segunda-feira, 9 de julho de 2012

Timescape

Gregory Benford (1992). Timescape. Nova Iorque: Bantam.

A história é enganadoramente simples. Num futuro, que curiosamente já é o nosso passado, o planeta encontra-se à beira de um colapso ecológico. Por entre catástrofes e restrições cada vez mais profundas, os cientistas vão-se esforçando por tentar colmatar as cada vez mais intensas eclosões destrutivas. Apenas um projecto promete difusamente ser bem sucedido, assente numa ideia improvável de comunicar com o passado utilizando taquiões, partículas capazes de se propagar no sentido inverso da seta do tempo.

É aqui que o livro começa a mostrar a sua abrangência. Poderia ser um simples romance sobre o futuro que comunica com o passado, provocando mudanças que salvariam os mensageiros do futuro com uma boa dose de paradoxos temporais à mistura. Mas Benford vai muito mais longe, e dá-nos um clássico da FC que é uma profunda reflexão sobre o processo da descoberta científica.

O livro foca-se essencialmente nesta vertente. Os cientistas que nos anos 60 recebem a mensagem do futuro têm uma dificuldade enorme em demonstrar a validade da sua teoria. São desacreditados, pressionados a largar a pesquisa, ridicularizados pelos seus pares num retrato fiável de como o que pensamos ser o processo limpo de mudança paradigmática é na verdade um campo de batalha onde interesses instituídos reagem mal ao novo e à mudança que os deixará obsoletos. Esta é a principal linha narrativa de Timescape, centrada na personagem de um persistente cientista que passa as passas do algarve para convencer os seus pares que os seus resultados são válidos.

Há uma forte componente individual nesta obra. Se no passado temos o cientista fiel às suas convicções e à validade do seu trabalho, o futuro traz-nos um burocrata inteligente que consegue olhar para lá do momento presente, sendo capaz de defender projectos imprevisíveis ameaçados pela concentração de recursos na resolução de problemas do momento.

Os paradoxos temporais surgem quando se dá a aceitação da veracidade das mensagens. Mexer com o passado é arriscado. Se for bem sucedido implica que o que levou ao envio das mensagens já não se irá verificar, o que implica que as mensagens não serão enviadas, o que implica que o passado não será alterado. Cérebro a dar piruetas com a não linearidade? Bem vindos às viagens no tempo, onde a causalidade se fecha em círculos ou os universos se bifurcam. Benford consegue mesclar estas duas perspectivas, com uma visão ondulatória do tempo.

As mudanças começam por ser subtis. Após os primeiros envios de taquiões físicos no futuro postulam a possibilidade de universos fechados dentro do universo, detectáveis apenas por emissões de taquiões. O espectro começa a ficar sobrelotado, com um ruído de partículas que são emissões de futuros mais longínquos. E quando as mensagens são descodificadas e no passado se começa a modificar o futuro o que acontece é totalmente não linear e imperceptível para quem as vive. São pequenas mudanças, detectadas pelas pequenas inconsistências de percursos de vida que Benford vai deixando nos brilhantes parágrafos finais. O tempo varre a causalidade, alterando-a a todo o momento. Como ondas do passado e futuro a esbater-se na praia do momento presente.

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