segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Channel Sk1n

Jeff Noon (2012). Channel Sk1n.

No inesquecível primeiro parágrafo de Neuromancer William Gibson descreve o céu como da cor de ecrãs de televisão. Um ano antes David Cronenberg brincava escatologicamente com as teorias de Marshall McLuhan em Videodrome, filme onde as ilusões televisivas ganham vida própria e a carne humana se mescla com a tecnologia video em formato VHS. Uma implicação das ideias de McLuhan é a influência dos media na consciência humana. Expostos a novos media, a nossa forma de pensar altera-se, e por extensão a sociedade modifica-se. É um conceito particularmente pertinente nestes primeiros anos da era digital, onde a internet surge como força transformativa modificando profundamente os mais díspares e insuspeitos aspectos da sociedade contemporânea. Mas regressemos a Gibson. Anos depois de Neuromancer publica Idoru, romance cyberpunk sobre uma estrela pop artificial.

Misturemos estas ideias com uma dose forte de prosa experimental, numa veia de alucinação eléctrica cheia de energia verbal, e temos Channel Sk1n, onde uma estrela ascendente da música pop sofre uma transformação que torna a sua pele no ecrã de televisão. Nola, a cantora, é uma voz artificial, ser humano recriado pela sabedoria de produtores que transformam pessoas em ícones de perfeição para consumo dos gostos transientes da população. O mundo está saturado de media, saturado pelas emissões de míriades de multicanais cuja escolha se transforma numa permanente paisagem mediática em constante mutação.

Nola dilui-se no ciberespaço televisivo. O vírus etérico que lhe transforma o corpo num ecrã causa a morte e acaba esquecida, abandonada num campo. Mas Nola é um símbolo de artificialidade. Consumida pelo sonho da popularidade musical, a estrela é alguém que foi treinado e redesenhado até à exaustão pelos gestos precisos dos produtores, especialistas em recriar a mulher aos olhos do público. Uma recriação tão profunda que Nola chega a esquecer-se de si própria, transformando-se totalmente no ser artificial cuja voz e música a metro cativam multidões.

Na pervasiva paisagem mediática electrónica ninguém é poupado, nem os feiticeiros que conjuram as imagens que enchem o espectro electromagnético. George, o produtor de Nola, é um exímio criador de estrelas para o fluxo do consumo cultural mediatizado. Artesão da sensível arte de modelar humanos à imagem do gosto comercial, tem uma filha que participa num singular reality show. O mais visto dos inúmeros programas, resume-se a colocar o participante dentro de uma redoma cujo exterior projecta todas as imagens do interior. Os fãs mais renhidos concentram-se fisicamente à volta da redoma, como tribos reunidas junto do fogo que ilumina e aquece. Mas esta concorrente consegue o impossível. Sob o olhar panopticon de milhentas câmaras e espectadores, desaparece sem deixar rasto. Um mistério que se começa a resolver quando a princípio pequenos vestígios da concorrente vão surgindo nos ecrãs. Imagens fugazes, visíveis apenas pelo olho da lente. Aparições públicas, manifestações em filmes antigos. Torna-se claro que o corpo foi consumido pela febre digital e a sua imagem ganhou vida própria, habitando o éter da cultura pop televisiva.

Num fluxo cultural constante, a memória do físico depressa se desvanece, mas a memória virtual permanece. Nola é esquecida, George afunda-se entre ecrãs em busca de vislumbres da filha que reencarnou como imagem televisiva. Mas neste futuro de ecrãs interligados, em laços de bits e feixes hertzianos, há sempre uma memória digital, um ficheiro de vídeo num servidor, um clip que passa num dos milhentos canais televisivos, vislumbrado num fugaz momento de zapping.

Confesso que já há bastante tempo que um livro não me deixava tão intrigado. Talvez pelo experimentalismo da prosa. Channel Sk1n não é leitura fácil, com uma linguagem vernacular muito própria, inventada para a obra. Faz recordar o inglês futuro que dá a Clockwork Orange de Burgess a estranheza do plausível. Ou talvez pela temática, remisturando teorias da vida digital, sociedade de informação, cultura pop comercial com forte dose de McLuhan. Neste livro, Jeff Noon reduz ao absurdo a ideia que as tecnologias que criamos nos modificam intimamente. Perdoem-me o name dropping, mas a dromologia de Virílio, a era da informação de Castells, a terceira vaga dos Toffler e o meio como mensagem de McLuhan colidem e inspiram este livro. Ou então estou muito enganado e sucumbi à doença mediática de atribuir demasiado significado às imagens transmitidas.

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