quarta-feira, 19 de abril de 2017

Visões



Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi, 1953)

Pode-se perceber muito sobre um filme pela maneira como se inicia e termina. Contos da Lua Vaga acaba como começa, com o plano final a inverter o inicial. No início, o olhar da câmara passa das montanhas aos campos agrícolas, até se fixar numa casa de aldeia onde a acção do filme vai começar. Termina da mesma forma, finalizando as aventuras dos personagens com um plano que nos leva da casa aos campos, acabando sobre as montanhas. Reforça o efeito circular de um filme cuja história levará os seus personagens ao ponto onde começaram, magoados, mais experientes, acabando por abençoar a humilde existência da qual quiseram fugir. As ambições pagam-se caro, neste filme fantasmagórico.



Tobei, o camponês que sonha ser samurai, tenta de tudo para conseguir juntar-se a um exército de senhor feudal. Lá consegue, depois de muito esforço para adquirir armas e armadura. Após uma batalha em que o general inimigo é decapitado por um dos seus samurai, consegue capturar a cabeça e apresenta-se como o conquistador do rival do senhor a quem presta serviço. Consegue, com esse subterfúgio, tornar-se um senhor da guerra, com direito a cavalo e vassalos. Mas há um preço a pagar por atingir o que sempre almejou. Teve de abandonar a mulher e os seus familiares, tendo esta caído em desgraça. Violada por um grupo de soldados, sobrevive como cortesã num bordel. Tudo o que Tobei queria era impressionar a mulher que ama, mas as suas ações quase a destroem. A verdade vem ao de cima num bordel onde se encontram. Compreendendo finalmente o verdadeiro sentido da sua vida, Tobei resgata a esposa, abandona as armas e regressa à aldeia, preferindo a humildade da vida de camponês. Entre a aventura e o absurdo, a história de Tobei é uma caricatura dos sonhos de glória.
 

 Planos como gravuras japonesas


Já Genjuro, cunhado de Tobei, não quer mais do que enriquecer para poder melhorar a vida da sua família. A guerra, para ele, é uma oportunidade. Lavrador e oleiro, vê nas cidades excitadas pelas movimentações militares bons mercados para as suas peças de olaria. Trabalha, esforça-se, quase cegamente, arriscando a alienação da mulher e filho que adora. Arrisca a sua vida e a dos seus familiares para fazer mais peças, atravessando zonas de combate para conseguir chegar às cidades prósperas. Acaba por cair sob o feitiço de dois espíritos, daqueles que não podemos distinguir como malévolos ou inócuos. Sendo espíritos, são uma má influência, mas tudo o que pretendem é o amor. A velha ama de uma dama japonesa, mortas na queda do seu clã, apenas quer que a sua protegida ame e se sinta mulher. Atraído pelas ilusões, sem perceber que o rico palácio onde julga entrar tem os portões arruinados, Genjuro vive delícias no mundo dos espíritos, como esposo da dama Wakasa. Quase esquece a sua condição e a sua família, mas não há sonho que dure eternidades. A ajuda de um monge budista libertá-lo-á dos espíritos, permitindo-lhe regressar à aldeia, onde irá descobrir que a sua mulher foi morta por soldados esfomeados e apenas lhe resta o filho, da família cuja vida quis melhorar. Um pouco como Ulisses na sua Odisseia, mas o regresso à Ítaca de Genjuro não lhe trará os braços da sua Penélope. Resta-lhe o dom de oleiro, continuará os seus dias lavrando a terra com Tobei, criando as suas magníficas peças de olaria.


As mulheres, pilares de força num mundo violento.


 Num mundo flutuante, sob influência de yurei.

Filme num misto fluído de fantástico, aventura, história, drama e lição de moral (sem ser moralista, os personagens têm de experimentar as aventuras para compreender o que realmente é importante para eles), filmado de forma assombrosa. Os planos oscilam entre o dinamismo que nos coloca nos turbilhões das cidades, ou um bucolismo visual quase de ukiyo-e. Todo o filme é composto de cenas visualmente magistrais. Desenvolvemos empatia para com as mulheres, lutadoras sobreviventes os delírios dos maridos, rimos com as desmedidas aspirações de Tobei, compreendemos o que anima Genjuro, deslumbramo-nos com o mundo espiritual de fantasmagorias onde este mergulhará.

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