quinta-feira, 7 de junho de 2012

Helen O'Loy


E o homem criou a mulher mecânica, personificação dos seus sonhos...

Este conto de Lester Del Rey parece-me mais notável pela icónica ilustração que surgiu na Astounding de  dezembro de 1938 e que ilustra na perfeição um tema fio condutor das visões da ficção científica sobre a robótica que, no momento contemporâneo em que vivemos, encontra expressão nalgumas utilizações específicas de robots.

Helen O'Loy, título que é uma brincadeira alusiva a Helena de Tróia misturada com peles mecânicas de metal (alloy em inglês), centra-se num tema comum a muitos escritores de ficção científica: a construção artificial da mulher perfeita e suas possíveis consequências. No conto, dois solteirões com inclinações científicas dedicam-se a melhorar o desempenho de uma robot cozinheira através da simulação mecânica de emoções. Tendo levado aos limites a tecnologia disponível, investem num andróide feminino topo de gama visualmente indistinguível de uma mulher de carne e osso, modificando-o com mecanismos de simulação de emoções. O seu objectivo era simples: conceber uma cozinheira robótica mais apurada nas confecções dando-lhe emoções simples que a tornassem capaz de distinguir os sabores. Mas a andróide ultrapassa o esperado. Exposta a dramas televisivos e literatura romântica, começa a simular emoções de ordem mais elevada e apaixona-se pelo seu criador (ou recriador, no caso). Este, numa curiosa premunição do conceito de uncanny valley, começa por rejeitar a companhia da andróide mas acaba por perceber que gosta desta mulher mecânica perfeita e passa o resto da vida ao seu lado. O conto termina com uma certa amargura, com a morte do criador, o suicídio da andróide que deseja acompanhar o homem na morte e o reconhecimento do narrador que também ele não foi imune aos encantos artificiais da robot.

Note-se que não falei aqui em programação. O conto é dos anos 30, e Del Rey extrapolou a ciência mecânica da época. O que hoje concebemos como objecto mecânico controlado por programação digital foi pensado pelo autor como uma máquina eléctrica alimentada por um motor atómico. Daí a simulação mecânica das emoções. Inteligências artificiais femininas só aparecerão posteriormente na continuidade literária.

Helen junta-se à distinta galeria de andróides criadas pela imaginação de autores percursores da ficção científica que procuraram descrever mulheres perfeitas, imitações mecânicas da carne e osso sem as imperfeições da personalidade feminina vistas pelos olhos masculinos dos padrões de época. Há uma linha de continuidade entre a Olimpia de Hoffman, Hadaly de L'Isle-Adam, Amelia de E. E. Kellet, Maria de Lang e Von Harbou e uma vertente de utilizadores de robots que escolhem mecanismos como companhia emocional ou sexual.


Da esquerda para a direita: L'Eve Future, Maria em Metropolis e Amelia.

Este ideal de mulher perfeita vai variando de acordo com as épocas. Olimpia é uma criatura de silêncio e mistério, construída de madeira e limitada no seu reportório de acções. O que atrai os admiradores é a sua aura de distância e silêncio, a imobilidade que de vez em quando se quebra com algum movimento pré-concebido. Reflecte o ideal espiritual gótico da mulher enquanto ser misterioso e distante. Já Hadaly e o seu mecanismo de relógio está pensada para ser a companheira ideal da era vitoriana, mulher mecânica de grandes encantos físicos e personalidade criada à medida do seu inventor, que procura uma encarnação da sua ideia de perfeição feminina. Amelia é um protótipo de mulher social, criada para ser volúvel e companheira perfeita. Quanto a Maria, surge em oposição aos ideais de virtude encarnados pela Maria de carne e osso que galvaniza os untermenschen que habitam nas profundezas proletárias de Metropolis. Rotwang cria propositadamente uma andróide perversa e sexualizada que liberta no bairro decadente de Yoshiwara. Helen O'Loy encarna o ideal de mulher suburbana da era industrial, responsável pela boa manutenção do lar e do estômago de um marido que passa os dias a laborar nas criações da indústria.

Roxxxy, na colisão entre a robótica e a sexualidade. Escolha o género, aparência, cor de pele e cabelo, e desligue quando está cansado de a aturar. Ligue quando apetecer.

Atrevo-me a dizer que podemos ir mais longe neste género de representações. A milénios da ideia de recriação mecânica através da ciência, o mito de Pigmalião olha para a recriação da mulher perfeita através da arte com a escultura que a deusa Afrodite insufla de vida para felicidade do escultor/criador e para a identificação da ilha de Pafos. Num extremo oposto podemos olhar para os homens e mulheres que escolhem acompanhar-se de realdolls ou outros andróides, ainda imperfeitos pelas limitações tecnológicas mas para estes pigmaliões modernos já capazes de encarnar os seus ideais de mulher perfeita. Sherry Turkle faz algumas observações sobre o distanciamento emocional e a progressiva incapacidade de lidar com as emoções do outro indiciadas por esta adopção do robot enquanto companheiro de relações no livro Alone Together.


Mas qual o significado disto? Porquê esta necessidade de recriar um ser pensado como perfeito se desenhado há medida de que o utiliza? A própria ideia de utilizar um ser, recriar mecânicamente um indivíduo para uso, já arrepia, como Turkle observa. O tema da mulher ideal é comum na literatura, e esta ramificação leva-nos a pensar entre as colisões entre sexualidade e tecnologia. Mas se Hoffmann, L'Isle-Adam ou Del Rey apenas poderiam imaginar, temos hoje os meios técnicos para construir andróides que na convergência entre inteligência artificial, estética e mecânica robótica se aproximam cada vez mais de um realismo hiperreal. E, como alguns dos entrevistados por Sherry Turkle revelam, a vontade de os utilizar como pigmaliões da era contemporânea. As visões vagamente pornográficas de andróides de companhia ainda não se aproximam da elegância icónica de Helen O'Loy, mas outras vertentes - em particular os animais de estimação robóticos, bonecas que simulam bebés ou andróides de investigação capazes de simular expressões apontam para um futuro em que a ligação emocional entre humanos e máquinas será algo de banal.

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