terça-feira, 17 de abril de 2012

Foundation II

O que me está a atrair tanto na clássica série Foundation de Isaac Asimov? Entre outras, duas intrigantes vertentes narrativas.

Em primeiro lugar o seu aspecto cerebral, centradas não em aventuras rocambolescas mas em manobras e fluxos nos quais alguns personagens-chave agem ao mesmo tempo como jogadores e peças de xadrez no tabuleiro de jogo galáctico. Já me apercebi que ao longo da evolução da série a narração estratégica começa a resvalar para algo mais aventuroso, mas sem perder aquele carácter de jogo de xadrez que deixa o intelecto enamorado.

Em segundo lugar, tudo aquilo que Asimov não nos diz. Não temos grandes e detalhadas descrições do vastíssimo palco da série. Somos levados a inúmeros planetas, cada qual com a sua cultura própria. Na narrativa cruzam-se artefactos, naves, , arquitecturas, cidades ou personagens que nos são descritos com traços largos. E quando o leitor se cruza com a ideia do enorme Trantor, da austera Fundação ou das futuristas naves é forçado a encher mentalmente os espaços em branco. Livre de constrangimentos descritivos, com um vasto panorama delineado para brincar, a mente de quem lê esta obra tem espaço para divagar, imaginar, recriar mentalmente o aspecto visual do universo da obra que Asimov apenas aflora quando estritamente necessário. Um parágrafo sobre Trantor dá-nos mais imagens mentais do que as intricadas descrições futuristas de muito livro de FC. Confesso: na minha mente a galáxia de Asimov é um misto de retrofuturismo e arcádia decadente, com naves espaciais curvilíneas de cores brilhantes.

Há outras curiosidades. A ingenuidade de uma filosofia utópica que via progresso inabalado mesmo nas condições mais adversos, uma espécie de white man's burden na ressalva da luz do conhecimento. E um aspecto um pouco mais tenebroso: uma pervasiva confiança no domínio de elites esclarecidas sobre as grandes massas. Há um respeito e reverência pelo papel dos cientistas e dos grandes administradores e uma adversidade à democracia. É um pormenor que não me está a escapar em Foundation. Desde um império liderado por portentosos imperadores às diferentes formas de autocracia que incluem eleições de líderes que se mantém a muito longo prazo, Asimov parece professar uma fé na capacidade e visão de grupos diminutos de homens esclarecidos para liderar as moles humanas. Para ser justo, também procura olhar para as consequências do dogmatismo e formalismo que ossificam lideranças e sociedades e as levam à decadência. Novamente, é um pormenor ingénuo típico de uma era que via no progresso científico a esperança para o futuro da humanidade sem se questionar de possíveis consequências adversas ou da vontade dos indivíduos. É a utopia do que certo e bom porque o engenheiro/cientista o afirmam.

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