sexta-feira, 13 de abril de 2012

Foundation


Isaac Asimov (2004). Foundation. Nova Iorque: Bantam.


Confesso que durante anos andei a fugir desta obra de Asimov. Traumatizado pelas sagas em multivolumes, sempre imaginei a série Fundação como outra daquelas histórias que se repete ao longo de vários livros. Há tantas assim... e, além disso, confesso a heresia de Asimov não ser um dos meus autores favoritos de FC. Sim, é clássico, sim, é de leitura obrigatória, mas nunca me tocou com a profundeza de, por exemplo, um Bradbury.

Ao ficar literalmente agarrado aos primeiros parágrafos de Foundation senti-me ridículo por ter deixado passar tanto tempo antes de pegar nesta obra maior do género. Ou, talvez, esse tenha sido um tempo necessário. Porque Foundation não o que se espera. A premissa do declínio e queda de um vasto império galáctico não se traduz em gloriosas batalhas espaciais e vastos panoramas típicos de space opera. Nesta obra originalmente publicada em 1961 e coligida a partir de contos que já tinha visto publicação nas revistas pulp clássicos, Asimov oferece-nos um relato fortemente cerebral, uma história de futuros contada como as observações de um historiador sobre a evolução de uma época em formato de narrativa romanceada.

A comparação com o clássico Decline and Fall of the Roman Empire de Edward Gibbon (outro dos buracos nas minhas leituras que nunca mais arranjo maneira de tapar) é inevitável e assumida por Asimov. No fundo, Foundation é a transposição desta obra para um futuro imaginário distante. Asimov pega em elementos como a complacência de uma sociedade poderosa que não se imagina em declínio, a tendência entrópica da história humana, a imagem monástica enquanto guardadora do conhecimento clássico nos tempos de trevas da idade média e a ideia de que uma estratégia bem organizada pode evitar a aniquilação sem travar declínios mas manobrando através das tendências. Há aqui um certo utopismo científico-tecnológico e um aviso de que não devemos tomar por certo o que nos rodeia.

É curioso o percurso que Asimov traça nos esforços por manter viva a chama do conhecimento. A psico-história de Hari Seldon, protagonista influente nas sombras da evolução narrativa, postula uma evolução faseada iniciada na criatividade e engenho necessários para sobreviver num planeta inóspito, ciência enquanto religião para manter o conhecimento livre de pressões políticas e evolução para redes de comércio. Todas dependentes de tendências de evolução que coalescem em pontos específicos, momentos de crise que obrigam a mudanças profundas.

Tudo se passa sem grande acções. A narração é cerebral, centrada em manobras e intrigas, tendências evolucionárias, apostas e projecções. No cenário abrangente da obra suspeitamos que há momentos que poderiam despoletar em acção explosiva, mas não é esse o objectivo do livro. Asimov confessa que é uma obra de FC onde nada realmente se passa.

É este carácter cerebral, racional, de busca de tendências fugindo da acção pura que torna Foundation tão intrigante e interessante. A mente do leitor não se deleita com as máquinas e aventuras futuristas mas sim com os vastos panoramas históricos gizados pelo autor. As comparações com a própria ciência da história são inevitáveis. Foundation é ficção científica pura e fundamental, saída de especulação informada sobre a ciência histórica. Apesar de ser uma obra clássica, é refrescante ler algo que especula não sobre ciência ou tecnologia mas sobre o processo histórico, o mais elementar do devir humano.

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