quarta-feira, 6 de junho de 2012

Farewell, Mr. Bradbury

É uma das imagens marcantes daquela época entre a minha infância e adolescência: um escritor que entrava num escritório atravancado de fascinantes maravilhas e bric-a-brac, modelos de foguetões, dinossauros, desenhos, pinturas e fotos a cobrir as paredes. Um candeeiro tiffany ao lado de uma máquina de escrever, uma miniatura do nautilus a cruzar fascínios de Verne e do technicolor, e tantas outras coisas que despertavam a imaginação. Esta era a introdução a The Ray Bradbury Theater, seguida sempre de contos do fantástico que vim a redescobrir nas páginas dos livros. Mas este genérico, evocativo do mundo interior do escritor, era a parte do programa televisivo que eu nunca queria perder.

Um dos livros que me é mais querido bem folheado e em franco amarelecimento pertence à colecção de capa azul da Caminho, daquelas que hoje já não se fazem. É um livro suspeito, culpado de desviar a minha mente dos caminhos ortodoxos de leitura. Influência perniciosa, diria, porque depois de o ler nunca mais fui capaz de voltar àqueles livros que se dizem ser leituras importantes. Aqueles que os professores e os críticos literários recomendam, altos píncaros das montanhas de palavras. Impossível. Depois de saborear as histórias contidas naquele pequeno tomo de capa azul o regresso tornou-se improvável. E não desejado. A importância e gravidade da grande literatura desmoronaram-se perante as palavras simples que escondiam ideias complexas. Antes de saber o que era psicadelismo, surrealismo, space opera ou outras coisas do género as torres espiraladas dos edifícios abandonados a ladear os canais secos e cheios de pó debaixo do vermelho céu marciano ficaram cravadas a ferro na minha mente de neo-adolescente. Tive sorte. Iniciar a descoberta da verdadeira ficção científica, esse hino às maravilhas da imaginação, lendo por acaso as Crónicas Marcianas. Um feliz acaso.

Ao longo dos anos a obra de Bradbury foi uma constante nas minhas leituras. Regressar ao Marte onírico é cíclico na minha vida. Rever as maçãs douradas das pequenas cidades, mecânicas da alegria, cemitérios de lunáticos, ilustrações humanas, imperadores que esmagam homens voadores, borboletas esmagadas que mudam subtilmente a história da humanidade, médicos que libertam os ossos do peso do corpo, soldados que reduzem armas a pó, missionários em busca de conversões de mentes radicalmente diferentes, encontros entre homens e alienígenas que essencialmente almejam o mesmo, dinossauros mecatrónicos, verões de foguetões, bombeiros que se apaixonam pelos livros que queimam e inspiram um belo filme de Truffaut... e tantas, tantas histórias que encantam pela pureza das palavras, ingenuidade temperada por conhecimento, espírito de descoberta, paixão pelos elementos esquecidos da cultura popular e especialmente essa qualidade que distingue a melhor literatura do fantástico, a sense of wonder, o sentido abrangente do vasto maravilhoso que vislumbramos.

Livros de capa azul da Caminho, ilustrações garridas das capas da DelRey ou evocativas da space age nas capas da Bantam, edições pequeninas divididas em duas partes da colecção argonauta, bandas desenhadas que fixam em imagem as palavras, filmes que transformam distopias futuruas em locais de beleza estética e esperança na humanidade. A obra deste autor é vasta e influente. É esse o poder dos sonhos.

Obrigado, Mr. Bradbury. Não o sabe nem nunca o saberá, mas as suas palavras foram formativas para o meu espírito. O sense of wonder que senti da primeira vez que li as Crónicas Marcianas nunca me abandonou. E apesar de tudo o que li e vi, dos textos, fotos e documentários, sempre o recordarei como o vi naquelas imagens a preto e branco da televisão da minha infância. Um sorriso maravilhado, cabelo grisalho, rodeado dos deliciosos detritos da imaginação humana. Transmissor do amor aos livros, da beleza das palavras e das maravilhas da imaginação.

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