quinta-feira, 2 de março de 2017

Os Vampiros

 
Filipe Melo, Juan Cavia (2016). Os Vampiros. Lisboa: Tinta da China.

Recordo dois textos que li sobre esta nova pedrada no charco que Filipe Melo faz no campo da banda desenhada portuguesa. Um, surgido numa daquelas revistas literárias que se dedicam ao monolitismo da intelectualidade, saudava o autor por ter amadurecido, largando as puerilidades da BD de terror e dedicando-se a um tema verdadeiramente sério. É o tipo de comentário que causa logo erupções alérgicas. A profunda homenagem que Dog Mendonça e Pizzaboy faz ao género fantástico não se esgota em poucas linhas, e esta descredibilização é sintoma daquele mal habitual da intelectualidade nacional que só se revê num estrito espartilho de temas que considera sérios e dignos. Tudo o resto é puerilidade, de vez em quando acolhida com um sorriso condescendente. Outro texto, dividido numa sequência de três crónicas de Pedro Moura no aCalopsia, disseca este livro na sua estrutura. Acho que não tenho muito a contribuir depois de uma análise destas, excepto talvez com as minhas percepções enquanto leitor.

O elogio à seriedade da obra prende-se com o tema que se atreve a defrontar, os traumas da Guerra Colonial (ou, dependendo da etnia de origem, Guerra de Libertação). É um dos grandes temas contemporâneos, visto mais recentemente por esse filme tecnicamente soberbo que é Cartas da Guerra, realizado por Ivo Ferreira. Filipe Melo, no entanto, não se limita a uma história de episódios de guerra. Há fortíssimos elementos de horror na estrutura desta obra, alguns directamente relacionados com o tema, como o terror da guerra ou a violência de que os homens são capazes quando libertos das regras da civilização, outros perfeitamente enquadrados no horror clássico. Há criaturas vampíricas, vislumbradas mas raramente totalmente reveladas, e toda a história culmina numa típica cena de filme de terror com personagens acossados por ameaças letais, cercados numa casa isolada.

Há muitos subtextos nesta obra que tanto se inspira no sobrenatural como na história ou no substrato cultural português. Este grupo de comandos, da unidade Vampiros, destacado para uma missão de reconhecimento que os levará a uma base rebelde no Senegal, silenciada em circunstâncias não explicadas, com o objectivo de marcar coordenadas para um ataque aéreo, vai mergulhando em terrores cada vez mais profundos à medida que penetra na selva. Apesar das alusões à situação política e social do Estado Novo e da guerra, exploradas por Filipe Melo nos diálogos, estes Vampiros são mais Joseph Conrad do que Zeca Afonso. Replica-se aqui a mesma sensação de mergulho progressivo na bestialidade que caracteriza Coração das Trevas. Podemos não ter um Coronel Kurtz, mas temos um Sargento Santos, pacato contabilista que quando se vê na guerra descobre o gosto pelo sangue, e sabe que jamais poderá regressar à tranquilidade de família e emprego. Num paralelo com o filme de Coppola inspirado na obra de Conrad, temos também um soldado como principal protagonista que mergulhou no desespero e alcoolismo, que após perder  mulher e filha num ataque da guerrilha se mantém na guerra por sentir que nada mais o aguarda.

Os Vampiros faz desvios para o género filmes de guerra, acompanhando um grupo de soldados que recupera este tipo de iconografias. Nenhum é herói, mas a proximidade que nos é colocada leva-nos a sentir empatia por eles. O grupo mescla soldados endurecidos pelo combate e outros mais inexperientes, que sob a folhagem espessa da selva depressa perderão a sua inocência e descobrir-se-ão capazes de fazer o impensável. Todos estão condenados. Note-se, no entanto, que numa obra com este tema se foge à tentação de diabolizar os combatentes. Sente-se um profundo respeito por estes, como homens que foram arrastados para uma guerra sem sentido, tornando-se insensíveis e violentos por exposição contínua à angústia do combate.

O lado cinematográfico do livro é sublinhado por um excelente trabalho de enquadramentos, com muitas tiras ilustradas por Cavia a replicar a visão cinemascope dos espaços naturais da selva africana. Como sempre, o traço deste ilustrador acompanha na perfeição o argumento de Filipe Melo.

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