grand Jeu #06: Antinéa. Paris: Delcourt.

Suponho que as aventuras de Nestor Serge devam agradar aos saudosistas francófonos, com esta visão alternativa de uma França ainda poderosa após o armistício que travou a II Guerra mundial na frente ocidental e que aliou o regime germânico ex-nazi às potências ocidentais contra a ameaça soviética. Algo que até foi um bem conhecido sonho do grande ditador.  Mas a série não fica nestes detalhes, que são encarados como bases de um mundo ficcional onde as bizarras teorias da terra oca são um perigoso segredo que ameaça a humanidade. As aventuras do jornalista, instigadas por uma eminence grise do Eliseu, levam-no aos recantos obscuros do planeta onde eventos misteriosos sinalizam a existência de entradas para o mundo subterrâneo. Desta vez vamos para uma Argélia ainda colónia mas com pulsões independentistas onde um massivo rochoso no deserto oculta uma civilização perdida dominada por uma milenar mulher fatal, uma de muitas variantes da Ayesha de Ridder Haggard. A série tem premissas interessantes mas o desenvolvimento narrativo arrasta-se. Edições anteriores tinham como bónus o trabalho do ilustrador a dar corpo às visões de tecnologia retro-futuristas. Nesta nem isso, embora as rainhas de reinos perdidos sejam uma boa desculpa para recuperar a iconografia do exótico selvagem das velhas histórias passadas nas profundezas das áfricas.

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Comics


Coffin Hill #07: Era o título que eu pensava ser menos prometedor neste insuflar de novo fôlego na DC-Vertigo. Se Trillium foi genial e Sandman Overture corresponde às expectativas, Hinterkind vai acumulando criaturas na esperança de captar a atenção dos fãs de comics estilo Fables e Federal Bureau of Physics, apesar de ter umas ideias interessantes e se basear na normalidade das realidades distorcidas, não consegue agarrar-me como leitor. Já Coffin Hill prometia não passar de uma história de terror em contornos clássicos, com famílias misteriosas, bosques assombrados e bruxas dilaceradas por dilemas existenciais. De facto não passa daí, mas vai-se adensando com uma notável solidez literária evocativa do espírito da literatura de horror. A série tem sabido manter o interesse e a consistência ao longo das suas edições.


East of West #11: Chineses na Califórnia. Confederados do Sul. Texanos republicanos. Norte federado. Reino dos escravos negros libertos que dominam o petróleo. O que é que faltava no weird wild west de Hickman? Os índios, já que variantes de cowboys há e de sobra. Ei-los chegados, com os seus toucados cibernéticos para um conclave decisivo desta realidade alternativa que procurar colapsar-se sobre si própria.


Flash Gordon #01: Adivinharam. Editado pela Dynamite, que se especializa em recuperar os personagens clássicos. Nada de novo por aqui, mas não consigo deixar passar despercebido o toque lovecraftiano destes krakens gigantes que ameaçam a nave de Flash na sua fuga aos soldados do impiedoso Ming.


Captain Marvel #02:  Space opera com... gatinhos? Esta nova iteração da Capitã Marvel não tem medo das aventuras no espaço à moda antiga. Mas isto de ser dona de um gato mal humorado é uma chatice. Ninguém na Terra quis enfrentar as unhas afiadas deste felino. Resta à capitã enfrentar os perigos do espaço profundo com o seu gatinho ao lado. E ter de aturar um membro dos Guardiães da Galáxia que tem uma alergia especial a gatos, mitigada por tiroteios na direcção geral dos bichos.

domingo, 13 de Abril de 2014

Anicomics 2014


Com pena minha tenho falhado consistentemente em visitar o Anicomics. As datas calham sempre em momentos de sobrecarga ou congressos, o que explica esta ter sido a minha primeira vez neste evento dedicado à cultura bedéfila de anime e comics.


Confesso que... esperava mais. O evento é interessante, mas o espaço da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro revelou-se exíguo para tantos participantes. O acesso ao auditório para visitar o concurso de cosplay era missão impossível, nos espaços de atelier e comerciais os visitantes acotovelavam-se. O conjunto de actividades oferecidas não é assim tão elevado que justifique um preço de entrada que está mais para cá do significativo do que do simbólico. É um evento independente e privado, eu sei, mas mesmo assim o preço de acesso é um pouquinho elevado para quem vem visitar. É que depois de dar uma volta pelos stands, aproveitar para comprar alguma BD ou manga e contemplar os cosplayers, não há assim muito mais que se possa lá fazer dentro de um espaço minúsculo. Para ser justo, é de sublinhar que foram organizados workshops e torneios de jogos digitais e de mesa.


Tive alguma dificuldade em descortinar os comics no meio de tanto anime, mas existiam e sempre deu para (finalmente) trazer uns livros ilustrados pela Joana Afonso que tinham lugar cativo nas minhas estantes. De resto, a oferta livreira estava direccionada aos fãs de manga, escolha comercial compreensível dado o público-alvo do evento.


Os cosplayers, vestidos a rigor como os seus personagens favoritos, deram o maior gosto a este meu pulinho ao Anicomics. É de elogiar o cuidado e rigor que os fãs colocam na recriação dos seus personagens favoritos. Alguns estavam um verdadeiro deslumbre.


Para mim, o espaço mais interessante no Anicomics foi a zona de exposições de pranchas originais, com alguns trabalhos de excelente qualidade e outros muito prometedores. Eu sei. Com tantos fanboys e fangirls é um bocadinho difícil de o ver. Sublinho aqui que apesar de ser um belíssimo espaço a BMOR torna-se exígua nestes acontecimentos. Já se sentiu isso no Fórum Fantástico.

É bom haver um evento em Lisboa que vá além do classicismo do Festival de BD da Amadora, e isso nota-se na afluência dos jovens fãs de manga e fantástico. A pouca oferta livreira desiludiu-me (mas tranquilizou a minha conta bancária), o empenho e entusiasmo dos fãs encantou-me, o espaço atravancou-me e o preço do bilhete de entrada deixou-me a resmungar. Pese embora os lados menos positivos destaque-se o Anicomics pelo seu carácter independente e direccionado ao fandom.

A Promessa




No átrio superior da Cinemateca está uma pequena exposição sobre o Cinema Novo onde, para além de cartazes, fotos de produção e material cinematográfico utilizado nalguns dos filmes mais importantes do movimento, podemos deliciar-mo-nos com esboços e desenhos de produção de António Casimiro para o filme A Promessa de António de Macedo.

sábado, 12 de Abril de 2014

encerrar...



(mete em pausa, vá.)

Utopias 2014


Foi assim, neste sábado passado no Centro Cultural de Cascais, onde decorreu o workshop Visões de Utopia no âmbito do Utopias 2014. Seis participantes a descobrir um vislumbre da vasta história da FC, a folhear o que se fez e se faz por cá nos domínios da FC & F, e ideias arrojadas a serem reconstruídas e intepretadas em micro-ficções e vinhetas gráficas. Foi uma experiência muito recompensadora. Apesar de estar a falar sobre temas que me intrigam e um género literário que me apaixona estava muito longe da minha zona de conforto no que toca a dinamizar workshops. Das vezes que já o fiz teve mais a ver com colocar professores a descobrir que o 3D não é tão difícil quanto isso do que fazer algo no campo literário. Fui como leitor e fã, para partilhar ideias e desafiar os participantes a brincar com percepções sobre tecnologias de vanguarda que nos prometem futuros. Espero que tenham gostado. Fiquei com a sensação que sim.


Foram dois dias dedicados a respirar ideias. No meu caso dia e meio que tinha uma aula que queria mesmo dar e optei por faltar à primeira manhã do Utopias. Fui recompensado com um belíssimo wokshop de fotografia que me fez pensar no que significa o acto de fotografar e aprender elementos técnicos sobre máquinas com que até agora nunca me tinha preocupado. No dia seguinte, para além desta maravilhosa oportunidade ainda assisti a espectáculos que impressionavam pela qualidade - o grupo de teatro distinguiu-se pela sua fortíssima expressividade e uma conversa final onde Teresa Ricou nos recordou a importância de arregaçar as mangas e não desistir, Paulo Guinote traduziu o espírito de revolta de uma classe profissional e Valter Hugo Mãe nos recordou qual a real importância da escola pública: assegurar, ou pelo menos tentar, igualdade de oportunidades.

Dois dias de partilhas num modelo de formação de docentes diferente do usual, sem discursos impostos e a convidar a parar para reflectir. Também dois dias cinzentos de chuva que terminaram com o raiar do sol no final do Utopias. Será uma metáfora?


Parece, mas não, não passei o tempo a ler os livros e revistas de FC e fantástico portuguesas que ensaquei e acartei para o espaço que me foi destinado no Centro Cultural de Cascais. Os responsáveis do Centro, quando lá passei a fazer o reconhecimento prévio do espaço no dia anterior, disseram-me que aquele era o espaço possível porque era o único onde havia uma parede branca para projectar. Sem o saber fizeram-me um favor. Teve um gostinho especial conversar sobre estes temas no meio da obra pictórica do Pedro Zamith, tão próxima das estéticas da BD e dos comics.

A imagem foi do momento de trabalho, onde os participantes iam escrevendo micro-contos e íamos conversando sobre os livros que estavam disponíveis para pegar, folhear, ler e descobrir o nosso manancial do género. É interessante ver como o design do Almanaque Steampunk deslumbra quem nele pega, que a Bang! desperta a atenção pela sua existência, e que todos têm memórias da lendária colecção de capa azul da Caminho. Tinha planeado que o workshop terminasse com uma hora dedicada à leitura, mas acabou por se desenrolar em leituras e conversa sobre ideias de futuros.


Em breve ficarão online as notas e materiais que organizei para o workshop. Já o ebook vai demorar mais um pouquinho. Há que transcrever os textos. E também preciso de descansar um pouco. Mas não muito, que os meus relógios cerebrais já me recordaram que outros desafios estão a aproximar-se dos prazos de necessárias conclusões.

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Leituras

Who Will Guard The Geeks?: John Naughton sobre o recente romance Flash Boys.  Provoca arrepios pensar em sistemas de inteligência artificial dedicados à especulação no mercado financeiro que operam em milisegundos. Sistemas intencionalmente desenvolvidos como predatórios sem supervisão por comités éticos, como observou David Brin há pouco tempo. Ficção Científica? Não, indústria rentável. Se há coisas chatas com este fluxo de inovação permanente é que mal imaginemos um futuro improvável há alguém que o já o esteja a desenvolver e implementar. E outros a lucrar.

The Long Journey: Arquivar na categoria "coisas fantásticas que se fazem". É uma história de banda desenhada, contada como um infindo scroller que nos mergulha sem parar em níveis cada vez mais profundos. Quer pelo conceito quer pela estética 8bit, este é um webcomic que surpreende.

If all stories were written like science fiction stories: Faz sorrir, até porque é certeiro. Estão cá expostos todos os vícios da FC, desde a narrativa-périplo ao foco nas tecnologias e os infodumps. Mas é mesmo isso o que a torna interessante e intrigante. Nem todas as ficções têm de ser entretenimento ou exposições de estados de alma. O grande valor da FC está neste carácter especulativo com vertentes didácticas e técnicas. Já agora, como seria uma história de ficção científica escrita como literatura mainstream? Mas eu nisto sou suspeito: adoro os momentos em que o autor, através do discurso das personagens, se dirige ao leitor para lhe demonstrar os voos conceptuais dos infodumps.

The Next Arab-Israeli War Will Be Fought with Drones: Bem vindos ao admirável mundo novo da jihad robótica. Não são só estados a investir em frotas de aeronaves semi-autónomas. Grupos terroristas e estados-pária já se aperceberam do potencial militar de uma tecnologia relativamente barata face aos desafios do armamento high tech convencional. E não se ficaram pelas teorizações.

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

Dylan Dog, Trash Island; The Celestial Bibendum


Luigi Mignacco, Nicola Mari (2013). Dylan Dog #328: Trash Island. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Sendo personagem icónico Dylan Dog já cativa pela sua aura. Mesmo que as suas aventuras sejam mais fracas se comparadas com os pontos altos da série, o personagem já se solidificou na consciência cultural popular. É o caso deste Trash Island, que se resume a um périplo onde Dylan e outros investigadores do oculto atravessam uma ilha assombrada por zombies, máquinas assassinas e plantas vivas que serve de zona de treinos de artilharia da marinha britânica. Pensando que vão à ilha resgatar pessoas desaparecidas, foram na verdade cooptados por agentes secretos militares que sabem que não têm outra forma de convencer místicos e ocultistas a atar as pontas soltas de uma experiência de militarização do sobrenatural que correu mal. Se bem que esta é uma revelação que só nos é dada, de chapa, no final. É um bocadinho enervante ler algo que se vai arrastando ao longo de dezenas de páginas para acabar resolvido em três ou quatro pranchas. Mas é Dylan Dog, que é sempre um prazer ler, por isso até se desculpam os momentos mais banais.


Nicolas de Crécy (2012). The Celestial Bibendum. Paris: Humanoids.

A espectacularidade do traço de de Crécy dá o lustro a esta série de um profundo weird surreal. A história não é algo que se explique, vivendo de um absurdismo com vertente de crítica política e social em caricatura grotesca das normalidades instituídas, contada através das desventuras de uma foca deslumbrada que atraca nas glórias urbanas da majestosa Nova Iorque-no-Sena. São notórias influências do urbanismo decadente retro-futurista de fin de siècle, dos estilos gráficos de George Grosz e Mattotti e do surrealismo literário de Ligotti e Queneau. O livro é visualmente deslumbrante, estando ao nível do melhor do trabalho de Nicolas de Crécy, mas o carácter bizarro da narrativa é levado a extremos por vezes excessivos.

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Red Sonja: Queen of Plagues


Gail Simone, Walter Geovani (2014). Red Sonja Volume 1: Queen of Plagues. Mt. Laurel: Dynamite Entertainment.

Nunca imaginaria dar quatro estrelas (valha o que isso valer) a um comic de fantasia épica sexista, baseado num clone banal de Conan com formas voluptuosas para deixar adolescentes babados. Mas o humor seco de Gail Simone, a dar um toque extra a um argumento típico do género, convenceu-me. A argumentista até consegue quebrar o estereótipo da personagem e colocar Red Sonja vestida com roupas mais apropriadas às suas aventuras do que o bikini de cota de aço sobre a pele nua com que costuma ser representada.

Gail Simone atraiu a atenção ao ser despedida da DC por ter sido demasiado explícita na sua abordagem à homossexualidade de Batwoman. Explícita não em termos eróticos, note-se, que isso seria bem tolerado pelos leitores, mas na vertente emocional com uma forte dose de realismo a temperar a ilustração fluída de JH Williams. Os fãs de comics ficaram com um arranque memorável de uma série DC'52 e a Dynamite apressou-se a contratar a argumentista, dando-lhe para as mãos esse outro bastião de iconografia pensada para despertar a baba na boca dos adolescentes que é Red Sonja, clone feminino de Conan criado por Roy Thomas, tomando algumas liberdades com o universo ficcional de Robert E. Howard.

Simone consegue afastar-se da abordagem mais previsível à série. Temos aventuras passadas no ambiente de fantasia bárbara medievalista da série, mas a sublinhar um fortíssimo carácter feminista. A visão fascinante do corpo escultural coberto por um reduzido bikini de cota de malha fica-se mesmo pelas capas. Simone nota o absurdo da armadura e veste a personagem. Nem vale a pena descrever as roupas. Basta escrever que a veste para se perceber que estamos perante um desvio radical do esperado neste género de comics. E ainda a dota de características tipicamente masculinas, como um gosto desmesurado por tascas e oblívio viti-vinícula.

A história mete-se pelos caminhos ínvios das disputas entre reis benévolos e forças malévolas, entre os homens e as criaturas inferiores da era hiboriana. Destaca-se o humor seco com que Simone nos vai contando as aventuras. Basta um comentário espirituoso para nos levar a conhecer situações que outro argumentista espalharia por algumas dezenas de pranchas.

Os homens estão ausentes destas aventuras. Simone extermina-os convenientemente no início, restando a imagem de um rei bondoso e alguns personagens malévolos. É às mulheres que cabe o papel de heroínas, e se Sonja o é por inerência, Simone dá destaque ao crescimento em coragem e decisão de duas jovens desastradas mas bem intencionadas que, contra o que se esperaria, acabam por liderar o seu povo e libertar-se do jugo de forças invasoras.

Com toda esta carga de carácter e vertentes de interpretação, não deixa de ser uma boa história de aventuras de espada e feitiçaria. Uma boa surpresa, pedrada no charco das estereotipias do género.

Novo normal

Eugenia de mercado liberalizado, mudar o mundo real para ficar conforme a visão de  um robot, os financeiros fazem malabarismos com o dinheiro dos outros mas o que assusta são g33ks e os seus algoritmos. Bom dia. Este é o novo normal.

"Australian bioethicist with a cheeky look in his eye, who’s not ashamed to say that he is ‘genuinely confused’ by the implications of his own work. Rob’s worried that some thinkers in the transhumanist movement are ushering in a world of ‘free market eugenics.’ He is particularly vexed by the principle of ‘procreative beneficence,’"

Ou seja, o aperfeiçoamento genético (ou a mera resolução de problemas de saúde através destas terapias) requer dinheiro. Mais do que o acessível ao comum cidadão. A leitura é óbvia: o eterno risco do fosso de desigualdades ganha aqui uma vertente arrepiante. Combinando genética, tecnologia e afluência financeira, poder-se-á conceber uma futura humanidade dual, onde os ricos e poderosos são de factos humanos aperfeiçoados e o homo sapiens natural como espécie secundarizada numa distopia transhumanista? É que levando em conta o historial comportamental das elites, quer sejam aristocracias, oligarcas ou uns por cento, esta é uma ideia de mau augúrio para o resto. Particularmente para aqueles que sentem na pele o esmagamento em nome da ideologia austeritária de décadas de progresso social.

"... strong shadows had foxed Hans Moravec’s attempts to achieve autonomous motion in  an MIT robot called the Cart. ‘The Cart got very confused about its model of the world, and Hans had to run out and fix the world occasionally so that the internal model was a little more accurate – it was easier to change the real world than to change the Cart’s internal model of that world.’"

Mark Stevenson (2011). An Optimist's Tour of the Future. Londres: Profile Books.

Deliciosa esta visão de modificar o real para ficar em conformidade com as restrições da visão virtual. Não significa que seja um padrão a seguir, apenas sublinha as dificuldades enfrentadas pela robótica e inteligência artificial para replicar algo que nos é natural. Mas citado fora de contexto... uma delícia provocatória. Duas citações do divertido e provocatório An Optimist's Tour of the Future de Mark Stevenson.

"I’d thought it strange, after the financial crisis, in which Goldman had played such an important role, that the only Goldman Sachs employee who had been charged with any sort of crime was the employee who had taken something from Goldman Sachs. I’d thought it even stranger that government prosecutors had argued that the Russian shouldn’t be freed on bail because the Goldman Sachs computer code, in the wrong hands, could be used to “manipulate markets in unfair ways.”"

Michael Lewis (2014). Flash Boys. Nova Iorque: W. W. Norton.

O romance Flash Boys anda a circular na infoesfera, intrigando os digerati por abordar em ficção a complexidade e estranheza futurista do trading financeiro algorítmico. O John Naughton, não sendo o primeiro a olhar para o livro, é particularmente acutilante. Logo nos primeiros parágrafos da introdução damos com esta crítica profunda aos vícios sistémicos da lei e das finanças. Bom augúrio. Talvez Lewis seja daqueles romancistas populares que, como Daniel Suarez, conseguem abordar o futurismo alastrante embrulhado em thrillers para consumo literário de massas. Resta-me ler o resto para perceber se a intuição sobre os mercados financeiros entregues ao automatismo de algoritmos é profunda ou se fica pelo adereço ficcional.

terça-feira, 8 de Abril de 2014

Visões de Utopia: Percepções sobre Ficção Científica


Apontamentos para o Ateliê Utópico Visões de UtopiaUtopias 2014. Nota inicial: este texto reúne apontamentos sobre a evolução do género, reflexões sobre a vertente conceptual, listagem de sub-géneros e hiperligações para recursos web sobre ficção científica em Portugal. Foi criado no âmbito do Utopias 2014 para contextualizar o atelier Visões de Utopia. Não pretende ser um estudo aprofundado sobre o género. Funciona como introdução ao seu espaço de ideias numa perspectiva de reflexão sobre desafios contemporâneos extrapolandos para futuros imaginários. Agradeço ao João Campos pela revisão à última hora e preciosas sugestões. Não sendo eu académico desta área, nem este texto tem essas pretensões, sublinho que o que aqui é dito é passível de discussão.

1. Ficção Científica: breve apontamento histórico


A relação entre tecnologia e progresso humano (Brynjolfsson, McAffe, 2014)

Comecemos por um gráfico publicado nos primeiros capítulos do livro The Second Machine Age de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, que está longe da especulação ficcional. É uma análise que oscila entre o arrepiante e optimismo excessivo sobre o impacto da tecnologia de vanguarda na nossa sociedade. Imaginemos a automação algorítmica e robótica a destruir empregos, ou a hipervigilância de um mundo coberto por sensores baratos capazes de monitorizar e recolher quantidades gargantuescas de dados sobre tudo o que fazemos, e temos uma ideia sobre onde o livro toca.

O que torna o gráfico interessante do ponto de vista da FC é a forma como, de acordo com os autores, a partir da revolução industrial a curva do índice desenvolvimento humano dispara, demonstrando impacto da tecnologia no progresso humano (Brynjolfsson, McAffe, 2014). Nesta época começou a afirmar-se a ideia que progresso científico geraria progresso tecnológico e social, substrato do qual podem nascer visões que especulam sobre futuro possíveis.

É curioso observar que mais ou menos no momento em o gráfico dispara, nos primórdios da era industrial, foi publicado aquele que alguns consideram como o primeiro grande romance de ficção científica: Frankenstein, de Mary Shelley (Aldiss, 1988). Parece-nos uma ideia estranha, uma vez que estamos habituados a concebê-lo como uma obra de horror, mas o romance está na confluência do romance gótico com visões proto-científicas. A história não se explica através do ocultismo mágico e baseia-se em possibilidades científicas, na responsabilidade, arrogância e consequências imprevisíveis do progresso num romance-périplo que leva o leitor numa viagem dupla por entre cenários fantasistas e ideias progressistas.
Entre textos mais antigos que exploram diversas temáticas que irão coalescer na Ficção Científica podemos encontrar os périplos inter-planetários satíricos de Luciano de Samosata, Kepler e Voltaire, ou os proto-universos paralelos de Margaret Cavendish. A venerável tradição das utopias e distopias dispõe-se num arco literário que inclui Platão, More, Swift, Defoe, Butler e Zamiatin.

O percurso da ficção científica inicia-se a partir das raízes das narrativas utópicas e das viagens extraordinárias (Aldiss, 1988), tendo evoluído a partir de histórias com preocupações morais e sociais para se focalizar na importância da ciência enquanto elemento-chave em voos imaginários construídos a partir de especulações de bases científicas, ou visões de menor rigor mas inspiradas no progressismo positivista da tecnologia. Estas são os elementos ficcionais do romance de aventuras de Verne e nos romances científicos de H.G Wells. Estas obras ainda não são o que em definitivo se veio a considerar ficção científica, mas apontaram caminhos e traçaram linhas narrativas que actualmente ainda são exploradas.

Do cerne da obra destes autores evoluíram histórias de guerra futura, narrativas apocalípticas de uma humanidade extinta ou em vias de extinção, Edisonades, histórias sobre as aventuras de engenhosos inventores, histórias de aventura em terras exóticas. No processo de desenvolvimento da Ficção Científica enquanto forma de literatura popular ciência e tecnologia são os elementos que as distinguem de outras formas, atraindo os leitores e seduzindo-os com sonhos tecno-utópicos. Este progressivo incorporar de elementos científicos culmina nas narrativas pulp ao estilo de Hugo Gernsback, editor da Amazing Stories, talvez o primeiro a definir o conceito de ficção científica, e firme defensor de histórias onde o imaginário do artefacto tecnológico é o cerne da narrativa (Stableford, 2003).


Sonhos de aventuras nos territórios exóticos do imaginário: Flash Gordon por Al Williamson

Podemos encontrar o berço do que hoje consideramos FC na tradição das revistas pulp dos anos 20 e 30 do século XX. As obras seminais dos grandes autores da era clássica do género tiveram a sua génese como contos nestas publicações, algumas das quais ambicionavam abertamente sair do recanto de publicações de qualidade baixa que viviam da reimpressão de contos clássicos e obras simplistas de autores hoje esquecidos. Começam nesta época a traçar-se algumas das clivagens profundas ainda hoje observáveis no género: a concepção de uma Ficção Científica didáctica e centrada na tecnologia do editor Hugo Gernsback, o foco nas preocupações literárias expressas pelo trabalho de edição de John W. Campbell, e a clivagem entre visões críticas da FC como literatura de entretenimento e como forma de expressão literária por direito próprio, centrada na interpretação da influência da ciência e tecnologia sobre a humanidade nas suas diferentes dimensões.

Associamos ao pulp histórias formulaicas de aventuras futuristas, onde a plausibilidade não é importante e a prosa é muitas vezes sofrível. Mas formou mentalidades, criou públicos, e permitiu aos escritores mais ambicioso desenvolver FC com um misto de preocupação literária, pensada a partir de ideias e ambientes que não são necessariamente dependentes de um artifício tecnológico, e uma visão de análise especulativa dos impactos científicos e técnicos no ser humano.

No ponto mais alto desta tradição de publicação em revistas observamos a fortíssima influência da revista inglesa New Worlds dirigida por Michael Moorcock, que fez a ponte entre uma FC clássica, centrada num optimismo tecnológico e em visões de aventura para uma FC mais madura, de crescentes ambições literárias e que se inspira e busca influências no surrealismo, dadaísmo, modernismo e realismo mágico. Se hoje as fronteiras narrativas do que é FC são difusas e abrangem muitas formas que estão próximas da literatura convencional, tal deve-se ao trabalho de Moorcock a estimular a publicação das obras fortemente experimentalistas de J. G. Ballard e outros escritores da New Wave que redefiniu o género (Aldiss, 1988).

Esta revista marca o ocaso da FC pulp e a génese da FC enquanto género literário ambicioso, capaz de ao mesmo tempo se dedicar à exploração dos seus temas próprios e apostar na complexidade narrativa e estilística. O livro-romance torna-se a forma preponderante no género, embora a tradição do conto persiste na publicação de antologias, que mantém viva a memória do género enquanto dão voz a escritores novos e consagrados.

A afirmação da FC publicada em livro inicia-se nos anos 50. O advento do formato paperback permitiu aos editores lançar no mercado livros a baixo custo em competição directa com as revistas coligindo contos previamente publicados em pulps agora empacotados como romances, caso de livros como The Martian Chronicles de Bradbury, I Robot ou Foundation de Asimov, que se tornaram referências do género.

Os caminhos temáticos do género começam a caracterizar-se pela complexidade com que abordam realismo científico, especulação informada, visões utópicas, distópicas ou transformativas. Com temas e vozes literárias definidas o género atinge a maturidade nesta época (Aldiss, 1988) em que o optimismo começa a esfumar-se perante o rescaldo da II guerra e das novas super-armas capazes de destruir a humanidade. Perdeu-se a fé cega no progresso e na perfeição tecnológica, sucedem-se visões de mundos pós-apocalipse nuclear de franco negativismo e paranóia. Esta perda de inocência abre caminho para tendências como a relativização do real, space operas que recuperam o exotismo da aventura em largos panoramas, a exploração profunda de questões sociais e sexuais utilizando o outro ficcional como metáfora para reflectir sobre problemas reais, experimentalismo literário de base modernista do new wave, ou revisões históricas à luz de hipóteses remotas que alterariam a estrutura do real percuro da história.

Esta evolução conceptual é mais visível no tratamento das questões de género, que evolui da misoginia e infantilidade pubescente na FC clássica para visões fluídas e arrojadas. Esta erosão do tradicional foi trazida por autoras que desafiaram a prevalência masculina na FC e nos têm vindo a legar visões que vão do feminismo assumido à fluidez relacional.

A Ficção Científica evolui nos mercados, com alguns dos seus autores a atingir o estatuto de super-estrela literária com sucessos garantidos de venda. Nos anos 80 emergir do movimento cyberpunk redefine o género, com uma forte componente intelectual virada para uma visão de futurismo hipermoderno digital experimentalista e fragmentário próximo da visão pós-modernista, trazendo o reflexo do modernismo de Ballard para o então novíssimo mundo digital.

Hoje, o género é ao mesmo tempo uma ficção popular de mercado alargado e um palco de experimentação. As fronteiras literárias estão difusas e o intercâmbio entre FC, fantasia, horror e o realismo mágico é tema comum nas obras mais ambiciosas. Persistem as divisões vindas da era pulp entre uma FC mais virada para o entretenimento, um aprofundar da sensibilidade literária e o focalizar na especulação informada reflectindo as problemáticas contemporâneas, em especial no que toca aos impactos da modernidade tecnológica nos sistemas sociais.

É importante sublinhar que se o grosso da FC tem uma fortíssima influência anglo-americana, por questões de afinidade cultural, mercados editoriais, sensibilidade científica e da própria história da evolução do género, este não se resume aos autores ingleses e norte-americanos. A tradição francesa de edição espelha em grande parte a mais conhecida vertente americana, com o género a florescer pós-Verne e Robida em revistas especializadas e colecções editoriais, caso da Fleuve Noir Anticipation, que publicou ao longo de quarenta anos autores como P. J. Hérault ou Serge Brussolo, entre outros criadores de séries marcantes. Omale, de Laurent Genefort, Aurorarama de Jean-CristopheValtat ou La Mécanique du Coeur de Mathias Malzieu são algumas das obras de autores contemporâneos a extravasar o espaço da francofonia com edições internacionais. Também na Alemanha, onde a tradição do fantástico ficcional conta com Kurt Lasswitz como contemporâneo de Wells e Verne, podemos encontrar vozes como a hard SF cosmopolita de Frank Schätzing e a série episódica Perry Rhodan, editada continuamente desde os anos 60 do século XX e que conta agora com sensivelmente quatro mil números, sendo a mais longa série de ficção científica literária em todo o mundo.

Nos dias de hoje assinala-se o surgir de uma ficção científica de voz global, com autores vindos dos quatro cantos do mundo a conquistar espaço e leitores, enriquecendo o género com sensibilidades estéticas e conceptuais que se afastam da visão anglo-americana que historicamente caracteriza o género. Escritores como Lavie Tidhar (israelita), Ken Liu (japonês), Aliette de Bodard (francesa) e Lauren Beukes (sul-africana) recebem prémios de referência, bom acolhimento pela crítica especializada e afirmam-se num mercado global que utiliza o inglês como lingua franca. Autores de países com fortes tradições de edição de ficção científica são traduzidos para um mercado crescente de leitores que procuram sensibilidades literárias culturalmente diferentes da tradição clássica. A esta tendência não são alheias as colectâneas temáticas de contos que misturam autores novos e consagrados, e as sucessoras das revistas pulp como espaço de primeira publicação quer em edição tradicional quer em formato digital.

Para o grande público a face mais visível do género está no cinema, onde a sua presença se assinala logo nos primeiros tempos do cinema. Esta épica legou-nos clássicos do grande ecrã, desde a sátira inocente de Voyage dans la Lune de Meliès, à precisão de Frau im Monde ou à absoluta distopia industrial de Metropolis, ambos de Fritz Lang, à utopia científica de raiz iluminista de H.G. Wells em Things to Come de Alexander Korda.

Até aos anos 50 o cinema de ficção científica dependia dos argumentos e de efeitos especiais que transmitiam a sensação de estranheza dos mundos ficcionais através de cenarismo e dos processos mecânicos de filmagem. A partir dos anos 50 aprofundam-se os temas dos argumentos, com o surgir das visões radicais e do cinema de série B, bem como a complexidade técnica dos efeitos especiais. O cinema espectáculo de FC firmou-se no imaginário popular com obras como 2001 de Kubrick, Alien de Ridley Scott e Matrix dos irmãos Wachowsky. Críticos do género apontam o desequilíbrio entre a raiz literária, pujante mas restrita às comunidades de fãs, e a popularidade do género no cinema de massas, que aproveita a iconografia da ficção científica como elemento decorativo de aventuras de acção ou policial. A FC como adereço possibilitada pela extraordinária evolução da indústria de efeitos especiais caracteriza a larga maioria dos filmes contemporâneos, apesar de excepções como o recente Gravity de Alfonso Cuáron, que ressuscita o puro sense of wonder da exploração espacial, ou The Congress, que nos obriga a reflectir sobre problemáticas contemporâneas de substituição da força laboral humana por meios de automação algorítmica e o espaço abstracto das redes digitais.

A estética da FC ultrapassou os limites literários e afirmou-se no cinema, banda desenhada e em particular no novo media dos jogos de computador. O seu espírito de extrapolação e reflexão  também se encontra para lá das fronteiras dos livros, fazendo-se sentir na exploração do futurismo, nas antevisões especulativas da design fiction, e nas fronteiras do experimentalismo digital de vanguarda. Olhando com nostalgia para a inocência os tempos dos monstros de olhos esbugalhados combatidos por heróis de queixo quadrado empunhando armas de raios e voando com jetpacks, a FC soube continuar a questionar os progressivos desafios que a evolução social e tecnológica veio trazer à humanidade, levando-nos a compreender os dilemas do tempo presente através do imaginar de futuros plausíveis.

2. FC e contemporaneidade


Megatendências vistas como elementos de tabela periódica (Watson, 2012)

Porquê ler Ficção Científica? A primeira resposta é visceral. É divertida. Como resistir à sedução de histórias empolgantes que nos levam ao espaço profundo, ao passado distante, usar tecnologias inauditas, ou conceber o inconcebível?

O mundo contemporâneo em que vivemos é constantemente desafiado pelo novo. Todos os dias nos somos bombardeados com relatos de novas tecnologias, transformações sociais radicais, inauditas maravilhas da ciência que alteram as nossas percepções do real e do possível. Emergem novas profissões, impensáveis há poucas décadas ou anos. As tradições esvaem-se numa modernidade unificada por meios de comunicação à escala global. Ferramentas tecnológicas pervadem o nosso dia a dia, desde os objectos de uso pessoal às infra-estruturas massivas do mundo globalizado. Dependemos de satélites para nos orientarmos nos labirínticos espaços urbanos, a maioria das doenças é controlável por uma vasta gama de medicamentos inimaginável durante milénios. Apesar dos constantes desafios da pobreza e exploração, é inegável que boa parte da humanidade considera normal uma qualidade de vida que, há poucos séculos, nem os mais privilegiados poderiam alcançar.

Vivemos rodeados de tantas maravilhas que nos parecem banais. As ideias técnicas e científicas revolucionárias tornaram-se nota de rodapé nos telejornais. No nosso dia a dia atarefado talvez paremos, por um pouco, para nos maravilharmos com uma nova ideia ou sonhar com o impacto de uma nova tecnologia anunciada. Estamos tão habituados a estas rotinas que depressa as esquecemos. A hipérbole do lançamento de um novo produto de consumo tecnológico depressa é substituída pela hipérbole do lançamento de mais um novo produto de consumo tecnológico, numa lógica cíclica que banaliza a enorme complexidade e conhecimento científico dos objectos tecnológicos.

Tememos o futuro. É-nos difícil conceber o impacto das novas ideias, novas tecnologias, novos modos de viver, novos conhecimentos, do eterno e imenso novo. Sabemos que nos esperam desafios civilizacionais talvez inultrapassáveis, sabemos que nos espera o desconhecido. Cada nova ideia, cada nova tecnologia, cada tendência traz consigo promessas de transformação que mal conseguimos descortinar. Marshall McLuhan, influente teórico dos media que intuiu o que o poder transformativo dos meios de comunicação alterava profundamente formas de conceber o mundo, afirmou que as nossas tecnologias nos modelam de maneiras inesperadas.

A Ficção Científica é um recreio de ideias que nos permite brincar de forma segura com o que nos atemoriza ou intriga. Possibilita-mos um espaço de experiências de pensamento, onde podemos levar ao extremo as ideias que nos atravessam o radar da curiosidade, extrapolar os dilemas contemporâneos e simular as suas consequências num espaço virtual delimitado pela nossa imaginação. É vista na cultura popular como preditora de tecnologias e futuros, mas funciona como uma estrutura que nos permite questionar os desafios contemporâneos. Raramente a FC consegue predizer avanços tecnológicos, embora seja habitual que cientistas e engenheiros se inspirem no género para desenvolver novas tecnologias.

As suas obras reflectem as preocupações das épocas em que foram escritas. Os autores atrevem-se, nos seus e ses, a interrogar os limites teóricos das ciências, da história, da tecnologia, tudo o que constitui a maravilhosa procissão da humanidade. Baseando-se em extrapolações de base científica que tanto reflectem um optimismo ingénuo como um cinismo desencantado com potencialidades e consequências dos desenvolvimentos tecnológicos, ajudam-nos a compreender melhor o mundo contemporâneo fazendo-nos imaginar futuros. Tudo isto empacotado em histórias divertidas e empolgantes que mantém vivo um pouco de inocência e espirito juvenil de aventura e exploração à descoberta do mundo.

O género vai muito para além da ficção especulativa de base científica, indo beber a variadas fontes que por sua vez o modelam e transformam. Associamos a FC a iconografias específicas Foguetões, naves espaciais e habitats no espaço são algumas das mais clássicas imagens associadas ao género. Cientistas loucos e donzelas em busca de salvação são talvez dos mais banalizados ícones do género. Visualizamos robots mecanismos complexos conscientes de si próprios, sexualizados como objecto de desejo ou mesclando o homem com a máquina. Reflectimos a diversidade de culturas humanas recriando-as como aspectos de vastas civilizações extraterrestres. Projectamos os devaneios arquitectónicos em urbanismos futuros, utopias bucólicas de arquitecturas arrojadas, colisões multiplanares de portentosas edificações ou vida a formigar na decadência catastrófica do betão. Recriamos e antevemos dispositivos técnicos que nos fascinam pelas novas possibilidades que fazem intuir. Tememos a possível subserviência a tecnologias que se tornam mais avançadas do que os seus criadores. Revemos fascínios, xenofobias e medos da relação com o outro através do simbolismo dos alienígenas ficcionais e das suas exóticas culturas. Deleitamo-nos com a construção de mundos ficcionais num sólido imaginário verosimilhança aos mundos de fantasia dos livros.


 Collage de Max Ernst, a recordar que as visões especulativas sobre tecnologia não são recentes.

Numa recente entrevista o escritor e cientista Gregory Benford referiu que "technology is the quiet driver of most modern history", algo que é recordado no ar frenético da discussão mais mainstream sobre as transformações sociais trazidas pela tecnologia, em discursos que oscilam entre surpresa com a rapidez transformativa,  deslumbre com as delícias dos gadgets ou temores catastrofistas sobre o colapso iminente da humanidade perante a ameaça dos teares mecânicos/fábricas tayloristas/máquinas inteligentes/inteligências artificiais/redes sociais/isolamento na internet. Há mais de um século que o imaginário da Ficção Científica nos leva a olhar em frente, preparando-nos para o futuro real em que não imaginamos futuros plausíveis ou impossíveis, em essência reflectindo no impacto que a ciência e tecnologia têm sobre a humanidade.

3. Vertentes/Géneros
Listar as diversas variantes deste género literário é um trabalho exaustivo e quase impossível. As abordagens temáticas que permitem agrupar obras num determinado sub-género têm na FC uma enorme variância. Deixamos aqui algumas das principais vertentes, sem esgotar as possibilidades.

Ficção Científica: conceito abrangente, que define ficções onde o tema central envolve a exploração de conceitos científicos e tecnológicos.
Hard SF: A ciência e tecnologia são os seus temas principais. Fortemente baseada em detalhar de conceitos cientíticos e realismo cientítico. Conhecida pelo uso de infodumps, técnica narrativa em que um personagem explica em grande detalhe ao narrador, e por extensão ao leitor, os fundamentos sociais, científicos ou técnicos do mundo ficcional imaginado pelo autor.
FC Militarista: tem uma tonalidade distintamente militar. Extrapolação de guerras futuras, com personagens inseridas em meios militaristas. A tecnologia é um adereço em ficções centradas em ideais de honra, heroísmo e exploração de futuros campos de batalha.
Robótica: tem os robots como tema central, explorando conceitos de inteligência, sexualização e emoções, ou domínio das máquinas sobre a humanidade.
FC Social: imaginar sociedades futuras como forma de extrapolar e reflectir sobre aspectos das sociedades contemporâneas, podendo ser satírica mas dando destaque à tecnologia.
Space Opera: com carácter épico, caracteriza-se pela sua visão abrangente, habitualmente situada em vastas paisagens ficcionais e universos alargados.
Steampunk: mescla de FC com história alternativa e estética vitoriana, com particular prevalência na tecnologia a vapor dos primórdios da era industrial. Expressa-se por via literária, artística, gráfica, cinematografia e moda.
Cyberpunk: lida com as visões sobre cibernética, tecnologia digital, virtualidade e relação entre o homem e computador, prostética digital e declínio social.
Biopunk: foca-se na reflexão sobre engenharia genética, manipulação genética, modificações corporais, eugenia.
Nanopunk: foca-se na nanotecnologia.
Viagens Extraordinárias: género que antecede o conceito de FC. Envolve o périplo de um grupo de personagens por mundos fantásticos, utilizando ou não elementos tecnológicos. O foco é na aventura e exploração.
Romance Científico: termo usado para designar a proto-FC, caracteriza o trabalho dos primeiros escritores a explorar o género.
FC Gótica: mescla de elementos da ficção gótica (magia, criaturas míticas) reinterpretados à luz da ciência.
FC Mundana: concentra-se no realismo das possibilidades tecnológicas realizáveis com a tecnologia dos nossos dias.
Horror/FC: cruzamento entre terror e FC.
FC/Fantasia: cruzamento entre fantasia e FC.
FC Apocalíptica: exploração de acontecimentos passíveis de provocar a extinção da humanidade.
FC pós-apocalíptica: lida com alterações radicais à sociedade humana após acontecimentos cataclísmicos.
Invasões Alienígenas: invasões extraterrestres da terra.
Viagens no tempo: viagens ao passado ou futuro.
História Alternativa: explora a possibilidade de divergências ao percurso da história
Realidades paralelas: lida com conceitos de universos paralelos e outras dimensões.
Distopias: visões de futuros social e politicamente reprimidos, com perversão de valores sociais e morais.
Western no Espaço: replica a iconografia do velho oeste em ambientes espaciais.

4. Ligações
Algumas hiperligações para páginas web sobre FC e F em português. Não sendo uma lista exaustiva, é um ponto de partida para descobrir a pequena mas dinâmica comunidade de leitores e escritores do fantástico português. Inclui páginas de crítica literária, webzines que publicam autores lusófonos, agregadores de notícias e arquivos temáticos.
Bibliowiki: Repositório de informação bibliográfica sobre edição de livros de género fantástico em português. Organizado por Jorge Candeias.
Fórum Fantástico: Encontro anual dedicado à FC e F nos domínos da literatura, cinema e outras artes.
Trema : Oficina de escrita e revista literária, destaca diariamente na sua página notícias e crítica literária sobre FC e fantástico de Portugal, Brasil e do mundo. Dinamizado por Luis Filipe Silva e Rogério Ribeiro.
ScoopIt Ficção Científica e Literária: Organizado por Jorge Candeias, agrega artigos sobre FC em português, com grande destaque para a lusofonia.
ScoopIt Gothic Literature: Agregador especializado no gótico literário.
ScoopIt F-C: Agregador de ligações sobre ficção científica na literatura, cinema, jogos e cultura popular.
Revista Bang!: Única revista de publicação regular portuguesa, gratuita, editada pela Saída de Emergência. Mantém um site com conteúdos actualizados, com destaque para a ficção portuguesa e brasileira.
Projecto Adamastor: Sem ser direcionado a géneros literários específicos, o projecto disponibiliza textos literários portugueses de domínio público em suporte digital com formatação cuidada.
Colecção Argonauta: Página dedicada à mais longa colecção de literatura de FC em Portugal. Se as traduções são consideradas na generalidade bastante más, a colecção distingue-se pelo design arrojado das capas e por ter, durante décadas, publicado FC com periodicidade mensal.
Ficção Científica em Portugal: Página dedicada à recolha bibliográfica da edição de FC em Portugal
Breve História da FC Portuguesa: Curta história do género, traçada por Álvaro Holstein.
FC Portuguesa: apresentação de Luís Filipe Silva sobre os primórdios da ficção científica portuguesa.
Os Mundos Imaginários do Fantástico Português: Artigo do cineasta e escritor António de Macedo sobre a génese do fantástico da literatura renascentista ao século XX.
Clockwork Portugal: Associação dedicada a divulgar o estilo steampunk nas vertentes literária, de moda e cinematográfica. Organizadores da EuroSteamCon portuguesa.
International Speculative Fiction: Editada por Roberto Mendes, esta revista digital focaliza-se na edição traduzida para inglês de autores não-anglófonos.

Bibliografia
Aldiss, B., Wingrove, D. (1988). Trillion year spree: the history of science fiction. Londres: Grafton Paladin.

Brynjolfsson, E., McAfee, A. (2014). The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies. Nova Iorque: Norton.

James, E., Mendlesohn, F. (2003). The Cambridge Companion to Science Fiction. Cambridge: Cambridge University Press.

Rothstein, E., Marty, M., Muschamp, H. (2003). Visions of Utopia. Nova Iorque: Oxford University Press.

Slusser, G. (2014). A scientist-author at the heart of Hard Science-Fiction. Institute for Ethics and Emerging Technologies, 20 de Fevereiro de 2014. Obtido a 20 de Março de 2014 no url http://ieet.org/index.php/IEET/more/benford20140220

Watson, R. (2013). Trends and Technologies for the World in 2020. 14 de fevereiro de 2013. Obtido a 21 de Março de 2014 no url http://toptrends.nowandnext.com/2013/02/14/trends-technologies-for-the-world-in-2020-2/

(Nota 1: O Roberto Mendes observou que o ISF se dedica a autores não anglófonos. É a palavra certa para o que eu queria dizer. O texto foi devidamente corrigido onde estava "esta revista digital especializa-se na edição traduzida para inglês de autores europeus". Adicionei o agregador Gothic Literature, também focalizado no fantástico literário.)

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Comics


Judge Dredd Mega City 2 #02: Da IDW a publicar Dredd com sabor americano para o mercado americano não se espera muito. Talvez por isto a série me tenha apanhado de surpresa. No mundo pós-apocalipse nuclear de Dredd Mega City 2 é a mega-cidade que se estende no que resta da Califórnia após as bombas e os tsunamis. O argumentista projecta a visão contemporânea da califórnia como um estranho lugar libertário tisnado pelo sol no futuro distópico de Dredd e o ilustrador Ulisses Farinas... bem, um deslumbre! Linha clara com um estilo gráfico espantoso, fazendo lembrar Geoff Darrow, a dar vida a crustáceos mutantes e a uma cidade futurista que se parece com uma Disneyland desenhada por arquitectos pedrados em lsd.


Moon Knight #02: Sendo fã incondicional de Warren Ellis, a minha opinião é suspeita. Mas a sua revisão a Moon Knight está excepcional. Esta segunda edição lê-se como um filme curto de ritmo implacável, tão certo que nem se dá pelo virar das páginas. Ellis apostou num tipo cinematográfico de narrativa em banda desenhada (a minha comparação com o cinema não vem por acaso) com judiciosos cortes ritmados de planos e uso de tiras panorâmicas em plano de pormenor. É interessante ver a abordagem ao personagem como uma versão de Batman (que o é), deixando em segundo plano os toques místicos para se concentrar em histórias que se desenrolam no implacável espaço da modernidade urbana. Só Ellis terminaria uma edição com um dos vilões a triunfar e a reflectir que the bank always wins.


Starlight #02: É adorável esta visão de Millar e Parlov que recupera o classicismo ingénuo do Flash Gordon original. Tornou-se claro que este é um hino narrativo e iconográfico à golden age da ficção científica. Um mimo para quem tem um fraquinho por aventuras no espaço, foguetões, rayguns e alienígenas de olhos esbugalhados. A história segue um percurso clássico de herói envelhecido, incompreendido e amargurado com a vida trazido de volta às aventuras por um jovem que ainda acredita nele como a esperança de uma distante civilização alienígena. No processo, a vénia ao lado nostálgico de uma FC mais ingénua é profunda. Este Starlight devolve-nos o sense of wonder de Buck Rogers, Adam Strange ou Falsh Gordon.


Trillium #08: Jeff Lemire termina a sua série de FC para a Vertigo com uma nota triste e sem nos desvendar o mistério dos seus alienígenas azuis e as pirâmides que atravessam as barreiras do espaço e do tempo. Resta aos dois heróis, unidos após um périplo de volteios labirínticos pelos tempos e universos paralelos, sacrificar-se para salvar uma nave-arca com os últimos humanos na galáxia. Só lhes resta deixar-se ir até ao horizonte de acontecimentos de um buraco negro e... e. Ficamos por aqui, e não ficamos nada mal. Lemire conjurou o melhor da FC com toques de space opera e viagens no tempo com um fortíssimo experimentalismo gráfico pouco habitual nos comics. A série ficará como uma das melhores que a DC/Vertigo nos legou em ficção científica.


Caliban #01: No hiperespaço ninguém ouve os nossos gritos. Esta nova série de terror/FC escrita por Garth Ennis começa muito bem. Estamos num futuro industrializado onde no espaço se encontram as matérias primas para os fogos da indústria terrestre, mas os sonhos de colonizar planetas extraterrestres colidem com a realidade das rochas nuas desprovidas de atmosfera respirável. Os longos trajectos intergalácticos são assegurados por naves cujos tripulantes enlouquecem de tédio ou sob o efeito psicadélico da negação das leis da física no hiperespaço. Sendo Ennis a escrever, o mundo ficcional tinha de ser decadente. Nesta primeira explosiva edição, os tripulantes da nave Caliban descobrem o impossível quando colidem no hiperespaço com uma gigantesca nave alienígena... só que uma colisão destas leva a uma fusão no espaço real. A serie tem muito do ambiente de indústria pesada de Aliens, com os astronautas como operários das linhas de trânsito de minério do futuro. Quanto aos alienígenas, nada nos é revelado nesta primeira edição, apenas que existem... e as vias do hiperespaço são afinal mais congestionadas do que a física exótica previa.