terça-feira, 28 de março de 2017

Lovesenda



António de Macedo (2017). Lovesenda ou o Enigma das Oito Portas de Cristal. Vagos: Editorial Divergência.

Se forem um dos raros leitores deste livro - a tiragem de cem exemplares e a condição de maldito do autor não auguram leituras alargadas, apesar dos esforços da pequena editora, preparem-se para um profundo e fascinante mergulho no imaginário pessoal de António de Macedo. Medievalismo, esoterismo e fantástico cruzam-se, fluídos, nesta história de uma jovem dama da aristocracia feudal proto-portuguesa apanhada entre as obrigações dinásticas advindas das estratégias senhoriais, as pulsões amorosas do seu coração, e as maquinações de um sombrio feiticeiro que precisa dela como elemento fulcral de um feitiço que lhe abrirá as portas das dimensões mais elevadas.

Sente-se com muita força em Lovesenda a capacidade de Macedo em tornar tangível a sua fortíssima erudição sobre a história portuguesa, neste livro focada numa longínqua idade média onde Portugal ainda estava em formação, e os territórios agrestes das beiras disputados entre senhores feudais cada vez menos fiéis a Leão e emires moçárabes, estragas consumados que sabiam usar a guerra e a paz como arma política. A capacidade narrativa coloca-nos nas praças fortes e aldeias senhoriais, nos casebres do povo, vincando a agrura de paisagens que, se ainda hoje nos parecem duras, o eram muito mais há mil anos atrás. É essa sensação de imersão, profundamente visual e convicente, que perdura desta leitura.

O fantástico em Macedo sempre foi peculiar, misto de história com esoterismo, longe da iconografia expectável do género. Não que não abundem fantasmagorias ou monstros nesta obra (aliás, um dos grandes protagonistas é um fantasma de um homem monstruoso, castigado com o vaguear num limbo, e que irá despertar o verdadeiro amor no coração de Lovesenda, sua viúva num casamento estranhamente consumado), mas o ideário deste autor leva-nos mais para os campos da gnose, dos mitos ocultistas e alquímicos. É esse o cerne da história, com os seus rituais, damas encantadas, saberes tenebrosos, mistérios das brumas e saberes milenares contidos em códices proibidos. Para leitores da sua obra, reconhecemos na figura do feiticeiro Opheltes uma encarnação de Lucyphur, o sábio do romance Sulphira e Lucyphur que é amaldiçoado por se apaixonar por uma sílfide, crime intuído no futuro de Opheltes pela narradora de Lovesenda, uma entidade sobrenatural que relata as circunstâncias da sua interferência no decurso da história, pela qual está a ser julgada no nosso presente.

É pena. É pena que este livro venha a ter um número reduzido de leitores, que a história da sua publicação, com rejeição das grandes casas editoriais, restando a uma pequena mas dinâmica editora de fãs o conseguir, dentro das suas parcas possibilidades, trazer ao prelo. Pergunto-me e quantos manuscritos guardados em gavetas, ou ficheiros de texto arquivados nos discos rígidos, não terão histórias fabulosas deste autor, que nunca chegarão aos leitores graças a esta maldição lançada sobre um realizador que, por ousar fazer diferente, foi eficazmente ostracizado pelos meios culturais nacionais? Perde a cultura, e perdemos nós, leitores, com este esquecimento da ficção fantástica de cunho tão pessoal de António de Macedo.

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